1. O Porto acaba o campeonato a golear o segundo classificado, em casa deste, e a aumentar a diferença que o separa dos que o seguem. A confiança tem destas coisas. Há quem diga que os vinte e tal pontos reflectem a diferença de nível entre os dragões e os opositores, mas tal é pura ilusão. Se a conquista do campeonato não sofre contestação, já a diferença pontual só pode reflectir que, sem pressão sobre si e estando os opositores pressionados, uma equipa parece sempre mais superior do que o é, na realidade.
2. O Benfica venceu o Belenenses e assegurou, antes da decisão do caso Meyong, que pelo menos o quarto lugar não lhe foge. Como em vez de se pensar com cautelas a próxima época, já se anda a contratar tudo o que tenha duas pernas, esta é uma classificação que, em futuras temporadas, talvez seja satisfatória.
3. O Sporting venceu o Marítimo, com um golo de matraquilhos. Se a bola tivesse batido em Liedson e não em Romagnoli, aposto que se imaginava logo que aquele lance absolutamente fortuito tinha sido precipitado pela disponibilidade e pela entrega do "Levezinho", que teria feito uso da sua ímpar capacidade de pressão para enervar o defesa madeirense, levando-o a chutar contra si.
4. José Mota foi atropelado por um jogador do Braga, quando se encontrava junto à linha lateral. Ficou com cara de poucos amigos, mas não sei se por causa do acidente, se por a roda da fortuna, esta época, estar em sentido oposto ao da época passada.
5. Manuel Machado foi despedido e o Braga voltou a ganhar. Coincidência?
6. A Naval garantiu a permanência e Delfim, o autor do golo da vitória, foi expulso por uma mão na bola a meio-campo. Este é daqueles casos que, às vezes, merecia que se fechassem os olhos.
7. Na Champions, o Manchester, mais continental do que seria de esperar, mas menos continental do que têm dito, ganhou o direito à final, depois de 180 minutos a defender. O Barcelona, com 90 minutos de grande futebol e alguns bons momentos nos outros 90, acabou por claudicar após um erro individual. A este nível, é verdade, um erro daqueles pode ser fatal, mas não me tentem convencer de que passou a melhor equipa, porque isso não aconteceu. Uma equipa que só defende, por melhor que o faça, não merece nunca ganhar um jogo. Merece-o ainda menos se do outro lado estiver uma equipa que ataque como dever ser. Mas o futebol é assim e lá vamos ter a final inglesa que tantos ceguinhos queriam...
8. No duelo individual entre o melhor do mundo em 2007/2008 e o melhor do mundo em termos absolutos, Ronaldo levou uma cabazada de Messi. Apesar de tudo, o português deverá ganhar o prémio de melhor do mundo, sem contestação, por tudo o que fez de bom esta temporada.
9. O Chelsea mostrou que, nesta altura, é talvez a equipa inglesa com maior frescura física. Depois de vencer o Manchester para o campeonato, conseguiu superar o Liverpool e está na final da Champions. Um final de época absolutamente fantástico, com hipóteses de ganhar algo. O que não é tolerável é que, por causa deste final de época, esqueçam a final da taça da Liga com o Tottenham, bem como o resto da temporada e todos os records que Mourinho bateu em Inglaterra, pondo em cima da mesa idiotices como a comparação entre Grant e o Special One...
10. O Zenit esmagou o Bayern. Memorável!
11. O Rangers eliminou o Panathinaikos, o Werder Bremen, o Sporting e a Fiorentina com uma média de 2 ou 3 remates por jogo. Se os leões não foram muito competentes na forma de atacar o sistema ultra-defensivo dos britânicos, a Fiorentina, só no jogo da segunda mão, criou perto de 20 oportunidades de golo. Não via uma equipa com tanta sorte desde a Grécia de 2004.
12. Esta Fiorentina é só mais um exemplo daquilo que o futebol italiano já não é. O 4º lugar na liga, à frente de Milan e Lazio, por exemplo, assim como a chegada até esta fase da UEFA, denotam bem a qualidade da equipa. O sistema de jogo é o 433, com um só pivot-defensivo. A quantidade de jogadores com características ofensivas é notável: o jogador mais recuado do meio-campo, Liverani, era originariamente um médio de características ofensivas; Jorgensen e Gobbi, os laterais, são de origem médios. Esta é, verdadeiramente, uma equipa italiana virada para o ataque. Fiorentina, Roma, Inter, Juventus e Milan: os primeiros cinco do campeonato italiano já não jogam à italiana. Após a decadência da última década, em que os emblemas mais fortes, encostados ao poderio financeiro, se deixaram embalar e não acompanharam as inovações tácticas, eis que ressurge o futebol transalpino. Neste momento, a Inglaterra está no topo, com os grandes clubes a reinarem na Europa, mas a competitividade do campeonato interno não consegue acompanhar a do campeonato espanhol e a do italiano e essas grandes equipas, munidas dos melhores elementos disponíveis no mercado, descuidam a evolução táctica, fechando-se defensivamente e entregando as iniciativas ofensivas a esses elementos. Estão no mesmo ponto que o futebol italiano no início dos anos 90. É um novo ciclo que se está a iniciar e não prevejo, para o futebol inglês, nada mais nada menos que o mesmo destino que o italiano teve e que o fez, ao fim de décadas de uma herança defensiva, modificar-se radicalmente para poder sobreviver.
13. Em jogo a contar para a primeira jornada da Fase Final do Nacional de Júniores, o Sporting bateu o Benfica por 2-1. O 442 clássico de João Alves foi angustiante, sobretudo pela rigidez a que a equipa esteve sujeita e pela colocação do melhor jogador encarnado, o capitão Miguel Rosa, de origem um médio-ofensivo, o melhor na construção de jogo, no flanco direito. Já o Sporting, apresentou um 433 defeituoso, com rotinas mal trabalhadas e uma defesa assustadora. Diogo Rosado, o melhor dos leões e o único com boas ideias em todo o jogo, foi alvo da estupidez da massa associativa. Tudo começou quando, ao reparar que um colega precisava de assistência, escorregou quando se preparava para chutar a bola para fora. Cordialmente, os jogadores do Benfica seguiram a jogada e empataram o jogo. A partir daí, sempre que tocava na bola, era assobiado e insultado. Apesar de nunca ter virado à cara à luta e de ter sido dos que mais empenho demonstrou, não lhe perdoaram aquele lance, bem como outros em que, mais por erros dos companheiros do que por seus, perdeu a bola. Chegaram a dizer que era o Farnerud dos júniores, com toda a carga negativa que tal associação comporta. Até que ganhou uma falta depois de driblar um adversário junto à linha de fundo. Nessa altura, gostaram. Mas, nessa altura, deviam estar caladinhos. Se por acaso tivesse marcado o golo da vitória, as mesmas pessoas que disseram mal deveriam ser obrigadas a sair do estádio, a não festejar o golo. E não é porque não devem criticar os jogadores da sua equipa; é mesmo porque não perceberam, sequer, que estava a ser o melhor em campo. A estupidez do adepto comum é gritante! Este miúdo estará, nos próximos anos, entre os melhores jogadores portugueses e os adeptos que hoje levantaram a voz para dizer mal dele deveriam pagar imposto para festejar os seus futuros êxitos. Em cima dos 90 minutos, o Sporting colocou-se novamente a ganhar. Ninguém festejou mais do que Diogo Rosado. Terá sentido, certamente, um grande alívio por ter estado ligado ao golo do empate do Benfica, mas não acredito que não tivesse sentido também que, com a vitória, já não seria injustamente acusado das coisas que o acusavam. No fim do jogo, ficou alguns minutos ajoelhado no terreno. No fim de contas, salvara-se da humilhação a que a estultícia do povo, que só vê o que é fácil de ver, o submetera. Fica, contudo, a nota: o adepto comum vai ao estádio para poder fazer o que não faz na rua, para poder insinuar que todos os que não torcem pela sua equipa são filhos de mulheres da vida, para poder ofender aqueles que têm o poder durante aqueles 90 minutos, e pretende, portanto, que a sua equipa mostre, não arte, não ciência, não organização, não boas ideias, mas sangue, suor e lágrimas. Pretende, pois, dos seus jogadores, não ideias, mas empenho. Se uma equipa de futebol fosse uma empresa de construção civil e o adepto comum um empreiteiro, os trabalhadores não construiriam segundo um projecto, mas trabalhariam incessantemente, colocando tijolos em tudo o que era sítio. Não haveria casa, mas ninguém os poderia acusar de não terem trabalhado. Enquanto adepto, o adepto comum, como este empreiteiro, é um incompetente. E, sinceramente, o futebol já merecia adeptos competentes...