quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Clássicos: (Itália 90 - Alemanha vs Argentina)

And now for something completely different...

... proponho assim iniciar uma nova rubrica: os Clássicos da História do Futebol. Porque nunca é de mais relembrar o passado, eis a resenha histórica de alguns jogos que jamais deverão ser esquecidos. Como estreia, proponho a análise detalhada, tanto quanto possível, da final do Mundial de Itália, em 1990, que opôs a mítica Argentina de Maradona, campeã do mundo em 1986, e a fria Alemanha, capitaneada por aquele que, após duas finais perdidas, em 82 e 86, haveria finalmente de tirar a barriga de misérias: Lothar Matthaus.

Quatro anos depois da final do México, Argentina e Alemanha voltariam a degladiar-se na final de um mundial, desta feita em terras que Maradona tão bem conhecia, na sua segunda pátria, a Itália. Por ter eliminado a selecção italiana, Maradona e a Argentina haveriam de jogar esta final sob um coro de assobios. Reunindo o apoio do público e uma mentalidade mais ofensiva que a sua congénere das pampas, a selecção germânica dominou praticamente todo o desafio, à excepção dos últimos vinte minutos da primeira parte, altura em que a formação liderada por Carlos Bilardo conseguiu equilibrar a contenda.

A Alemanha dispôs-se num 442 clássico, com Bodo Ilgner na baliza, Thomas Berthold a defesa-direito e Andreas Brehme, aquele que viria a decidir o mundial, como defesa-esquerdo; os centrais eram Klaus Augenthaler e Jurgen Kohler, apoiados nas tarefas defensivas pelo impetuoso médio-defensivo Guido Buchwald; as restantes posições no meio-campo eram ocupadas por Thomas Hassler à direita, Pierre Littbarski à esquerda e Lothar Matthaus ao meio; na frente, jogavam em cunha Rudi Voeller e Jurgen Klinsmann. O estilo rectilíneo e de transições velozes, o futebol objectivo, centrado na baliza, ajudariam ao domínio da partida. Já a Argentina actuou de forma pouco organizada, retraída, raramente avançando as suas linhas e dando a iniciativa de jogo à formação germânica. Com Maradona, o jogador mais imprevisível, preso a posições demasiado avançadas, a formação sul-americana foi totalmente manietada pelo futebol mais adulto dos europeus. Sem organização táctica, com posições pouco definidas e demasiada leviandade permitida aos seus jogadores do meio-campo, a Argentina nunca teve consistência e as oportunidades junto da sua área foram-se acumulando. A equipa apresentou-se com um esquema de três defesas, mas a anarquia do meio-campo suscitou variações. O guarda-redes era Goycochea, os defesas Oscar Ruggeri, Simón e José Serrizuela; no meio-campo, Troglio incumbiu-se do lado direito, permutando não raras vezes com Sensini, que ocupava o centro com Basualdo; na esquerda, posicionou-se Lorenzo, que desceu muitas vezes para a defesa; Burruchaga era o vagabundo, aparecendo ora no centro, ora na esquerda, ora na direita, equanto Maradona fazia companhia no ataque a Dezotti.

O 352 da Argentina, pouco flexível, e com as linhas demasiado baixas, implicava 8 jogadores atrás da linha da bola. Isto deu a iniciativa de jogo à Alemanha, cujos centrais e Buchwald tinham demasiado espaço para manobrar. A pressão alta dos germânicos também foi eficiente e a Argentina raramente conseguiu sair a jogar com qualidade. O destaque, nas primeiras transições, vai para Basualdo, o mais criterioso e elegante dos médios. Burruchaga andou sempre perdido no campo e, apesar de tecnicamente muito dotado, foi sempre pouco lesto a desembaraçar-se da bola. Maradona, na frente, poucas bolas recebeu, apesar de todo o futebol dos argentinos passar por endossar a bola ao seu capitão. Insistindo em lançamentos longos para Maradona, que se encontrava preso entre os centrais e Buchwald, a Argentina raramente conseguiu chegar perto da baliza de Ilgner. Só a partir dos 25 minutos da primeira parte é que a equipa se soltou e Basualdo, juntamente com um ligeiro recuo de Maradona e a participação mais correcta de Burruchaga nos lances, comandaram as ofensivas. A formação alemã, ainda que menos dominadora neste período, continuou a ter um futebol sério, fiel aos seus princípios tácticos, e a sair para o ataque de forma veloz, maior parte das vezes por iniciativas de Hassler ou de Littbarski. Andreas Brehme integrou-se igualmente bem no ataque e, além de bons lances pela esquerda, apareceu em zona de remate, à entrada da área, várias vezes, causando situações de pânico para os sul-americanos.

A segunda parte foi inteiramente dominada pelos germânicos. Bilardo deixou nas cabines Ruggeri e fez avançar o gigante Monzon. O futebol da Argentina, cada vez mais medíocre, permitiu que a Alemanha dominasse o encontro. A segunda parte começou praticamente com um lance individual de Littbarski, que passou por dois argentinos e, à entrada da área, rematou forte a rasar o poste. Surgiu mais em jogo, neste período, o capitão Matthaus que, apesar de ser o maestro da equipa, raramente tinha comandado os ataques na primeira parte. Embora não construindo muitas oportunidades de golo, os germânicos encostavam cada vez mais os argentinos atrás, até que se deu o lance capital do encontro. Numa entrada completamente absurda, Monzon ceifou Klinsmann e o árbitro não hesitou em expulsá-lo. Com menos um elemento, a Argentina baixou ainda mais e Maradona passou a pisar terrenos mais recuados. Por esta altura, já o meio-campo alemão era um imenso deserto. Num lance em que, mais uma vez, o espaço na zona central do terreno era muito, Matthaus faz um passe a rasgar para Voeller, que cai na área em disputa com Sensini. O árbitro aponta para a marca de grande penalidade, mas equivoca-se. Andreas Brehme marca o único golo da partida e a selecção das pampas, se já não conseguia sair para o ataque com nexo, perde todo o norte. Poucos minutos depois, com o jogo interrompido, Dezotti tenta apressar a devolução da bola ao local de uma falta e puxa Kohler, que escondia a bola. O gesto ostensivo do argentino e a simulação do defesa alemão fizeram com que o árbitro expulsasse mais um jogador sul-americano. Irados, os argentinos rodearam o árbitro, empurrando-o e encostando-lhe a cabeça. Vindo por trás, Maradona pareceu, numa primeira instância, ter a mesma vontade que os seus companheiros, mas conteve-se, abriu os braços, afastou os colegas, dizendo que ele é que iria falar com árbitro, protegendo-o, e recebeu, imagine-se, um cartão amarelo. Até final, a Argentina limitou-se a ver os alemães a trocar a bola e a desperdiçar, pateticamente, duas ou três oportunidades de baliza aberta.

Mais tarde, Maradona viria a dizer que lhe tinham roubado o título. Não sei até que ponto o árbitro agiu ou não de má fé, mas a verdade é que a Alemanha foi claramente beneficiada. Sendo, apesar de tudo, a equipa que mais jogou e que mais fez por ganhar, o penalty é inexistente e a segunda expulsão é um equívoco. Mas, creio, o gesto mais suspeito do árbitro, foi aquele cartão amarelo para Maradona, quando o astro argentino fora o único de entre os sul-americanos que defendera a autoridade do árbitro. Além de tudo isto, Buchwald merecia ter sido expulso, pelo menos, três ou quatro vezes. A entrada dura de Monzon era, claramente, para vermelho, mas Buchwald teve entradas idênticas que nem amarelo lhe valeram e ainda deu uma cotovelada sem bola em Maradona. Apesar de todos estes episódios, a vitória ficou com quem praticou melhor futebol e com quem encarou o jogo de forma mais inteligente.

Depois da análise do jogo em si, queria, à laia de nota de rodapé, fazer referência a alguns factos importantes. Comparando o futebol da final daquele que ficou conhecido como o mundial mais mal jogado de sempre com o futebol actual, são evidentes todas as evoluções que a modalidade teve. Os jogadores, de uma forma geral, são mais refinados a nível técnico, são mais inteligentes, são capazes de solucionar problemas mais difíceis. No fundo, estão mais preparados a todos os níveis e foram modelados segundo uma exigência muito maior. Porque tiveram necessidade de se adaptar a um futebol mais "difícil" (o futebol dos dias de hoje), os jogadores actuais são melhores, em termos comparativos: qualquer jogador de nível mediano hoje seria um grande jogador naquela altura. Ainda assim, há os casos extraordinários. Maradona era um fora-de-série, um jogador incomparável, dotado de uma capacidade técnica inigualável e de uma imaginação poderosíssima. Basualdo e Burruchaga são os outros nomes que me apraz salientar na Argentina daquela época. Mas, os restantes eram jogadores medíocres, visivelmente pior preparados do que os jogadores actuais. Na Alemanha, destaque para a maturidade de todo o conjunto e para a qualidade de Matthaus, cerebral e competente, Hassler, velocíssimo e tecnicamente muito forte, Littbarski, poderoso no um para um, e Brehme, um lateral de índole ofensiva com um remate espantosamente certeiro e potente. Destaque, pela negativa, para Voeller e Klinsmann. Muito disponíveis, a aparecerem muito bem em zonas de finalização, rápidos, móveis, mas pouco inteligentes. Eram jogadores unicamente para finalizar e, mesmo nesse capítulo, sobretudo Klinsmann, era pouco frio. Raramente tabelavam com os colegas, eram tecnicamente muito deficientes e tinham pouca imaginação. De salientar ainda, uma substituição francamente incompreensível: com mais um homem e o jogo ainda empatado, com a Argentina completamente remetida para a sua zona defensiva, Franz Beckenbauer substituiu o lateral-direito Berthold por outro lateral-direito, Reuter. Aquilo é que era correr riscos, naquela altura...

Outra coisa da qual gostaria de falar era da possibilidade de se atrasar a bola para o guarda-redes. Só ao rever um jogo desta altura me pude aperceber que consequências trouxe essa regra. Até aqui, pensei sempre que a principal consequência era a impossibilidade de se queimar tempo atrasando a bola para o guarda-redes, mas houve algo muito mais importante que passou a suceder. A pressão alta, feita nos últimos defesas, só ganhou verdadeira expressão após esta regra. Porquê? Porque antes não tinha a mesma eficácia que agora. Podendo o defesa atrasar a bola para o guarda-redes, pressionar alto era quase inútil, uma vez que os defesas, sentindo-se ameaçados, podiam sempre recorrer ao guarda-redes, enviando-lhe a bola. É também por esta regra que se explica que o "catennacio", que o futebol defensivo tenha perdido eficácia. Defender em bloco baixo, na altura, era quase a solução mais prática, pois não havia muito a ganhar em defender mais alto. Hoje em dia, há essa possibilidade e tudo passou a ser diferente.

Como último reparo, gostaria de deixar claro que, ao contrário do que alguns palermas me quiseram fazer crer, Matthaus não passou os 90 minutos a marcar individualmente Maradona. Quando confrontado com essa hipótese, a minha intuição e a minha memória disseram-me que Matthaus era, à época, o médio organizador da selecção, sendo por isso praticamente impossível que fosse sacrificado para marcar o astro argentino. Não tendo a certeza absoluta desta intuição, concedi a razão a quem, com tantas certezas, alardeava o contrário. Após ver o jogo, percebi que todas essas supostas certezas caíam em saco roto e que Maradona, além de não ter sido marcado em cima por Matthaus, não teve qualquer espécie de marcação especial. O jogador com quem mais se cruzou em campo foi o médio-defensivo Buchwald. Com Matthaus, Maradona apenas se cruzou uma vez, numa altura em que a Argentina jogava com menos um e que, por causa disso, recuara ainda mais, dando-se o lance no meio-campo. Matthaus jogou como médio-ofensivo, nunca pisando os mesmos terrenos que Maradona, mas havia quem mo jurasse a pés juntos. Essa pessoa não possuía, afinal, qualquer razão, o que me faz acreditar que vale mais a minha intuição que as certezas absolutas dela. Tendo em conta que se achou no direito de me mandar calar, crendo-se sabida, acho-me no direito, agora que estou ciente de ter razão, de lhe dizer que consulte um oftalmologista, que faça um transplante cerebral ou que resolva o seu problema de outra maneira mais simples: não dar opiniões sobre futebol, uma vez que não percebe nada disto. Da mesma maneira que não escrevo sobre política nem venho para aqui dizer que o Bacalhau à Lagareiro é bom é com alho picado, há pessoas que não deveriam ter opinião sobre futebol, ainda que muitas delas escrevam em locais conceituados e sujeitem aquilo que escrevem a muitos leitores. Essas pessoas, quais personagens flaubertianas, não têm consciência de que as suas opiniões, ou infundadas, ou erradas, ou pura e simplesmente insignificantes, não têm qualquer tipo de validade, e crêem-se dotadas de uma cultura e de uma inteligência superior à que na verdade possuem. Arrogam-se de poder falar de coisas das quais não percebem e não aceitam argumentos que comprovam a falsidade das suas suposições. Pessoas como essas, que não têm capacidade para entender mais do que vislumbram, que não têm uma capacidade de raciocínio suficientemente apurada para entender coisas ligeiramente mais complicadas, mas que pensam que são capazes de falar de tudo, de ter conversas interessantes e de se tornarem sábias a pouco custo, pessoas cujo mais profundo pensamento é a mais frívola e superficial ideia que se pode ter, pessoas que repetem as opiniões do povo e julgam arvorar a mais original das novidades, que falam aborrecidamente mas julgam interessante o discurso, que se enchem de clichés e advogam ideias que não são suas, que concordam com a chusma que balbucia disparates sem pensarem na coerência daquilo que dizem, pessoas como essas reúnem em si os valores burgueses (a pequenez, a insolência e a mediocridade) com que Gustave Flaubert dotou o filisteu Monsieur Homais...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

22 Curtinhas

1. O Benfica perdeu mais dois pontos. Independentemente do mau jogo, o Benfica foi prejudicadíssimo. Foi anulado um golo legal a Nuno Gomes e o penalty sobre Cardozo até o Ray Charles via. Além disso, aquele lance em que Paulo Costa muda de opinião e, depois de ter dado penalty, diz que é fora, é uma autêntica falta de respeito para com quem gosta de futebol. Não sei se Paulo Costa foi cobarde e quis delegar responsabilidades, aceitando a decisão do seu fiscal porque, caso fosse errada, a culpa não seria sua. Mas sei que ele estava dez vezes mais perto e tomou uma decisão da qual se arrependeu depois. Sei também que o mesmo fiscal que não viu, a 20 metros de si, o Cardozo a ser puxado, viu claramente a 30 metros que Nuno Gomes estava fora-de-jogo e, a 40 metros, que Léo foi empurrado fora da área. E escutas telefónicas, não?

2. Camacho disse uma asneira na sala de imprensa. E então, caralho?

3. Hélder Barbosa vai regressar ao Porto, o que não surpreende. A pergunta que deixo é: caso a Académica não tivesse o jogo com o Sporting nesta altura, Hélder Barbosa ainda estaria em Coimbra?

4. Pavlovic dá pouca porrada, dá...

5. O Sporting fez um jogo relativamente bom, mas empatou graças a um golo nos minutos finais. Aposto que a imprensa e os adeptos dirão que a culpa foi do Pereirinha, do Farnerud e do Rui Patrício.

6. Moutinho fez o seu melhor jogo esta época. Finalmente, divertiu-se a jogar, driblou adversários, teve passes geniais, etc. O que diriam agora aqueles que acham que a sua melhor posição, no losango, é a do vértice ofensivo?

7. Liedson, ao contrário de Nuno Gomes, não falha golos. Aqueles cabeceamento disparatado e aquela bicicleta sem nexo (quando tinha tempo para parar a bola, ir às putas, voltar e marcar) foram só impressão minha.

8. Fary marcou um golo e tentou festejar com o árbitro. Elmano Santos fez cara de mau e não quis partilhar da alegria do senegalês. Racismo ou falta de sentido de humor?

9. O tempo tem estado mau, mas só o relvado do Bessa é que se encontra naquele estado deplorável. Será mania da perseguição da minha parte, ou aquilo é propositado?

10. Delfim ainda encanta. É dos jogadores que mais pena dá todo o azar que teve...

11. Cristiano Ronaldo marcou mais três. Ferguson vai mesmo ao baeta...

12. Alexandre Pato estreou-se no Milan e marcou um golo. Este é craque...

13. Por falar em patos, Nelson deu um valente. Fernando também. E o Estrela e o Leiria perderam. Curioso...

14. O poderosíssimo Braga, de quem se diz que não poderia estar melhor do que com Manuel Machado, levou 4 no Dragão. Foi uma demonstração de força um bocado esquisita.

15. A defesa do Braga existe?

16. Miguelito quer ser campeão à força. Aquela assistência para Bosingwa foi a sua contribuição...

17. Vandinho não quis ficar atrás e ofereceu um a Farias. Depois da oferta de Taborda a semana passada, eis mais duas. Como é que se traduz Calciocaos?

18. Manuel Machado tem no plantel dois defesas esquerdos melhores que Miguelito (Carlos Fernandes e César Peixoto) mas pôs a jogar o ex-benfiquista. Não é Deus quem costuma escrever direito por linhas tortas?

19. É um crime o austríaco Linz ainda não estar num clube com outros pergaminhos.

20. Grande Lisandro!

21. Leandro Lima parece estar de saída para a Académica. Viva a estupidez!

22. Creio que o campeonato está, definitivamente, entregue.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A tentativa de assassínio de Pereirinha pelo cobarde Paulo Bento

Primeiro ponto: Paulo Bento é, quanto a mim, dos melhores treinadores da Liga Portuguesa. Todavia, este facto não impede que se traga a lume alguns erros cometidos por Bento. E a maneira como ele tem conduzido o processo de integração de Pereirinha no plantel sportinguista é, no mínimo, catastrófica.

Vi este puto pela primeira vez num Sporting-Porto, em júniores. Entrou a 15/20 minutos do fim. Mostrou argumentos fantásticos, nesses escassos minutos, apesar da minha grande curiosidade estar virada para a "mega-estrela" leonina Fábio Paim. Tive a oportunidade de comprovar todos os predicados contra o Boavista, no último jogo da fase final, e fiquei com a convicção que estava na presença de um talento que no espaço de 1/2 anos daria cartas no mundo do futebol. Na altura, para além do seu poder de decisão e qualidades técnico/tácticas, houve um factor que me impressionou bastante e que eu estava longe de pensar que, mais tarde, seria prejudicial para a sua carreira: a sua maneira de estar; a forma tranquila e adulta que apresentava dentro de campo. Não refilava com árbitos, não resmungava após entradas mais violentas dos adversários, nada. Para ele, apenas lhe interessava o jogo, a sua atenção não se desviava um minuto das circunstâncias e objectivos do jogo.

Uns meses antes, na véspera de um Sporting de Braga- Sporting Clube de Portugal, tinha lido num jornal desportivo responsáveis de selecções nacionais a comentar as qualidades deste miúdo. E, na altura, alertaram para o facto de, apesar de ser um jogador de grande qualidade, era um indivíduo extremamente tímido, o que poderia fazer com que a sua ascensão, no futebol sénior, não fosse consentânea com o seu talento. Quando esse jogo terminou (o clube de alvalade perdeu 3-2 ) ignorava o tamanho erro que Paulo Bento havia cometido, ou melhor, o duplo erro, ao não ter convocado para esse jogo Diogo Tavares, e, por outro lado, por ter optado pelo David Caiado para o assalto final, recuando na opção inicial de fazer entrar Pereirinha. Só depois de avaliar a qualidade destes 4 júniores é que me apercebi da "gaffe" cometida por Paulo Bento.

Na época seguinte, e após grande insistência do treinador do Olivais e Moscavide, Rui Dias, Pereirinha seguiu para o Clube recém-promovido à Liga de Honra. Observei-o o tempo suficiente para compreender que as minhas suspeitas estavam certas: este era, indiscutivelmente, um grande talento. Por isso, quando foi resgatado pelo clube de Alvalade em Janeiro, a minha surpresa foi ver a dificuldade que Paulo Bento teve em apostar nele de forma clara e decidida.

Em entrevista à revista " Futebolista", o presidente do Olivais e Moscavide, José Caldeira, refere-se a este atleta, alertando para o facto do resgate precoce deste jogador ter contribuído de forma clara para um "entrave" à sua evolução. Não para revelar qualidades desconhecidas, como o presidente afirma ter sucedido com Miguel Veloso, mas para se impor, para ganhar confiança nas suas qualidades.

Na quarta-feira passada, pensava que finalmente Pereirinha ia "explodir". Porém, e sem perceber o porquê desta atitude de Bento, o puto saiu pouco depois dos trinta minutos. Até esse momento, estava a ser o melhor elemento sportinguista. Não se escondeu do jogo, tabelou, fintou, recuperou bolas, tudo com mais sucesso que os seus colegas.

Não sei até que ponto Pereirinha se vai deixar afectar por esta situação, mas o que mais me incomoda é que Paulo Bento não parece entender porque é que este miúdo, que raramente vai às selecções do seu escalão, jogando regularmente num escalão acima da sua idade, é um dos melhores da sua geração. Não é só por ser muito forte no um para um, ou pela velocidade, mas sim pela inteligência e pelo poder decisão, que lhe permitem optar, em 90% dos casos, no mínimo, pelo melhor para equipa, mesmo que isso lhe retire visibilidade.

E, isto sim, isto é que os sportinguista devem recear: a negligência que tem sido demonstrada por Bento, na condução deste talento. Para bem das "hostes" leoninas, era bom que terminasse já, contra a Académica de Coimbra.

Tragédia Grega... e não só.

Qual a responsabilidade de um capitão de equipa? Decerto que não se esgota na escolha de bola ou campo. Mais do que uma extensão do treinador, deve ser um ponto aglutinador do grupo. Não vou na teoria de que são eles que têm a obrigação de puxar pela equipa no momentos difíceis, mas sim que deverá partir deles o primeiro passo para serenar os ânimos. No entanto, há jogadores que, pela sua personalidade, conseguem com a sua atitude empolgar os restantes companheiros. Jorge Costa era um exemplo claro dessa força interior. A maneira "espalhafatosa" como manifestava o seu querer, por vezes, levava-o a cometer alguns excessos, mas na hora de pesar os prós e os contras da sua maneira de ser, braçadeiras arremessadas à parte, o saldo era positivo. Portanto, não defendo que haja um modelo ideal de capitão de equipa, mas que há certos deveres e responsabilidades que não podem ser esquecidos na hora de escolher o homem para esta honra. Espírito de liderança, repito, e uma atitude exemplar perante o grupo que capitaneia.

Ora, não podemos exigir aos nossos "pares" aquilo que não podemos oferecer. No caso do central benfiquista, Luisão, este facto salta à vista. O brasileiro será, do presente plantel, o jogador que mais quezílias promoveu no seio benfiquista. Desde Karagounis, passando por Marcel, não esquecendo um acesso de fúria, totalmente despropositado, para com Rui Nereu, num jogo contra o Belenenses, e agora envolveu-se com Katso. Não digo que o grego está isento de culpas, mas a verdade é que a surpresa não veio do facto do Luisão se envolver numa situação destas, mas sim pelo facto do pacato grego ter "perdido" a cabeça. Mas a verdade é que o raspanete de Luisão, para além de injusto, foi totalmente despropositado. Mesmo que ele o tivesse dado ao principal culpado pela má definição daquele lance, Petit, nada justificava o aparato da sua chamada de atenção.

Neste lance, não só se tornou visível a inadequação de Luisão para este tipo de funções - pois se Katso não tem o direito de reagir daquela forma a um exagero de um colega, Luisão, na condição de capitão, tinha a responsabilidade de serenar os ânimos e não crescer, face à "cólera" demonstrada pelo grego - como a má gestão da direcção do Benfica. Luisão teve uma penalização mais "leve" por ser capitão? Como? Então o facto de ser capitão serve para, de alguma forma, beneficiar de imunidade? Como é que é possível que um elemento que tem mais responsabilidades dentro de um grupo tenha um tipo de tratamento mais "brando"? Um jogador, por beneficiar do estatuto de capitão de equipa, terá sempre de assumir mais responsabilidades e as respectivas consequências das mesmas perante o grupo, numa situação de indisciplina.

Não só esta atitude torna o clube da Luz mais fraco do ponto de vista desportivo, ao afastar um dos seus melhores jogadores, como a diferença injustificada que se fez sentir na maneira como lidaram com os diferentes jogadores poderá ter uma influência negativa no grupo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O Boavista de Pacheco: aquilo que uma equipa NÃO deve ser...

É absolutamente patético ouvir Jaime Pacheco falar da sua estratégia convencido de que realizou um grande feito. Ganhou ao Sporting com um futebol medíocre, com uma estratégia errada e que denota a sua pequenez, mas acha que foi um justo vencedor. Justo? Porquê? Porque ganhou? É verdade que o Sporting realizou um jogo fraco, mas não merecia perder, muito menos para uma equipa que defendeu sempre atrás da linha da bola, que criou uma ou duas oportunidades de golo ao longo de todo o jogo. Jaime Pacheco acha que não e orgulha-se de a sua estratégia ter resultado. E que estratégia era essa, afinal? Nada mais, nada menos, do que tentar neutralizar Miguel Veloso. Medo...

Vamos por partes. A título individual, esta equipa do Boavista não é só modesta; vai bem além disso. Zé Kalanga, Mateus e Fary formam, provavelmente, o pior trio atacante da Liga. É caso para perguntar: onde andam Ivan Santos e Hugo Monteiro? O meio-campo é fraquíssimo, não tem um pingo de criatividade e não abunda em massa cinzenta. Diakité é um tipo grande, de cor, que é capaz de assustar e talvez de cheirar mal, mas de bola é fraquinho. É capaz de ser bom para uma distrital, mas mais do que isso não. Fleurival é mau. Jorge Ribeiro não é médio. A defesa é o sector menos mau desta equipa. Ricardo Silva não evoluiu enquanto jogador: continua forte, pesado e lento de rins. Mas é um defesa concentrado e forte nos lances de bola parada. Marcelão, o outro central, parece-me ser do mesmo tipo: é grande, marca em cima e, pelo ar, é quase tudo dele. Os laterais, dois miúdos, parecem-me razoáveis. Gilberto, o lateral direito, já conhecia. Tinha ficado com melhor impressão dele, pois parecia ter bons princípios de jogo, quando actuava pela equipa de júniores. Agora, treinado por Pacheco, talvez se tenha deixado influenciar pela filosofia do treinador: é duro, impetuoso e não perde muito tempo a pensar, como o fazia tão bem antigamente. O guarda-redes fez uma boa exibição, mas não sei o que valerá na realidade. Ou seja, individualmente, esta equipa é talvez a mais fraca de sempre do Boavista. Aliás, de uma equipa em que a vedeta é um defesa esquerdo de qualidade mediana a jogar como médio mais ofensivo, pouco há a dizer.

As equipas podem, se bem estruturadas colectivamente, suprir as deficiências individuais que os orçamentos reduzidos ou os azares lhes impõem. Veja-se o caso do Vitória de Setúbal e de Carlos Carvalhal. Mas uma equipa que individualmente seja fraca e que, colectivamente, seja um desastre, está condenada ao fracasso. O Boavista de Pacheco joga num 433 bem definido. Até aqui, nada a apontar. O problema raramente se prende apenas com o desenho táctico; muito mais importante é a dinâmica de jogo, a filosofia, etc. O Boavista de Pacheco joga, não raro, em função dos outros. Em primeiro lugar, não existe essa treta de marcação à zona. Nada disso! Isso são modernices a mais. O Boavista faz marcação homem a homem. E não são só os elementos mais recuados que o fazem: todos os onze jogadores têm, por tarefa defensiva, acompanhar o adversário que lhes compete para onde quer que este vá. Diakité, supostamente o médio mais defensivo, passou o jogo inteiro a cair nas faixas. A fazer o quê? A marcar Liedson. A Fary ficou entregue não a posição de ponta-de-lança, mas o sacrifício de andar atrás de Miguel Veloso. Ou seja, o Boavista jogou sem avançado para evitar que o Sporting jogasse. A minha pergunta é: Uma equipa que, para evitar que o adversário jogue, abdica de cada um dos seus jogadores, tem legitimidade para acreditar que pode ganhar um jogo? Para Jaime Pacheco, é mais importante que o adversário não jogue do que a sua equipa o faça. Se, por milagre, conseguir marcar um golo, muito bem. Mas isso, para Pacheco, não é importante. Com que moral pretende que os adeptos gastem dinheiro e se entusiasmem com o seu Boavista?

Além do sistema de marcação homem a homem, a filosofia de jogo do Boavista é de contra-ataque. Com o jogo em 1-0 para os axadrezados, vi Jaime Pacheco a pedir que os seus jogadores bombeassem bolas para a frente. E segurá-la, não? Trocar paulatinamente a bola entre os seus jogadores, para baixar o ritmo de jogo, para conservar a posse de bola, também não? Jogam os onze homens atrás da linha da bola, enfiados no seu meio-campo, cada um entregue a um adversário, e, quando recuperam a bola, tentam lançar os três homens da frente rapidamente; isto quer estejam a perder, quer estejam a ganhar. Uma equipa que jogue assim tem de ter três homens muito bons a nível individual na frente, coisa que não tem. Este Boavista não tem princípios de jogo. E não os tem porque Jaime Pacheco nem sabe o que isso é. Para ele, atacar é pontapear a bola para as costas da defesa e esperar que os seus avançados sejam mais rápidos que os defesas adversários.

Na zona de entrevistas rápidas, Jaime Pacheco vinha a ferver em orgulho. Disse que a sua estratégia fora anular Miguel Veloso, que era por onde passava, segundo ele, todo o jogo do Sporting, e que essa estratégia resultara em pleno e que, por causa dela, vencera o jogo. Devo dizer que Jaime Pacheco nem percebe por que é que ganha jogos. Sacrificar uma peça para evitar que outra jogue traz sempre maus resultados. Pode conseguir o que pretende, mas abre sempre espaços que não deveria abrir. Se o Sporting tivesse sabido aproveitar sobretudo o facto de Diakité raramente estar na zona central do terreno, uma vez que ia para onde Liedson ia, Jaime Pacheco estaria a esta hora a coçar a cabeça, sem saber o que tinha falhado. Mas, como ganhou, pensa que o deve à brilhante ideia de marcar homem a homem os jogadores do Sporting. Nada mais errado. Ganhou porque concretizou um lance de bola parada. Só isso. Se esse lance não tem acontecido, não sei se aguentaria o empate por muito mais tempo. E isto sem o Sporting estar a jogar bem. Se a nível individual o Boavista não tem, quanto a mim, qualidade para a primeira Liga, custa-me a acreditar que, a nível colectivo, haja equipas tão fracas como a de Jaime Pacheco na Liga Vitalis. A mentalidade não é só de equipa pequena; é de equipa de distrital. Interessa a Pacheco, essencialmente, anular o adversário. Se o conseguir, é o homem mais feliz do mundo e julga-se sábio. Não o é, nem uma coisa nem outra. Quer dizer, talvez seja feliz, porque nem tem inteligência para perceber que não o é. Mas como, de vez em quando, mais por demérito do adversário do que por mérito seu, consegue não sofrer golos jogando assim, vai conquistando uns pontitos. E, apesar de ser dos piores treinadores de que me lembro, talvez até consiga permanecer uma vez mais na Primeira Liga.

P.S. Há quem diga que Deus goza com os seres humanos. Se isso é verdade, o seu maior número cómico foi, sem dúvida, ter feito o Boavista de Jaime Pacheco campeão nacional...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Prémios

Passada esta época festiva, apetece-me falar de treinadores, em particular dos da Primeira Liga, e do seu desempenho.

1. Jesualdo tem tido a vida facilitada. Mérito seu? Não creio. No Porto, o difícil é não parecer bom. Domina o campeonato, mas não parece muito seguro quando tem de substituir as suas pedras bases. Gostei particularmente da forma como arrumou com Leandro Lima. Professor? Um professor deve, em primeiro lugar, ser um educador. Desperdiçar o talento do brasileiro já era absurdo; fazer dele um bode expiatório para se eximir de todas as culpas é mesquinhez. Depois, o conjunto parece só saber jogar de uma forma. Quando tem de se acomodar às diferentes circunstâncias do jogo, não se mostra uma equipa capaz. Merece o prémio "Cá estamos".

2. Camacho tem coisas boas, mais ou menos as mesmas que Scolari. Sabe incentivar os jogadores, sabe seduzir os adeptos, mas não sabe mais nada. O seu prazo de validade já expirou há muito tempo. Dos métodos obsoletos à mania dos dois médios-defensivos que arrumem a casa, demonstra a cada jornada a total falta de evolução das suas ideias. Além de não perceber a importância de um jogador como Nuno Assis, de não ver que Coentrão merecia mais oportunidades, de teimar em Binya, não sabe jogar de outra forma que não no seu 4231. Mais gritante é a forma como interpreta o jogo e as substituições que executa: esteja a perder, esteja a ganhar, é troca por troca. Não arrisca nada e espera sempre pela inspiração dos seus jogadores. Perante um resultado negativo, queixa-se sempre da falta de concretização ou da falta de vontade, mas ainda não percebeu que isso são as únicas coisas que vão bem no reino da Luz. Merece o prémio "Espantalho".

3. Paulo Bento é, confesso, o treinador que mais aprecio neste campeonato, mas tem tido alguns erros comprometedores. O seu punho de ferro já se revelou proveitoso (o último caso, com Liedson, é sintoma disso mesmo, uma vez que o brasileiro parece outro jogador depois da suspensão), mas parece demorar muito a decidir usá-lo. Miguel Veloso merecia, como Liedson, uma repreensão parecida: nos últimos jogos, parece ter-lhe subido à cabeça a forma célere como ganhou projecção no futebol europeu e não rende tanto como deveria, parecendo desconcentrado e pouco humilde. Adrien é bom jogador, mas Paulo Bento, antes de todos os outros, deveria pôr um travão na euforia em volta dele: nas poucas vezes que jogou, Adrien nem esteve ao nível a que se pode exibir. Pereirinha já mostrou que podem contar com ele, mas Paulo Bento continua sem lhe dar uma oportunidade a sério. Da maior parte das vezes, tem coragem para arriscar, mas há outras ocasiões em que se acobarda sem necessidade. Em termos tácticos, o Sporting deste ano, muitas vezes, abre em demasia o losango: resulta daqui um futebol menos elaborado e, consequentemente, menos eficaz. É, para mim, a causa principal do recente insucesso da equipa, assim como o mau sector ofensivo da equipa. Aplausos, contudo, para a aposta incondicional em Rui Patrício e para a forma como defendeu Farnerud, ainda que a melhor forma de fazê-lo fosse pô-lo a jogar. Merece o prémio "Ainda vou lá... tranquilamente".

4. Cajuda é, mais do que competente, um treinador ambicioso. Em equipas ditas pequenas, não se acobarda e não constrói a equipa em função de orçamentos reduzidos. Com os grandes, joga olhos nos olhos. Talvez não faça tantos pontos contra equipas superiores quanto os treinadores ultra-defensivos. Acontece, porém, que só há três equipas grandes em Portugal e quinze pequenas. Gosto de um treinador que jogue sempre da mesma forma, quer seja contra o Porto, quer seja contra o Leiria. A equipa vitoriana joga sempre para a frente, troca bem a bola, está bem organizada e merece ser, para já, a primeira dos pequenos. Merece o prémio "Até de muletas".

5. O Vitória de Setúbal é a grande revelação desta época? Não, para quem conhece Carlos Carvalhal. Os clubes por onde passou beneficiaram sempre muito com a sua presença. Em Setúbal, está a fazer um trabalho impecável, recuperando um dos históricos do futebol português. Com um plantel limitado, tem mantido um nível exibicional regular e muita consistência em termos de resultados, só tendo perdido com o Porto. A falta de criatividade do seu meio-campo é compensada com a excelente e constante movimentação do mesmo. Tacticamente, há poucos treinadores tão evoluídos quanto ele; os métodos são dos mais modernos e dos mais eficazes. É, de todos os treinadores da Liga, aquele a quem auguro a maior ascensão em termos de carreira. Merece o prémio "Bem haja".

6. Manuel Machado é muito apreciado em Portugal. Sou dos que não o fazem. Costumo ignorar por completo os resultados obtidos e tomar atenção apenas à forma de jogar das equipas. Como tal, não posso gostar do futebol das equipas de Manuel Machado. O futebol de Manuel Machado está demasiado preso a conceitos defensivos e as suas equipas raramente comandam os desafios. Apresenta sempre dois médios-defensivos e um meio-campo pouco imaginativo, muito mais trabalhado para recuperar e lançar rapidamente os ataques. Organiza bem a equipa atrás, mas não sabe incutir um espírito ofensivo aos seus jogadores. O óptimo trabalho no Moreirense e os bons resultados com o Guimarães e o Nacional não implica que seja bom. Se em Moreira de Cónegos teve o mérito de subir a equipa por duas vezes seguidas, em Guimarães não fez mais do que lhe competia, levando um plantel de luxo ao 5º lugar. Já na Madeira, ainda que beneficiando de um orçamento chorudo, conseguiu igualmente o 5º lugar, feito um pouco mais que o razoável. Na Académica, acabou por claudicar, ficando à beira da descida e com argumentos para fazer melhor: foi a prova de que, sem um plantel individualmente forte, capaz de suprir ofensivamente as deficiências tácticas do treinador, sem os jogadores com quem andou às costas desde sempre (coisa importantíssima, pois os jogadores, quanto há mais tempo trabalharem com o treinador, melhor sabem respeitar os desígnios dele), não é capaz de oferecer nada. No Braga, não fará, provavelmente, um mau trabalho: a excelência dos elementos ofensivos mascarará a pouca argúcia ofensiva do treinador, enquanto que, defensivamente, saberá impor os seus conhecimentos. Não acredito, contudo, que o Braga dele possa ir mais longe do que foi nos últimos anos; não acredito que consiga o 4º lugar confortavelmente, coisa que, com um plantel daqueles, seria da sua competência. O Braga até pode acabar em 4º, mas duvido que o consiga com tranquilidade. Duvido também que chegue a importunar os três grandes, coisa que, com um plantel como aquele, tinha obrigação de fazer. Não é dos treinadores mais incompetentes em Portugal; é até um bom treinador para uma equipa de segunda linha. Mas para uma equipa ambiciosa como o Braga, não acho que chegue. Merece o prémio "Não sou assim tão bom".

7. Lazaroni é, pelo que foi dado a entender até agora, um treinador de mentalidade ofensiva. O excelente plantel do Marítimo também ajuda, é verdade, mas o facto de não se encolher perante os adversários é, para mim, motivo de apreço. Apesar dos muitos brasileiros do plantel, é nos reforços portugueses que a equipa está a ir buscar a força: Ricardo Esteves, Bruno, Fábio Felício e Makukula têm uma mentalidade europeia que, aliada à irreverência de alguns brasileiros de qualidade, como Marcinho, Kanu e Olberdam, confere competitividade à equipa. Lazaroni não é o típico treinador brasileiro em Portugal; a sua equipa tem mecanismos, não vive só das individualidades. E, para isso, muito tem contribuído a experiência de certos jogadores. Merece o prémio "Muitos brasileiros não".

8. Jorge Jesus tem feito um excelente trabalho no Belenenses. A final da Taça e o 5º lugar da época transacta reflectem isso mesmo. Assenta o seu modelo de jogo num 442 losango, pouco apreciado por quem não percebe muito de futebol, e tenta controlar as operações do princípio ao fim do jogo. Se é verdade que perdeu o defesa Nivaldo e os avançados Dady (a grande revelação da equipa na época anterior) e o panamiano Garcés, tendo que remodelar toda a frente de ataque, conseguiu no entanto o concurso de jogadores de qualidade como Devic, Hugo Alcântara, Gomez, Hugo Leal, Roncatto, Weldon e Mendonça. O plantel é forte e pensado para jogar de forma ofensiva, coisa que a equipa vai fazendo. Na minha opinião, o actual oitavo lugar não é condizente com a qualidade da equipa e com a qualidade do futebol da mesma. Penso que, com um pouco mais de sorte, estaria ligeiramente acima. Acredito, contudo, que terá uma palavra a dizer, no final, na disputa por um lugar europeu. Merece o prémio "Carácter".

9. Jokanovic é ainda novo nestas andanças. Para já, o seu Nacional não parece tão forte quanto o Nacional dos últimos anos. O plantel é bom e o investimento foi forte: alguns jogadores como Fellype Gabriel ou Lipatin têm até classe a mais para uma equipa da segunda metade da tabela. Conta ainda com o melhor guarda-redes da Liga, se exceptuarmos os guarda-redes dos três grandes, e com alguns jogadores de boa categoria. O trabalho tem sido, contudo, extremamente irregular e não se augura muito mais que o 9º lugar que, para já, ocupa. Merece o prémio "Talvez um dia".

10. Ulisses Morais é o típico treinador português ultrapassado. Não será tão parco de ideias como um Mário Reis ou um Luís Campos, mas é um treinador pouco ambicioso. Não conheço a fundo o seu trabalho, mas não costumo gostar do futebol pouco pensado das suas equipas. A Naval deu-se ao luxo de dispensar Francisco Chaló, que tinha posto a equipa a jogar um futebol agradável, e foi buscar um treinador que se baseia na disciplina defensiva, no rigor das marcações, etc. É sintoma de que, para muitos emblemas, o importante é conquistar pontos e não praticar futebol. Esquecem-se, porém, que a melhor forma de adquirir a primeira é fazendo bem a segunda. Merece o prémio "Não me convence".

11. Carlos Brito é um treinador mais moderno. Não lhe apraz apenas a consistência defensiva e parece-me que dá a mesma importância aos processos ofensivos. Não creio que seja treinador para conseguir muito mais do que já conseguiu, para treinar emblemas mais ambiciosos, mas é óptimo para uma equipa da Primeira Liga que não queira apenas a permanência. Colocá-lo-ia ao nível de Manuel Machado, com a diferença de que para Brito o futebol não é só organização defensiva. É um treinador competente e não vejo o Leixões, ainda que com um plantel modesto, a ter problemas para permanecer entre os grandes. Merece o prémio "Consistência".

12. Quando Domingos Paciência apareceu a treinar o Leiria, gostei do que vi. Pareceu-me ser tão inteligente enquanto treinador quanto o foi enquanto jogador. Gostei da forma desinibida da sua equipa actuar e era dos treinadores que mais apreciava a época passada. Talvez vítima da pouca qualidade dos treinadores da Liga, julgo ter sobrestimado o valor de Domingos. Saiu de Leiria por questões não-desportivas e chegou à Académica para dar nova alma à briosa. Não duvidei, na altura, que fosse suficientemente competente para o fazer. O plantel dos estudantes não é propriamente forte, por isso não esperei que conseguisse ser bem sucedido de imediato. Esperava, no entanto, que emprestasse ao jogo da equipa uma mentalidade mais forte. A Académica que vi jogar esta época é uma equipa amedrontada, que só sai para o ataque uma ou outra vez em cada 45 minutos. Como agravante, Hélder Barbosa, o mais talentoso jogador do plantel, nem sequer foi opção durante grande parte do tempo. Domingos não confiou nos modelos que usou em Leiria e preferiu sempre um meio-campo musculado e experiente, deixando de fora a imaginação e a fantasia. Merece o prémio "Judas".

13. Daúto Faquirá é dos treinadores mais bem-educados da Liga. Moderado nos comentários, comedido e ponderado, revela uma inteligência e uma forma de estar no futebol diferente do que é habitual. É uma pessoa culta e com mais instrução do que maior parte dos treinadores portugueses. Essas virtudes têm valido ao Estrela uma regularidade impressionante. Aposta num 442 losango, sobretudo a pensar na ocupação da zona central do terreno. O Estrela de Faquirá é uma equipa sempre bem organizada em campo, mas à qual falta muitíssima imaginação. Vive de lances de bola parada ou do desembaraço individual de alguns dos seus jogadores. Para uma equipa pequena, cujo único interesse seja a permanência, Faquirá é bom. Para mais do que isso, até ver, não creio. Merece o prémio "Elegância".

14. Jaime Pacheco não tem sequer qualidade para treinar nas distritais. A sua mentalidade tacanha, a insolência com que fala e pensa perceber de futebol chegam a ser patéticas. Ainda não compreendeu que o futebol é um desporto de zonas e que defender homem a homem é das coisas mais estúpidas que pode haver. Ainda não percebeu que uma equipa que jogue em função do adversário não pode nunca ser uma equipa ambiciosa. Ainda não percebeu que a entrega, que o suor, que o esforço não são mais importantes que a qualidade e que a inteligência. Ainda não percebeu que foi campeão porque calhou. Ainda não percebeu que não tem neurónios para exercer um cargo que exija pensar. Ainda não percebeu que está a mais no futebol. E continua a mandar bitaites, a insinuar que é bom, a comparar-se a Mourinho, etc. Merece o prémio "O Futebol estava bem melhor sem mim".

15. José Mota é, a par de Pacheco, o pior treinador desta Liga. O Paços de Ferreira é uma equipa que aposta nos erros dos adversários. Fecha-se o mais possível atrás, com três médios de características unicamente defensivas, e lança três jogadores rápidos na frente. Dá a iniciativa do jogo ao adversário e tenta explorar os espaços que, depois, este concede. O problema de uma estratégia assim é que está sempre dependente de duas coisas: dos erros dos adversários e da inspiração dos jogadores da frente. Ou seja, colectivamente, a equipa é nula. Tanto pode conseguir uma boa época, como o ano passado, como pode descer de divisão, cenário plausível esta temporada. Com um plantel praticamente igual ao do ano anterior, não se explica tamanha diferença nos resultados. Queixam-se, aqueles que defendem a qualidade de José Mota, que o plantel sofreu duros golpes. Assim não é. Sairam Antunes e Geraldo, titulares indiscutíveis da defesa, é verdade. Também sairam Ronny e João Paulo, dois dos avançados mais utilizados. Mas a equipa tem alternativas válidas. Já no meio-campo, as saídas de Elias e Paulo Sousa foram colmatadas com entradas importantes de Filipe Anunciação e Wesley. O plantel não está, ao contrário do que foi dito, mais fraco. Nem sequer mudou significativamente. Dos onze titulares da época passada, pelo menos 6 mantiveram-se. Não há que encontrar explicações onde elas não existem: o futebol de José Mota tanto pode dar para ir à UEFA como para descer de divisão. Merece o prémio "Eu não sei o que faço".

16. Vítor Oliveira chegou a Leiria numa má altura. Não lhe reconheço qualidades extraordinárias nem sequer estou a par, em rigor, dos seus anteriores trabalhos. Do pouco que conheço, considero-o um homem com alguma experiência, mas que evoluiu pouco em termos de métodos e de mentalidade. Não é treinador para equipas com ambições, mas talvez seja treinador para equipas em apuros. A ver vamos como o Leiria se porta com ele. Merece o prémio "Nem ai nem ui".

Feita esta análise, devo dizer que tenho saudades de Quinito, Peseiro, Vítor Pontes, Co Adriaanse, etc. Seria tudo muito mais interessante se alguns destes estivessem nos lugares de outros como José Mota, Jaime Pacheco ou Ulisses Morais. Mas assim não é e é este o futebol que temos...

domingo, 30 de dezembro de 2007

Certezas (9)

Não compreendo como é possível deixar escapar entre os dedos tantos jogadores talentosos. Este é mais um exemplo claro da cegueira dos treinadores e dos adeptos portugueses. Joga preferencialmente encostado a uma linha, para aí poder usufruir da liberdade que a sua fantasia necessita. É irreverente, procura com frequência o drible, sendo muitas vezes bem sucedido, e é um quebra-cabeças para qualquer opositor. Faz-me lembrar, e muito, o estilo de Quaresma: gosta de humilhar o adversário, de se divertir com a bola, de entusiasmar o público. E junta a tudo isto uma atitude competitiva invejável. Não haverá, para além de Portugal, outro país no mundo em que se produza tantos extremos de qualidade. Creio que este é mais um desses casos e, se bem acompanhado, poderá vir a dar cartas num futuro próximo. Para já, parece não ter convencido aqueles que o acompanham, embora seja claramente melhor que outros. Não cresceu, como os grandes nomes da sua posição (Ronaldo, Quaresma, Simão e Nani) nas escolas do Sporting, mas penso que possui um potencial semelhante. Ao contrário de alguns jogadores que agora surgem e dos quais se fala em demasia, este rapaz não tem por virtude apenas uma boa relação com a bola. Acrescenta à capacidade técnica uma facilidade incrível no um para um, coisa que esses pseudo-talentosos não possuem em quantidades assinaláveis. O seu pé esquerdo pode, num futuro próximo, vir a ser referência entre os grandes de Portugal; creio até que já teria, neste momento, lugar no plantel do clube ao qual pertence. Passou quase todo o ano anterior lesionado e não pôde confirmar o seu valor. Este ano, além de ser esquecido no banco da equipa de sub-21, chegou mesmo a ver imitada a infâmia no clube que representa. Só nos últimos jogos tem sido opção constante, para gáudio dos admiradores de arte e para felicidade de quem torce pelo clube cujas cores defende. Sem querer parecer repetitivo, mas já o sendo, ser-me-á difícil aceitar que Hélder Barbosa não triunfe no futebol português e que outros desta geração o façam.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Ronaldo: o porquê de não ser o melhor do mundo

Como bons portugueses que somos, estamos historicamente habituados a ser do contra: seja a lutar contra causas nobres, contra a dinastia filipina ou contra o salazarismo e a opressão do regime, seja por pura teimosia, contra a independência das colónias ou contra tudo o que é inovador e que vem mexer com os nossos "brandos costumes". Este carácter de guerrilha que se apodera da população geral atinge todas as áreas. Somos, neste sentido, demasiado bairristas, demasiado agarrados ao que é nosso. Se por um lado isso é uma demonstração de força, de união, de nacionalismo, de espírito de luta, por outro impede de ver as coisas de forma mais sensata. Destituídos de razão, achamos que somos desvalorizados pelo resto do mundo. Admito que haja nações com mais força que outras, que soframos certas injustiças por não termos o mesmo peso que outros países têm, mas há, da nossa parte, um exagero tremendo em considerar que nos perseguem até à exaustão. No futebol, como em tudo em geral, temos tendência para achar que muitos dos nossos insucessos se explicam pelo pouco poder que o país tem na conjuntura mundial. Não digo que assim não seja, mas há que pensar bem nas coisas e nem tudo tem a mesma explicação. O terceiro lugar de Ronaldo na eleição do melhor jogador do mundo gerou uma onda de contestação que considero despropositada, e, como consequência, uma euforia desmedida sempre que o madeirense comprova o seu enorme valor: a cada golo, a cada finta, a cada exibição de encher o olho, os indignados levantam a voz patriota em alerta: "Vejam! Vejam como é injusto ele não ser o melhor do mundo!" Além de francamente conveniente, acho errado tudo o que dizem.

Em primeiro lugar, há que perceber que quem elege os melhores jogadores de um determinado ano dá mais importância às competições europeias, onde todos estão envolvidos e cujo grau de dificuldade é igual, do que aos desempenhos internos. Não é este o meu argumento, mas vejamos o que se passou. Nas competições europeias, Kaká foi o melhor marcador da Liga dos Campeões, com 10 golos (Ronaldo marcou apenas 3), levou o Milan ao título e, no confronto directo com Ronaldo, foi decisivo, ao contrário do português. Já de Messi não se pode dizer o mesmo, pelo que o facto de o argentino ter ficado à frente do português não se explicará da mesma forma. Em segundo lugar, em competições decisivas, isto é, em finais ou eliminatórias, Ronaldo fracassou sempre. Ganhou o campeonato inglês, mas perdeu a final da taça de Inglaterra, fazendo um jogo discreto, e perdeu as meias-finais da Liga dos Campeões, numa eliminatória em que foi profundamente ineficaz. Se aliarmos isto ao seu desempenho medíocre na Selecção Portuguesa, onde se salvou pelos golos que marcou ao longo do apuramento e nada mais, temos que só vemos o Ronaldo ao mais alto nível no campeonato inglês. Deste modo se explica a preferência dos votantes por Kaká. É verdade que este ano já marcou 5 golos na Liga dos Campeões, ao passo que Kaká só ainda marcou 2. Messi, porém, já marcou 4. Mas as prestações desta época pouco terão contado para as votações, até porque se dá, normalmente, mais importância à fase decisiva das épocas.

Esquecendo os possíveis argumentos de quem votou, tentemos então comparar as épocas dos três eleitos. Dizem os delatores de Kaká que o brasileiro teve uma prestação notável fora de portas, mas que, no campeonato, foi uma sombra de si próprio. Devo esclarecer que o Milan acabou em 4º, depois de ter começado com menos 8 pontos, e que Kaká marcou 8 golos (14% dos golos da equipa) em 31 jogos (0,26 golos por jogo). Esta época, ao contrário do que dizem, Kaká tem sido o menos responsável pelo mau campeonato do Milan e leva 7 golos (33% dos golos da equipa) em 12 jogos (0,58 golos por jogo). Aliás, dizer que um jogador, sendo bom, tem obrigação de conduzir sozinho a sua equipa a uma boa prestação é ridículo. Ronaldo, na época passada, marcou 17 golos (20% dos golos da sua equipa) em 34 jogos (0,50 golos por jogo) e, esta época, leva 12 golos (33% golos da sua equipa) em 15 jogos (0,80 golos por jogo). Messi, na época anterior, marcou 14 golos (18% dos golos da sua equipa) em 26 jogos (0,54 golos por jogo). Esta época leva 8 golos (25% dos golos da sua equipa) em 14 jogos (0,57 golos por jogo). Os números, por si só, dizem-me pouco, mas por estas estatísticas podemos perceber que, na época passada, no campeonato interno, Ronaldo marcou 20% dos golos da sua equipa, ao passo que Messi marcou 18% e Kaká 14%; podemos perceber que, na época passada, Messi marcou 0,54 golos por jogo, ao passo que Ronaldo marcou 0,50 e Kaká apenas 0,26; esta época, Ronaldo marcou 33% dos golos da sua equipa, os mesmos 33% que Kaká, ao passo que Messi marcou 25%; Ronaldo marcou 0,80 golos por jogo, ao passo que Kaká está nos 0,58 e Messi nos 0,57. O que demonstra isto? Apenas e só que, em golos, Ronaldo é ligeiramente (e é preciso sublinhar o "ligeiramente") superior aos seus adversários directos.

Os golos não explicam tudo; aliás, não explicam quase nada. Ao contrário do que faz muito boa gente, é preciso enquadrá-los na equipa em que jogam (daí ter focado a percentagem de golos marcados em função dos golos marcados pela equipa) e o campeonato onde cada um joga. E é aqui que pretendo chegar. Muito do que Ronaldo é deve-se ao facto de jogar em Inglaterra; muitos dos seus êxitos individuais não são indissociáveis do campeonato em que joga. Em Inglaterra, há muito mais espaço do que em Itália, logo é desonesto esperar que Kaká marque tantos golos como Ronaldo. O próprio Milan marca menos golos que o Manchester, em parte porque o campeonato é menos propício a isso. Além disto, num campeonato como o inglês é muito mais fácil um jogador destacar-se individualmente do que em Itália ou em Espanha. Se juntarmos a essa facilidade as características de Ronaldo, percebemos que um jogador como ele está muito potenciado em Inglaterra. A velocidade e a explosão de Ronaldo tornam-se ainda mais fundamentais num tipo de futebol com mais espaço, no qual as transições sejam mais rápidas. Em Inglaterra, um jogador essencialmente individualista (que vive muito das acções individuais) está sempre no seu habitat preferido. Não tenho a menor dúvida de que, em Itália ou em Espanha, Ronaldo marcaria menos golos e seria menos decisivo e que Kaká e Messi, em Inglaterra, jogariam mais e marcariam mais.

Ronaldo teria muitas dificuldades em se adaptar ao futebol italiano, por exemplo. Se bem que seja um jogador parecido com ele, pois vive muito das acções individuais, dos dribles, dos "slalons", dos desequilíbrios com bola, o argentino Messi adaptar-se-ia com mais facilidade ao futebol italiano. Isto porque o seu drible é muito mais curto do que o do português e isso confere-lhe outra facilidade em espaços mais curtos. Por esta razão, não necessita tanto que o ritmo de jogo seja alto como o português. É fácil de perceber que, sempre que encontra equipas fechadas, que jogam compactas, Ronaldo tem muito mais dificuldades em impor o seu futebol. Normalmente, quando tira um jogador da frente em Inglaterra, porque o ritmo é alto e os sectores muito desligados uns dos outros, tem sempre espaço para manobrar. Contra equipas que não as inglesas, quando se desembaraça do primeiro adversário, tem sempre menos espaço e as suas acções não são tão frutuosas. Kaká é, actualmente, o jogador mais rápido no mundo a conduzir a bola. Não tem um drible tão curto quanto Messi, nem a explosão de Ronaldo, mas conduz a bola colada ao pé à mesma velocidade a que corre sem ela, enquanto o português conduz a bola com toques muito mais longos. A velocidade em posse de Kaká é mais eficaz, porque mais curta, que a de Ronaldo, mesmo que não atinja a mesma velocidade do português. Aliando a isso uma inteligência notável e uma velocidade de decisão acima da média, tem as características ideais para o futebol italiano. Ronaldo, além da velocidade e da explosão, tem pouca coisa. Se bem que rapidíssimo a executar, não é tão rápido a pensar. E isso também se explica pelos hábitos do campeonato inglês. Num futebol de ritmo elevado, os espaços são muitos e é possível ter a bola durante mais tempo. Isso faz com que o jogador tenha muito tempo para decidir e que tenha, invariavelmente, muitas opções válidas para escolher. Porque joga em Inglaterra, Ronaldo não desenvolveu um pensamento veloz, ao contrário da execução. A velocidade, em si, pode ser treinada individualmente, pode ser potenciada sem a conjuntura do jogo. Já o pensamento depende do espaço e do tempo que o jogador dispõe a cada instante e esse espaço e esse tempo, em Inglaterra, são muito mais elevados do que nos restantes campeonatos. Porque joga num futebol aberto, Ronaldo não tem a necessidade de decidir tão rapidamente quanto têm Messi e, sobretudo, Kaká.

Resumindo, Ronaldo atinge os números que atinge e joga o que joga porque actua num campeonato propício às suas características. Kaká e Messi, porque têm, em quantidades idênticas, as mesmas características que fazem de Ronaldo o que ele é, a saber, a velocidade e a explosão, seriam igualmente potenciados se jogassem em Inglaterra. Já o contrário não é necessariamente verdade. Tanto Kaká como Messi decidem melhor em espaços curtos do que Ronaldo; tanto o brasileiro como o argentino têm uma condução de bola mais curta; tanto um como outro têm uma técnica mais apurada (para evitar, a priori, as críticas que adivinho, alerto para o seguinte: técnica não é fantasia, não é imaginação, não é criatividade, não é dribles). Por isso, não é possível tomar uma decisão sobre o melhor jogador do mundo independentemente da equipa onde se joga, do esquema táctico e da filosofia de jogo dessa equipa, do campeonato onde jogam, etc. A eleição de Kaká como o melhor do mundo não oferece, quanto a mim, qualquer tipo de contestação. Já o segundo lugar de Messi, à frente de Ronaldo, é, penso, tão válido quanto o contrário. Não me surpreendeu, da mesma forma que não me surpreenderia se Ronaldo ficasse à frente de Messi. Tenho, contudo, a minha opinião sobre os três, opinião essa que julgo ter ficado clara. Kaká e Messi são mais completos que Ronaldo e, como não se pode ignorar a profunda diferença entre os campeonatos onde actuam, os dois primeiros estão mais preparados que o último. Por tudo isto, concordo com o terceiro lugar de Ronaldo, embora lhe reconheça talento mais do que suficiente para que venha, um dia, a ser o melhor do mundo, coisa que, definitivamente, ainda não é...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Sondagem (3)

O melhor do mundo, segundo os votantes na Sondagem do Entre Dez, é Kaká. Os 7 votos do brasileiro levaram de vencida os 4 de Messi e os 3 de Ronaldo. Significa isto que os votantes chegaram à mesma conclusão que a FIFA. Será que Ronaldo lê este blog e fez a mesma cara de poucos amigos ao saber do resultado?

domingo, 23 de dezembro de 2007

Curtas da Liga

Jesualdo, sempre que é obrigado a mexer no seu onze base, encontra dificuldades que não são consentâneas com o avanço que dispõe sobre os adversários directos. Graças a "Deus" que o Quaresma é imune a cartões vermelhos directos...

Nuno Gomes e Cardozo contabilizam seis golos cada um. E nenhum deles tem sido indiscutível. Mas o Benfica, apesar de, na maioria das vezes, apenas utilizar um avançado, continua no mercado por mais uma opção para o seu ataque. E um treinador a sério, não?

O Guimarães continua imparável. No resumo (breve), apenas deu Guimarães, no confronto com o clube de Belém. Depois de ter visto o Belenenses vencer o Benfica de forma categórica - não foi apenas por demérito do Benfica -, fica a ideia que esta equipa sofre de dupla personalidade.

O Sporting teve de sofrer para levar de vencida uma equipa tão patética como o Paços. A opção de recuar na parte final do encontro, com mais um elemento em campo, ia-se revelando suicida. Valeu a péssima réplica do adversário.

Vukcevic e Liedson. O primeiro é já, e de longe, o jogador com mais influência directa nos golos alcançados pelo Sporting. Golos, assistências e penaltys. Pelo meio, ainda ridiculariza quem, no início da época, e por mero preconceito, o acusava de ser fraco nas acções defensivas. Já o brasileiro vem dar razão a tudo o que se defende neste espaço. Um avançado, para se exibir a um excelente nível, não tem de estar submisso à incumbência de fazer golos. A exibição de ontem demonstrou isso de forma clara.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Texto sem pés nem cabeça

Andava pela página da FIFA quando me deparei com uma variante de futebol que desconhecia: Futebol para Amputados. A primeira reacção que tive fui: "Bom, deve ser futebol para quem não tem braços." E isto levantava imediatamente uma questão pertinente: um gajo sem os dois braços poderia ser capitão de equipa? Outra coisa que me passou pela cabeça foi: "Numa modalidade assim, agarrar a camisola de um adversário também dá direito a cartão?" Movido pela curiosidade, decidi averiguar do que se tratava, afinal. Assim, os jogadores de campo devem ter duas mãos, mas apenas uma perna, movendo-se com a ajuda de muletas, enquanto que os guarda-redes devem ter dois pés, mas apenas uma mão. Numa modalidade assim, a primeira coisa que salta à vista é que não pode haver ambidextros. Mas há mais coisas que me intrigam:

1) Como é que são efectuados os lançamentos de linha lateral?

2) Tendo o guarda-redes duas pernas, não lhe seria fácil pegar na bola, fugir a todos os adversários (que se movem de muletas) e marcar golo?

3) Num livre, a barreira não fica sempre com buracos?

Como é que os tipos da FIFA se lembraram disto? Só me ocorre uma maneira. Puseram 22 jogadores normais num campo minado. Na primeira parte, jogaram futebol normal; na segunda, jogaram futebol para amputados. Terá sido assim? Enfim, apesar da simpatia que nutro por amputados, acho que nunca seria fã deste desporto. É que, vendo bem, para mim, futebol em que não dá para fazer cuecas não é futebol...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Contra o Instinto

"[Sócrates], enquanto nas suas deambulações críticas por Atenas, entabulando conversações com grandes estadistas, oradores, poetas e artistas, encontrava por toda a parte a presunção da sabedoria. Com espanto, reconheceu que todas aquelas celebridades nem possuíam sequer acerca da sua profissão uma perspiciência justa e segura, exercendo a mesma só por instinto. «Só por instinto»: com esta expressão tocamos o coração e o cerne da tendência socrática. Com ela, o socratismo condena tanto a arte como a ética vigentes: para onde quer que se dirija o seu olhar judicativo, ele vê a falta de perspiciência e o poder da ilusão, concluindo a partir dessa falta o carácter interiormente perverso e desprezível do que existe. Deste ponto de vista, Sócrates julgou-se na obrigatoriedade de corrigir a realidade existente: ele, o ser isolado, entra com uma fisionomia de desprezo e arrogância, como sendo o precursor de uma cultura, arte e moral de índole totalmente diferente, num mundo cujo rasto poderíamos considerar-nos supremamente felizes de captar com reverência."

Friedrich Nietzsche (O Nascimento da Tragédia)

Exclamemos como Nietzsche: «Só por instinto!» - eis a culpa cuja expiação não procuram grande parte dos jogadores e treinadores de futebol. Só por instinto é que, muitos deles, desempenham o seu papel. Fazem-no, portanto, sem a consciência daquilo que fazem, sem saberem se o fazem correcta ou incorrectamente. Um instinto aguçado pode, no máximo, disfarçar as deficiências intelectuais de quem o possui; não pode, contudo, substituir o intelecto. Agir sem pensar, cumprindo as ordens que a intuição irracional dá, pode até conduzir a resultados positivos, mas será sempre mais seguro e aconselhável perpetrar acções sob a batuta do raciocínio. Os jogadores de futebol que não pensam no que fazem não podem adequar-se, com facilidade, a novas adversidades. Como estão habituados a ultrapassar os problemas de uma determinada maneira e têm o instinto domesticado para agir segundo essa maneira, não conseguem, por não serem capazes de agir de outra forma que não instintivamente, adaptar-se.

O instinto, ainda que um atributo bom, não é portanto um atributo indispensável a um jogador. Como o não é a um treinador. Sem o raciocínio, sem a inteligência, o instinto tem pouca margem de manobra. Só pela inteligência se pode ser grande. Um jogador que tenha crescido a jogar na rua, que não tenha experiência de futebol federado, que não tenha o amadurecimento da formação, vive apenas do seu instinto, o que é - convenhamos - muito pouco. O mesmo acontece com treinadores que tenham apenas a experiência de jogador e o contacto com os métodos de outros treinadores. Sem pensar, sem raciocinar, sem tentar perceber o porquê das coisas, ninguém, em actividade alguma, exerce essa actividade de forma consciente. Pelo contrário, sem o intelecto, atravessam a estrada pelo braço do instinto, que mais não é que a reacção àquilo que aprenderam sem questionar. É contra jogadores e treinadores desta estirpe que a convicção socrática destas linhas pretende erigir o punho, dizendo: "Basta!" Basta de insolência! Basta de presunções patetas; basta de acharem que podem aquilo que não podem. Se não pensam, se agem segundo os ditames prepotentes e animalescos do instinto, como querem ser levados a sério?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Nuno Assis: um estudo

João Rosado, o comentador de serviço no jogo Benfica-Académica, para a Taça de Portugal, disse aos 39 minutos do encontro, após o pontapé de canto cobrado por Nuno Assis que originou o golo de Luisão, que aquela era a primeira coisa positiva que Nuno Assis fizera no desafio. Sem querer faltar ao respeito a quem não vê, há quem goste de ser cego. Este mesmo senhor, aquando de um remate do central dos estudantes Kaká, dentro da área encarnada, que levou a bola a embater em Luisão, disse que o jogador da Académica talvez tivesse tentado chutar propositadamente contra o braço do defesa do Benfica, para assim ganhar um penalty. Devo dizer que foi talvez a coisa mais estúpida que ouvi nos últimos tempos. Fiquei a saber, contudo, que há quem pense que há jogadores que, podendo marcar golo, optam por chutar contra braços. Genial! Esquecendo a palermice aqui retratada, este texto visa então averiguar a qualidade das intervenções de Nuno Assis no respectivo encontro.

2 minutos: Boa opção. (Recebe a bola e dá num colega, recuado, conservando a posse de bola.)

6 minutos: Bom passe. (Binya passa por trás de dois defesas da Académica e Nuno Assis coloca-lhe a bola, possibilitando-lhe o cruzamento.)

11 minutos: Má opção. (Passe para Nuno Gomes, que se encontrava fora-de-jogo. Demorou algum tempo e acabou por não tomar a melhor decisão.)

14 minutos: Recuperação de bola. (Beneficia de uma atrapalhação do adversário e chega primeiro à bola, recuperando-a e entregando-a de primeira para Binya.)

17 minutos: Mau passe. (Espera que Nélson lhe passe nas costas, dando-lhe depois a bola, mas o passe sai demasiado curto e permite a recuperação de Hélder Barbosa, que corta para fora.)

19 minutos: Boa movimentação. (Percebe o sentido da jogada e aparece no meio da área, onde percebe que Cardozo, após cruzamento da esquerda, irá colocar a bola de cabeça. Chega ligeiramente atrasado, sendo eventualmente empurrado pelo opositor.)

22 minutos: Má opção. (No meio-campo, salta sozinho de cabeça, quando poderia ter dominado a bola; esta, contudo, fica em posse de jogadores do Benfica.)

22 minutos: Boa opção. (A seguir a um ressalto, domina no peito e entrega a um colega.)

24 minutos: Canto. (Canto batido no lado direito, cortado ao primeiro poste por um adversário.)

28 minutos: Boa opção. (Recebe no meio-campo, dribla um adversário, tabela com Cardozo e dá profundidade colocando na esquerda em Di Maria, para este cruzar.)

29 minutos: Boa opção. (Recebe a bola vinda de um lançamento, tabela bem com Binya, mas este devolve mal o passe, ficando curto.)

32 minutos: Boa opção. (Dá a bola para Petit, no meio, recuado.)

33 minutos: Boa opção. (Dá a bola para trás, para Léo.)

38 minutos: Boa opção. (Recebe à linha depois de excelente movimentação, a desembaraçar-se do opositor, espera pela entrada de Binya e faz um bom passe, que bate no calcanhar de um adversário, mas que ainda assim chega ao camaronês.)

39 minutos: Canto. (Bate um canto na esquerda e Luisão marca o primeiro golo.)

40 minutos: Drible. (Dribla N'Doye e sofre falta.)

41 minutos: Boa opção. (Recebe, dá em Nélson e desmarca-se.)

42 minutos: Bom passe. (Dribla N'Doye, no meio, pica a bola para Di Maria, que remata de primeira, de fora da área, levando a bola a passar por cima da baliza.)

43 minutos: Boa opção. (Tabela com um colega, dá atrás, desmarca-se e vai receber à frente; depois, espera pela movimentação de Nuno Gomes e dá-lhe a bola.)

49 minutos: Desarmado. (Recebe no peito no meio de dois adversários e é desarmado.)

51 minutos: Recuperação de bola. (Tira a bola a Ivanildo.)

52 minutos: Boa opção. (Ganha um ressalto à entrada da área, joga rápido em Di Maria, que dá de primeira a Binya, mas este perde a bola e N'Doye faz golo.)

54 minutos: Bola de cabeça. (Perde na disputa de uma bola de cabeça, chocando com Ivanildo.)

56 minutos: Boa opção. (Recebe um passe de Nuno Gomes, que ficara curto, dribla o seu opositor, vindo para o meio e dá em Cardozo, que está à entrada da área; este dá de primeira para Nuno Gomes, que estava em posição irregular.)

57 minutos: Recuperação de bola. (Recupera uma bola junto à linha lateral.)

64 minutos: Recuperação de bola. (Tira a bola a Ivanildo, após o remate ao poste de Hélder Barbosa.)

64 minutos: Boa opção. (Tabela com Binya, dá-lhe novamente a bola, este dá em Nuno Gomes, que a volta a dar a Nuno Assis; este dá novamente a Binya, o que garante uma progressão de mais de 40 metros.)

67 minutos: Perda de bola. (Contra-ataque perfeito, tabelando com Nuno Gomes; sem apoios, tenta ganhar no um para um, mas acaba por ficar rodeado de adversários; volta para trás, dribla um e, junto à linha, acaba por perder, ficando a dúvida se não é empurrado.)

71 minutos: Corte. (Evita um contra-ataque perigoso, cortando a bola a Hélder Barbosa.)

76 minutos: Bom cruzamento. (Recebe a bola vinda de um lançamento, ultrapassa o seu opositor e cruza para remate de primeira de Adu.)

85 minutos: Boa opção. (Recebe junto à bandeirola de canto, após cruzamento demasiado largo, dá em Nuno Gomes, que cruza para golo de cabeça de Cardozo.)

89 minutos: Boa opção. (Recebe no meio, tira um adversário da frente e dá para Binya.)

90 minutos: Bola de cabeça. (Perde uma bola de cabeça.)

91 minutos: Livre. (Bate um livre para a área, sem consequências.)

Coloquei em negrito as coisas más que Nuno Assis fez. Vamos aos resultados:

1) 34 acções durante 90 minutos; 29 boas açções; 85% de acções positivas.
2) Em 21 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se portanto os lances de bola parada ou as disputas de cabeça, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 17 boas opções contra 4 más opções; 81% de boas opções.
3) Destas 4 más opções, resultaram apenas 2 perdas de bola, sendo que, numa delas, parou o jogo, por fora-de-jogo, e noutra fica a dúvida se não terá sofrido falta.
4) Recorreu ao um para um, ou por falta de apoios, ou por recurso, por 7 vezes, tendo sido bem sucedido em 6 delas; 86% de dribles com êxito.
5) Destes 6 dribles bem sucedidos, num sofreu falta, noutros dois proporcionou remates a Di Maria e a Adu, noutro proporcionou remate a Cardozo que, por sua vez, tentou isolar Nuno Gomes, noutro permitiu a Di Maria ir à linha cruzar e noutro pôde conservar a posse de bola. Destes 6 dribles, só dois não tiveram consequências imediatas. 4 destes dribles provocaram desequilíbrios significativos; 66% de dribles que causaram desequilíbrios.
6) Não fez nenhuma falta.
7) Há quem ache que os virtuosos não se entregam a trabalhos menos nobres como o de recuperação defensiva, mas Nuno Assis recuperou 4 bolas por força das suas acções defensivas e ainda cortou um lance de contra-ataque que poderia ter causado muitos danos.
8) Repetiu movimentações excelentes, ganhando invariavelmente espaços através das suas movimentações sem bola.
9) Conferiu velocidade ao jogo não através de correrias estonteantes, mas executando quase sempre de primeira e bem.
10) Apesar de não ter marcado nenhum golo, participou activamente em dois deles, sendo o responsável pela assistência para o primeiro.

Notas finais: Nuno Assis não é um jogador de muitos desequilíbrios; o drible nunca é a sua primeira opção, justificando-se apenas em caso de recurso ou quando não há outra solução. Não sendo jogador para desequilibrar individualmente, empresta à sua equipa muita qualidade de passe, ajuda à preservação da posse de bola e à gestão adequada dos ritmos, etc. Acelera o jogo porque pensa e executa extraordinariamente rápido. Pode dizer-se que Nuno Assis desequilibra através dos equilíbrios que proporciona. Estes números demonstram isso mesmo...

Outras coisas sobre este jogo:

1) Depois do jogo de ontem, ainda há quem ache que Vieirinha e Bruno Gama têm mais potencial que Hélder Barbosa?
2) Camacho optou por um 442. Mostrou variedade estratégica ou igual irresponsabilidade táctica? Opto pela segunda.
3) Petit e Binya fizeram um jogo horrível. Quando os defesas tinham a bola, nunca vinham ao meio buscar jogo ou abrir linhas de passe. Subiam, levando consigo as marcações e obrigando a equipa a jogar comprido. Muito por causa disso, o futebol do Benfica foi desligado e, à excepção de apontamentos individuais, nunca conseguiu criar perigo. Não fosse um lance de bola parada e tudo seria mais complicado.
4) No lance do segundo golo, o primeiro de Cardozo, os comentadores não hesitaram em atribuir todo o mérito a Léo, autor do passe decisivo. Há, contudo, um momento fundamental na jogada, que possibilita todo aquele desenrolar: a tabela de Léo com Nuno Gomes, ainda no meio-campo defensivo, fez com que 3 adversários ficassem para trás e o lateral esquerdo do Benfica tivesse espaço para depois executar com perfeição o passe. Excelente, Nuno Gomes.
5) Butt é mal batido, mas não chego a perceber o que se passou.
6) Luisão e Edcarlos formam a pior dupla de centrais do Benfica dos últimos 5 anos.
7) O público da Luz prefere mascotes a jogadores de futebol; já não bastava Mantorras, agora também idolatram Adu.

domingo, 9 de dezembro de 2007

As asneiras de Luís Freitas Lobo

Antes de mais, gostava de referir que poucas coisas há, sobre futebol, que valham a pena ler além dos textos de Luís Freitas Lobo. A excepção será, certamente, a crónica semanal de Jorge Valdano, todos os sábados, n'A Bola. Embora muito do que diga seja correcto e útil, Luís Freitas Lobo tem, de vez em quando, afirmações pouco convincentes. Tentei, pois, reunir aquelas que me parecem mais problemáticas.

1."Hoje, trincos ou pivots-defensivos, refinaram a forma de jogar e aumentaram a influência no jogo colectivo. São, tacticamente, os jogadores mais importantes para o equilíbrio da equipa, numa posição que é a âncora que mantêm o onze preso ao campo durante 90 minutos."

Percebo perfeitamente o argumento de Luís Freitas Lobo: um jogador que actue naquela posição central influi significativamente no desempenho defensivo e no desempenho ofensivo da equipa. Mas não concordo que seja o jogador mais importante. Aliás, afirmar que há posições mais importantes que outras é não entender o futebol como um jogo colectivo. Os processos ofensivos dividem-se em várias fases, todas elas importantes. Se a equipa atacar bem nas primeiras fases, mas não o fizer na última, de nada vale. Assim, são tão importantes, nos processos ofensivos, os jogadores que participam nas primeiras fases como os que participam nas últimas. A defender, acontece o mesmo. A equipa deve defender em bloco e todos têm o seu papel. Não há jogadores mais importantes que outros a defender, como não há jogadores mais importantes que outros a atacar. O médio-defensivo, apesar da sua posição nuclear, não tem mais importância que qualquer outro jogador.

2. "Os grandes craques são de geração expontânea ou produtos de formação? É uma questão antiga, mas em qualquer debate, sempre se falou na formação como a suprema referência de fazer grandes jogadores. Uma escola onde se adquirem as bases e os movimentos que depois vão servir de suporte a toda uma carreira futura. Parece uma opinião pacifica, mas há quem ouse desafiar estas teorias. Pensamos nas origens dos grandes jogadores de todos os tempos, de Pelé e Maradona, e vemos que nelas em vez de campos relvados e chuteiras último modelo, estão baldios de terra e pés descalços. Dirão que esses não contam, são excepções, porque são génios. Uma teoria desmoronada quando pisamos terras brasileiras e se descobrem craques até debaixo das pedras. Ou, até, noutros locais menos imagináveis. Até aos 22 anos, em vez de passar pelos escalões de formação, ele trabalhou como mecânico de automóveis, pintor e repositor de supermercado. Um belo dia, alguém lhe deu uma bola para os pés. Com ela dominada, foi desde as profundezas da Bahía até á relva de Alvalade. É esta a essência de Liedson. A leveza do bom futebol em cada jogada. Natural, simples, como cada golo que marca. Em que escola aprendeu aqueles movimentos, aquela capacidade de rematar e seduzir a baliza? Liedson seria um «case study» perito para entender os mitos e as utopias da formação e entender qual o verdadeira influência do chamado «futebol de rua» no processo de crescimento do grande jogador da actualidade. Deve ele crescer selvagem ou lapidado cientificamente? A solução estará a meio caminho destas duas vertentes. Acredito que mais do que ensinar, um treinador na formação deve antes guiar cada talento para este descobrir qual o melhor caminho de o explorar. A cada jogo, a cada golo que marca, olhando para o futebol de Liedson percebe-se que, afinal, os grandes craques não se fabricam nem se procuram, simplesmente... encontram-se!"

Não adianta referir, uma vez mais, a qualidade duvidosa de Liedson. Finjamos que o texto não é sobre o 31 do Sporting, mas apenas sobre a questão da formação. Há, em primeiro lugar, falsidades que não podem passar em claro. Maradona e Pelé têm, de facto, origens humildes. Mas afirmar que não tiveram formação é absolutamente ridículo. Alguém acredita que, se Maradona não tivesse saído do Argentino Juniors para o Boca e do Boca para o Barça, se teria tornado no melhor de todos os tempos? Alguém acredita que, se Maradona só começasse a jogar futebol federado aos 22 anos, teria feito a mesma carreira incomparável? Por pior que tenha sido a sua formação, ela existiu. Ter contacto com a competição também é formação. Nenhum grande jogador começa a jogar à bola aos 22 ou 23 anos. Em países pobres como o Brasil, no qual todos os miúdos jogam à bola na rua e para os quais a bola é o único brinquedo, é natural que surjam muitos talentos. Estes talentos são essencialmente intuitivos: amadurecem através da intuição individual, da percepção de cada um e das necessidades que o futebol de rua impõe. Sem passarem do futebol de rua para um clube federado, essa intuição nunca passa disso mesmo. Assim, um jogador que cresça selvagem, que não tenha a experiência de jogar em campeonatos competitivos, que não tenha a experiência do "futebol a sério", nunca passa de um jogador instintivo. E o instinto também é ensinado. Os jogadores que não passam por formação têm lacunas tácticas enormes, pois não foram domesticados para as deixarem de ter. São jogadores que só podem emprestar o seu instinto. Isso, no futebol moderno, é muito pouco. Acredito, apesar de tudo, que muitos jogadores que passam por todos os escalões de formação nunca chegam a ser grandes jogadores. Mas isso porque lhes falta o talento. Aquilo em que não acredito é que haja jogadores que, sem passarem por formação, apesar de muito talentosos, acabem por ser grandes. Isto acontece também em arte. Nenhum artista, por mais talentoso que seja, sem o contacto com outros artistas, sem o contacto com a História da Arte, sem o contacto com quem o pode ensinar, consegue tornar-se um grande artista. Assim, ao contrário do que pensa Luís Freitas Lobo, a solução não está a meio caminho destas duas vertentes: nenhum jogador que não seja ensinado, cujo talento não seja lapidado, dará um grande jogador. Ao contrário do que também pensa Luís Freitas Lobo, os grandes craques não se encontram, simplesmente. Fabricam-se! Ainda que o talento já lá esteja, têm de passar por um processo de amadurecimento que, individualmente, sem o contacto com a formação, jamais obtêm.

3. "Terminam os jogos da Champions e surge uma série de dados estatísticos. Remates, cantos, posse de bola… e, nos últimos tempos, um novo dado: os quilómetros que durante os noventa minutos cada jogador correu! É difícil encontrar dado estatístico mais absurdo e inócuo do que este. Em vez de quanto correu o jogador o que devia surgir era quantos quilómetros correu a bola impulsionada por acção desse jogador." "Mais do que colocar um conta-quilómetros num jogador, devia-se colocá-lo na bola e, no fim, ver qual das equipas a fez correr mais. Um dado para perceber o que é jogar bem."

Concordo com o primeiro período: de facto, nada mais improfícuo que contar os quilómetros que cada jogador correu. Correr muito não significa correr bem e, muito menos, jogar bem. Mas não concordo com a alternativa que Luís Freitas Lobo propõe. Contar os quilómetros que a bola percorre? Para quê? Uma equipa que opte por um futebol directo faz correr a bola, de cada vez, dez vezes mais do que uma equipa que opte por um futebol curto. E isso significa que a primeira joga melhor que a segunda? Claro que não. É que isso nem sequer ajuda a perceber a quantidade de bola que a equipa teve. Numa equipa como a primeira, a bola percorre dez vezes mais espaço, mas pode perder-se logo de seguida. Numa equipa como a segunda, se não se fizerem dez passes (o que já seria bom), perder-se-ia estatisticamente para a primeira. O que significa isto, então? Rigorosamente nada. Contar os quilómetros que a bola percorre é tão absurdo como contar os quilómetros que os jogadores correm.

4. "Para Luisão, cada jogo, cada jogada, parece que se tornou um teste. Esta semana desabafou. Sente-se quase o «patinho feio» da equipa. Disse não compreender porque não gostavam dele. Compreende-se o desabafo. Por princípio, os adeptos gostam mais de cisnes. Luisão nunca o será. Mas, na fábula, como na vida, os «patinhos feios» sempre foram mais inteligentes que os «cisnes». Num campo de futebol, também."

Luisão não compreende por que não gostam dele? Se for, preciso, eu explico. Luís Freitas Lobo acha que Luisão, enquanto "patinho feio", é mais inteligente que os outros. Han??? As palavras "Luisão" e "inteligente", na mesma frase, fazem-me alguma confusão. Luisão é inteligente? Como assim? Inteligente como que tem... hmmm... digamos... inteligência? E neste planeta? Só pode ser uma piada. Luisão é, a todos os níveis, horrível. Não é rápido; não é agil; é mau, muito mau, a nível posicional; não é inteligente a dobrar os companheiros; não sabe sair a jogar; apesar da sua altura, não é imponente no futebol aéreo como se desejaria. Luisão não tem nenhum atributo que faça dele um grande jogador. Continua a ser incrivelmente absurdo que algum dia alguém se tenha lembrado de o levar à selecção brasileira. Não, Luisão não é um cisne. Mas também não é um patinho feio. Luisão não é nada...

5. "Para essas quatro posições, tem cinco com saber táctico: (Veloso - Vukcevic - Izmailov - Moutinho - Romagnoli). Poucos, para um sistema física e tacticamente tão exigente. Quando mexe nas peças, a máquina ressente-se de imediato."

Falando do Sporting e do esquema em losango, Luís Freitas Lobo sugere que Paulo Bento tem poucas alternativas para o meio-campo. Segundo ele, só estes cinco têm "saber táctico" para jogar ali. Às vezes, sinceramente, acho que Luís Freitas Lobo tem problemas de memória, ou algo parecido. Vou dar mais dois nomes, assim à parva: Pereirinha e Farnerud. Se fala em "saber táctico", é porque não está a pôr em causa o valor dos restantes jogadores do plantel, mas apenas a dizer que, bons ou maus, não sabem cumprir tacticamente. Ora, pode-se achar o que se quiser de Pereirinha ou de Farnerud, menos achar que, tacticamente, não têm saber. Farnerud é, posicionalmente, óptimo. Podem apontar-lhe todos os defeitos que quiserem, mas tacticamente é irrepreensível. Pereirinha, então, é um caso gritante. Para a idade que tem, é demasiado adulto. Compreende perfeitamente as necessidades da equipa e, tacticamente, da sua idade, não há ninguém que lhe chegue aos calcanhares. É absolutamente injusto falar disto e esquecê-lo. Luís Freitas Lobo, como muita gente que tem dado palpites sobre o que vai mal no Sporting, também errou. Acha ele que, para o esquema do Sporting, o plantel oferece poucas soluções que possam cumprir tacticamente. Como maior parte dos que dão palpites, Luís Freitas Lobo acertou ao lado.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Por que é que as coisas são como são? (1)

Há umas semanas, estava a ver o Chelsea quando o Belleti galga 60 metros com a bola e marca golo ao Wigan. Pensei: "Hmmmm... isto foi fácil de mais! Deixa cá ver se este jogo que está a dar não é do campeonato inglês." E era. Foi mais ou menos nessa altura que o meu amigo imaginário, a quem vou chamar convenientemente Gláucon, me dirigiu a palavra:

Gláucon: Granda golo!!! Granda, golo, ó Sócrates! Viste aquilo? O gajo fez 60 metros com a bola; passou pela equipa toda...

Sócrates: Pois...

Gláucon: Não estás satisfeito, ó Sócrates? Não foi um grande golo?

Sócrates: Foi razoável.

Gláucon: Razoável? Mas porquê? Ele passou pela equipa toda.

Sócrates: Não tirou ninguém do caminho com arte. Fez tudo em velocidade e só pôde disfrutar de tanto espaço porque o adversário, tacticamente, era permissivo.

Gláucon: Queres explicar isso?

Sócrates: O futebol inglês, apesar de muito competitivo, não é tão bem jogado como se usa dizer. É um futebol essencialmente irracional, no qual é muito mais importante a agressividade, a intensidade, a constante movimentação, as transições rápidas, etc. O sistema táctico de quase todas as equipas é o 442 clássico. Nesse sistema, com uma filosofia de jogo iminentemente ofensiva e de transições rápidas, não é possível equilibrar defensivamente nenhuma equipa. Ao se balancearem para o ataque sem pensarem, concedem espaços inevitáveis. Num 442 clássico, não é possível atacar sem abrir espaços atrás. Em Inglaterra, quase todas as equipas jogam nesse sistema. Quando sobem no terreno, fazem-no com transições rápidas, o que estica a formação. Ao perderem a bola, só têm dois homens no meio-campo e um espaço enorme para preencher. É, por isso, natural que se abram corredores intermináveis por onde jogadores como o Belleti passam sem dificuldade. O golo de que falas, ó Gláucon, parece um grande golo, mas dificilmente aconteceria noutro campeonato. E não é por este ser o campeonato no qual estão os melhores jogadores; é por este ser o campeonato tacticamente mais ingénuo.

Gláucon: Tens razão, ó Sócrates. Vês as coisas com clareza. Eu é que sou um bocado sofista e não compreendo nada. Mas tens de considerar, apesar de tudo, que o campeonato é competitivo, que há emoção em cada lance, que os jogadores se entregam a 100% e que não dão nenhuma bola por perdida. E tens de considerar que essa atitude competitiva é louvável e que o espectáculo ganha muito com isso.

Sócrates: Assim não o considero, ó Gláucon. No campeonato inglês, há mais contacto físico do que noutros campeonatos, é verdade; os jogadores disputam as bolas com ferocidade, é verdade. Mas isso, ao contrário do que se pensa, não advém de uma mentalidade mais competitiva do que a mentalidade do jogador continental. Até, pelo contrário, advém da ingenuidade do próprio campeonato e dos próprios jogadores.

Gláucon: Que fundamentos tens para dizer tal coisa?

Sócrates: Quero que me escutes com atenção. Todas as vicissitudes do campeonato inglês radicam no sistema táctico e na filosofia de jogo das equipas britânicas e não numa suposta mentalidade diferente, excêntrica: a mentalidade do futebol inglês é consequência do sistema táctico utilizado e não o contrário. Vergado ao peso da tradição, o futebol inglês, em vez de se modificar estruturalmente, optou por se adaptar; em vez de transformar a filosofia de jogo, obsoleta há 20 anos, optou por tentar contornar o problema. Assim, manteve a mesma filosofia de jogo, mas, perante as necessidades modernas, teve de lhe acrescentar outras coisas. Para mascarar as lacunas de tal filosofia, havia que propor a cada jogador uma entrega a 100%. Assim, os problemas colectivos levantados pela utilização do 442 clássico foram supridos através do empenho individual. O problema, contudo, é óbvio: um sistema assim depende da eficácia de onze individualidades e, à mínima falha de um, tudo desaba.

Gláucon: Não sei se concordo contigo, ó Sócrates.

Sócrates: Continua a ouvir sem os preconceitos que formaste ao longo da vida. Um 442 clássico é um sistema rígido, de três linhas inflexíveis. Num sistema assim, há mais espaço entre linhas e entre jogadores. O futebol moderno, mais veloz, tacticamente mais adulto, veio pôr a nu tais espaços. Havia duas maneiras de contornar o problema: modificar o sistema, arranjando forma de, colectivamente, se ocuparem melhor os espaços, ou exigir uma entrega individual inexcedível, em que cada jogador corresse o mais possível. O futebol inglês optou pela segunda alternativa, o que faz dele um futebol essencialmente individual, uma vez que se baseia na conduta de cada um dos elementos do conjunto.

Gláucon: Sim, mas de onde vem tanta competitividade, tanta disponibilidade para disputar os lances? Tens de convir, ó Sócrates, que nisso o futebol inglês é diferente dos outros.

Sócrates: Assim o é, evidentemente. Mas aquilo que afirmo é que essa diferença não reside numa mentalidade diferente. Tudo deriva do sistema táctico e da filosofia de jogo. Ao se exigir a cada jogador que se entregue ao máximo para suprir lacunas colectivas, ele fá-lo defendendo homem a homem. Num esquema rígido, em que há muito espaço entre linhas, as equipas só podem conter o ímpeto ofensivo dos adversários defendendo homem a homem. Num 442 clássico, a defesa à zona é muito menos eficaz (porque muito mais difícil de pôr em prática) que uma defesa homem a homem, uma vez que se criam espaços que não é possível preencher. Assim, o campeonato inglês pauta-se por equipas que defendem ao homem e, nesse sentido, é natural que haja muito mais confrontos, muito mais bolas disputadas, muito mais agressividade, muito mais competitividade.

Gláucon: Insinuas então que a competitividade do futebol inglês resulta do facto das equipas defenderem homem a homem?

Sócrates: Efectivamente. E essa defesa homem a homem resulta do sistema táctico e da necessidade de suprir as lacunas do mesmo. A teimosia histórica do 442 clássico obriga então os jogadores, conscientes da necessidade de defender, a procurar a melhor forma de o fazer. Nesse sistema, a melhor forma (ou a forma mais fácil) é fazê-lo homem a homem, o que gera necessariamente mais bolas divididas, mais ressaltos, mais agressividade, etc. O futebol inglês só é competitivo porque assenta numa perseguição individual a cada adversário; as equipas defendem encaixando as suas pedras nas pedras adversárias. Emparelhados, os jogadores disputam as bolas sempre com o seu opositor directo em cima, o que faz com que o futebol aparente muita entrega. Aliás, todas as equipas que defendam homem a homem criarão, por certo, a mesma ilusão que as equipas inglesas criam e parecerá que os seus jogadores são muito mais competitivos que os demais. Nada mais falso. A competitividade é, não raro, resultado de uma necessidade. Um jogador que corra menos não significa que seja mais preguiçoso ou que seja menos competitivo que outro; normalmente, ou significa que é mais inteligente, ou significa que a sua equipa defende de uma forma em que não necessita que ele corra tanto. O problema da defesa homem a homem, ainda que seja a melhor num esquema como o 442 clássico, é que um jogador que se desembarace com facilidade do seu opositor cria desequilíbrios muito maiores do que um jogador do mesmo tipo contra uma defesa à zona. Ao se desembaraçar do seu adversário directo, obriga a que outro adversário lhe saia ao encalço, desprendendo outra marcação. Num sistema assim, é óbvio que as equipas que tiverem individualidades que provoquem melhor este tipo de situações são as equipas mais bem sucedidas; num sistema assim, quem tiver as melhores individualidades tem as melhores equipas; num sistema assim, o colectivo não tem força rigorosamente nenhuma e a cultura táctica ocupa um papel secundário. Assim se demonstra que a competitividade do futebol inglês é resultado do sistema táctico que se privilegia e que essa mesma competitividade, além de meramente ilusória, é sintoma também da ingenuidade geral do futebol em solo britânico.

Gláucon: Estou rendido, ó Sócrates. Fazes chacota de todos os sofismas...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Falsas aparências... Parte dois...

Há pouco mais de um ano escrevi um texto sobre a "crise" que se tinha abatido sobre a turma de Alvalade. Na altura, critiquei a rotatividade excessiva, assim como a insistência na inclusão de Liedson no onze inicial. Hoje, o problema não se prende apenas com este factor, mas também.
Entre estes dois textos o denominador comum continua a ser Liedson, mas o problema é que, ao contrário da época transacta, não há alternativas ao "Levezinho". Porquê? Porque o Sporting perdeu Alecs, e Djaló teve demasiadas aulas com o "Deus" de Alvalade. E, como se sabe, a influência dos deuses sobre os neurónios nunca foi a mais positiva.
Djaló decidiu ignorar tudo o que lhe permitiu alcançar o estatuto de grande promessa em Alvalade. Para quê? Para se aproximar, futebolisticamente falando, de Liedson. E o resultado é desastroso. Deixou de respeitar os apoios, de jogar simples, para depois, quando de frente para o adversário, tentar tirar partido da sua velocidade no 1x1. Talvez seduzido pelo slogan "Liedson resolve!", pensou em fazer o mesmo, o que resultou num atrofio de todas as suas potencialidades, e num gradual decréscimo de confiança de tal forma que dá a ideia que esta lesão até veio a calhar.
Purovic é um caso diferente. Quando se anunciou a sua contratação já era de esperar que ele não andasse muito longe do que ele demonstra em campo; é um jogador que permite ao Sporting explorar o jogo directo. É uma opção diferente dos outros avançados. Não acredito que numa realidade "normal" Purovic fosse tantas vezes utilizado.
Resta Derlei, o melhor avançado do plantel leonino, a quem o infortúnio bateu à porta.

O Sporting, como se viu na partida contra o Leiria, encontra as suas maiores dificuldades no último terço do terreno. E culpa-se quem? O meio-campo leonino, claro. Chega-se ao ridículo de criticar um jogador que entra a dez minutos do fim pela exibição cinzenta.
O domínio do Sporting encontra sempre a sua maior resistência na zona dos seus avançados. E este factor não está apenas associado à maior aglomeração dos adversários nessa zona. A movimentação dos avançados leoninos é sempre inconsequente, e mal gizada. Um exemplo disso mesmo é a ausência de situações de golo, criadas pelos seus avançados nessa zona. Tirando uma boa movimentação de Derlei, em conjunto com Simon, contra a Académica, nunca mais se voltou a conseguir um golo nesses moldes. Zero! Nem uma tabela, nem um passe a isolar um avançado, ou vice-versa, na cara do guarda-redes. Nada! O alcançado contra o Estrela, por razões óbvias, não conta.
No zona intermediária encontra-se sempre os responsáveis. Ou porque o Moutinho está menos em jogo, ou porque Romagnoli pega pouco no jogo, ou porque o Farnerud não sua a camisola, indo até ao ridículo de culpar a Fátima Lopes... Tudo serve para justificar a situação deplorável do Sporting, tocar na prima donna é que não.

O meio-campo leonino com Veloso,ou Moutinho, na posição de médio-defensivo funciona de forma totalmente diferente do que com Custódio. Não falo de Paredes, porque quero manter o nivel sério deste texto. Com os dois primeiros, um dos interiores terá de ser sempre um jogador que se distinga pela facilidade em equilibrar a equipa, aquando a integração de um destes jogadores no processo ofensivo da equipa em zonas mais avançadas. Pois tanto Moutinho como Veloso têm facilidade, através da suas movimentações, em criar desequilíbrios na equipa adversária, fruto de uma maior apetência para se soltarem em acções ofensivas.
Por outras palavras, só com um jogador com as características de Farnerud, Moutinho, ou Pereirinha, jogadores muito evoluídos tacticamente, é que se poderá explorar ao máximo as qualidades de Veloso. Moutinho tem sido exemplar nesta situação, sacrificando um maior protagonismo em prol do colectivo.

Com Custódio, qualquer dos interiores terá sempre um maior protagonismo, pois sendo um jogador que não assume tanto o jogo, preocupa-se sobretudo em equilibrar e criar situações de apoios, do que propriamente em procurar esses apoios.

A preocupação de Moutinho em "fechar" as deambulações de Miguel Veloso, não resulta numa menor exploração do seu flanco. Abel, devido as suas características, tem sido bastante eficaz na definição dos lances pela ala direita. Portanto, não acredito que seja pela má organização e mecanização deste sector que passe os maus resultados leoninos. Acredito que o sector defensivo sofra com o instabilidade criada na indefinição do seu guarda-redes e que, como resultado disso, tenham sofrido demasiados golos, para uma equipa tão organizada; porém, a tranquilidade de uma equipa consegue-se com bons resultados. Mas a verdade é que alcançar vitórias com nove homens, não é tarefa fácil.
Fica uma pergunta: Se o Liedson resolve, porque é que apesar de ele não contribuir em nada para as boas exibições colectivas da turma leonina, só "resolve" quando o Sporting joga bem, e por conseguinte cria inúmeras oportunidades de golo?