segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Pergunta um tanto ou quanto delicada...

Pergunta um tanto ou quanto delicada... cuja resposta nem é assim tão difícil, mas que muita gente falhará. Num 442 losango, qual dos elementos que joga no meio-campo, num sistema teoricamente perfeito, corre mais por jogo?

1) Médio-defensivo
2) Médio interior
3) Médios-ofensivos

Vá lá, respondam sem máquina de calcular...

sábado, 13 de outubro de 2007

Preconceito

Disse António Tadeia, durante o Azerbeijão-Portugal: "Petit é melhor do que Miguel Veloso no equilíbrio defensivo da equipa". Comentários como este revelam várias coisas. Uma delas é que muitos comentadores não se dão ao trabalho de pensar no que dizem. Outra é que não se percebe muito de futebol em Portugal. Miguel Veloso é infinitamente melhor que Petit a nível posicional; não anda feito cão com cio atrás do portador da bola, não descuidando assim o espaço que lhe compete ocupar; respeita os apoios de forma muito mais eficaz, o que, em termos defensivos, implica que esteja muito mais próximo dos colegas que eventualmente percam a bola. Isto tudo é importante para os equilíbrios defensivos de uma equipa. A nível de desarme, Miguel Veloso não é tão agressivo, é verdade. Se, por um lado, isso faz com que não recupere tantas bolas, por outro não comete faltas desnecessárias. O que o comentário do senhor António Tadeia revela, no fim de contas, é que, para muita gente, os trincos que garantem melhores equilíbrios defensivos são aqueles que disputam os lances com ferocidade, que vão ao choque, que se entregam de corpo e alma à tarefa de recuperar a bola. E isto, ainda que custe muito a aceitar, é evidentemente falso.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Inicio...

Neste momento em função das mais variadas circunstâncias fazem-se as mais variadas críticas aos três grandes e muitas delas, como habitualmente, são infundadas.

Ao Benfica tem-se apontado o dedo pela fraca finalização, recaindo sobre Cardozo a maior fatia. O paraguaio é bom de bola, tem um remate temível, tem bons princípios de jogo, é forte fisicamente, mas anda um pouco pesado e preso de movimentos. Muito disto se explica por dois motivos: Primeiro, custou nove milhões de euros; segundo, não teve férias. A erosão causada por estes dois factores, aliada a um período de adaptação, que é sempre necessário, tem-se reflectido no desempenho do “tacuara”
Por outro lado, o esquecimento a que se tem submetido alguns jogadores tem criado na luz uma crise desnecessária e perfeitamente evitável. Vejamos o caso de Nuno Assis. Os sul-americanos contratados ( Maxi, Rodriguez, Di Maria ) revelaram-se boas contratações. Já Binya conseguiu fazer esquecer a saída de Beto. Apesar de não possuir um super-plantel o clube da luz poderia sem dificuldade apresentar um onze muito forte. Porque não Nuno Assis e Rui Costa juntos? E Cardozo e Gomes? E parecendo Quim estar à altura da missão quase impossível de remendar os buracos da dupla de centrais, seria de esperar um arranque de campeonato mais feliz da equipa enarnada.

Os resultados têm demonstrado um Porto irresistível, mas que ainda não me convenceu. Mas tem o mérito de ser uma equipa equilibrada e bem organizada. Não sendo um grande admirador do professor Jesualdo, admito que as suas equipas são organizadas e bem estruturadas, mas isto também é mais fácil de demonstrar tendo um plantel mais caro que o dos dois rivais juntos. Destaco os dois argentinos, Lucho e Lisandro, e Quaresma. Lima parece-me uma boa aposta. Acumulando responsabilidade ao talento, este jogador tem tudo para se um caso sério no futebol europeu, basta dar-lhe tempo e espaço para crescer. Convém lembrar que esta evolução só é possível através do erro. Ou seja, nem sempre este jogador vai conseguir definir, a curto prazo, as melhores opções, tanto a nivel individual como a nivel colectivo, mas é importante respeitar o seu invólucro para assim potenciar todas as suas qualidades ao serviço da equipa. O melhor para ele terá de ser o melhor para a equipa, só assim ele poderá emprestar na totalidade as suas virtudes à equipa.

O Sporting tem encontrado a felicidade que em anos anteriores teimava em se esconder. Não apresentando a qualidade do ano passado, tem conseguido alcançar maior parte dos seus objectivos sem se superiorizar ao adversário, pelo menos não de forma evidente como em anos transactos. Paulo Bento disse que a sorte dá muito trabalho, mas nem sempre quem trabalha melhor tem acesso a ela. Estando o Sporting com esta estrelinha se conseguir alcançar o brilho do ano passado de certeza que conseguirá alcançar os objectivos a que se propôs. Entretanto Polga vai dando lições de classe, a que o “pupilo” Tonel vai assistindo atentamente. Vejam se percebem: ao lado de Polga só Beto não funcionava. De resto todos se adaptaram com resultados satisfatórios, sendo que Tonel até demonstra uma evolução bastante interessante. Bento disse que não havia ninguém melhor para fazer evoluir o A. Marques que o Rui Jorge, eu digo que não há neste momento ninguém que não cresça ao lado de Polga, falo obviamente em jogadores que precisam de confirmar o seu potencial. Já ao lado de Liedson, só Derlei parecia conseguir encaixar. Mas este lesionou-se e agora Alvalade vai a baixo cada vez que o miúdo Djaló toca na bola. Criticar este jogador por jogar mal e não evoluir é tão estúpido como criticar um miúdo que estude numa escola da Cova da Moura e não obtenha bons resultados. Entretanto Pereirinha nunca mais perde a vergonha, e vai adiando o inevitável. O russo entretanto até já é bom a defender, e Vukcevic até sua as estopinhas... Até parece que eram preconceitos...

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

"Pinturicchio"

Nunca será reconhecido como o melhor do mundo, não que não lhe reconhecesse qualidade para isso, apenas sinto que o tempo dele para essas glórias já terá passado, mas nem precisa de tal epíteto.
É daqueles jogadores que teimam em emprestar graça e romantismo a um futebol cada vez mais frio e impessoal. No seu futebol a eficácia é apenas um adorno, é o ladrilho dos quadros que insiste em pintar com a graça que lhe é muito peculiar. Nele, o simples respirar tem classe, debutando charme nem que seja numa simples recepção de bola. Durante muito tempo aparecia de uma forma sisuda, talvez ressentido com a reconhecimento absoluto que o futebol insiste em não lhe conceder, menos ainda no seu lar...
Mas dele recordarei sempre o seu ar de menino, na iminência de mais uma das suas traquinices.

Em 93 deu-se a conhecer ao mundo do futebol. Continuando a tradição dessa velha senhora em acolher apenas os mais charmosos. Se a memória não me atraiçoa o destino numa demonstração inequívoca de sentido de humor e ironia, decidiu que seria um dos mais negros treinadores que o revelaria – convém explicar que me refiro unicamente à competência deste senhor enquanto treinador, nunca enquanto homem -.
“ Acreditar naquilo que fazemos é o mais importante”. E Del Piero sabia que o que fazia não era apenas mais um passe, mais um remate, mais um drible, apenas mais um golo. Não! Ele pintava um quadro, dos mais belos que podemos encontrar no futebol. Muitos dirão que preferiam que fosse menos vaidoso, que se preocupasse menos com a estética do seu futebol, mas como disse uma vez um famoso pintor inglês do século XIX “ take away a painter´s vanity, and he will never touch a pencil again “.
O futebol de Del Piero é vaidoso, mas o motivo para tal, é o mesmo que lhe permite ser um dos melhores do mundo: A paixão pelo futebol. Sem ela o seu talento não teria a mesma expressão, os seus movimentos não seriam tão perfeitos, e o seu estilo tão romântico.

Conquistou quase tudo o que havia para conquistar a nível colectivo, mas isto não interessa nada para o caso. Interessa sim, falar do inatingível. Enquanto muitos jogadores vem certos dribles associados a si, este conquistou uma zona. A famosa “Zona Del Piero” .À entrada da área adversária, descaído para lado esquerdo, este artista ofereceu ao futebol das mais belas homenagens de sempre.
Mencionar “Pinturicchio” não é articular realidade, nem sofrimento, nem resultados. Os muitos golos que marca, são apenas mais um detalhe, como os atilhos nas meias. Falar de Del Piero é sinónimo de sonhos, imaginação, criatividade, de arte! Do prazer que podemos encontrar no futebol. Quando desfila pelos relvados, parece que o faz em câmara lenta num gesto de generosidade. A sua personalidade, de tão nobre e clássica, não lhe permitiu ser irreverente o suficiente para ser Imortal, para ser um Deus, tão pouco um génio. Um génio a sério, não como aqueles que aparecem todos os dias...
Mas permitiu ao futebol se tornar um lugar mais belo...

domingo, 7 de outubro de 2007

União de Leiria 1-2 Benfica: Impressões imediatas

1. O Benfica continua sem jogar nada. Futebol é mentira... Camacho irrita-se até se lhe disserem que está despenteado. Sou da opinião de que devia estar mais preocupado com o pouco futebol da equipa do que com jornalistas. Insiste nos dois médios-defensivos e agora adapta jogadores como se não houvesse amanhã... Nuno Assis continua a não ser opção; Gilles Binya, sim. É com força, com agressividade, com músculo que Camacho quer ganhar jogos?

2. Luisão cometeu um dos penaltys mais estúpidos de que me lembro. A sério, aquele lance demonstra tudo o que ele é: pouco ágil, lento, e com menos neurónios a funcionar que um doente em coma. Valeu-lhe a vista grossa do árbitro. A bola vai para a linha de fundo; a equipa do Leiria está recuada. João Paulo, que não é rápido, ganha a posição e chegaria, certamente, primeiro à bola do que o central brasileiro. Mas, além da recuperação de bola, os leirienses não tirariam outro proveito do lance. Luisão, talvez indignado por lhe terem postos as debilidades a nu, resolveu disputar o lance com ferocidade. Esqueceu-se que, entretanto, passava pela grande área. Resumindo: para ganhar uma bola inútil, arriscou disputar um lance na área e fez penalty. Ninguém tem o número do Dunga? Gostava de saber se, pagando mais do que o Luisão, ele também me convoca para a selecção.

3. Binya é mau. "Quem?" - pergunta o leitor distraído. Bynia, o novo médio-centro camaronês do Benfica. Há quem diga que também é jogador de futebol, mas aguardo confirmação. Corre que se farta, é certo. Também bate nos outros, o que é capaz de intimidar. E aquele cabelo é sempre significado de um talento à solta. Só é pena é pensar menos que o Luisão. Aliás, imagino que no balneário estes dois se engatem várias vezes à porrada e digam coisas como: "Esse neurónio é meu, pá!" Agora a sério, o rapaz tem vontade. Mas com vontade há muita gente. Eu sei que sou um bocado esquisito, mas numa equipa de futebol gosto que haja jogadores de futebol. Tem uma virtude: consegue fazer lançamentos de lateral muito longos. É pena é que o futebol se jogue com os pés e se pense com a cabeça. Se por algum azar, contudo, o futebol passar a ser um jogo em que ganha aquele que atirar mais longe a bola com os braços, hei-de lembrar-me deste tipo.

4. Rui Costa começa a abrandar de ritmo. Depois de ter começado a época em grande, parece mais desgastado e está menos em jogo. A sua posição no terreno terá muito a ver com isto. Mas terá ainda mais a ver, com certeza, com a qualidade dos colegas de sector. Deve custar muito a alguém como ele ter de jogar com alguém como o Binya quando está o Nuno Assis no banco. Imagino até que, durante muitas vezes, Rui Costa tem vontade de fazer um passe a rasgar para o banco de suplentes.

5. Podem dizer: "O Porto também não está a jogar nada." Sim, podem. Sou o primeiro a dizê-lo, até. Mas uma coisa é certa: sem um futebol agradável, sem jogar em apoios, ainda que efectuando transições demasiado rápidas, ainda que com processos pouco elaborados, a equipa está devidamente organizada. E a organização táctica é meio caminho para a equipa produzir bom futebol. E, nisso, o Porto está a quilómetros do Benfica...

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

É assim o futebol...

1. O Porto, sem jogar patavina, marcou no último minuto dos descontos, depois de um balão de Leandro Lima, de uma assistência sem querer de Lucho Gonzalez e de um remate que só passa por baixo do guardião turco porque Quaresma falha a bola. A jogada que deu a vitória dos Dragões ante o Besiktas ilustra aquilo que tem sido a época da equipa comandada por Jesualdo Ferreira: pouco futebol, muita trapalhada, Quaresma e Lisandro, à vez, a resolver os jogos, e muita, muita sorte. Sem jogar rigorosamente nada (tendo o único mérito de ser uma equipa bem organizada em termos posicionais), o Porto soma 6 vitórias em 6 jogos no campeonato e 1 vitória e 1 empate na Champions. A taça da Liga não conta, pois a equipa era outra. Mas dessas vitórias, além da de ontem, fica a impressão de que tudo tem sido conseguido aos trambolhões. Duas bolas paradas em Braga, um lance mal ajuizado frente ao Sporting, etc...

2. O Benfica é o que é: um clube sem rumo. Má gestão desportiva dá nisto e Camacho lá vai ajudando, remando em círculos. O Benfica não joga nada à bola e Camacho continua a orientar as explicações dos insucessos para as falhas na concretização. Ontem, criou 2 ou 3 oportunidades. Muito pouco para aquela que é, supostamente, a segunda equipa mais forte do grupo. O Shaktar veio a Lisboa jogar à bola; o Benfica fiou-se na virgem e continua a fiar-se em Rui Costa. É muito mau sinal quando uma equipa grande depende de um jogador de 35 anos. Os dois médios-defensivos de Camacho já mostraram que não funcionam. É hora de começar a jogar ao ataque.

3. O Sporting faz a pior exibição da época e ganha. O futebol é isto mesmo. Desorganizado defensivamente, sem conseguir ligar o seu jogo e acabando por apostar num futebol demasiado directo, a equipa não soube aproveitar as fragilidades do Dinamo de Kiev. Defensivamente, os ucranianos eram fracos, mas o Sporting raramente soube controlar o jogo ou aproveitar os espaços entre linhas. A defender, Miguel Veloso esteve distraído, para não dizer pior. Ocupou mal os espaços e abriu buracos inadmissíveis. Até Polga tremeu, errando aqui e ali. Valeu Stojkovic por duas vezes, ainda que tenha estado mal noutras duas. Fica para a história a vitória e os três pontos, mas uma exibição pálida e, acima de tudo, pouco adulta.

É assim o futebol: nem sempre quando se joga bem é que se ganha. Vejamos o que fazem hoje as equipas portuguesas na UEFA. À partida, o Braga tem a tarefa mais fácil. O Leiria terá de marcar dois golos e não sofrer, o que não é fácil. O Belenenses pode até marcar, mas terá dificuldades em suster o ataque do Bayern. Quanto ao Paços, nada feito; será quase impossível virar a eliminatória ante o AZ Alkmaar.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Primeira Vaga

Assisti este Sábado à primeira parte do Roma-Inter e o pensamento de que não me consegui livrar até agora foi: o futebol italiano está vivo! Finalmente, creio que é possível dizer que se respira outra vez em Itália. Terão sido inúmeras as razões, mas a verdade é que o futebol em terras transalpinas está no início de um novo ciclo. Terá sido os muitos anos que a selecção italiana passou sem ganhar nada; terá sido o gradual decréscimo de qualidade do campeonato italiano em comparação com o inglês e com o espanhol; terá sido a escassez de títulos europeus das equipas italianas nos último dez anos; terá sido o desânimo causado pela pobreza do jogo; terá sido um conjunto de reflexões e tomadas de consciência dos quais a conquista do último campeonato do mundo e o escândalo do "Calciocaos" foram a confirmação; terá sido, enfim, a própria evolução normal das coisas, que sempre impõe mudanças.

O que é certo é que o futebol italiano está no início de uma nova vida. Ainda encolhido, começa a desabrochar e os primeiros títulos já apareceram. Carlo Ancelotti terá sido o pioneiro. A aposta que o Milan fez num treinador de uma geração mais nova teve e continua a ter os seus frutos. Livre dos vícios do Catennacio, Ancelotti implementou um 442 losango baseando o seu jogo numa mentalidade mais ofensiva e em transições mais pausadas do que era normal no futebol italiano. Ao contrário do estilo italiano clássico, com dois blocos bem distintos, um composto por 7 ou 8 jogadores, com preocupações meramente defensivas, outro por 2 ou 3 com preocupações meramente ofensivas, Ancelotti construiu uma equipa que joga em bloco, que pressiona altíssimo e que oscila entre um futebol de passe curto e certo, contido, e transições rápidas. A própria filosofia italiana implicava que as equipas não jogassem de outro modo que não num futebol excessivamente directo, tendo o bloco defensivo a missão de recuperar a bola e de lançar o bloco ofensivo o mais rápido e cirurgicamente possível. Perante os tempos modernos, em que as equipas de topo da Europa já defendem e atacam como um todo, um sistema como este, em que uns servem para defender e outros para atacar, só poderia estar caducado. Ancelotti, em Itália, terá sido o primeiro a perceber isso e o esquema táctico que preferiu não deixa de ser revelador. Um 442 losango nunca seria uma táctica para jogar à "italiana". Um esquema como este é sempre um esquema de toque curto. Quem o utiliza, privilegia a segurança no passe, a posse de bola, o ataque pensado e trabalhado, etc. Mesmo quando a equipa precisa de esticar o jogo, não o faz de qualquer maneira. O único jogador que tem ordem para alongar o modo de jogar do Milan é Pirlo. Não se vê nenhum dos defesas a fazer lançamentos para os avançados; não se vêm nenhum dos interiores a procurar passes de ruptura. Isso fica a cargo de Pirlo. É dele a responsabilidade de gerir a velocidade das transições.

Embora no Milan já não se jogue à "italiana" há alguns anos, noutros clubes essa mentalidade manteve-se até há bem pouco tempo. Relembro sem saudades como Capello na Juventus foi eliminado nos quartos-de-final da Liga dos Campeões pelo Liverpool em 2004/2005. Depois de perder em Anfield por 2-1, precisava apenas de marcar um golo e não sofrer. Demasiado preocupado em não modificar os princípios que afinal lhe tinham valido um currículo invejável, apostou num futebol directo, de teor defensivo, que colhe os principais frutos através do aproveitamento dos erros dos adversários. A precisar de ganhar, Capello insistiu num futebol que só pode ser proveitoso se a equipa adversária quiser atacar, coisa que o Liverpool não queria, pois estava em vantagem. Foi sofrível ver o pobre Ibrahimovic a ser solicitado com passes de 50 metros a toda a hora. E nem nos minutos finais Capello mudou a sua forma de jogar. Isso custou-lhe a eliminatória e foi para mim o retrato perfeito daquilo em que o futebol italiano se tinha tornado: uma míriade de princípios inflexíveis completamente obsoletos. Nem a precisar urgentemente de marcar um golo as equipas italianas abdicavam da sua organização defensiva!

O futebol italiano, aquele que tinha por corolário defender e esperar que a sorte lhe sorrisse, só poderia ter os dias contados. Para minha grande satisfação, esse futebol italiano está em declínio e surge agora um novo futebol italiano. Alheio a esse facto não será, certamente, a juventude dos treinadores das principais equipas italianas. À excepção de Claudio Ranieri, os outros são treinadores jovens, da geração de Ancelotti. Luciano Spalletti e Mancini, como Ancelotti, tendo ainda crescido à sombra do Catennacio, estão numa fase ainda de maturação de ideias enquanto treinadores. E desse processo constará evidentemente a necessidade de fugir ao estilo italiano clássico, por tudo o que foi aqui explicado. É a juventude destes treinadores que lhes permite perceber que o futebol em Itália precisa de novo fôlego e que os princípios cimentados nos últimos trinta anos não chegam para fazer frente às necessidades modernas. Como tal, nem o futebol de Mancini, nem o futebol de Spalletti radicam no esquema dos dois blocos bem definidos e com funções distintas. As suas equipas jogam em bloco, atacam de forma organizada e através de um futebol curto, de triangulações, tabelas, etc. Nenhuma destas equipas aposta num futebol directo, a explorar a inspiração dos avançados. Mesmo em contra-ataque, as transições são faseadas. Raramente se vê um passe vertical de 50 metros. Em situações de aperto defensivo, há sempre a preocupação de sair a jogar, de não perder a posse de bola com pontapés disparatados. Apesar de ter havido apenas um golo de penalty, foram os melhores 45 minutos de futebol italiano que vi nos últimos anos.

Confesso que ainda não vi a selecção de Donadoni a jogar, mas o facto de se tratar de outro treinador da mesma geração deixa-me confiante. O futebol italiano está assim numa primeira fase de reconstrução. É importante, nesta fase, perceber principalmente quais as necessidades do mesmo. Spalletti e Mancini, como Ancelotti primeiro, parecem já tê-las percebido e sintoma disso é a filosofia de jogo das suas equipas. Apesar de tudo, e porque afinal foram educados à "italiana", estes treinadores ainda guardam vícios residuais. As preocupações defensivas ainda são excessivas e enquanto o forem o espectáculo, conquanto melhor, nunca será óptimo. Tanto Spaletti como Mancini não abdicam de uma dupla de médios defensivos, deixando a cargo apenas de um homem o meio-campo ofensivo. No caso de Spalletti, a coisa é ainda mais gritante: ainda que a sua filosofia seja mais condizente com o futebol actual, as suas opções são por jogadores que lhe dêem garantias defensivas. No meio-campo, o organizador de jogo é Perrotta, um médio de características mais defensivas. O avançado é Totti, que por natureza é um médio ofensivo. Spalletti, como Mancini, não abdica de alguma segurança defensiva em excesso, o que, em abono da verdade, é contraditório com a filosofia atacante que perceberam necessária. Mesmo Ancelotti, apesar de utilizar apenas um médio defensivo, opta por dois médios interiores que lhe garantam sobretudo uma correcta ocupação de espaços defensivos e muita dedicação na recuperação da bola, o que acaba por impedir que o Milan, em muitas fases do jogo, e sobretudo se pressionado, tenha qualidade para sair correctamente para o ataque.

Diga-se, pois, como conclusão, que o futebol italiano está no início de uma nova era. Não é alheio a esse facto a jovem geração de treinadores que comanda as equipas de topo em Itália. Mas esta é ainda uma primeira vaga. Espera-se que esta evolução não fique por aqui e que a próxima geração de treinadores tenha ainda mais coragem do que esta. Há todo um caminho ainda a percorrer e só ainda foram dados os primeiros passos. É necessário continuar a acreditar que o que nos foi ensinado ao longo da vida não é certo e que há que experimentar novas propostas. O futebol agradece!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Equipa de Sonho

Pus-me a pensar nos jogadores que, actualmente, formariam a equipa mais forte do mundo e deu nisto:

Guarda-Redes: Gianluigi Buffon
Defesa Direito: Daniel Alves
Defesa Esquerdo: Philipp Lahm
Defesas Centrais: Ricardo Carvalho e Anderson Polga
Médio Defensivo: Andrea Pirlo
Médios Ofensivos: Cesc Fabregas e Kaká
Extremos: Lionel Messi e Cristiano Ronaldo
Avançado: Zlatan Ibrahimovic

Esta seria a minha equipa de sonho. Qual é a tua?

domingo, 30 de setembro de 2007

Dúvida do Mês e Piada Fraquinha

1. Não dá mesmo para naturalizar o Polga?

2. Em estágio, enquanto almoçam, conversa entre Paulo Bento e Pedro Barbosa.
Bento: A comida está um bocado ensossa!
Barbosa: Queres o saleiro?
Bento: Não preciso. Tenho o Liedson...

Curtas da Taça da Liga e da Jornada 6 da Superliga

Curtas da Taça da Liga, por Gonçalo:

1. Duas coisas que o Fátima tem melhor que o Sporting: o relvado e o ponta-de-lança.

2. Jesualdo diz que é preciso ter cuidado com o Fátima, recorda o desaire ante o Atlético e depois apresenta uma equipa integralmente diferente da equipa principal. Ou não queria mesmo ganhar, ou tem memória de peixe-balão.

Curtas da Jornada 6 da Superliga, por Nuno:

3. Sem exagerar rigorosamente nada, Romagnoli faz mais cuecas por jogo do que Liedson acerta passes em 90 minutos.

4. Camacho falava a sério quando disse que queria um dos três primeiros lugares. Mal colocado na liga, a jogar em casa, não arrisca um milímetro e troca jogador por jogador. Para quem ambiciona um dos três primeiros lugares, sem dúvida que é bom empatar em casa com uma equipa que ambiciona o primeiro.

5. Jaime Pacheco, no final do derby da Invicta, disse que já viu antigos campeões europeus jogar no Dragão mais à defesa que o Boavista. Mas disse mais: disse que o seu plano foi - e passo a citar - "jogámos no sistema habitual, o 4x3x3, e tentámos que quando o F.C. Porto saísse para o ataque o Edgar marcasse o Paulo Assunção, tentando com isso ganhar superioridade no meio-campo, porque o Fleurival marcava Raul Meireles, o Diakité marcava o Lucho e o Jorge Ribeiro ficava livre." Justificou depois a má primeira parte dizendo que o problema foi que - e volto a citar - "demos muito espaço, fizemos marcações a quilómetros, não a centímetros." Coisas que Jaime Pacheco não sabe: 1) Não sabe que provocar José Mourinho, por si só, é estúpido. 2) Não sabe que provocar José Mourinho, quando se treina o Boavista, é ainda mais estúpido. 3) Não sabe que provocar José Mourinho na semana em que este ganhou mais dinheiro num dia do que Jaime Pacheco em 70 vidas, é um pouco mais estúpido ainda. 4) Não sabe que provocar José Mourinho, alegando que não jogou à defesa, mas declarando que o seu plano era fazer marcações individuais a todos os jogadores do adversário, é das coisas mais estúpidas que se podem dizer. 5) Não sabe que, ao justificar a derrota confessando erros nos processos defensivos, é sintoma de que só pensou em defender. 6) Não sabe o que é um 4x3x3. 7) Não sabe que, não tendo condições para se armar em bom, deveria ser humilde.

6. Neste artigo, lê-se a seguinte conclusão: Com Pedro Henriques, está aberto caminho para um «derby» sem casos. Tiro em cheio: porta-aviões ao fundo. À margem da má arbitragem deste Sábado, discordo dos argumentos que são utilizados a favor do tipo de arbitragem de Pedro Henriques. Estou à vontade para fazê-lo, sem que pareça que o faço no momento conveniente, ou seja, depois do descalabro de ontem, porque sempre fui contra o estilo de apitar inglês, como o escrevi aqui, e tinha inclusivamente um texto sobre o tema preparado antes do jogo de ontem, precisamente em resposta ao dito artigo, e que só por manifesta falta de tempo não pude publicar. Adiante. Diz-se que "defende o espectáculo em detrimento do jogo mastigado por constantes interrupções". Mas quem é ele para decidir se o jogo tem constantes interrupções? Se há faltas, ele está lá para as marcar. Não tem autoridade para infringir as regras em favor de um jogo menos "mastigado por constantes interrupções". E defende o espectáculo como? Permitindo que a força tenha mais poder que a técnica? Que espectáculo é que ele defende? Futebol não é, de certeza. E defender o espectáculo não deveria ser sinónimo de defender os artistas? E é permitindo que os brutos, os que não têm habilidade nem inteligência, se equiparem aos talentosos que ele defende os artistas? Ao contrário, portanto, do título do artigo, Pedro Henriques era uma escolha contornável.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O meu ódio de estimação...

10 razões que me levam a odiar o Liedson:



1ª - Corta mais jogadas de ataque da sua equipa que a equipa adversária.

2ª - Tem quase tantos golos em 4 épocas e meia como foras-de-jogo num só jogo.

3ª- É BURRO!

4ª - Consegue "cavar" tantos amarelos para a equipa adversária como para a sua própria equipa.

5ª - Joga no meu clube.

6ª - É BURRO!

7ª - Foi o primeiro jogador a iludir um país inteiro. Sendo esforçado conseguiu convencer toda a gente que trabalhava muito. ( este ponto não sei se é da inteira responsabilidade dele...)

8º - Perde mais tempo a chatear os colegas de equipa quando estes não lhe endossam o esférico do que a festejar golos.

9º- Ainda não teve uma lesão desde que chegou ao Sporting
.
10º - Levezinho? Que alcunha mais amaricada de se ter...

Opções...

Ver um jogo de futebol ao vivo é fantástico. Não só pelo espectáculo por si só, mas também por outros motivos. Um deles é a oportunidade de ouvir belas pérolas ao vivo.

Num desses momentos ouvi um adepto mais exaltado gritar a plenos pulmões para o Polga, depois de este ajuizar mal um lance – coisa rara -: “ Não penses! Joga logo a bola!”. O que nos remete para a seguinte dúvida: O que é que faz deste campeão do mundo um central de méritos reconhecidos? Será a sua dureza? A sua impetuosidade? Não! A sua capacidade de analisar as movimentações adversárias, aliada ao seu jogo posicional, permite-lhe vencer maior parte dos duelos. Mais, o facto de ser inteligente, ou seja, o facto de pensar, e bem, permite-lhe ser um elemento importante na definição dos processos ofensivos da sua equipa, falo obviamente numa fase inicial mas que não é tão irrelevante quanto isso. Polga percebe de uma forma excepcional a verdadeira função do processo defensivo. Recuperar a posse da bola, não cortar a bola de qualquer forma. Recuperar a posse de bola, não desfazer-se dela, terá de ser sempre o principal objectivo deste processo.

Num raro momento de silêncio surge a plenos pulmões outra afirmação deliciosa, neste caso tendo como alvo o Miguel Veloso depois de este perder o esférico ao tentar driblar dois adversários: “ Não inventes!”. Não inventes? Então mas será que percebem a razão pela qual este miúdo se destaca? Pedir ao Miguel Veloso para não ser criativo nos seus processos é tão estúpido como convidar a Soraia Chaves para gravar um filme e não lhe exigir que faça nus.

E a partir desta parvoíce podemos perceber um erro comum de muita gente, pior ainda se no meio desta multidão incluirmos muitas pessoas com responsabilidades na definição do curso futebolístico de várias equipas.

Falo dos erros cometidos por directores e técnicos que na prospecção de talentos e reforços para as respectivas equipas apenas consideram índices físicos, ignorando os aspectos intelectuais. Deslumbrando-se preferencialmente com exibições mais exuberantes, preferindo a forma à essência, cometem-se erros atrás de erros na aquisição de jogadores. Jogadores que se destacam devido às suas características físico/atléticas (Luisão, Petit; Paredes, Liedson; João Paulo, P. Emanuel) são sempre um grande risco. Sempre demasiado dependentes de factores externos, para além do seu momento de forma, quando este não lhe é favorável o seu desempenho, na melhor das hipóteses é inócuo. Ao invés jogadores que se sobressaem pelas características intelectuais (Polga, Miguel Veloso, Custódio, Romagnoli; Nuno Gomes, Nuno Assis; Postiga, Fucile, Lucho) destacam-se não só pela sustentabilidade das suas exibições, como pela facilidade com que se adaptam a novos modelos, pois conseguem compreender as necessidades que cada modelo de jogo e sua filosofia exigem. Contudo são apenas homens e neste caso, enquanto jogadores, dependem sempre do coeficiente de inteligência dos treinadores que os orientam. Por aqui, por exemplo, se pode explicar porque razão o Assis não se impõe definitivamente no Benfica.

É verdade que este tipo de jogadores nem sempre obterá o retorno das suas virtudes da parte do público, tão pouco dos respectivos técnicos. Vejam a quantidade de jogadores que privilegiando a força bruta e descontrolada são beneficiados perante os que assentam o seu futebol num numero considerável de neurónios, poucos são os que darão preferência ao Custódio, se puderem escolher o Petit, ou então quem é que optará pelo Nuno Gomes com o Liedson no mesmo plantel?

Porém este facto ainda é mais nocivo no futebol de formação. Aqui muitos clubes ignorando a sua principal função, a formação de jogadores, optam por obter resultados fáceis e imediatos. Por outras palavras, optam por jogadores que se destacam pela força, velocidade, e qualidade técnica, em vez de promoverem aqueles que tem na sua capacidade de decisão e respectiva leitura dos lances as suas principais características. Não estou a dizer que devemos ignorar os outros factores, nada disso, apenas defendo que jogadores que sejam seleccionados pelos factores físicos, serão sempre mais difíceis de imiscuir no futebol sénior, onde o físico perde um estatuto determinante para se conseguir justificar a sua utilidade. Ser forte, rápido, e bom no um para um, é sempre relativo ao nível de exigência onde se encontram, agora uma boa opção é sempre uma boa opção...

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Papa-Açorda

Não sei de onde veio, mas foi sugerido por um repórter, há uns dias, uma possível saída de Liedson para o estrangeiro. Queria saber o repórter o que achava Liedson dessa hipótese, caso surgisse. A resposta do "levezinho" foi pronta. Gostaria muito, como qualquer jogador, de representar um grande clube europeu, mas para já estava de corpo e alma no Sporting. Fiquei a pensar nisto e cruzei esta informação com a de há uns anos, quando se dizia que Liedson sairia para Itália. Ficou-me na cabeça a possibilidade de Liedson ir jogar para a Juventus. Sorri ante a possibilidade e imaginei as maiores contradições possíveis. Se o futebol italiano fosse comida, era uma pizza, com as diferentes camadas bem distintas, a massa, o tomate e o queijo dispostos com exactidão, desenhada com a arte de um grande chefe. Podia também ser uma lasanha, com uma camada de carne e outra de massa, uma de carne e outra de massa. Tudo organizadinho. O futebol de Liedson, quando muito, é uma açorda. E, desculpem o cepticismo, não estou a ver italianos a comer açorda. Naquele rigor militar, naquela febre posicional em que são obrigados a viver, a estroinice táctica de Liedson impacientaria-os logo no primeiro jogo. Aliás, que tipo de diálogo poderia ter um Del Piero para com Liedson? "Pá, ó saltitão, pára lá quieto! Para que é que vens ter comigo quando estamos três para um e tens espaço para te desmarcares?" Ou então: "Ó saguim, para fazer coisas giras com a bola estou cá eu e o Nedved e para defender temos... como é que se chamam aqueles gajos?... ah, os defesas, é isso... Por isso, vai lá para a tua posição, que esta merda joga-se com 11 jogadores e que eu saiba o Buffon ainda não se aleijou." Ao que Liedson responderia: "Oi? Cê não pode falar em brasileiro? Não estou entendendo! Está muita gente no estádio gritando e só estou ouvindo isso: "Va fancullo! Va fancullo!"

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Finalmente, algo acertado...

Da mesma maneira que critiquei o senhor Luis Sobral pelas incontáveis asneiras que disse, saúdo agora este artigo da autoria da mesma pessoa. Sobral condena a autoridade excessiva dos árbtiros portugueses e não compreende admoestações por protestos. Abraço esta incompreensão. Protestar é uma manifestação emocional. Só isso. Os jogadores deveriam ter toda a liberdade para o fazer, como têm liberdade para manifestar alegria quando marcam um golo. Dir-me-ão que os jogadores devem respeitar quem decide. Sim, devem. Mas é o protesto uma demonstração de desrespeito? Desrespeita quem protesta a decisão do árbitro ou a pessoa em si? Árbitros que punem protestos não estão a punir o desrespeito. Punem a liberdade de expressão e protegem a sua autoridade. O que não sabem é que a autoridade não se protege com punições, mas com carácter. Os árbitros ingleses raramente punem protestos. Muitas vezes, até entram nos protestos, debatendo efusivamente com o jogador o lance em questão. Esses árbitros têm carácter. Não se fazem valer da autoridade que lhes é concedida para se mostrarem superiores. À excepção de insultos directos, os árbitros nem sequer deveriam ter direito de admoestar os jogadores. Deveriam estar expressamente recomendados a não o fazer, a bem de um futebol mais democrático. Talvez, assim, jogadores com a pureza de Pedro Barbosa ou Rui Jorge não fossem dos jogadores mais expulsos de sempre do campeonato português. Mas é claro que haverá sempre Coroados a dizer que os Cannigias disseram coisas contra a sua pessoa, ainda que as imagens provem que os atletas não disseram nada...

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Quem semeia ventos...

Admito que não seja um mal exclusivo do futebol nacional, mas como é a única realidade que conheço é sobre esta que vai recair a minha crítica. E o meu pretexto para tal baseia-se na recente "chicotada" que se deu no carismático clube de Alcântara, o Atlético. A vítima foi Jorge Paixão. Para muitos será um nome desconhecido, até porque para a história não terá ainda contribuído com nada de extraordinário. Mas quem conhece a fundo o futebol portguês já o conhece pelo trabalho desenvolvido em várias equipas com excelentes desempenhos na 3 Nacional, e 2b. Todavia, na semana passada depois de ser vaiado pelos adeptos do clube que representava - apenas alcançou dois pontos em três jornadas - optou por rescindir, justificando que as mentalidades dos adeptos não se coadunam com a sua filosofia de jogo.

E este acontecimento é o meu ponto de partida para explicar o crescente divórcio entre o futebol e adeptos.
Mais do que vítima do mau futebol que se pratica, o adepto, grande parte deles, é, a par dos dirigentes, o réu. No final do jogo apenas interessa a vitória, mesmo que nem percebam muito bem como esse objectivo foi atingido. Por isso, se o futebol é cada vez menos atractivo, e estimulante, isso é uma consequência da estupidez, e impaciência, dos adeptos. A sua perspicácia não lhes permite vislumbrar as consequências das suas exigências. Fossem mais exigentes com o trabalho desenvolvido, ou seja, a essência, e os resultados, na pior das hipóteses a médio prazo, surgiriam sob uma forma muito mais aprazível. Não se trata de subtrair importância aos resultados, é exactamente o oposto. Por estes assumirem um papel tão importante neste desporto devemos optar sempre pela forma mais segura e sustentada de os conseguir, isto é, jogando bem.
Jogar bem é muito mais difícil do que jogar mal. O trabalho levado a cabo para atingir esse fim é sem dúvida mais complexo. Portanto, sendo o objectivo mais ambicioso e ousado, por vezes a curto prazo os resultados não serão tão felizes como numa equipa que tendo objectivos mais "pobres" facilmente se consegue apresentar na sua plenitude. Contudo, essas mesma equipas acabam por encontrar na estagnação, inerente ao seu modelo, a sua maior derrota. Ou seja, quando os resultados, e a sorte, não acompanham as equipas que assentam o seu futebol neste modelo é o fim da linha. Sem qualquer possibilidade de evoluir, encontram um fim triste. O paradigma disto é nossa conhecida Grécia. Enquanto tiveram ( muita) sorte do lado dela conseguiram um título de campeão europeu, mas passados dois anos, e com um grupo extremamente acessível, não se conseguiram qualificar para o Mundial.
O mesmo se pode encontrar todos os anos na nossa liga. Equipas que depois de um ano em que conseguem bons resultados, no ano seguinte, e sem uma explicação aparente, tem participações desoladoras. E assim vai continuar a acontecer, enquanto não se perceber que para desenvolver um trabalho de qualidade e que garanta estabilidade, e os respectivos resultados, é necessário sapiência e uma nova filosofia dos que estão relacionados com este desporto.

Treinadores como Carvalhal, Jesus, Cajuda, e pelo que tem demonstrado Lazaroni, ( já nem vou falar do Paulo Bento porque parece demasiado óbvia a qualidade do mesmo) podem acrescentar qualidade ao nosso futebol, desde que lhes sejam proporcionadas as condições para tal efeito. Se bem que na pior das hipóteses poderemos sempre recorrer ao Carlos Cardoso...

sábado, 8 de setembro de 2007

Responsabilidade...

Eis o que parece não ter o Editor-chefe do jornal desportivo Record. Pelo menos a avaliar pela sua página no mesmo diário desportivo, intitulada " OFF-SIDE". E não digo isto porque me apetece. Digo-o porque na edição de sexta-feira, dia 7 de Setembro, deste mesmo jornal, Luís Pedro Sousa mo demonstra de forma inequívoca.

No primeiro ponto visa Paulo Bento, e o "erro" que é o seu losango. Defende que o Sporting tem motivos de preocupação pela exibição frente ao Beleneses. Eu até aceitaria que ele partilhasse desse sofisma, mas esperava que ele o defendesse convenientemente. Ao invés, resolveu aproveitar a boleia do Rui Santos e foi apenas pateta. A forma ingénua - sim, vou optar por ser subtil - como interpreta o futebol é deliciosa. Comete um erro comum, e que em circunstâncias normais até seria admissível, mas, tratando-se de alguém com tanta responsabilidade num veículo informativo com a importância que o jornal em questão detém no panorama nacional penso que é lamentável.
Falo do erro de assumir o futebol como xadrez, como algo sem dinâmica nas suas peças. E até mesmo nestas seria errado preconizar esta perspectiva. Quando de uma forma displicente ele "resolve" os problemas do Sporting com a inclusão de extremos, e responsabiliza os empates consentidos a época passada, pela falta dos mesmos só podemos rir. Na época transacta a táctica foi sempre esta, a única coisa que foi alterando foram os seus intérpretes. E aqui sim se explica alguns resultados menos positivos, para além dos factores mais " banais", como o fraco indíce finalizador, etc. A táctica foi a mesma, do inicio da época, até ao fim. Ou seja desde o periodo mais "infeliz", até ao periodo em que o clube de Alvalade se revelou insuperável.

Partir do princípio que uma táctica que não tem extremos está privada de aproveitar as faixas laterais é irresponsável. Creio que na mente das pessoas que defendem esta ideia basta colocar os jogadores na linha para, imediatamente, e por magia, o jogo se desobstruir e começar a fluir pelas linhas, qual rio que desagua no mar. Por isso quando vêem um sistema que não apresente extremos ou médios-alas o seu poder de sintese leva-os a crer que a equipa em questão despreza a opção de jogar pelas alas. Nada mais errado. A mobilidade e os processos assimilados pela equipa, estes sim, é que definem e caracterizam o futebol desenvolvido pela mesma. Assumir que só porque no desenho não está ninguém numa determindada zona do campo esses terrenos vão ser ignorados é estúpido. As oscilações inerentes ao jogo, por si só, provam isso mesmo. Seja o lateral, o interior, o "numero dez", ou o avançado, a um deles, ou mais, caberá sempre a responsabilidade de explanar o jogo da sua equipa por essa zona do terreno, consoante o definido.

Mais à frente ele diz que o Sporting está a perder o fulgor do início de época, e aqui eu tenho de pedir a alguém que o conheça pessoalmente para lhe avisar que o Porto foi campeão o ano passado, que o Sporting venceu a taça de Portugal, que este ano venceu a supertaça, que entretanto ja decorreram três eliminatórias da taça da liga, etc... O Sporting começa a perder fulgor? Esta época? Qual fulgor?

Segue-se Vieirinha e dá a entender que este, para já, dá mais garantias que Tarik e o Mariano. Não renego as qualidades técnicas deste miudo, todavia, os outros dois também as possuem, e pelo menos são mais experientes. Não percebo como é que este pode revolucionar o jogo de uma maneira que os outros não o possam fazer. Mais, nem considero Vieirinha como sendo uma grande promessa. Ele, assim como Bruno Gama, apesar de lhe ser concedida uma maior montra por parte da comunicação social do que ao Hélder Barbosa - um pouco por causa da lesão, bem sei - está a anos luz deste. Não é tão forte no um para um como o jogador da Académica, nem possui a lucidez deste na hora de definir as suas opções.

Este é o tipo de pessoas que não perecebe o porquê do Carlos Martins, o ano passado, e o Vukcevic este ano, neste sitema - 442 losango - não actuar como numero dez. Um jogador com as caractrísticas deles, ao contrário do que muita gente pensa, neste sistema é aproveitado de uma forma mais eficaz como interior. Porque ao vértice mais adiantado, mais do que "pautar", transportar o jogo da sua equipa, como é pedido ao trinco numa primeira fase, e aos interiores numa fase posterior, pede-se que provoque os desiquílbrios através da sua movimentação.
Contem as vezes em que Romagnoli vem "buscar" jogo. Poucas, muito poucas. Não quer isto dizer que o médio argentino se esconda, mas se ele recuasse à procura da bola, para além de concentrar demasiados jogadores nessa zona (meio-campo defensivo) congestionando as linhas de passe, acabaria por privar a equipa dos espaços e opções que a sua movimentação, geralmente entre o lateral e o central da equipa adversária, proporciona. Essa movimentação não só é necessaria para ele encontrar espaço para poder desenvolver o seu futebol, como para criar linhas de passe para os seus colegas, sendo este factor tão importante como o primeiro.

E este facto leva-nos de encontro a outro erro comum. A responsabilzação imputada ao interiores quando estes muitas vezes não estão em jogo. Ou porque a equipa não jogou bem porque se esconderam, ou porque a equipa abusou em demasia do passe longo, sendo esta então ridícula, se tivermos em conta que muitas vezes os responsáveis pelos lançamentos são os defesas. Incapazes de se aperceberem da sua movimentação em prol do colectivo, o espectador comum, e infelizmente o jornalista desportivo também, criticam, muitas vezes de forma errada, estes jogadores quando as circunstâncias não lhes permitem ter tanta visibilidade.
No caso do Sporting o paradigma disso mesmo sucedeu no jogo da supertaça. Do russo Izmailov escreveu-se e disse-se que não fora o golo e o russo teria passado ao lado do jogo, ignorando a sua movimentação tanto no plano ofensivo, como defensivo, não percebendo assim que o mérito do golo não se esgota no fantástico pontapé. Não fosse a sua inteligência táctica lhe permitir o bom posicionamento, de certo que o golo, pelo menos aquele, não teria surgido. E não só. Neste início de época o Sporting passa muito por aproveitar a movimentação do Romagnoli, dai a ser muito importante a movimentação sem bola concertada entre os médios interiores e o "dez". São muitas vezes os interiores os responsáveis pelo deslocamento do lateral adversário para assim promover a entrada do médio argentino nas costas dos mesmo, criando ( ou tentando) assim uma situação de desiquilíbrio junto da área adversária. Este facto leva a que o jogo não passe pelos interiores nestas situações, sendo os laterais que lançam o Romagnoli.

Eu admito que todos erramos, e que o senhor Luís Pedro Sousa também tem direito a faze-lo, apenas esperava que defendesse os seus erros de uma forma mais lúcida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Han?????

Encontro, para meu grande espanto, este artigo, no qual a Comissão de Arbitragem da Liga dá razão a Pedro Proença no muito badalado caso do atraso de Polga para Stojkovic. Entre outras coisas, retiro isto:

""Ao contrário do que foi veiculado em diversos meios de informação, se um defensor efectua um pontapé que leve a bola no sentido da linha de baliza, seja esse pontapé um corte ou um passe, pode ser punido com pontapé-livre indirecto, no caso de o guarda-redes tocar a bola com as mãos", pode ler-se no comunicado assinado por Vítor Pereira, presidente da Comissão de Arbitragem da Liga."

Não estou indignado. Estou perplexo. Decidir no momento pode ser complicado e, como tal, admito o erro de interpretação do árbitro. Aceitar esse erro só pode querer dizer duas coisas: ou não se sabe interpretar um lance, ou quis-se branquear a situação. Não há mais possibilidades. Não quero aceitar a segunda hipótese, até porque não tenho como prová-la. Resta-me a primeira. E digo-o, sem rodeios: quem quer que considere aquilo um passe precisa rapidamente de um par de neurónios novos. No caso do comunicado da Comissão de Arbitragem, parece que tentaram ter razão adulterando a lei. Ou seja, agora, já não é preciso que a bola seja endossada deliberadamente: basta que o pontapé "leve a bola no sentido da linha de baliza, seja esse pontapé um corte ou um passe". O que a Comissão de Arbitragem fez é inédito: ignorou a lei oficial da FIFA e fez uma nova lei, de modo a desculpar um erro evidente. Coloco aqui a lei oficial, para que se possa comparar. O documento é este e, sobre isto, diz o seguinte na página 38:

"An indirect freekick is awarded to the opposing team if a goalkeeper, inside is own penalty area, commits any of the following four offences:"

e a terceira é:

"touches the ball with his hands after it has been deliberately kicked to him by a team-mate".

A FIFA diz, portanto, que só é punível com livre indirecto a bola que for deliberadamente pontapeada para o guarda-redes. Não podia ser mais claro. A Comissão de Arbitragem decidiu inventar uma alínea nova e dizer que, se essa bola, ainda que não tenha sido deliberadamente pontapeada, levar a direcção da linha de baliza e for agarrada pelo guarda-redes, é punível. O que se passou aqui foi, essencialmente, uma mudança de regras em favor próprio. A Comissão de Arbitragem queria desculpar Pedro Proença e mudou as regras oficiais de modo a que isso pudesse acontecer "legalmente". Eu hoje, por acaso, acordei com uma vontade enorme contradizer Newton. Diz o palerma do Isaac, na sua Lei da Gravitação Universal, que "dois objectos quaisquer se atraem gravitacionalmente por meio de uma força que depende das massas desses objectos e da distância que há entre eles." Não concordo. A partir de agora, apetece-me que a força dependa da cor dos objectos e não dessa treta da massa e da distância. Como tal, se nas Olímpiadas de Pequim um tipo, no salto em altura, fizer 210 metros, não se espantem. E não venham dizer que, no lançamento do dardo, um gajo que atinja Nova Iorque só pode estar dopado, porque isso, a partir de agora, é perfeitamente possível...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Réu inocente

Acreditem em mim: isto não é perseguição. O facto de o jogo em que ocorreu o lance de que vou falar me ter chegado comentado pelo Luis Sobral é apenas coincidência.

Ontem, o Benfica começou a construir a gorda vitória com um golo de Cardozo, depois de o pontapé de baliza batido por Diego Benaglio ter embatido no peito do paraguaio, o que o deixou isolado. Luis Sobral, o comentador de serviço, não hesitou: a culpa é do guarda-redes, que bateu mal o pontapé de baliza. Não tenho a certeza, mas creio que Luis Sobral jogou à bola, o que ainda me deixa mais perplexo. Que o comum mortal não saiba que o erro não é do guarda-redes, tudo bem. Mas alguém que praticou futebol tem de sabê-lo obrigatoriamente. Acredito que ninguém questionou a observação de Luis Sobral e que concordam que a responsabilidade do lance é de Diego Benaglio. Como tal, isto não é um ataque à pessoa que o disse, mas a um conjunto de pessoas que pensam desta maneira. Quem joga futebol deve conhecer algumas regras básicas: o homem que faz o lançamento lateral não deve levantar os calcanhares quando lança; no pontapé de baliza não há foras-de-jogo; etc. E há uma regrazinha simples que se ensina aos centrais: quando o nosso guarda-redes se apronta para bater o pontapé de baliza, os centrais devem estar imediatamente à frente dos avançados adversários, de modo a prevenir um eventual mau pontapé do guarda-redes. Perante isto, é-me fácil dizer que, embora o guarda-redes suíço não tenha batido bem o pontapé de baliza, a culpa do golo é principalmente de Ávalos, que se esqueceu que isso poderia acontecer e deixou Cardozo sozinho. Ainda que isto não se ensinasse, facilmente se percebe que um erro técnico, como um pontapé mal batido, um passe falhado, um tempo de salto mal calculado, nunca podem ser mais penalizados que as distracções. Tecnicamente, todos podem falhar. A nível de concentração é que não. É verdade que Benaglio falhou a nível técnico, como Quim, na época passada frente ao Braga, falhou ao colocar a bola ao dispor de Zé Carlos. Mas como ao guarda-redes do Benfica, ao do Nacional é permitido falhar do ponto de vista técnico. O que não é permitido é que o Petit e o Luisão estejam a dormir, como não é permitido que o Ávalos esteja a pensar em empadas e bacalhau à Gomes de Sá.

Corolário de tudo isto: Diego Benaglio foi um réu injusto da derrota da sua equipa ante o Benfica. Além de não ter culpa no lance do primeiro golo, como o quiseram fazer crer, ainda teve um punhado de boas defesas e impediu que o Nacional fosse humilhado.

Gente casmurra e mais qualquer coisa...

Não gosto de gente casmurra. Também não gosto de gente casmurra e estúpida. E ainda gosto menos de gente casmurra, estúpida e chata. Por falar em gente de quem não gosto, uma semana depois da infeliz decisão de Pedro Proença no Dragão, João Querido Manha continua a dizer que Anderson Polga atrasou deliberadamente a bola para Stojkovic. Jorge Coroado ainda lhe tentou ver que um desarme é tecnicamente diferente de um passe. Por acaso não concordo: acho, como o querido João Querido Manha, que um passe é exactamente a mesma coisa que um desarme. Argumentou Coroado que um jogador que joga a bola em esforço, tocando mesmo com o joelho no chão para o fazer, não pode nunca estar a efectuar um passe deliberado. Apesar do belo argumento do ex-árbitro, Querido Manha manteve a sua posição. "É passe, é passe, é passe." E disse mais. Disse que é possível fazerem-se passes sem se estar na posse da bola, de maneira a refutar mais um excelente argumento de Jorge Coroado. Também estou de acordo em relação a isto. Aliás, considero que só se faz um passe se não se estiver na posse da bola. Nem percebo como é que, estando na posse da bola, se pode fazer um passe. Isso é totalmente absurdo. Creio, depois disto, que todos à excepção de João Querido Manha vivem num mundo à parte. À noite, quando chegar a casa, aposto que João Querido Manha dirá à mulher, com razão, que os peixes respiram fora de água. Amanhã, quando chegar ao trabalho, contará, uma vez mais na posse de toda a razão, que viu um homem com duas cabeças.

Com pessoas casmurras, costumo agir de maneira especial. Com pessoas casmurras e que se recusam a ver o óbvio, costumo agir de maneira ainda mais especial. Ao senhor João Querido Manha queria, portanto, dizer que é uma pessoa perspicaz e que não deve ligar ao que os outros dizem. Se acha que é passe, é porque é passe. Quem sabe, sabe. E nem que toda a gente já tenha percebido que não foi passe, não desista da sua opinião. Aliás, se amanhã se lembrar que afinal se chama Napoleão Bonaparte e se a sua mulher o tratar por João, dê-lhe logo uma lambada, que é para ela aprender. Só uma perguntinha: 1 mais 1 são 3, não são?

domingo, 2 de setembro de 2007

O que eu prefiro

O que eu prefiro numa equipa:

1) Prefiro laterais lentos e fisicamente mais débeis, mas com inteligência para perceberem que o jogo interior da equipa pode passar muito pelas suas decisões. Rui Jorge não era rápido, não era habilidoso, não era alto, não era forte, mas era inteligente. E era tudo o que bastava. Um lateral que fisicamente e tecnicamente seja prodigioso, mas que insista em pôr bolas na linha e não no meio não me convence.

2) Prefiro centrais com classe, que conseguem ser bons sendo discretos. A agressividade é, muitas vezes, ilusória. Num central, a velocidade é importantíssima, pois ajuda a compensar eventuais erros posicionais. Pepe, mais do que ninguém, tem na velocidade a sua grande arma. Sem ela, não seria só banal: seria patético. Reconheço que Pepe é bom, mas só porque a sua velocidade compensa o seu mau jogo posicional e a sua fraca leitura de jogo. Interpreta mal os lances, mas recupera muito rápido. É daqueles centrais que não vai ter um final de carreira brilhante, como Maldini, Blanc, Sammer, Matthaus ou Hierro. Porquê? Porque assim que perder a velocidade (a não ser que ganhe miraculosamente a inteligência que não tem) não conseguirá parar avançados mais velozes e inteligentes. Prefiro, aos centrais agressivos, aqueles que conseguem um aproveitamento idêntico sem terem que derrubar o adversário, sem arriscarem uma falta perigosa. Prefiro aqueles que roubam a bola com elegância, como se o adversário fosse de porcelana. Prefiro esses por várias razões. Primeiro, porque não têm a necessidade de provar a ninguém que são mais fortes, que são impetuosos e que ostentam a virilidade de um gladiador: prefiro a perícia à força bruta. Segundo, prefiro-os porque é muito mais notável roubar discreta e elegantemente como um Arséne Lupin do que sacar a mala de uma velha com um puxão e fugir a correr. Terceiro, prefiro-os porque esses são os mesmos que, uma vez com a bola, não a desperdiçam com pontapés sem nexo. Prefiro pois um central com classe, com um bom sentido posicional, rápido (sobretudo a pensar) e ágil. Não me importa a agressividade, a altura, a robustez física. É por isso que não concordo com a chamada de Pepe à selecção, porque prefiro o Zé Castro. É por isso que não concordo com a chamada constante do Luisão à selecção brasileira, porque prefiro o Polga.

3) Prefiro médios-defensivos intelectuais a médios-defensivos batalhadores. Não há ninguém (ou há poucos) que não reconheça que o maior de todos os tempos foi Redondo e ainda assim gostam de jogadores que são o oposto dele. Nesta posição, gosto de jogadores mentalmente muito fortes, que gostem de sentir a bola nos pés, que tenham gozo em pautar os ritmos da equipa. Se uma equipa fosse uma orquestra, o maestro era o médio-defensivo e não o ofensivo. Prefiro, para esta posição, jogadores tecnicamente evoluídos, com uma leitura de jogo ímpar e com uma qualidade de passe fenomenal. Desde Paulo Sousa que a selecção está orfã. Agora começa a surgir Miguel Veloso. Não me agradam os médios-defensivos de combate. E não me agradam porque, sendo fisicamente disponíveis, acabam invariavelmente por se excederem, saindo da sua posição. Defensivamente, pecam portanto por excesso. Ofensivamente, não são capazes quer de coordenar os movimentos atacantes da equipa, fornecendo os apoios necessários, quer de fazer chegar a bola em condições aos colegas. Prefiro pois o Pirlo ao Gattuso, como prefiro o Miguel Veloso ao Petit.

4) Prefiro médios-ofensivos nos quais abunde a criatividade. Aqui reside, talvez, a grande contradição com maior parte dos grandes treinadores actuais. Para estes, a criatividade é coisa para os homens da frente. Não concordo. Acho o Lampard muito bom, mas a falta de criatividade chega a ser constrangedora. Às vezes pergunto-me: como é que alguém tão bom a nível táctico, tão inteligente com a bola nos pés, não tem capacidade para imaginar algo para além do óbvio? Lampard faz tudo bem. Só não consegue ser imprevisível, fazer um passe inesperado, descobrir uma linha de passe louca. Prefiro médios-ofensivos criativos a médios-ofensivos previsíveis. Não que não quisesse Lampard na minha equipa. Mas não quereria dois. Tacticamente, prefiro que sejam evoluídos a nível posicional, que corram mais quando a equipa tem a bola, procurando aparecer em zonas libertas de marcação, do que quando a equipa não a tem. Prefiro médios-ofensivos que trabalham mais para fornecer linhas de passe aos colegas do que médios-ofensivos que só correm em tarefas defensivas. O esforço de um médio-ofensivo é sobretudo quando a equipa tem a bola, embora se pense que, hoje em dia, um bom médio-ofensivo tenha de correr muito a defender. Para defender, basta posicionar-se bem. E a inteligência fará com que isso aconteça sem uma sobrecarga de esforço. O principal desgaste de um médio-ofensivo deve ser a nível ofensivo, sobretudo nas movimentações constantes.

5) Prefiro extremos irreverentes a extremos tacticamente perfeitos. Num 433, por exemplo, o trabalho defensivo de um extremo não tem de ser exigente. Deve ser concedida uma grande liberdade aos extremos, quer com bola, quer sem bola. Prefiro, para esta posição, jogadores fortíssimos no um para um. E não precisam de ser extraordinariamente rápidos. Há um preconceito generalizado de se considerar que um extremo deve ser rápido. Ajuda, claro. Mas o extremo pode ser apenas muito rápido nas mudanças de velocidade, nos arranques, nas travagens, nas mudanças de direcção. Prefiro um extremo irrequieto, que arranca, pára, vem para dentro, vai para fora, a um extremo que corre muito mas só para a frente. O meu extremo de eleição deve ser alguém vaidoso, que gosta de humilhar o adversário que tem pela frente. Deve ser egoísta até, às vezes. Se conseguir ser isso tudo, se tiver capacidade para ser isso tudo, perceberá depois como pôr esses atributos ao serviço da equipa. Só compreendo o futebol com extremos se os extremos forem capazes de suplantar o adversário directo várias vezes por jogo. Se o não forem, mesmo que sejam jogadores que entregam bem a bola, que respeitam os apoios, estão sempre demasiado agarrados à linha e demasiado fora do jogo. Se os extremos não forem extraordinários, se não forem capazes de, individualmente, causar problemas, prefiro sempre um sistema sem extremos, mas muito mais flexível a nível ofensivo.

6) Prefiro um ponta-de-lança que jogue bem para a equipa a um que faça muitos golos. Fazer golos é coisa que a equipa em si deve ser capaz de fazer. É a equipa que deve criar condições para que surjam os golos. E o último toque não tem de ser necessariamente dado pelo homem mais avançado. Não compete a um avançado ser o goleador da equipa. A um avançado compete ajudar à correcta circulação da bola, à correcta movimentação colectiva, etc. Prefiro um avançado que se movimenta bem fora da área a um que só se movimenta bem dentro da área: 90% ou mais do jogo desenrola-se fora da área. Prefiro, para esta posição, um jogador habilidoso, capaz de corresponder a tabelas, do que um jogador grande, com um porte atlético respeitável, que ganha muitas bolas de cabeça, mas que, servido pelo chão, demora dois dias a dominar a bola. Prefiro avançados inteligentes a avançados rápidos: com os primeiros, é possível variar a forma de jogar da equipa, com os segundos, a equipa está necessariamente escrava dos passes para as costas dos defesas. Prefiro, por tudo isto, o Nuno Gomes ao Liedson. Aliás, nem sequer percebo como é que alguém que não gosta do Pauleta gosta do Liedson. São a mesma coisa, praticamente. O Liedson é tecnicamente mais evoluído, é certo. E corre mais, também é certo. Mas pode-se contar mais ou menos com o mesmo...

7) Prefiro um futebol apoiado, com transições lentas, de passe curto e certo, a um futebol directo, de transições rápidas. O segundo tipo de futebol torna a equipa serva da inspiração dos homens da frente. Ou então da sorte. Prefiro um futebol que procure a sorte e nenhum outro o faz melhor que o futebol apoiado. Um futebol demasiado objectivo é também demasiado previsível. Aos defesas adversários, basta que sejam correctos, que não errem, para anular essa objectividade. Compete a uma equipa mentalmente evoluída arranjar constantemente novas soluções para penetrar nas defesas adversárias: um futebol mais directo não o permitirá, por certo. Além disso, um futebol de transições mais lentas permite que a equipa esteja quase sempre compacta. Não cria buracos defensivos, nem desgasta constantemente os homens que são servidos. Dirão que um futebol assim será sempre lento e, por isso, previsível. Incorrecto! As transições podem ser lentas, mas a dinâmica ofensiva não o deve ser. Se as movimentações ofensivas forem constantes e a troca de bola rápida, ainda que as transições se façam através de passes curtos, as defesas contrárias nunca estarão suficientemente organizadas. É claro que, se não houver muita dinâmica, um futebol deste tipo não será proveitoso, pois nem aproveita a subida das linhas adversárias utilizando transições rápidas, nem consegue penetrar em defesas organizadas.

8) Prefiro um pressing alto a um pressing médio ou baixo. É importante saber executar um pressing baixo, sobretudo porque um pressing alto durante 90 minutos será sempre muito desgastante, mas prefiro que a equipa tenha uma filosofia ofensiva e que queira sempre a bola. A melhor maneira de defender é ter a bola. A maneira mais segura de recuperar a bola é o mais longe possível da nossa área. Nada melhor que pressionar o mais alto possível. Obriga o adversário a jogar de forma mais directa, da mesma maneira que recuperar uma bola numa zona mais subida é sempre mais perigoso para o adversário. Prefiro uma equipa capaz de pressionar o mais alto possível, como a de Co Adrianse no Porto, pois assim passará mais tempo com a posse de bola. Alturas haverá em que será necessário modificar a atitude defensiva: se o resultado estiver feito, se se avizinhar um prolongamento, minutos antes do intervalo, etc. Aí, a equipa deverá suster o ímpeto e pressionar mais em baixo, correr menos riscos e desgastar menos os jogadores. Mas de uma forma geral, deve ser capaz de pressionar alto.