domingo, 30 de setembro de 2007

Dúvida do Mês e Piada Fraquinha

1. Não dá mesmo para naturalizar o Polga?

2. Em estágio, enquanto almoçam, conversa entre Paulo Bento e Pedro Barbosa.
Bento: A comida está um bocado ensossa!
Barbosa: Queres o saleiro?
Bento: Não preciso. Tenho o Liedson...

Curtas da Taça da Liga e da Jornada 6 da Superliga

Curtas da Taça da Liga, por Gonçalo:

1. Duas coisas que o Fátima tem melhor que o Sporting: o relvado e o ponta-de-lança.

2. Jesualdo diz que é preciso ter cuidado com o Fátima, recorda o desaire ante o Atlético e depois apresenta uma equipa integralmente diferente da equipa principal. Ou não queria mesmo ganhar, ou tem memória de peixe-balão.

Curtas da Jornada 6 da Superliga, por Nuno:

3. Sem exagerar rigorosamente nada, Romagnoli faz mais cuecas por jogo do que Liedson acerta passes em 90 minutos.

4. Camacho falava a sério quando disse que queria um dos três primeiros lugares. Mal colocado na liga, a jogar em casa, não arrisca um milímetro e troca jogador por jogador. Para quem ambiciona um dos três primeiros lugares, sem dúvida que é bom empatar em casa com uma equipa que ambiciona o primeiro.

5. Jaime Pacheco, no final do derby da Invicta, disse que já viu antigos campeões europeus jogar no Dragão mais à defesa que o Boavista. Mas disse mais: disse que o seu plano foi - e passo a citar - "jogámos no sistema habitual, o 4x3x3, e tentámos que quando o F.C. Porto saísse para o ataque o Edgar marcasse o Paulo Assunção, tentando com isso ganhar superioridade no meio-campo, porque o Fleurival marcava Raul Meireles, o Diakité marcava o Lucho e o Jorge Ribeiro ficava livre." Justificou depois a má primeira parte dizendo que o problema foi que - e volto a citar - "demos muito espaço, fizemos marcações a quilómetros, não a centímetros." Coisas que Jaime Pacheco não sabe: 1) Não sabe que provocar José Mourinho, por si só, é estúpido. 2) Não sabe que provocar José Mourinho, quando se treina o Boavista, é ainda mais estúpido. 3) Não sabe que provocar José Mourinho na semana em que este ganhou mais dinheiro num dia do que Jaime Pacheco em 70 vidas, é um pouco mais estúpido ainda. 4) Não sabe que provocar José Mourinho, alegando que não jogou à defesa, mas declarando que o seu plano era fazer marcações individuais a todos os jogadores do adversário, é das coisas mais estúpidas que se podem dizer. 5) Não sabe que, ao justificar a derrota confessando erros nos processos defensivos, é sintoma de que só pensou em defender. 6) Não sabe o que é um 4x3x3. 7) Não sabe que, não tendo condições para se armar em bom, deveria ser humilde.

6. Neste artigo, lê-se a seguinte conclusão: Com Pedro Henriques, está aberto caminho para um «derby» sem casos. Tiro em cheio: porta-aviões ao fundo. À margem da má arbitragem deste Sábado, discordo dos argumentos que são utilizados a favor do tipo de arbitragem de Pedro Henriques. Estou à vontade para fazê-lo, sem que pareça que o faço no momento conveniente, ou seja, depois do descalabro de ontem, porque sempre fui contra o estilo de apitar inglês, como o escrevi aqui, e tinha inclusivamente um texto sobre o tema preparado antes do jogo de ontem, precisamente em resposta ao dito artigo, e que só por manifesta falta de tempo não pude publicar. Adiante. Diz-se que "defende o espectáculo em detrimento do jogo mastigado por constantes interrupções". Mas quem é ele para decidir se o jogo tem constantes interrupções? Se há faltas, ele está lá para as marcar. Não tem autoridade para infringir as regras em favor de um jogo menos "mastigado por constantes interrupções". E defende o espectáculo como? Permitindo que a força tenha mais poder que a técnica? Que espectáculo é que ele defende? Futebol não é, de certeza. E defender o espectáculo não deveria ser sinónimo de defender os artistas? E é permitindo que os brutos, os que não têm habilidade nem inteligência, se equiparem aos talentosos que ele defende os artistas? Ao contrário, portanto, do título do artigo, Pedro Henriques era uma escolha contornável.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O meu ódio de estimação...

10 razões que me levam a odiar o Liedson:



1ª - Corta mais jogadas de ataque da sua equipa que a equipa adversária.

2ª - Tem quase tantos golos em 4 épocas e meia como foras-de-jogo num só jogo.

3ª- É BURRO!

4ª - Consegue "cavar" tantos amarelos para a equipa adversária como para a sua própria equipa.

5ª - Joga no meu clube.

6ª - É BURRO!

7ª - Foi o primeiro jogador a iludir um país inteiro. Sendo esforçado conseguiu convencer toda a gente que trabalhava muito. ( este ponto não sei se é da inteira responsabilidade dele...)

8º - Perde mais tempo a chatear os colegas de equipa quando estes não lhe endossam o esférico do que a festejar golos.

9º- Ainda não teve uma lesão desde que chegou ao Sporting
.
10º - Levezinho? Que alcunha mais amaricada de se ter...

Opções...

Ver um jogo de futebol ao vivo é fantástico. Não só pelo espectáculo por si só, mas também por outros motivos. Um deles é a oportunidade de ouvir belas pérolas ao vivo.

Num desses momentos ouvi um adepto mais exaltado gritar a plenos pulmões para o Polga, depois de este ajuizar mal um lance – coisa rara -: “ Não penses! Joga logo a bola!”. O que nos remete para a seguinte dúvida: O que é que faz deste campeão do mundo um central de méritos reconhecidos? Será a sua dureza? A sua impetuosidade? Não! A sua capacidade de analisar as movimentações adversárias, aliada ao seu jogo posicional, permite-lhe vencer maior parte dos duelos. Mais, o facto de ser inteligente, ou seja, o facto de pensar, e bem, permite-lhe ser um elemento importante na definição dos processos ofensivos da sua equipa, falo obviamente numa fase inicial mas que não é tão irrelevante quanto isso. Polga percebe de uma forma excepcional a verdadeira função do processo defensivo. Recuperar a posse da bola, não cortar a bola de qualquer forma. Recuperar a posse de bola, não desfazer-se dela, terá de ser sempre o principal objectivo deste processo.

Num raro momento de silêncio surge a plenos pulmões outra afirmação deliciosa, neste caso tendo como alvo o Miguel Veloso depois de este perder o esférico ao tentar driblar dois adversários: “ Não inventes!”. Não inventes? Então mas será que percebem a razão pela qual este miúdo se destaca? Pedir ao Miguel Veloso para não ser criativo nos seus processos é tão estúpido como convidar a Soraia Chaves para gravar um filme e não lhe exigir que faça nus.

E a partir desta parvoíce podemos perceber um erro comum de muita gente, pior ainda se no meio desta multidão incluirmos muitas pessoas com responsabilidades na definição do curso futebolístico de várias equipas.

Falo dos erros cometidos por directores e técnicos que na prospecção de talentos e reforços para as respectivas equipas apenas consideram índices físicos, ignorando os aspectos intelectuais. Deslumbrando-se preferencialmente com exibições mais exuberantes, preferindo a forma à essência, cometem-se erros atrás de erros na aquisição de jogadores. Jogadores que se destacam devido às suas características físico/atléticas (Luisão, Petit; Paredes, Liedson; João Paulo, P. Emanuel) são sempre um grande risco. Sempre demasiado dependentes de factores externos, para além do seu momento de forma, quando este não lhe é favorável o seu desempenho, na melhor das hipóteses é inócuo. Ao invés jogadores que se sobressaem pelas características intelectuais (Polga, Miguel Veloso, Custódio, Romagnoli; Nuno Gomes, Nuno Assis; Postiga, Fucile, Lucho) destacam-se não só pela sustentabilidade das suas exibições, como pela facilidade com que se adaptam a novos modelos, pois conseguem compreender as necessidades que cada modelo de jogo e sua filosofia exigem. Contudo são apenas homens e neste caso, enquanto jogadores, dependem sempre do coeficiente de inteligência dos treinadores que os orientam. Por aqui, por exemplo, se pode explicar porque razão o Assis não se impõe definitivamente no Benfica.

É verdade que este tipo de jogadores nem sempre obterá o retorno das suas virtudes da parte do público, tão pouco dos respectivos técnicos. Vejam a quantidade de jogadores que privilegiando a força bruta e descontrolada são beneficiados perante os que assentam o seu futebol num numero considerável de neurónios, poucos são os que darão preferência ao Custódio, se puderem escolher o Petit, ou então quem é que optará pelo Nuno Gomes com o Liedson no mesmo plantel?

Porém este facto ainda é mais nocivo no futebol de formação. Aqui muitos clubes ignorando a sua principal função, a formação de jogadores, optam por obter resultados fáceis e imediatos. Por outras palavras, optam por jogadores que se destacam pela força, velocidade, e qualidade técnica, em vez de promoverem aqueles que tem na sua capacidade de decisão e respectiva leitura dos lances as suas principais características. Não estou a dizer que devemos ignorar os outros factores, nada disso, apenas defendo que jogadores que sejam seleccionados pelos factores físicos, serão sempre mais difíceis de imiscuir no futebol sénior, onde o físico perde um estatuto determinante para se conseguir justificar a sua utilidade. Ser forte, rápido, e bom no um para um, é sempre relativo ao nível de exigência onde se encontram, agora uma boa opção é sempre uma boa opção...

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Papa-Açorda

Não sei de onde veio, mas foi sugerido por um repórter, há uns dias, uma possível saída de Liedson para o estrangeiro. Queria saber o repórter o que achava Liedson dessa hipótese, caso surgisse. A resposta do "levezinho" foi pronta. Gostaria muito, como qualquer jogador, de representar um grande clube europeu, mas para já estava de corpo e alma no Sporting. Fiquei a pensar nisto e cruzei esta informação com a de há uns anos, quando se dizia que Liedson sairia para Itália. Ficou-me na cabeça a possibilidade de Liedson ir jogar para a Juventus. Sorri ante a possibilidade e imaginei as maiores contradições possíveis. Se o futebol italiano fosse comida, era uma pizza, com as diferentes camadas bem distintas, a massa, o tomate e o queijo dispostos com exactidão, desenhada com a arte de um grande chefe. Podia também ser uma lasanha, com uma camada de carne e outra de massa, uma de carne e outra de massa. Tudo organizadinho. O futebol de Liedson, quando muito, é uma açorda. E, desculpem o cepticismo, não estou a ver italianos a comer açorda. Naquele rigor militar, naquela febre posicional em que são obrigados a viver, a estroinice táctica de Liedson impacientaria-os logo no primeiro jogo. Aliás, que tipo de diálogo poderia ter um Del Piero para com Liedson? "Pá, ó saltitão, pára lá quieto! Para que é que vens ter comigo quando estamos três para um e tens espaço para te desmarcares?" Ou então: "Ó saguim, para fazer coisas giras com a bola estou cá eu e o Nedved e para defender temos... como é que se chamam aqueles gajos?... ah, os defesas, é isso... Por isso, vai lá para a tua posição, que esta merda joga-se com 11 jogadores e que eu saiba o Buffon ainda não se aleijou." Ao que Liedson responderia: "Oi? Cê não pode falar em brasileiro? Não estou entendendo! Está muita gente no estádio gritando e só estou ouvindo isso: "Va fancullo! Va fancullo!"

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Finalmente, algo acertado...

Da mesma maneira que critiquei o senhor Luis Sobral pelas incontáveis asneiras que disse, saúdo agora este artigo da autoria da mesma pessoa. Sobral condena a autoridade excessiva dos árbtiros portugueses e não compreende admoestações por protestos. Abraço esta incompreensão. Protestar é uma manifestação emocional. Só isso. Os jogadores deveriam ter toda a liberdade para o fazer, como têm liberdade para manifestar alegria quando marcam um golo. Dir-me-ão que os jogadores devem respeitar quem decide. Sim, devem. Mas é o protesto uma demonstração de desrespeito? Desrespeita quem protesta a decisão do árbitro ou a pessoa em si? Árbitros que punem protestos não estão a punir o desrespeito. Punem a liberdade de expressão e protegem a sua autoridade. O que não sabem é que a autoridade não se protege com punições, mas com carácter. Os árbitros ingleses raramente punem protestos. Muitas vezes, até entram nos protestos, debatendo efusivamente com o jogador o lance em questão. Esses árbitros têm carácter. Não se fazem valer da autoridade que lhes é concedida para se mostrarem superiores. À excepção de insultos directos, os árbitros nem sequer deveriam ter direito de admoestar os jogadores. Deveriam estar expressamente recomendados a não o fazer, a bem de um futebol mais democrático. Talvez, assim, jogadores com a pureza de Pedro Barbosa ou Rui Jorge não fossem dos jogadores mais expulsos de sempre do campeonato português. Mas é claro que haverá sempre Coroados a dizer que os Cannigias disseram coisas contra a sua pessoa, ainda que as imagens provem que os atletas não disseram nada...

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Quem semeia ventos...

Admito que não seja um mal exclusivo do futebol nacional, mas como é a única realidade que conheço é sobre esta que vai recair a minha crítica. E o meu pretexto para tal baseia-se na recente "chicotada" que se deu no carismático clube de Alcântara, o Atlético. A vítima foi Jorge Paixão. Para muitos será um nome desconhecido, até porque para a história não terá ainda contribuído com nada de extraordinário. Mas quem conhece a fundo o futebol portguês já o conhece pelo trabalho desenvolvido em várias equipas com excelentes desempenhos na 3 Nacional, e 2b. Todavia, na semana passada depois de ser vaiado pelos adeptos do clube que representava - apenas alcançou dois pontos em três jornadas - optou por rescindir, justificando que as mentalidades dos adeptos não se coadunam com a sua filosofia de jogo.

E este acontecimento é o meu ponto de partida para explicar o crescente divórcio entre o futebol e adeptos.
Mais do que vítima do mau futebol que se pratica, o adepto, grande parte deles, é, a par dos dirigentes, o réu. No final do jogo apenas interessa a vitória, mesmo que nem percebam muito bem como esse objectivo foi atingido. Por isso, se o futebol é cada vez menos atractivo, e estimulante, isso é uma consequência da estupidez, e impaciência, dos adeptos. A sua perspicácia não lhes permite vislumbrar as consequências das suas exigências. Fossem mais exigentes com o trabalho desenvolvido, ou seja, a essência, e os resultados, na pior das hipóteses a médio prazo, surgiriam sob uma forma muito mais aprazível. Não se trata de subtrair importância aos resultados, é exactamente o oposto. Por estes assumirem um papel tão importante neste desporto devemos optar sempre pela forma mais segura e sustentada de os conseguir, isto é, jogando bem.
Jogar bem é muito mais difícil do que jogar mal. O trabalho levado a cabo para atingir esse fim é sem dúvida mais complexo. Portanto, sendo o objectivo mais ambicioso e ousado, por vezes a curto prazo os resultados não serão tão felizes como numa equipa que tendo objectivos mais "pobres" facilmente se consegue apresentar na sua plenitude. Contudo, essas mesma equipas acabam por encontrar na estagnação, inerente ao seu modelo, a sua maior derrota. Ou seja, quando os resultados, e a sorte, não acompanham as equipas que assentam o seu futebol neste modelo é o fim da linha. Sem qualquer possibilidade de evoluir, encontram um fim triste. O paradigma disto é nossa conhecida Grécia. Enquanto tiveram ( muita) sorte do lado dela conseguiram um título de campeão europeu, mas passados dois anos, e com um grupo extremamente acessível, não se conseguiram qualificar para o Mundial.
O mesmo se pode encontrar todos os anos na nossa liga. Equipas que depois de um ano em que conseguem bons resultados, no ano seguinte, e sem uma explicação aparente, tem participações desoladoras. E assim vai continuar a acontecer, enquanto não se perceber que para desenvolver um trabalho de qualidade e que garanta estabilidade, e os respectivos resultados, é necessário sapiência e uma nova filosofia dos que estão relacionados com este desporto.

Treinadores como Carvalhal, Jesus, Cajuda, e pelo que tem demonstrado Lazaroni, ( já nem vou falar do Paulo Bento porque parece demasiado óbvia a qualidade do mesmo) podem acrescentar qualidade ao nosso futebol, desde que lhes sejam proporcionadas as condições para tal efeito. Se bem que na pior das hipóteses poderemos sempre recorrer ao Carlos Cardoso...

sábado, 8 de setembro de 2007

Responsabilidade...

Eis o que parece não ter o Editor-chefe do jornal desportivo Record. Pelo menos a avaliar pela sua página no mesmo diário desportivo, intitulada " OFF-SIDE". E não digo isto porque me apetece. Digo-o porque na edição de sexta-feira, dia 7 de Setembro, deste mesmo jornal, Luís Pedro Sousa mo demonstra de forma inequívoca.

No primeiro ponto visa Paulo Bento, e o "erro" que é o seu losango. Defende que o Sporting tem motivos de preocupação pela exibição frente ao Beleneses. Eu até aceitaria que ele partilhasse desse sofisma, mas esperava que ele o defendesse convenientemente. Ao invés, resolveu aproveitar a boleia do Rui Santos e foi apenas pateta. A forma ingénua - sim, vou optar por ser subtil - como interpreta o futebol é deliciosa. Comete um erro comum, e que em circunstâncias normais até seria admissível, mas, tratando-se de alguém com tanta responsabilidade num veículo informativo com a importância que o jornal em questão detém no panorama nacional penso que é lamentável.
Falo do erro de assumir o futebol como xadrez, como algo sem dinâmica nas suas peças. E até mesmo nestas seria errado preconizar esta perspectiva. Quando de uma forma displicente ele "resolve" os problemas do Sporting com a inclusão de extremos, e responsabiliza os empates consentidos a época passada, pela falta dos mesmos só podemos rir. Na época transacta a táctica foi sempre esta, a única coisa que foi alterando foram os seus intérpretes. E aqui sim se explica alguns resultados menos positivos, para além dos factores mais " banais", como o fraco indíce finalizador, etc. A táctica foi a mesma, do inicio da época, até ao fim. Ou seja desde o periodo mais "infeliz", até ao periodo em que o clube de Alvalade se revelou insuperável.

Partir do princípio que uma táctica que não tem extremos está privada de aproveitar as faixas laterais é irresponsável. Creio que na mente das pessoas que defendem esta ideia basta colocar os jogadores na linha para, imediatamente, e por magia, o jogo se desobstruir e começar a fluir pelas linhas, qual rio que desagua no mar. Por isso quando vêem um sistema que não apresente extremos ou médios-alas o seu poder de sintese leva-os a crer que a equipa em questão despreza a opção de jogar pelas alas. Nada mais errado. A mobilidade e os processos assimilados pela equipa, estes sim, é que definem e caracterizam o futebol desenvolvido pela mesma. Assumir que só porque no desenho não está ninguém numa determindada zona do campo esses terrenos vão ser ignorados é estúpido. As oscilações inerentes ao jogo, por si só, provam isso mesmo. Seja o lateral, o interior, o "numero dez", ou o avançado, a um deles, ou mais, caberá sempre a responsabilidade de explanar o jogo da sua equipa por essa zona do terreno, consoante o definido.

Mais à frente ele diz que o Sporting está a perder o fulgor do início de época, e aqui eu tenho de pedir a alguém que o conheça pessoalmente para lhe avisar que o Porto foi campeão o ano passado, que o Sporting venceu a taça de Portugal, que este ano venceu a supertaça, que entretanto ja decorreram três eliminatórias da taça da liga, etc... O Sporting começa a perder fulgor? Esta época? Qual fulgor?

Segue-se Vieirinha e dá a entender que este, para já, dá mais garantias que Tarik e o Mariano. Não renego as qualidades técnicas deste miudo, todavia, os outros dois também as possuem, e pelo menos são mais experientes. Não percebo como é que este pode revolucionar o jogo de uma maneira que os outros não o possam fazer. Mais, nem considero Vieirinha como sendo uma grande promessa. Ele, assim como Bruno Gama, apesar de lhe ser concedida uma maior montra por parte da comunicação social do que ao Hélder Barbosa - um pouco por causa da lesão, bem sei - está a anos luz deste. Não é tão forte no um para um como o jogador da Académica, nem possui a lucidez deste na hora de definir as suas opções.

Este é o tipo de pessoas que não perecebe o porquê do Carlos Martins, o ano passado, e o Vukcevic este ano, neste sitema - 442 losango - não actuar como numero dez. Um jogador com as caractrísticas deles, ao contrário do que muita gente pensa, neste sistema é aproveitado de uma forma mais eficaz como interior. Porque ao vértice mais adiantado, mais do que "pautar", transportar o jogo da sua equipa, como é pedido ao trinco numa primeira fase, e aos interiores numa fase posterior, pede-se que provoque os desiquílbrios através da sua movimentação.
Contem as vezes em que Romagnoli vem "buscar" jogo. Poucas, muito poucas. Não quer isto dizer que o médio argentino se esconda, mas se ele recuasse à procura da bola, para além de concentrar demasiados jogadores nessa zona (meio-campo defensivo) congestionando as linhas de passe, acabaria por privar a equipa dos espaços e opções que a sua movimentação, geralmente entre o lateral e o central da equipa adversária, proporciona. Essa movimentação não só é necessaria para ele encontrar espaço para poder desenvolver o seu futebol, como para criar linhas de passe para os seus colegas, sendo este factor tão importante como o primeiro.

E este facto leva-nos de encontro a outro erro comum. A responsabilzação imputada ao interiores quando estes muitas vezes não estão em jogo. Ou porque a equipa não jogou bem porque se esconderam, ou porque a equipa abusou em demasia do passe longo, sendo esta então ridícula, se tivermos em conta que muitas vezes os responsáveis pelos lançamentos são os defesas. Incapazes de se aperceberem da sua movimentação em prol do colectivo, o espectador comum, e infelizmente o jornalista desportivo também, criticam, muitas vezes de forma errada, estes jogadores quando as circunstâncias não lhes permitem ter tanta visibilidade.
No caso do Sporting o paradigma disso mesmo sucedeu no jogo da supertaça. Do russo Izmailov escreveu-se e disse-se que não fora o golo e o russo teria passado ao lado do jogo, ignorando a sua movimentação tanto no plano ofensivo, como defensivo, não percebendo assim que o mérito do golo não se esgota no fantástico pontapé. Não fosse a sua inteligência táctica lhe permitir o bom posicionamento, de certo que o golo, pelo menos aquele, não teria surgido. E não só. Neste início de época o Sporting passa muito por aproveitar a movimentação do Romagnoli, dai a ser muito importante a movimentação sem bola concertada entre os médios interiores e o "dez". São muitas vezes os interiores os responsáveis pelo deslocamento do lateral adversário para assim promover a entrada do médio argentino nas costas dos mesmo, criando ( ou tentando) assim uma situação de desiquilíbrio junto da área adversária. Este facto leva a que o jogo não passe pelos interiores nestas situações, sendo os laterais que lançam o Romagnoli.

Eu admito que todos erramos, e que o senhor Luís Pedro Sousa também tem direito a faze-lo, apenas esperava que defendesse os seus erros de uma forma mais lúcida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Han?????

Encontro, para meu grande espanto, este artigo, no qual a Comissão de Arbitragem da Liga dá razão a Pedro Proença no muito badalado caso do atraso de Polga para Stojkovic. Entre outras coisas, retiro isto:

""Ao contrário do que foi veiculado em diversos meios de informação, se um defensor efectua um pontapé que leve a bola no sentido da linha de baliza, seja esse pontapé um corte ou um passe, pode ser punido com pontapé-livre indirecto, no caso de o guarda-redes tocar a bola com as mãos", pode ler-se no comunicado assinado por Vítor Pereira, presidente da Comissão de Arbitragem da Liga."

Não estou indignado. Estou perplexo. Decidir no momento pode ser complicado e, como tal, admito o erro de interpretação do árbitro. Aceitar esse erro só pode querer dizer duas coisas: ou não se sabe interpretar um lance, ou quis-se branquear a situação. Não há mais possibilidades. Não quero aceitar a segunda hipótese, até porque não tenho como prová-la. Resta-me a primeira. E digo-o, sem rodeios: quem quer que considere aquilo um passe precisa rapidamente de um par de neurónios novos. No caso do comunicado da Comissão de Arbitragem, parece que tentaram ter razão adulterando a lei. Ou seja, agora, já não é preciso que a bola seja endossada deliberadamente: basta que o pontapé "leve a bola no sentido da linha de baliza, seja esse pontapé um corte ou um passe". O que a Comissão de Arbitragem fez é inédito: ignorou a lei oficial da FIFA e fez uma nova lei, de modo a desculpar um erro evidente. Coloco aqui a lei oficial, para que se possa comparar. O documento é este e, sobre isto, diz o seguinte na página 38:

"An indirect freekick is awarded to the opposing team if a goalkeeper, inside is own penalty area, commits any of the following four offences:"

e a terceira é:

"touches the ball with his hands after it has been deliberately kicked to him by a team-mate".

A FIFA diz, portanto, que só é punível com livre indirecto a bola que for deliberadamente pontapeada para o guarda-redes. Não podia ser mais claro. A Comissão de Arbitragem decidiu inventar uma alínea nova e dizer que, se essa bola, ainda que não tenha sido deliberadamente pontapeada, levar a direcção da linha de baliza e for agarrada pelo guarda-redes, é punível. O que se passou aqui foi, essencialmente, uma mudança de regras em favor próprio. A Comissão de Arbitragem queria desculpar Pedro Proença e mudou as regras oficiais de modo a que isso pudesse acontecer "legalmente". Eu hoje, por acaso, acordei com uma vontade enorme contradizer Newton. Diz o palerma do Isaac, na sua Lei da Gravitação Universal, que "dois objectos quaisquer se atraem gravitacionalmente por meio de uma força que depende das massas desses objectos e da distância que há entre eles." Não concordo. A partir de agora, apetece-me que a força dependa da cor dos objectos e não dessa treta da massa e da distância. Como tal, se nas Olímpiadas de Pequim um tipo, no salto em altura, fizer 210 metros, não se espantem. E não venham dizer que, no lançamento do dardo, um gajo que atinja Nova Iorque só pode estar dopado, porque isso, a partir de agora, é perfeitamente possível...

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Réu inocente

Acreditem em mim: isto não é perseguição. O facto de o jogo em que ocorreu o lance de que vou falar me ter chegado comentado pelo Luis Sobral é apenas coincidência.

Ontem, o Benfica começou a construir a gorda vitória com um golo de Cardozo, depois de o pontapé de baliza batido por Diego Benaglio ter embatido no peito do paraguaio, o que o deixou isolado. Luis Sobral, o comentador de serviço, não hesitou: a culpa é do guarda-redes, que bateu mal o pontapé de baliza. Não tenho a certeza, mas creio que Luis Sobral jogou à bola, o que ainda me deixa mais perplexo. Que o comum mortal não saiba que o erro não é do guarda-redes, tudo bem. Mas alguém que praticou futebol tem de sabê-lo obrigatoriamente. Acredito que ninguém questionou a observação de Luis Sobral e que concordam que a responsabilidade do lance é de Diego Benaglio. Como tal, isto não é um ataque à pessoa que o disse, mas a um conjunto de pessoas que pensam desta maneira. Quem joga futebol deve conhecer algumas regras básicas: o homem que faz o lançamento lateral não deve levantar os calcanhares quando lança; no pontapé de baliza não há foras-de-jogo; etc. E há uma regrazinha simples que se ensina aos centrais: quando o nosso guarda-redes se apronta para bater o pontapé de baliza, os centrais devem estar imediatamente à frente dos avançados adversários, de modo a prevenir um eventual mau pontapé do guarda-redes. Perante isto, é-me fácil dizer que, embora o guarda-redes suíço não tenha batido bem o pontapé de baliza, a culpa do golo é principalmente de Ávalos, que se esqueceu que isso poderia acontecer e deixou Cardozo sozinho. Ainda que isto não se ensinasse, facilmente se percebe que um erro técnico, como um pontapé mal batido, um passe falhado, um tempo de salto mal calculado, nunca podem ser mais penalizados que as distracções. Tecnicamente, todos podem falhar. A nível de concentração é que não. É verdade que Benaglio falhou a nível técnico, como Quim, na época passada frente ao Braga, falhou ao colocar a bola ao dispor de Zé Carlos. Mas como ao guarda-redes do Benfica, ao do Nacional é permitido falhar do ponto de vista técnico. O que não é permitido é que o Petit e o Luisão estejam a dormir, como não é permitido que o Ávalos esteja a pensar em empadas e bacalhau à Gomes de Sá.

Corolário de tudo isto: Diego Benaglio foi um réu injusto da derrota da sua equipa ante o Benfica. Além de não ter culpa no lance do primeiro golo, como o quiseram fazer crer, ainda teve um punhado de boas defesas e impediu que o Nacional fosse humilhado.

Gente casmurra e mais qualquer coisa...

Não gosto de gente casmurra. Também não gosto de gente casmurra e estúpida. E ainda gosto menos de gente casmurra, estúpida e chata. Por falar em gente de quem não gosto, uma semana depois da infeliz decisão de Pedro Proença no Dragão, João Querido Manha continua a dizer que Anderson Polga atrasou deliberadamente a bola para Stojkovic. Jorge Coroado ainda lhe tentou ver que um desarme é tecnicamente diferente de um passe. Por acaso não concordo: acho, como o querido João Querido Manha, que um passe é exactamente a mesma coisa que um desarme. Argumentou Coroado que um jogador que joga a bola em esforço, tocando mesmo com o joelho no chão para o fazer, não pode nunca estar a efectuar um passe deliberado. Apesar do belo argumento do ex-árbitro, Querido Manha manteve a sua posição. "É passe, é passe, é passe." E disse mais. Disse que é possível fazerem-se passes sem se estar na posse da bola, de maneira a refutar mais um excelente argumento de Jorge Coroado. Também estou de acordo em relação a isto. Aliás, considero que só se faz um passe se não se estiver na posse da bola. Nem percebo como é que, estando na posse da bola, se pode fazer um passe. Isso é totalmente absurdo. Creio, depois disto, que todos à excepção de João Querido Manha vivem num mundo à parte. À noite, quando chegar a casa, aposto que João Querido Manha dirá à mulher, com razão, que os peixes respiram fora de água. Amanhã, quando chegar ao trabalho, contará, uma vez mais na posse de toda a razão, que viu um homem com duas cabeças.

Com pessoas casmurras, costumo agir de maneira especial. Com pessoas casmurras e que se recusam a ver o óbvio, costumo agir de maneira ainda mais especial. Ao senhor João Querido Manha queria, portanto, dizer que é uma pessoa perspicaz e que não deve ligar ao que os outros dizem. Se acha que é passe, é porque é passe. Quem sabe, sabe. E nem que toda a gente já tenha percebido que não foi passe, não desista da sua opinião. Aliás, se amanhã se lembrar que afinal se chama Napoleão Bonaparte e se a sua mulher o tratar por João, dê-lhe logo uma lambada, que é para ela aprender. Só uma perguntinha: 1 mais 1 são 3, não são?

domingo, 2 de setembro de 2007

O que eu prefiro

O que eu prefiro numa equipa:

1) Prefiro laterais lentos e fisicamente mais débeis, mas com inteligência para perceberem que o jogo interior da equipa pode passar muito pelas suas decisões. Rui Jorge não era rápido, não era habilidoso, não era alto, não era forte, mas era inteligente. E era tudo o que bastava. Um lateral que fisicamente e tecnicamente seja prodigioso, mas que insista em pôr bolas na linha e não no meio não me convence.

2) Prefiro centrais com classe, que conseguem ser bons sendo discretos. A agressividade é, muitas vezes, ilusória. Num central, a velocidade é importantíssima, pois ajuda a compensar eventuais erros posicionais. Pepe, mais do que ninguém, tem na velocidade a sua grande arma. Sem ela, não seria só banal: seria patético. Reconheço que Pepe é bom, mas só porque a sua velocidade compensa o seu mau jogo posicional e a sua fraca leitura de jogo. Interpreta mal os lances, mas recupera muito rápido. É daqueles centrais que não vai ter um final de carreira brilhante, como Maldini, Blanc, Sammer, Matthaus ou Hierro. Porquê? Porque assim que perder a velocidade (a não ser que ganhe miraculosamente a inteligência que não tem) não conseguirá parar avançados mais velozes e inteligentes. Prefiro, aos centrais agressivos, aqueles que conseguem um aproveitamento idêntico sem terem que derrubar o adversário, sem arriscarem uma falta perigosa. Prefiro aqueles que roubam a bola com elegância, como se o adversário fosse de porcelana. Prefiro esses por várias razões. Primeiro, porque não têm a necessidade de provar a ninguém que são mais fortes, que são impetuosos e que ostentam a virilidade de um gladiador: prefiro a perícia à força bruta. Segundo, prefiro-os porque é muito mais notável roubar discreta e elegantemente como um Arséne Lupin do que sacar a mala de uma velha com um puxão e fugir a correr. Terceiro, prefiro-os porque esses são os mesmos que, uma vez com a bola, não a desperdiçam com pontapés sem nexo. Prefiro pois um central com classe, com um bom sentido posicional, rápido (sobretudo a pensar) e ágil. Não me importa a agressividade, a altura, a robustez física. É por isso que não concordo com a chamada de Pepe à selecção, porque prefiro o Zé Castro. É por isso que não concordo com a chamada constante do Luisão à selecção brasileira, porque prefiro o Polga.

3) Prefiro médios-defensivos intelectuais a médios-defensivos batalhadores. Não há ninguém (ou há poucos) que não reconheça que o maior de todos os tempos foi Redondo e ainda assim gostam de jogadores que são o oposto dele. Nesta posição, gosto de jogadores mentalmente muito fortes, que gostem de sentir a bola nos pés, que tenham gozo em pautar os ritmos da equipa. Se uma equipa fosse uma orquestra, o maestro era o médio-defensivo e não o ofensivo. Prefiro, para esta posição, jogadores tecnicamente evoluídos, com uma leitura de jogo ímpar e com uma qualidade de passe fenomenal. Desde Paulo Sousa que a selecção está orfã. Agora começa a surgir Miguel Veloso. Não me agradam os médios-defensivos de combate. E não me agradam porque, sendo fisicamente disponíveis, acabam invariavelmente por se excederem, saindo da sua posição. Defensivamente, pecam portanto por excesso. Ofensivamente, não são capazes quer de coordenar os movimentos atacantes da equipa, fornecendo os apoios necessários, quer de fazer chegar a bola em condições aos colegas. Prefiro pois o Pirlo ao Gattuso, como prefiro o Miguel Veloso ao Petit.

4) Prefiro médios-ofensivos nos quais abunde a criatividade. Aqui reside, talvez, a grande contradição com maior parte dos grandes treinadores actuais. Para estes, a criatividade é coisa para os homens da frente. Não concordo. Acho o Lampard muito bom, mas a falta de criatividade chega a ser constrangedora. Às vezes pergunto-me: como é que alguém tão bom a nível táctico, tão inteligente com a bola nos pés, não tem capacidade para imaginar algo para além do óbvio? Lampard faz tudo bem. Só não consegue ser imprevisível, fazer um passe inesperado, descobrir uma linha de passe louca. Prefiro médios-ofensivos criativos a médios-ofensivos previsíveis. Não que não quisesse Lampard na minha equipa. Mas não quereria dois. Tacticamente, prefiro que sejam evoluídos a nível posicional, que corram mais quando a equipa tem a bola, procurando aparecer em zonas libertas de marcação, do que quando a equipa não a tem. Prefiro médios-ofensivos que trabalham mais para fornecer linhas de passe aos colegas do que médios-ofensivos que só correm em tarefas defensivas. O esforço de um médio-ofensivo é sobretudo quando a equipa tem a bola, embora se pense que, hoje em dia, um bom médio-ofensivo tenha de correr muito a defender. Para defender, basta posicionar-se bem. E a inteligência fará com que isso aconteça sem uma sobrecarga de esforço. O principal desgaste de um médio-ofensivo deve ser a nível ofensivo, sobretudo nas movimentações constantes.

5) Prefiro extremos irreverentes a extremos tacticamente perfeitos. Num 433, por exemplo, o trabalho defensivo de um extremo não tem de ser exigente. Deve ser concedida uma grande liberdade aos extremos, quer com bola, quer sem bola. Prefiro, para esta posição, jogadores fortíssimos no um para um. E não precisam de ser extraordinariamente rápidos. Há um preconceito generalizado de se considerar que um extremo deve ser rápido. Ajuda, claro. Mas o extremo pode ser apenas muito rápido nas mudanças de velocidade, nos arranques, nas travagens, nas mudanças de direcção. Prefiro um extremo irrequieto, que arranca, pára, vem para dentro, vai para fora, a um extremo que corre muito mas só para a frente. O meu extremo de eleição deve ser alguém vaidoso, que gosta de humilhar o adversário que tem pela frente. Deve ser egoísta até, às vezes. Se conseguir ser isso tudo, se tiver capacidade para ser isso tudo, perceberá depois como pôr esses atributos ao serviço da equipa. Só compreendo o futebol com extremos se os extremos forem capazes de suplantar o adversário directo várias vezes por jogo. Se o não forem, mesmo que sejam jogadores que entregam bem a bola, que respeitam os apoios, estão sempre demasiado agarrados à linha e demasiado fora do jogo. Se os extremos não forem extraordinários, se não forem capazes de, individualmente, causar problemas, prefiro sempre um sistema sem extremos, mas muito mais flexível a nível ofensivo.

6) Prefiro um ponta-de-lança que jogue bem para a equipa a um que faça muitos golos. Fazer golos é coisa que a equipa em si deve ser capaz de fazer. É a equipa que deve criar condições para que surjam os golos. E o último toque não tem de ser necessariamente dado pelo homem mais avançado. Não compete a um avançado ser o goleador da equipa. A um avançado compete ajudar à correcta circulação da bola, à correcta movimentação colectiva, etc. Prefiro um avançado que se movimenta bem fora da área a um que só se movimenta bem dentro da área: 90% ou mais do jogo desenrola-se fora da área. Prefiro, para esta posição, um jogador habilidoso, capaz de corresponder a tabelas, do que um jogador grande, com um porte atlético respeitável, que ganha muitas bolas de cabeça, mas que, servido pelo chão, demora dois dias a dominar a bola. Prefiro avançados inteligentes a avançados rápidos: com os primeiros, é possível variar a forma de jogar da equipa, com os segundos, a equipa está necessariamente escrava dos passes para as costas dos defesas. Prefiro, por tudo isto, o Nuno Gomes ao Liedson. Aliás, nem sequer percebo como é que alguém que não gosta do Pauleta gosta do Liedson. São a mesma coisa, praticamente. O Liedson é tecnicamente mais evoluído, é certo. E corre mais, também é certo. Mas pode-se contar mais ou menos com o mesmo...

7) Prefiro um futebol apoiado, com transições lentas, de passe curto e certo, a um futebol directo, de transições rápidas. O segundo tipo de futebol torna a equipa serva da inspiração dos homens da frente. Ou então da sorte. Prefiro um futebol que procure a sorte e nenhum outro o faz melhor que o futebol apoiado. Um futebol demasiado objectivo é também demasiado previsível. Aos defesas adversários, basta que sejam correctos, que não errem, para anular essa objectividade. Compete a uma equipa mentalmente evoluída arranjar constantemente novas soluções para penetrar nas defesas adversárias: um futebol mais directo não o permitirá, por certo. Além disso, um futebol de transições mais lentas permite que a equipa esteja quase sempre compacta. Não cria buracos defensivos, nem desgasta constantemente os homens que são servidos. Dirão que um futebol assim será sempre lento e, por isso, previsível. Incorrecto! As transições podem ser lentas, mas a dinâmica ofensiva não o deve ser. Se as movimentações ofensivas forem constantes e a troca de bola rápida, ainda que as transições se façam através de passes curtos, as defesas contrárias nunca estarão suficientemente organizadas. É claro que, se não houver muita dinâmica, um futebol deste tipo não será proveitoso, pois nem aproveita a subida das linhas adversárias utilizando transições rápidas, nem consegue penetrar em defesas organizadas.

8) Prefiro um pressing alto a um pressing médio ou baixo. É importante saber executar um pressing baixo, sobretudo porque um pressing alto durante 90 minutos será sempre muito desgastante, mas prefiro que a equipa tenha uma filosofia ofensiva e que queira sempre a bola. A melhor maneira de defender é ter a bola. A maneira mais segura de recuperar a bola é o mais longe possível da nossa área. Nada melhor que pressionar o mais alto possível. Obriga o adversário a jogar de forma mais directa, da mesma maneira que recuperar uma bola numa zona mais subida é sempre mais perigoso para o adversário. Prefiro uma equipa capaz de pressionar o mais alto possível, como a de Co Adrianse no Porto, pois assim passará mais tempo com a posse de bola. Alturas haverá em que será necessário modificar a atitude defensiva: se o resultado estiver feito, se se avizinhar um prolongamento, minutos antes do intervalo, etc. Aí, a equipa deverá suster o ímpeto e pressionar mais em baixo, correr menos riscos e desgastar menos os jogadores. Mas de uma forma geral, deve ser capaz de pressionar alto.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Quiz

1. Quem era o jovem treinador do PSV Eindhoven que venceu a Taça dos Campeões Europeus em 1988, batendo na final, no desempate por penaltys, o Benfica?

2. Quem é o jogador do Olivais e Moscavide que, a partir dos 3 minutos e 40 segundos deste filme, passa pela defesa inteira do Leixões como se fosse manteiga?

3. Qual é o aproveitamento percentual (pontos conseguidos/pontos possíveis) das equipas de José Mourinho, tendo em conta as duas épocas no Porto e as três no Chelsea?

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O fim do estruturalismo

Já aqui foi dito (talvez com pouco ênfase) que a um jogador não se podem imputar responsabilidades colectivas. Há quem não perceba (e quem nunca venha a perceber) o significado desta afirmação, mas pretendo deixar claro, de uma vez por todas, que a um jogador só se podem exigir responsabilidades por aquilo que ele faz individualmente. Nenhum jogador pode, por isso, ser culpado individualmente por a equipa jogar mal ou por a equipa adversária empurrar a sua equipa para a sua zona defensiva. A um jogador exige-se unicamente correcção táctica, técnica e intelectual. Se um jogador cumprir tacticamente, tecnicamente e intelectualmente, e se todos os seus companheiros o fizerem, as responsabilidades de um eventual insucesso só podem ser da equipa enquanto Todo e do treinador, porque não foi capaz de a montar exemplarmente.

Num desporto colectivo, como é o caso do futebol, nenhum elemento do colectivo tem uma missão própria. As missões são todas colectivas. Como tal, aos defesas não se pede que defendam, aos atacantes não se pede que marquem golos, aos médios-defensivos não se pede que recuperem bolas ou que segurem o meio-campo ofensivo do adversário, aos médios-ofensivos não se pede que construam o jogo da sua equipa. Tudo isto são coisas que a equipa deve fazer em conjunto. O avançado deve defender tanto como o defesa, ainda que ao defesa se exija que não falhe nesse capítulo, uma vez que não tem mais ninguém atrás dele para o fazer. O defesa deve marcar golos como o avançado, ainda que, naturalmente, o avançado tenha mais possibilidades para o fazer. Os médios-ofensivos e os avançados devem recuperar bolas como os médios-defensivos, ainda que a estes, pela sua posição em campo, se lhes peça maior aproveitamento. Os defesas e os médios-defensivos devem construir jogo como os médios-ofensivos, embora a estes, pelas suas características, estejam reservadas maiores responsabilidades. As únicas responsabilidades de cada elemento do colectivo são ocupar com exactidão a sua posição em campo (tendo em conta todas as variantes que essa posição assume consoante a posição do adversário e a posição da bola), a correcção técnica na abordagem dos lances e a tomada de decisões. Um jogador só é culpado do mau futebol da sua equipa se estiver mal posicionado tacticamente, se estiver a falhar no capítulo técnico, quer seja a nível da recepção, do passe, do remate, do tempo de salto, ou se tomar opções erradas. Assim sendo, a cada jogador só se pode pedir perfeição táctica, técnica e intelectual, com tudo o que isto acarreta: a um médio-defensivo, por exemplo, só se pode pedir que ocupe o seu espaço à frente dos defesas e nas costas dos médios-defensivos, que forneça os apoios correctos que a sua posição impõe, e que se aprume quer a nível técnico (passe, recepção, etc), quer a nível intelectual (opções). Tudo o resto resulta da perfeita execução disto.

Qualquer desporto colectivo deve ser entendido como um Todo. No xadrez, haverá certamente peças mais importantes que outras, mas cada uma, pelas suas características, contribui para o desempenho do conjunto. Os Peões, por exemplo, são extraordinariamente importantes na manutenção da solidez da estrutura e no fecho de linhas, ainda que sejam facilmente sacrificados. Os Cavalos, pela forma insólita como se movimentam, permitem jogadas que a Rainha, por exemplo, não permite. Todas as peças têm características próprias, mas nenhuma delas funciona sozinha. A Rainha, sozinha, é facilmente neutralizada. Cada peça deve pôr as suas propriedades ao serviço do conjunto. E só assim a máquina pode funcionar. No futebol, haverá certamente jogadores mais aptos que outros para marcar golos, como haverá outros mais aptos a construir jogo que outros, mas não o podem fazer sozinhos. Assim, se por acaso uma equipa passar um jogo inteiro a ser massacrada, a responsabilidade não pode ser necessariamente de um só jogador ou do meio-campo defensivo, uma vez que este, por si só, não pode ser capaz de suster as ofensivas do adversário. É claro que, se este meio-campo defensivo tiver um posicionamento deficiente, se se colar à defesa e abrir espaços entre esta e o meio-campo ofensivo, permite um avanço do adversário. Nesse caso, como é óbvio, tem responsabilidades no acontecido, mas unicamente porque falhou a nível posicional. Se os médios-defensivos cumprirem posicionalmente, a culpa de um constante avanço do adversário só pode ser da equipa enquanto todo, pois não é capaz de pressionar em conjunto.

O estruturalismo em futebol tem os dias contados, embora maior parte das pessoas que vêem futebol ainda o verem dessa forma. À excepção de erros individuais a nível técnico, como seja um atraso deficiente para o guarda-redes, que permite ao avançado adversário isolar-se e marcar golo, ou a nível táctico, como por exemplo um lateral que defende demasiado aberto e que permite, por isso, muito espaço entre si e o central, ou a nível intelectual, como seja um médio que recebe uma bola vinda da direita e não descongestiona o jogo para a esquerda, impossibilitando a desenvoltura ofensiva da equipa, todo o insucesso de uma equipa só pode ser explicado em termos colectivos. Se todos os jogadores cumprirem individualmente a sua posição, o fracasso só pode ter explicações colectivas. Muitos dirão: "Se todos cumprirem a sua posição na perfeição, não há como a equipa não ter sucesso." Errado. O sucesso de um conjunto depende, sim, da perfeição de cada um dos elementos desse conjunto, mas também da perfeição do conjunto, enquanto conjunto. Pouco valerá que todos os onze jogadores cumpram o que lhes está destinado se o não fizerem em conjunto. Para muitos, para uma boa posse de bola, bastará que se treine os jogadores, um por um, ensinando-o os a receber e a passar com precisão, ensinando-os a criar linhas de passe, etc. Nada mais falso. A posse de bola é uma tarefa colectiva. Pouco interessa se um jogador consegue criar linhas de passe. Se o fizer, mas ninguém precaver uma linha de passe para esse jogador, assim que receber a bola fica sem opções. A posse de bola deve ser treinada em equipa, sendo que os jogadores devem mecanizar as movimentações de forma a criarem linhas de passe constantes. Uma equipa pode ter excelentes intérpretes a nível técnico e ainda assim ter uma posse de bola deficiente. Porquê? Porque apesar da qualidade individual dos seus jogadores, que recebem, passam e criam linhas de passe como ninguém, não tem mecanismos colectivos rotinados.

Como a posse de bola, muitas outras coisas dependem unicamente do colectivo. Nenhuma equipa defende só com os defesas. Nenhuma ataca só com os atacantes. Nenhum avançado marca golos sozinho (tirando o Maradona). Nenhum jogador desarma outro se o resto da equipa não encurtar espaços e obrigar o portador da bola a encontrar-se com aquele que o desarma. Nenhum jogador recupera bolas sem a movimentação dos companheiros. É claro que há alguns que o fazem mais, por terem talvez mais apetência para isso, mas só o fazem como consequência de um trabalho colectivo. Nenhum organizador de jogo constrói o jogo sozinho: precisa que lhe entreguem a bola em condições, que os avançados se desmarquem, que os colegas criem linhas de passe. Numa equipa que não consegue ir à linha cruzar, o problema será dos extremos? Mas nenhum extremo o fará se a equipa não jogar de forma a possibilitar tal coisa. Se a equipa tem pouco volume de jogo ofensivo, a culpa será dos médios, que não conseguem municiar o ataque? Porquê? Se por acaso os laterais não jogarem interiormente, se os centrais se desfizerem da bola sem nexo para a frente, os médios nem sequer terão bolas com que fazer jogar a equipa. Se a equipa adversária consegue circular a bola em terrenos avançados, o problema é do meio-campo, que não pressiona? Claro que não! Pressionar é um acto colectivo. Pode não haver um único jogador que não corra e não pressione, que a pressão pode ainda assim não ter efeito. Porquê? Porque a pressão tem de ser simultânea. Pouco interessa que o extremo acompanhe o lateral que sobe. Se mais ninguém correr e encurtar espaços, esse trabalho defensivo é totalmente ineficaz.

Para terminar, a melhor equipa não será apenas aquela que tiver os melhores jogadores para cada posição. Será sempre aquela que tiver os melhores jogadores para cada posição e que esteja trabalhada para que cada um destes elementos sirva o colectivo. E o peso do colectivo é tão grande como o peso das individualidades. É por isso que uma equipa com elementos razoáveis, se bem mecanizada a nível colectivo, pode ser tão forte quanto uma equipa com elementos de melhor qualidade. É claro que, a jogadores de grande qualidade, que individualmente são correctos a todos os níveis, é muito mais fácil ensinar a pôr os seus atributos ao serviço do colectivo. E é por causa dessa facilidade que muitos treinadores completamente ineptos ainda vão passando por bons. Concluindo, uma equipa de futebol é uma máquina com inúmeras funções. Ao contrário de uma máquina normal, cada peça não tem uma função independente. Uma equipa de futebol não é um somatório de funções, mas um conjunto. Cada elemento dessa máquina tem todas as funções que o conjunto tem. Ou seja, nenhuma das peças da máquina tem um papel independente: todas representam o mesmo papel, mas em posições diferentes.

sábado, 18 de agosto de 2007

Leitura de férias

O "Entre 10" vai de férias, não querendo contudo fazê-lo sem antes recomendar leituras alternativas. Falo dos artigos de Luis Sobral? Não. Das opiniões de Leonor Pinhão? Também não. Das certezas absolutas de Joaquim Rita? Ainda não. Do que escreve Rui Santos e também do seu cabelo fantástico? Claro que não! Sobre futebol, há muita coisa em Portugal que não vale a pena. Esta página é, porém, uma excepção.

Fica a sugestão.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

2 trincos: o maior erro do futebol moderno

Antes de tudo, queria referir que este texto foi escrito há coisa de um ano, antes portanto de começar a época transacta, e que só não tinha sido ainda aqui escrito por evidentes necessidades de edição. Achando, pois, conveniente altura para o fazer, aqui ficam as ideias (ideias essas que continuo a defender) de há um ano em relação sobretudo à utilização de dois médios-defensivos, bem como em relação à importância vital dos apoios quando a equipa tem a posse de bola...

Queria deixar claro, em primeiro lugar, que o que aqui vou dizer é pensado, sobretudo, para o caso de equipas pretensamente superiores, com ambições, que assumam o jogo. Uma equipa pequena, para quem o empate pode servir, tem o direito de ter uma interpretação diferente do jogo, mas uma equipa que queira vencer todos os desafios não pode deixar de pensar como aqui o exemplificarei.

Um dos grandes pecados – na minha opinião, o maior – do futebol dos dias que correm é a pretensa necessidade de dois trincos, ou médios defensivos. Essa utilização é a principal causa, em primeiro lugar, da pobreza em que o espectáculo se tornou, proporcionando um futebol mais defensivo, o que anula, em parte um possível futebol ofensivo do adversário, mas igualmente elimina a qualidade do seu próprio futebol. Poucos são os treinadores que não utilizam, pelo menos, 2 médios defensivos. É um erro grosseiro e, não raro, sem justificação. Para aqueles que defendem que uma equipa moderna tem de precaver a retaguarda com uma abundância de jogadores de características defensivas, algumas perguntas bastam para que se perceba que essas mesmas pessoas não conseguem avançar uma razão suficientemente aceitável para essa utilização. Em primeiro lugar, porquê dois trincos? Para fechar, o mais possível, os espaços defensivos – dirão alguns. Pois, e por que não 3 centrais? Depois, por que razão dar preferência a 2 trincos e não a 2 médios ofensivos? Será, porventura, mais importante preencher espaços defensivos que espaços ofensivos? Será mais útil ser coeso defensivamente que expressivo ofensivamente? Se sim, porquê? Acaso uma equipa que saiba defender bem, mas que ataque mal, tem argumentos para virar um resultado desfavorável quando bem lhe apetecer? Não será melhor o contrário? Saber atacar bem e não dar muita importância à defesa, uma vez que é mais fácil defender para quem não está rotinado a defender do que atacar a quem não está rotinado a atacar? Ou será melhor, isso sim, um equilíbrio de forças, conseguido por uma estrutura sólida que defende e ataca como um bloco? A estas perguntas, as mesmas pessoas não serão capazes de responder com agudez.

Mas a pergunta mais fácil, e pela qual acho que todos os argumentos desses defensores ruem, é: Para que serve o trinco? Ou melhor, quais as funções de um trinco? Os mais arrojados não hesitarão, certamente, em responder o seguinte: “Recuperar bolas”. Pois, a função do trinco é recuperar, então, bolas. Exacto. E a do médio ofensivo é pôr a equipa a jogar, ainda que os seus 10 companheiros insistam em pontapear a bola sem nexo e nunca na sua direcção? E a do avançado é marcar golos, mesmo que a sua equipa não passe de meio-campo? Francamente, essas pessoas não sabem o que é o futebol. Não se pode reduzir um jogador a uma função específica, ignorando o todo. Um trinco pode ser um bom recuperador de bolas, mas essa não é, de longe, a característica prioritária que deverá possuir. Recuperar bolas, para falar no caso do trinco, é algo que a equipa, enquanto todo, deverá realizar. Não é ao trinco que compete isso. Da mesma forma, não é ao médio de ataque que compete pautar o jogo de ataque da sua equipa. Isso é algo que a equipa toda deve ser capaz de fazer, se bem que ele, pelas suas características, possa ter uma responsabilidade acrescida. Um jogador não pode ter uma função específica tão redutora. A função específica de cada um deve ser aquela que, em primeiro lugar, se relaciona imediatamente com as pretensões da equipa. Se o trinco só serve para recuperar bolas, é uma unidade a menos sempre que se ataca? Muitos dirão que sim. Que estulta percepção do jogo! O trinco é dos elementos mais importantes no processo ofensivo de uma equipa, ainda que tenha, principalmente, um papel passivo no mesmo.

O que importa aqui definir, então, é qual é a missão do trinco. Já ficou explicado que um trinco não é um recuperador de bolas, porque isso é missão do conjunto e não de um só homem. De uma forma mais vasta, a missão do trinco é igual à missão de qualquer um dos outros jogadores: ocupar os espaços que lhe estão destinados, de acordo com a posição em que foi instruído. Isto significa, de uma forma lata, que a preocupação principal de qualquer jogador é apenas a ocupação correcta do respectivo espaço. Embora pareça simples, ocupar espaços é das coisas mais complexas e modificáveis que podem existir num jogo de futebol. Ocupar um espaço não é apenas ocupá-lo: o espaço a ocupar é influenciado pela posição da bola no terreno, pela posição dos companheiros e pela posição dos adversários. E é isto tudo que um jogador tem de ter em conta. Voltemos ao caso concreto do trinco. A sua missão divide-se em sub-missões, dependendo da situação de jogo. Sem bola, com a sua equipa a defender, tem por missão ocupar um espaço à frente da linha de defesa, não para travar as entradas dos médio ofensivos adversários, como se pensa, mas para cortar linhas de passe. É tão-somente isto a sua tarefa defensiva: cortar linhas de passe. O trinco não tem que ir ao choque; não tem que tentar ser ele a roubar a bola ao adversário, deixando desguarnecido o seu lugar; não tem que marcar directamente o adversário que ali lhe aparecer. O papel do trinco é fechar, em cada instante, o maior número de linhas de passe. Daí a importância de um jogador inteligente nesta posição, pois é necessário não apenas disponibilidade física para constantes movimentações como também uma lucidez táctica extraordinária, capaz de interpretar os lances com rapidez e correcção. A nível ofensivo, como disse, o trabalho do trinco não é menos importante, ao contrário também do que se pensa. Numa equipa que jogue em ataque organizado, a posse de bola é absolutamente vital. Assim, ao trinco compete acompanhar a circulação da mesma, fazendo cobertura por trás ao possuidor da bola, facultando uma linha de passe e, ao mesmo tempo, posicionando-se no melhor local para travar um contra-ataque, no caso de a bola ser perdida. O trinco deve, pois, suportar o portador da bola, servindo ao mesmo tempo de primeiro escudo defensivo. Imaginando um meio campo com três ou com quatro unidades, só para falar de médios centro (refiro-me, por isso, a uma táctica como o 4-3-3 ou como o 4-4-2 em losango), o trinco é aquele que deverá ocupar sempre o espaço atrás do portador da bola, quer ele seja o interior direito, o interior esquerdo, ou o médio de ataque, no caso do 4-4-2 em losango. Os outros médios sem bola devem fazer os apoios laterais, criando assim o maior número de linhas de passe disponíveis para quem transporta a bola. No caso do portador da bola ser um ala, isto no 4-3-3, o apoio directo é dado, lateralmente, pelo interior desse lado e, por trás, pelo lateral, ficando o trinco encarregue de um sub-apoio, posicionando-se nas costas do interior que dá o apoio lateral. Portanto, qualquer que seja o portador da bola, o trinco tem que estar em movimento e fornecer opções de passe. Com a bola em seu poder, tem a possibilidade de decidir o destino a dar-lhe, sendo contudo recomendado que a entregue de forma simples, para que outros mais habilitados possam decidir que destino lhe dar.

Ora bem, se em termos defensivos a utilização de dois trincos pode continuar a parecer producente (não o é sobretudo porque a equipa defende mais atrás e porque, permitindo por isso o avanço de maior número de adversários, gera mais possibilidades de sobrarem bolas para a entrada da área, onde pode aparecer um remate) a nível ofensivo parece ficar explicado que é, obviamente, um erro ter dois jogadores a fazerem coberturas a apenas um, isto no caso de três médios centro. Numa equipa que privilegie a posse de bola (e qualquer equipa que assuma o jogo tem, obrigatoriamente, de a privilegiar, sob pena de ser mal sucedida), os apoios são fundamentais. Uma posse de bola bem sucedida só é possível se o portador da bola tiver opções de passe junto de si, constantemente. Logo, se os apoios são tão importantes, 2 trincos inviabilizam uma boa posse de bola, pois não permitem um fornecimento de apoios apurado. Assim, uma equipa que jogue com 2 trincos (tirando a França, porque o Zidane até sozinho poderia jogar) nunca será uma equipa de grande volume de futebol. Terá de optar por um futebol mais rectilíneo, mais directo, apostando na velocidade ou nas capacidades individuais dos seus dianteiros, ou seja, entregando a sua sorte à inspiração de dois ou três jogadores. Em última análise, uma equipa com 2 trincos nunca joga, verdadeiramente, em equipa. Os 2 trincos servem para que os médios de ataque e os avançados tenham mais liberdade, mas não são capazes de ajudá-los, quando necessário. E um treinador que opte por 2 trincos não sabe trabalhar a posse de bola, talvez imaginando que esta se possa reter graças apenas à qualidade da recepção e do passe, que insistentemente deverão treinar. O factor mais importante para a posse de bola não é de ordem técnica (não é a qualidade de passe, a velocidade de execução, etc.) mas sim a existência, regular, de linhas de passe. E essa existência não depende da disponibilidade de um jogador, mas de toda a equipa. Todos têm que estar em sintonia. Daí a posse de bola ter de ser algo a trabalhar em equipa e não individualmente.

Outra coisa que importa salientar é a questão do "pressing". Muitos treinadores que utilizam dois trincos, pedem também aos jogadores que pressionem alto. Ora, nada mais incoerente. A utilização de dois trincos visa, ainda que erradamente, preencher espaços defensivos. Isso faz-se à custa de espaços ofensivos, que passam a estar menos preenchidos. Ora, é completamente contraditório preencher espaços defensivos e pedir que se pressione alto quando os jogadores que deveriam pressionar estão amarrados a posições atrasadas. Ou seja, uma táctica com 2 trincos impossibilita a utilização de pressão à saída da área do adversário, coisa que qualquer equipa de teor ofensivo deveria ser capaz de empreender, pois a sua prioridade deve ser manter a bola, quando a tem, e recuperá-la o mais rápido possível, quando não a tem. Contudo, muitos treinadores pedem as duas coisas às suas equipas: preocupações defensivas e "pressing" alto. A minha teoria é que não sabem por que razão devem fazer nem uma nem outra coisa.

Daqui parto para alguns exemplos práticos, tentado ilustrar este ponto de vista. Há dois anos, Co Adrianse utilizou um sistema que, para muitos, era demasiado louco e estava destinado ao fracasso: um 3-3-4. Eu próprio achei descabido, sobretudo porque a defesa do Porto oferecia pouca confiança. Porém, foi campeão, dominou sempre os jogos e raramente concedeu oportunidades de golo aos adversários, acabando mesmo por se tornar a melhor defesa dos últimos 20 anos, superando mesmo as marcas de Mourinho. E porquê? Simplesmente porque a sua equipa pressionava tão alto e com tantas unidades que recuperavam a bola sempre muito à frente. Contra equipas que se defendem lá atrás, como a grande generalidade das do campeonato português, um sistema como este é, claramente, um dos mais correctos. A fraca qualidade do sector recuado nem sequer foi posta à prova. Escolhi, contudo, este exemplo também por outra razão. Num sistema como este, com apenas três defesas e com quatro avançados, a utilização de dois trincos, no caso, o Raul Meireles e o Paulo Assunção, não é descabida. Aqui, os trincos têm uma missão defensiva acrescida, que é compensar os flancos desguarnecidos. Já a nível ofensivo, devem fazer a cobertura aos três homens que se encontram à sua frente, isto é, aos alas (porque não há laterais para fazer os apoios por trás) e ao médio ofensivo. Daqui vou para outro exemplo em que, excepcionalmente, a utilização de 2 trincos não é contraproducente: um 4-2-3-1. De notar, antes de tudo, que isto nada tem a ver com um 4-5-1 ou com um 4-3-3. E muito menos com o 4-2-3-1 que se vulgarizou desde os tempos de Bobby Robson, com 2 trincos, um médio ofensivo e dois extremos, o que mais não é que um 4-5-1 mascarado. Num 4-2-3-1, os 3 médios que sucedem ao avançado são médios centro e não extremos, fazendo os dois de cada lado, contudo, trabalho exterior. A principal diferença é que, ao não existirem alas, a equipa não tem tanta profundidade, ganhando, por outro lado, criatividade e preenchimento de espaços na zona central. Exemplos da utilização desta táctica, não sendo muito comuns, podem encontrar-se no Portugal de Humberto Coelho, em que Nuno Gomes era o avançado, João Pinto, Figo e Rui Costa os três médios sem posição fixa, e Paulo Bento e Vidigal os trincos que faziam as coberturas destes três médios. Escusado será dizer que a equipa trocava extraordinariamente bem a bola. Outro exemplo foi o Porto de Mourinho, num jogo da Liga dos Campeões contra o Manchester United, em casa, em que Mourinho, sem poder contar com Costinha, fez actuar Maniche ao lado de Pedro Mendes, fazendo estes cobertura a Alenitchev, Deco e Carlos Alberto. Além do fantástico espectáculo que proporcionaram, tiveram um resultado positivo, vencendo por 2-1, o que ajudaria a passar a eliminatória... Nesta táctica, portanto, os médios ofensivos descaídos para as alas não têm a cobertura de um médio interior, como teriam os alas no 4-3-3. Logo, essa cobertura será compensada pela utilização de mais um trinco. Por alto, pode dizer-se que deve haver sempre um médio ofensivo a mais que trincos: se houver 2, haverá 1 trinco, se 3, 2 trincos. Daqui, parto para o 4-4-2 losango, com o qual terminarei. Fernando Santos, a época passada, começou por utilizá-lo, desistindo dele porque os jogadores pareciam não entender o que o técnico pretendia e voltando a ele umas jornadas mais tarde, mantendo-o até final da época. Primeiro, o 4-4-2 losango, pela ocupação complexa dos espaços, é uma táctica que demora muito tempo a interiorizar. Exemplo disso foi o Sporting de Peseiro, que demorou até começar a atinar, mas que depois, por pouco, não limpava tudo. Este sistema, no Benfica, apesar de todas as suas virtudes, pareceu sempre demasiado infecundo. E porquê? Porque os jogadores não jogavam em apoios. E não era algo que não fizessem por não saber, mas porque não o trabalhavam, certamente. Ou seja, o desenho táctico, por si só, não é nada. Apesar de esta táctica ser das mais correctas em termos de apoios, pois permite posicionamentos perfeitos para esse efeito, não funcionará nunca na perfeição se não se cultivar um futebol apoiado, em que os jogadores joguem juntos e criem constantes linhas de passe. Ao contrário do Benfica, que se apresentou sempre muito desunido, o Sporting de Paulo Bento faz isso na perfeição. A equipa é compacta a defender e joga bom futebol porque tem os apoios e as coberturas bastante bem estudadas. Especialmente nesta táctica, os apoios têm de ser bem feitos. Sem eles, uma táctica que privilegia a ocupação de espaços centrais como esta, torna-se pouco útil e só as iniciativas individuais lhe podem valer.

Resumindo, a utilização de um só trinco e o jogar apoiado estão intimamente ligados, essencialmente porque um jogo de apoios perfeito exige a utilização de apenas um homem a efectuar os apoios por trás. A utilização de mais do que um médio defensivo implica um fornecimento de apoios deficiente e dificulta a posse de bola, a opção por um futebol curto e as transições mais lentas (absolutamente necessárias numa equipa que queira comandar os ritmos de jogo, como qualquer equipa de topo). Em 90 minutos de futebol directo, com transições rápidas, como em Inglaterra, por exemplo, esta necessidade não será prioridade. Mas é-me totalmente inconcebível que uma equipa ambiciosa, que queira ganhar sempre, seja ingénua ao ponto de praticar um futebol directo durante 90 minutos, permitindo espaços desnecessários, não retendo a posse de bola em alturas cruciais do jogo, não gerindo esforços ou ritmos, e funcionando sempre com linhas rígidas, incapazes de se estenderem ou encolherem consoante as necessidades do jogo. Quero com isto dizer que, tirando o Chelsea de Mourinho e o Arsenal de Wenger, todas as outras equipas inglesas são tacticamente ingénuas, e que essa ingenuidade pode, muitas vezes, ser observável pela utilização de mais do que um trinco.

sábado, 11 de agosto de 2007

O ano de Moutinho

Há 2 anos, ainda Ricardo Quaresma andava a ser ostracizado por Co Adrianse, sugeri que aquele era o ano de Quaresma. Parecia-me evidente, na altura, que o extremo portista iria explodir, mesmo não estando a ser utilizado, no início da época. A minha previsão acabou por se confirmar e Quaresma explodiu mesmo, embora continue injustamente amarrado ao futebol português.

O ano passado, por esta mesma altura, pensei que seria o ano de Carlos Martins. Debeladas as lesões que o tinham apoquentado durante toda a época anterior, parecia-me legítimo acreditar que um jogador que, sempre que entrava, vindo de lesões, revolucionava o futebol leonino, partia para a nova época com condições para encantar. A princípio, o destino deu-me razão. Carlos Martins estava numa forma impressionante, tendo-se estreado com a camisola da selecção. No Sporting, o campeonato começou bem e Carlos Martins também. Porém, o destino trocou-lhe as voltas. As coisas começaram a correr mal ao Sporting e, entre outros, Carlos Martins foi uma das vítimas. Talvez por nunca se ter conformado com as acusações que lhe fizeram, deixou de exibir a confiança anterior e a vontade férrea de vencer que lhe eram conhecidas. Não creio que tenha desaprendido, mas penso que deixou de acreditar que pudesse explodir. Talvez ainda vá a tempo de se tornar no jogador que imaginei, mas o seu futuro não é, para já, auspicioso.

Tendo acertado uma e falhado outra, independentemente das circunstâncias, quero dar um terceiro palpite para desempatar. Sugiro que este vá ser o ano de Moutinho. O jogador do Sporting está cada vez mais maduro, não parou ainda de evoluir, parece mais liberto de responsabilidades, embora a braçadeira de capitão, e mais dado a pormenores individuais que podem marcar a diferença. Tem marcado mais golos, aposta mais no remate de meia distância e acredita mais em si enquanto elemento decisivo. Até aqui, a mentalidade de Moutinho pareceu-me sempre reservada. A sua abnegação e o respeito pelos desígnios da equipa impediram-no sempre de se envaidecer individualmente. E é isso que lhe falta para ser o grande jogador que me parece que vai ser. Essa vaidade, porém, começa a vir ao de cima aos poucos e um bom campeonato do Sporting pode libertá-lo decisivamente. A ver vamos...

Mais Luis Sobral

Eu não queria. Juro! Mas há coisas que não dá para ignorar. Diz Sobral, neste artigo, sobre o hipotético risco que Simão corre ao ingressar num clube que, à partida, não tem as aspirações internas do Benfica:

"No fundo, Simão não encontrará em Madrid uma situação muito diferente da que descobriu na Luz quando chegou, depois de dois anos em Barcelona. Agora no auge da carreira, o Atlético precisará do bom jogo do internacional português, claro, mas também da capacidade de liderar pelo exemplo que Simão impôs na Luz."

No Benfica, Simão encontrou uma equipa que luta sempre pelo campeonato. No Atlético, Simão encontra uma equipa que luta sempre pelo campeonato... em sonhos. De facto, a situação de Simão no Atlético é completamente igual à que encontrou no Benfica.

Noutro artigo, diz Sobral:

"...a equipa demonstrou uma produção atacante débil e o meio-campo com Petit, Manuel Fernandes e Katsouranis tem músculo que se farta, mas pouco andamento e escassa imaginação."

Hmmm... Fiquei intrigado com isto. Até porque, há dias, Sobral defendia precisamente o contrário. Neste artigo, dizia:

"Por esta altura, admite-se que Fernando Santos coloque Manuel Fernandes sobre o lado esquerdo do losango, com Katsouranis à direita, Petit nas costas e Simão à frente, antes dos dois avançados."

Na altura, ao comentar a patetice de se admitir um meio-campo assim (o que levantou alguma polémica), eu escrevi isto, entre outras coisas:

"O meio-campo do Benfica como o senhor Sobral o quer, será um meio-campo musculado, provavelmente bom a nível táctico, quer defensiva, quer ofensivamente, mas muito pouco imaginativo."

Não sei se é de mim, mas parecem-me suspeitas três coisas. 1) Sobral diz agora que "o meio-campo com Petit, Manuel Fernandes e Katsouranis tem músculo que se farta". Eu disse que esse meio-campo seria "musculado" 2) Sobral diz agora que o mesmo meio-campo tem "escassa imaginação". Eu disse que esse meio-campo seria "pouco imaginativo". 3) Mudar de opinião de um dia para o outro parece-me sempre suspeito.

Gosto muito de pessoas que chegam a conclusões depois do resto do mundo. É fácil descobrir a agulha se o palheiro estiver vazio. Além disso, o uso concreto de duas palavras leva-me a pensar que, tal como Eça de Queirós terá tido em mente Rodolphe Boulanger quando escreveu o Primo Basílio, também o senhor Sobral parece ter sido influenciado por uma qualquer luz divina. Agradecia, contudo, que, não sendo essa a sua opinião inicial, a retratação do senhor Sobral viesse acrescida de uma nota de rodapé na qual se referisse a fonte que o esclarecera. Talvez esteja a ser muito exigente, mas já vi malta a ser acusada de plágio por menos. Tudo bem, é preciso alguma desvergonha para se escrever um texto com ideias completamente contrárias a outras ideias de outro texto, sem se desculpar pelo erro inicial. Mas roubar é feio. Então, quando se tratam de ideias com as quais não se concordam, chega a ser deprimente...

Resumindo, nunca pensei que este blogue pudesse ter o condão de iluminar alguém, mas talvez esteja enganado. Para finalizar, tenho alguns desejos a pedir ao senhor Sobral. Em primeiro lugar, não vá de férias, pois dar-me-ia jeito escrever ainda uns quantos textos no blogue este Verão. Em segundo, não pense em reformar-se tão cedo, que eu gostaria de continuar com isto por mais uns tempos. Pode ser? Por fim, se realizar os meus primeiros dois desejos e cumprir com a sua parte, prometo continuar a esclarecer os seus pontos de vista, o que, pelos vistos, é o suficiente para que continue a exercer a sua profissão, o que para mim também não é mau, uma vez que, dessa forma, continuarei a ter matéria para ir dando uns bombons aos leitores deste blogue.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Pressão...Cómica...

Quando vejo a comunicação social se insurgir impiedosamente contra a qualidade do nosso futebol não deixo de esboçar um sorriso. Não acho que este desporto esteja muito bem representado, nada disso. Sinto, e continuo a defender que é possível que o nosso futebol dê um salto qualitativo. A diferença é que não acredito que o caminho passe por uma redução/aumento de clubes, ou reestruturação da sociedade futebolística. Passa sim, por uma mudança de mentalidade e de perspectiva sobre o Futebol, mas isto são contas de outro rosário. Acho, porém, que não deixa de ser irónico observar quem não consegue articular duas ideias e cumprir com o minímo de competência a sua profissão, censurar a qualidade do futebol cá do burgo, sem se apresentar argumentos de forma lógica e ordenada.

Nos últimos tempos o jornal " Record" fornece diariamente uma boa dose de humor. Não, não me refiro à "Pancada Central".
Rui Santos. E também não é uma alusão à foto "catita". Todos os dias através do espaço " Pressão Alta" observa-se verdadeiras pérolas...
Vou falar de uma dessas "maravilhas jornalísticas", com o título Losangolândia.
Maravilha.

Neste texto o excelentíssimo Sr. Rui Santos relata uma pergunta que paira há muito sobre o futebol de alvalade. Referia-se à dúbia utilidade de Carlos Freitas à SAD leonina...
Primeiro: descobrimo a verdadeira causa da constante remoção do relavado de Alvalade: É essa maldita pergunta que impede a fotossíntese do relvado de Alvalade.
Segundo: eu acho que o Rui Santos tem um fraquinho pelo Sr. Freitas.

Mais à frente fala do nível das contratações do Sporting ( especificamente). Muito boa ideia. Ainda nao começou o campeonato e já estamos a condenar Izmailov, Vukcevic e companhia... Não fosse Rui Santos jornalista e diria que está a ser preconceituoso.
Continua, falando das contratações falhadas da turma leonina. Pegando nas mesmas para justificar a sua desconfiança em relação ao trabalho do "gestor de activos" de Alvalade mas não sem antes descobrir a pólvora : " Contratar muito não significa contratar bem". O homem é um sábio. Que genialidade.
Giro que ele fale do que correu mal, mas não do que correu bem. Valha-nos a sua total imparcialidade. O Mourinho não ganhou o campenato inglês, e perdeu a Supertaça Inglesa. Este é outro senhor que não verá o sol tão cedo.

Passa também por Nani. Observa que este tem se integrado bem no "United". E é a esta altura que eu me convenço que estou perante um ser divino. Como é que ele consegue ver estas coisas? Qual é o segredo? Será a brilhantina? Tenho de descobrir...
Explica a urgência de melhorar os processo de treino em Portugal. Ok. Porquê? Eu concordo com isto, mas não sei se ele sabe a verdadeira essência deste aforismo. E será o "United" o exemplo a seguir?
Depois faz uma pausa e, finalmente!, faz uma crítica idiossincrática. O Paredes e Farnerud, são pesos mortos. Pareço eu a fazer o Euromilhões. Paredes boa, Farnerud não concordo. Mas aqui admito que eu também sou dos poucos que consegue se aperceber das qualidades do sueco. E depois de ele dizer mal do Paredes... Não sei se não o passarei a ver com outros olhos... Ao Paredes claro.
O Adrien pode fazer os dois lugares como ele diz, mas, pelo menos por enquanto, só é melhor que o Paredes.
Por fim, e para terminar em beleza exprime a necessidade de se rodear Paulo Bento com um clima de exigência. Sim, porque uma das características que sobressaem neste técnico, é a sua displicência. Fala ainda da urgência que o futebol do Sporting tem em ganhar flexibilidade táctica, porque senão o Bento poderá estagnar. Descobre que não basta tirar um jogador e colocar outro no mesmo lugar, e que para além disto, jogar em losango não chega. Isto, ou seja, a "estagnação", chega depois de ele pressupor o futebol do Ferguson como algo evoluído. Ok. Mas então deixa o treinador leonino assim? Não lhe explica o que é que ele está fazer de errado? É a mesma coisa que ir ao médico e ele apenas nos fazer o diagnóstico. Precisamos que tu nos ilumines ò grande Rui... Por favor... Ilumina-nos...

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O admirável mundo novo de Quique Flores

Quique Flores, o treinador do Valência, talvez ainda dorido pelo falhanço da contratação de Lucho Gonzalez ao Porto, decidiu ignorar as virtudes do argentino, preferindo elogiar aquele que acabou por ser o seu substituto, isto é, a segunda opção. A sério, não percebo certas coisas. O que é que custa admitir que queria um jogador, mas que isso não foi possível? Por que é que tem que tentar rebaixá-lo?

Segundo Quique Flores, Lucho Gonzalez não era o jogador com o perfil certo para o Valência. Aqui há várias coisas que se podem dizer. 1) Não estou a ver muitos médios-centro da categoria do argentino do Porto que sejam tão completos e conciliem tão bem o desempenho ofensivo com o defensivo, coisa essencial no 442 clássico de Quique. 2) Se Lucho não tem o perfil certo, é Kallstrom que o tem? Em que medida? É isso que ficamos a saber quando Quique diz que pretendia um jogador com personalidade e que fizesse a equipa jogar. Ora, Lucho é dos jogadores com personalidade mais forte que conheço. Além disso, é extraordinariamente abnegado e põe os interesses da equipa sempre à frente dos seus.

Continuo sem entender onde quer chegar Quique Flores com as suas explicações esfarrapadas. Segundo Quique, Lucho era um jogador que não tinha bem posição, que era um pouco de tudo, e que perderia tempo a adaptá-lo. Adaptá-lo? A quê? Guarda-redes? Lucho é um pouco de tudo? Como assim? É polivalente? Não. É um médio-centro extraordinariamente completo. Quando Quique diz que Lucho é um pouco de tudo, só pode querer dizer que Lucho é um médio que ataca bem e defende bem, que é o jogador que, numas jogadas, faz o último passe e que, noutras, é o jogador que se desmarca para receber o último passe. Isso é mau? Em que sentido? E no 442 clássico, em que se querem dois médios de consistência defensiva, não é óptimo arranjar um que além disso consegue oferecer boas garantias a atacar? E o que significa afirmar que Lucho não tem bem posição? Será que Quique não consegue enxergar que há três tipos essenciais de médios-centro, uns mais vocacionados para médios defensivos, outros para médios ofensivos, e outros para uma posição intermédia, que acarreta responsabilidades defensivas e ofensivas? Será que não percebe que Lucho não é nem médio defensivo nem médio ofensivo, mas sim um misto dos dois? E será que não sabe que, para o seu sistema, os melhores médios são os deste terceiro tipo?

Basicamente, Quique queria Lucho, mas achava que Lucho não era bem Lucho. Então, preferiu Kallstrom, alegando que Kallstrom é mais Lucho que Lucho. Aprecio bastante o sueco e não está em causa a qualidade da contratação. O que está em causa é que Quique pretendia um jogador com as características de Lucho, mas preferiu contratar Kallstrom, que não é bem o mesmo. Kallstrom não tem as capacidades defensivas de Lucho, a disciplina táctica, o rigor, a frieza. É um jogador muito dotado tecnicamente, extraordinário no passe longo e desenrascado no um par um. Mas no futebol do Valência encaixaria sempre melhor alguém capaz de conciliar estas capacidades com o rigor táctico e com a abnegação do argentino. Não tenho quaisquer dúvidas: Lucho era muito mais o jogador que interessava à filosofia de Quique Flores.

Se isto não é argumento suficiente, gostaria ainda de lembrar que Kallstrom, em termos de características, é em tudo idêntico a Hugo Viana. E em categoria também não anda longe. E todos sabemos a utilidade que o português teve na época passada. Se Lucho ia para Valência para, provavelmente, ser titular, Kallstrom irá, certamente, para fazer as vezes de Hugo Viana. Quique Flores, frustrado por não ter conseguido Lucho Gonzalez, preferiu ser orgulhoso e não revelar a dor de cotovelo que sentiu. Preferiu manter a dignidade, mas, acrescento eu, perder nobreza.