Depois de o meu texto sobre os artigos do Luis Sobral ter causado tanta polémica, pensei que a tempestade fosse amainar. Temo, contudo, que, depois deste texto, voltem a cair sobre mim palavras de repúdio, bem como insultos e acusações palermas. Mas não consigo resistir: é demasiado bom para não escrevê-lo e, confesso, não nutrindo por este senhor nenhum ódio particular, só a polémica que causou me motiva a reatá-la.
Andava eu descansado a ler coisas, quando encontro nova pérola do senhor Luis Sobral. Devo dizer, por esta altura, que quem não tem vergonha uma vez, não tem vergonha sempre. O artigo é
este.
Se é verdade que, segundo o título de Luis Sobral, "perder Simão pode doer", parecem-me parvas muitas das coisas que se dizem em seguida. Para não acharem que só digo mal do senhor, vou referir cada argumento do senhor Sobral e concordar com os que tenho que concordar e discordar dos outros.
Ora, diz Sobral que "O Benfica perdeu o jogador preferido pelos treinadores em 2006/07."
Sobral constata um facto, é verdade. Mas faz mais do que isso: assevera a sua concordância com isto, ao utilizar esse argumento para dramatizar a importância da saída de Simão. Ora, Simão pode ter sido o jogador preferido pelos treinadores, mas não teve, nem de perto, o papel decisivo no Benfica que Quaresma teve no Porto. Logo, Sobral está a dar ênfase a uma coisa importante, é certo, mas esquece que seria muito mais relevante se o Porto ficasse sem Quaresma.
Diz em seguida: "Este simples enunciado antecipa a frase seguinte: será praticamente impossível encontrar quem esteja ao mesmo nível."
Concordo. Mas também concordo que um bife não é uma salsicha. Alguém acha que substituir um jogador nuclear é possível? No Real Madrid ou no Chelsea, está bem. Mas para o Benfica substituir um jogador avaliado em 20 milhões de euros, teria de desembolsar quantias idênticas, o que num clube português é uma má política financeira e desportiva. Logo, a saída de Simão deve ser colmatada com um jogador com menos provas dadas. Este jogador até pode substituir o seu precedente com sucesso, mas isso só acontecerá por um golpe de sorte. Izmailov parece poder ser um bom sucessor de Nani, mas a ver vamos.
Continua Sobral: "Teria de ser um jovem génio ou um jogador maduro e de nível internacional."
Claro. Mas um jovem génio implica sempre uma obscuridade quanto ao seu desempenho. Pode substituir com êxito o seu precedente, como pode demorar a adaptar-se.
Acrescenta: "Descobrir génios (como o F.C. Porto, com Anderson) implica uma boa prospecção e alguma sorte."
Espera lá... Génios?? O senhor Sobral tem dicionário em casa? Primeiro, parece-me que o uso da palavra génio é excessivamente generalizado. Qualquer jogador habilidoso já é génio? É um bocado ousado, isto. Génios no futebol houve dois: Maradona e Zidane. Depois há os outros, os prodigiosos, os que estavam mesmo talhados para serem aquilo e não outra coisa. Falo, por exemplo, de Laudrup, de Del Piero, de Figo, de Ronaldinho, de Platini, de Cruyff, de Eusébio, de Pelé, de Redondo, de Bergkamp, de Van Basten, etc. E só depois vêm os putos habilidosos, que ainda têm muito pela frente, mas que, só porque sabem uns truques com a bola, não significa que sejam nem prodigiosos nem geniais. Sei de vários casos de jogadores que, em tenra idade, aparentavam um futuro ao nível dos melhores de sempre, mas que depois desapareceram. Com dezoito anos, nunca vi jogar, por exemplo, ninguém como o Dani... Mas o mais ridículo deste pequeno excerto nem é isto. O que é verdadeiramente absurdo é considerar Anderson um génio. Nunca percebi de onde veio o amor pelo brasileiro. Nem sequer me lembro de uma coisa assim, de um jogador não fazer nada de extraordinário e cair nas boas graças de quase todo o mundo. Não me interpretem mal: acredito que ele tem um potencial enorme. Mas não mostrou praticamente nada para que o mimassem como mimaram. Anderson fez um início de época relativamente bom, mas nem sequer deslumbrou. Simplesmente apareceu do nada, a jogar bom futebol, mas mais nada. E logo se levantaram vozes, dizendo que nascera mais um prodígio. Que estupidez! O futebol do Porto até agradeceu quando ele se lesionou: passou a fluir mais e libertou Quaresma, que viria, pelo segundo ano consecutivo, a carregar a equipa às costas. Agora, se Anderson já criara tanta euforia, a sua lesão não poderia ter acontecido em melhor altura. O puto, sem mostrar nada de especial, repito, deixara um ar da sua graça, abrira o apetite aos adeptos, insinuando que poderia (como também não poderia) fazer uma grande época. E construiu-se um mito, baseando-se na presunção de que ele manteria o mesmo nível ao longo do campeonato inteiro, nível esse que já era sobrevalorizado pelos adeptos. Para além disso, a sua lesão foi motivo para o avolumar da guerra ideológica com o Benfica. Além de se ter criado um mito em torno de Anderson, criou-se também um mártir. E mitos e mártires são sempre adorados. Ou seja, a reputação de Anderson foi muito mais criada pela imaginação das pessoas do que por aquilo que ele fez de bom. E é sempre assim. O ideal do herói grego era o homem que se valorizava na guerra. E, por isso, os heróis raramente sobreviviam à guerra e morriam velhos. Interessava as pessoas recordarem os seus feitos heróicos, não a decrepitude ou a sabedoria. Aquiles foi para a guerra para morrer. Ájax, sentindo que o seu tempo de feitos grandiosos se aproximava do fim, suicidou-se. E as pessoas recordaram-nos pelas últimas coisas que fizeram, ou por aquilo que prometiam fazer. Assim aconteceu com Anderson. Lembro-me de achar que Zidane fora extremamente inteligente ao abandonar a carreira num momento tão bom. Ninguém se vai lembrar dos meses que demorou a adaptar-se ao Real Madrid, nem das coisas menos boas que, eventualmente, faria se continuasse a jogar futebol. Resumindo, Anderson não fez nada para valer o apreço que lhe têm, mas muito menos para ser considerado um génio. Por isso, senhor Sobral, meça as palavras quando quiser fazer afirmações como esta.
Adiante. Continua Sobral: "Contratar jogadores de nível internacional no auge é praticamente impossível para qualquer clube português"
Não é praticamente impossível. Antes pelo contrário, o Benfica poderia bem investir o dinheiro recebido num jogador da valia do Simão e com a idade dele e os mesmos créditos dados. Não era assim tão difícil. Mas seria errado. Ou seja, ser possível é. Só que é estúpido...
E diz ainda: "No entanto, creio que é justo dizer que o Benfica está hoje mais sólido enquanto clube do que no passado (há três ou quatro anos, por exemplo). Por isso necessita menos do que Simão significava fora do campo, naqueles longos períodos em que parecia que a equipa se esgotava no internacional português."
Concordo até ao primeiro ponto final. A partir daí nem sequer percebo o que o senhor Sobral quer dizer. O que é que o Simão significava fora de campo? Tem um rabinho jeitoso? A mulher dele inspira os outros? Ele tem umas piadas giras e põe a malta bem disposta? Não sei mesmo...
Finalmente, Sobral remata: "PS: Juntar à saída de Simão a entrada de muitos jogadores, criar conflitos com jogadores do plantel e empurrar para a rua o homem que fazia a ligação entre a equipa e a direcção é que poderá ser muita coisa ao mesmo tempo."
Pois, a saída do Simão foi a gota de água. Mandar homens para a rua, criar conflitos com jogadores e comprar muita malta até é fixe, desde que o Simão não saia. Agora, saindo o Simão, está tudo estragado. E o resto passa a ter importância. Isto é basicamente o mesmo que pensar o seguinte: podia explodir uma bomba no autocarro da equipa que, desde que o Simão se salvasse, não havia problema. Agora, se o Simão não se salvasse, estava o caldo entornado. Para o Sobral, Simão é tipo um líder de uma milícia. Pode-se prender quase toda a gente que faz parte da milícia, que isso não tem efeito nenhum. Se queremos acabar com a milícia, temos de limpar o sarampo ao líder. E basta isso para que os outros percam todo o relevo. Fenomenal!
Para acabar, quero então dizer que o resultado se avoluma para 0-3 e que, pressupondo que o Sobral não tem um transplante cerebral marcado para os próximos tempos, se avizinha uma goleada...