domingo, 22 de julho de 2007

Grande...

Sei que não é habitual este tipo de Post no nosso blogue... Mas depois da exibição de sábado...
Grande Rui Costa... Com reformados destes...

sábado, 21 de julho de 2007

Seis que mereciam ser Dez... (3)

Geometria. Se pudéssemos resumir numa palavra o seu futebol, seria esta a mais apropiada.
Disse uma vez que tinha tido sorte. A sorte de encontrar um treinador que preferia um jogador que tocasse a bola para o lado, em vez de "rasgar". Eu digo mais, o Futebol teve sorte.
A sua qualidade de passe era assombrosa, que apenas encontrava par na maneira como, elegantemente, obstruia as linhas do adversário.
Importante no desenvolvimento das situações de ataque da sua equipa, fossem elas rápidas ou nem por isso, nunca deixou que o seu dom se tornasse uma maldição, isto é, nunca abusou da capacidade que possuía em colocar a bola à distância.
Com critério definia as bases de cada ataque, permitindo um desenvolvimento do mesmo de forma sustendada e equilibrada, fosse através dos apoios que concedia, ou das movimentações a que "obrigava" os seus colegas...

Cruyff disse que ele jogava em qualquer equipa, e ele jogou numa das que mais apaixonou os adeptos do Futebol...

Não teve do futebol, o fim, nem a homenagem que merecia...
Mas será intemporalmente um dos melhores na sua posição, por isso, e pelos bons momentos proporcionados... Obrigado Pepe Guardiola.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Certezas... (6)

Personalidade! A primeira palavra que surge quando penso neste jogador.
Uma atitude irrepreensível dentro de campo, assumindo-se como um exemplo para os companheiros, faz de jogadores como ele e o Daniel Carriço lideres naturais. Contudo, não é só por este facto que este miúdo deslumbra.
A primeira vez que o vi jogar, como médio mais ofensivo, não me encheu as medidas. Sim senhor, tinha qualidade de passe, tecnicamente evoluído, uma enorme disponibilidade, boas opções, mas faltava-lhe criatividade, - se bem que esta característica, nos dias de hoje, é muitas vezes desprezada. - e algum à vontade no último terço do terreno. Todavia, deu para ver que se ele ocupasse uma posição mais recuada, tinha condições para ser enorme.
Nos jogos em que o voltei a ver, só por uma vez o vi jogar como médio mais defensivo. Nesse jogo confirmou tudo que pensava dele. Estava na presença de um miúdo que tinha tudo para se poder tornar um dos melhores jogadores da sua geração, desde que colocado no seu devido lugar. Mas depois vi os sub-18 a jogar e pensei... "Ele mesmo fora da sua posição será sempre o melhor da sua geração!!"
Ainda assim, espero que se assuma definitivamente como médio mais defensivo, na perspectiva de se descobrir mais um enorme "reforço" para o futebol nacional...
Falo de... Adrien Silva.

Reciclagem...

Afinal não é apenas o Couceiro... Quer dizer este é o pior... Mas este Edgar Borges...

A selecção sub-19 ontem demonstrou isso mesmo. E começou pelas opções, até mesmo pelos que não foram.

Contra a Espanha, execeptuando o sector defensivo, a selecção revelou-se um enorme equívoco.

Aquele sector intermediário, Cruz, Martins e Castro, é no mínimo constrangedor. Três jogadores com características defensivas, - sim, porque eu espero que o Castro seja na realidade médio defensivo, e não médio ofensivo. - acompanhados por um tridente ofensivo, dos quais apenas se salva o pequenito Ivan Santos, não podia colher grandes resultados.

Não conheço bem esta selecção, mas calculo que o Edgar Borges tenha optado pelos melhores para este jogo contra a Espanha. Ou então não. De qualquer forma, não se compreende como é que um jogador como o Ricardo Nogueira não faz parte deste grupo. Não estou a dizer que ele seja um prodígio, mas é de grande utilidade, e é ponta de lança. A sério, não é apenas grande, como o Pedro Ribeiro.

Não sei o que vale o Paim, mas o pouco que vi dele, e o demasiado que vi do Candeias, sei que é bem melhor do que este. Já a "estrela" da selecção, Castro deixou muito a desejar, mas isso talvez seja reflexo da ( péssima) estrutura que o seleccionador montou. Talvez, isto é, se ele realmente for um médio de características defensivas.

O João Martins não tem desculpa. Não admito que um jogador com a qualidade de passe dele, falhe tantos. Movimenta-se bem, procura dar linhas de passe, tem boas ideias, e coloca a bola á distãncia com uma facilidade assombrosa, mas falha passes de 4/5 metros de uma forma deseperante. Já o Cruz... Bem este é apenas Mau!

Na frente para além das patetices do André Monteiro, e do Candeias, o Ivan Santos ainda tentou desequilibrar, verdade que ás vezes exagera, mas em muitas ocasiões não lhe deram outra solução, ou seja, sem apoios é normal que ele procure de forma mais insistente o um para um.

Na defesa, Daniel Carriço num patamar mais elevado, o quarteto exibiu-se a um bom nível.

Não bastassem as opções discutíveis do Sr. Edgar Borges, ele também foi vítima das novas tecnologias. Passo a explicar: a meio da primeira parte ele criticou o João Martins por este ter jogado a bola para o lado, dizendo: " João a bola é para a frente, não para trás e para o lado.".
Resta dizer, que não era uma situação de contra-ataque. Ou seja, para este senhor, jogadores como Guardiola... Esqueçam lá isso...

Mas deste jogo, pobre, pouco mais há a retirar do que a certeza que, para bem das selecções jovens, é urgente uma reciclagem no corpo técnico das mesmas... Quer dizer... Se calhar nem por isso... Perguntem antes ao Zéquinha, e ao Candeias, a ver se eles concordam...

quarta-feira, 18 de julho de 2007

"louca Quimera"

Não sei se será suficiente para dar início a uma nova era. Talvez não. Mas louve-se a iniciativa.

Serão poucos os que, depois de ter conquistado um campeonato, demitiriam o treinador vitorioso, lembrando que era preciso mais qualquer coisa.

Este gesto toma mais importância vindo de um clube como o Real Madrid. O exemplo deve vir de cima. Não sei, porém, se esta decisão contém um motivo tão altruísta, como a valorização do futebol, ou se não passa de uma desculpa "adornada".
Ainda assim, poderá representar um ponto de viragem no futebol actual e devolvê-lo à sua condição de espectáculo, acima de tudo. Concentremo-nos nesta utopia.

É um caminho perigoso este. Não é o mais fácil, mas é sem duvida o mais correcto, o mais justo, para os jogadores - porque sim, eu acredito que os jogadores podem ter prazer, e ao mesmo tempo acumular profissionalismo - , para os adeptos, em suma, para o futebol.

Um rumo solitário, contendo obstáculos como a hipocrisia, a mesquinhez, a pequenez desses iluminados, que reduzem o futebol a resultados, mas depois queixam-se que os adeptos andam dirvorciados deste belo Espectáculo. Ah! Agora já é espectáculo...
Ao mais pequeno percalço, a "corja" surgirá, criticando os "loucos", regozijando-se com o fracasso de quem teve a coragem e a nobreza, de assumir os risco da mudança. E vai passar por "isto" muito do sucesso, ou não, desta "empresa".

A utopia proposta, a da harmonia entre o espectáculo e os resultados, não será assim tão ridícula. (Como antes defendi, no post " Erros") Mas para os que não concordam comigo, peço apenas alguma atenção para me fazer entender.

Assumamos que é de facto uma utopia a que se propõe o Real Madrid. Que não é suficiente apenas ganhar. Não se trata de renegar a importância dos resultados, mas sim de valorizar a forma como ele nos é apresentado. O futebol será apenas sinónimo de sofrimento? De fanatismo clubístico? Não poderá um adepto do Benfica deliciar-se com um jogo entre o Guimarães e o Belenenses? - Não faço menção aos "rivais", porque isso parece-me que era abusar da sorte!-.
Considerando este propósito, não será difícil perceber a evolução implicada no mesmo. Não basta ser eficaz, tem de haver qualidade.
Estes quadros, estas utopias, revelam a sua utilidade nisto mesmo. Ou seja, funcionam como o motor, a alavanca, que nos permite atingir um nível mais elevado. Até aqui bastava ganhar, desprezando a forma, o caminho que nos levava até esse objectivo. Uma evolução do "ganhar de qualquer forma", passaria sempre por ganhar de uma forma atraente. A borboleta nasce da larva...

Com esta atitude os dirigentes pretendem atingir um patamar que muitos ainda nem sequer consideram. O risco de se encontrarem "sozinhos" nesta selva poderá compremeter de sobremaneira esta "nova" mentalidade. Que não passa apenas pela mentalidade dos dirigentes, técnicos, etc... Os própios adeptos, os fanáticos, poderão não apreciar esta valorização, deixando que a sua paixão pelo clube ignore os benefícios e os êxitos que o seu clube certamente colherá, se lhe derem tempo... Pois, o imediato ainda é um dos grandes inimigos deste desporto...
E até pode não passar de um enorme "bluff", mas neste momento só o agitar de águas neste sentido, já é positivo...

terça-feira, 17 de julho de 2007

Luis Sobral 0-2 Entre Dez

Ai, ai, ai... Andei eu a fazer piadas sobre o António Tadeia e este Luis Sobral armado aos cucos. Encontrei duas pérolas destes senhor, dois artigos de altíssima qualidade sobre... talvez seja sobre futebol, mas preciso de confirmar. Os artigos são este e este.

Começo pelo primeiro. Sobre Manuel Fernandes, diz assim Sobral:

"O internacional português está um jogador diferente. Mais forte fisicamente, acrescentou ao bom jogo defensivo que possuía uma capacidade de remate e uma maturidade espantosas."

Está diferente, isso está, mas porque agora tem tranças. Mais forte fisicamente?? Não. Está igual. Capacidade de remate? Meu amigo: já a tinha! Maturidade? Onde? Perdendo uma em cada duas bolas?? Isso é maturidade? Se há coisa que o futebol inglês não dá é maturidade. Manuel Fernandes voltou mais competitivo, isso sim, mais confiante, mas continua a faltar-lhe aquilo que lhe faltava: parar para pensar. Não me interpretem mal: Manuel Fernandes é um grande jogador e talvez o melhor reforço do Benfica para esta temporada, como o Sobral refere. Mas, na minha opinião, parou de crescer enquanto jogador. É muito útil, mas combina uma combatividade extraordinária com decisões irreflectidas. É demasiado rápido a executar, o que nem sempre é bom, porque não tem capacidade para interpretar quais são as melhores soluções à mesma velocidade. As transições, fá-las sempre rápidas; raramente joga apoiado. Nisso, sem dúvida que há influências do futebol inglês. Enfim, não deixa de ser um grande jogador, mas um grande jogador que provavelmente não será mais do que o que já é...

"Por esta altura, admite-se que Fernando Santos coloque Manuel Fernandes sobre o lado esquerdo do losango, com Katsouranis à direita, Petit nas costas e Simão à frente, antes dos dois avançados."

A sério?? Admite-se? E o Benfica jogar à bola, não? Onde é que ficam o Rui Costa e o Nuno Assis? Com três médios de características defensivas, vai ser sem dúvida um meio-campo de combate, mas um meio-campo com poucas ideias. Tanto Katsouranis como Manuel Fernandes são bons médios de transição e ocupam bem os espaços ofensivos, mas não são jogadores de toque curto, jogadores de fantasia. O meio-campo do Benfica como o senhor Sobral o quer, será um meio-campo musculado, provavelmente bom a nível táctico, quer defensiva, quer ofensivamente, mas muito pouco imaginativo. E Simão a 10, se pode dar profundidade e explosão, retira ainda mais criatividade a esse meio-campo.

"candidatar-se ao estatuto de melhor médio da Liga."

Vamos lá ver uma coisa. Por melhor médio da liga, entende-se o quê? É que o Manuel Fernandes, a nível ofensivo, fica longe de um Moutinho, de um Romagnoli, de um Lucho Gonzaléz, de um Rui Costa, etc... E não consigo aceitar que o melhor médio da Liga seja alguém sem um nível aceitável de criatividade.

Bom, dediquemo-nos agora ao segundo artigo, o mais fenomenal dos dois. Diz Sobral o seguinte:

"Já se sabe que a um avançado pede-se, antes de tudo, que marque golos."

Senhor Sobral: já se sabe?? Quem? Quem é que sabe que a um avançado se pede que marque golos? A um avançado pede-se muita coisa. Só quem não percebe nada de bola é que pede a um avançado que marque golos. Os golos são o corolário de muitas coisas. Se a um avançado se pedisse apenas que se marcassem golos, ou se fosse essa a sua principal função, seria um jogador a menos tirando os dois ou três lances de golo por jogo em que entrariam em acção. A um avançado pede-se movimentações bem feitas, jogar com os colegas, ocupar espaços, etc...

Continua Sobral:

"Mas no futebol de hoje, e sobretudo no de Paulo Bento, a defesa começa lá à frente."

A defesa começa lá à frente no futebol de hoje?? E no de antigamente, não? E sobretudo no do Paulo Bento porquê? Essa, sinceramente, não percebi. Que tem o futebol do Paulo Bento para ser sobretudo nele que a defesa começa lá à frente? Ridículo!

"Nesse aspecto, o Sporting poderá fazer alinhar os dois melhores avançados-defesas da Liga: Liedson e Derlei, trabalhadores incansáveis."

Pára tudo!! Avançados-defesa?? Não sei se o senhor leitor percebeu o que se passou aqui. Se não, eu explico. Luís Sobral acabou de inventar uma nova posição no futebol. Avançado-defesa é aquele jogador que tanto é avançado, como defesa, julgo eu. Será que tinha o Karadas em mente? É que o norueguês, antes de ser ponta-de-lança, foi defesa central. Será isso? Lendo o resto do texto, percebe-se o que o engraçado do Sobral queria dizer. Por avançado-defesa entende um avançado que defende. Magnífico! Eu julgava que qualquer avançado tinha de defender, mas isso sou eu, que tenho a mania. Mas pronto, o senhor Sobral achou por bem chamar a avançado uma coisa nova. A partir de agora, há defesas, médios e avançados-defesas. Admito que um defesa, quando vai ao ataque, passe a chamar-se defesa-avançado. E se estiver a meio do terreno, passe a ser defesa-avançado-médio. Assim sendo, admitindo que qualquer jogador, eventualmente, tem que fazer um pouco de tudo, a única conclusão que podemos tirar é que o Ricardo Carvalho é um defesa-médio-avançado e o Nuno Gomes é um avançado-médio-defesa. Mais uma vez, Sobral foi ridículo!

Mas ainda sobre esta frase, e deixando de lado a expressão infeliz de Sobral, há que atentar no seguinte: para Sobral, Liedson e Derlei farão uma dupla de avançados muito boa porque os dois são "trabalhadores incansáveis". Não sei se eles farão uma boa dupla ou não, mas se o fizerem não é certamente por andarem a correr que nem tontinhos atrás da bola. Não há nada de mais irrelevante num avançado que a disponibilidade para andar a correr feito parvo.

Diz ainda Sobral:

"Derlei chegou à Luz depois de uma paragem prolongada, precisou de fazer a pré-temporada em movimento e também não ajudou o castigo de dois jogos, logo para cartão de visita."

e ainda:

"Numa equipa formada e em igualdade de preparação com os colegas, aposto que Derlei vai ser de grande utilidade ao Sporting."

Sobral justifica o fraco rendimento de Derlei no Benfica graças ao facto de não ter feito a pré-época. Mourinho (o melhor treinador do mundo), não faz pré-época. Ou seja, não trabalha de forma diferente antes da época. Que diria ele, Mourinho (por acaso o treinador com quem Derlei atingiu o rendimento máximo), ao ouvir isto? Acredito que Derlei tenha demorado a ganhar ritmo competitivo por causa de não ter feito a pré-época, mas isso não explica que, ao longo de 6 meses, não tenha mostrado aquilo que o Sobral acha que ele vale. Aposta o Sobral que Derlei será útil ao Sporting. Talvez, mas toda a justificação que o Sobral dá para essa aposta é patética.

Resumindo, Luís Sobral escreveu dois artigos rídiculos, com os quais me atrevi a gozar. 0 para o Sobral, 1 para mim. Além disso, atrevo-me a dizer que o Sobral não percebe nada de bola. 0 para o Sobral, 2 para mim.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Certezas (5)

Ao longe, o penteado e o passo pesado fazem lembrar Miccoli. Ao perto, não engana. Toque fino, elegância, suavidade e perfeição: é craque. Tecnicamente, um prodígio. Perfeito na recepção, é rápido a pensar e a executar. Embora extraordinário a nível técnico, não se envaidece em desfavor dos objectivos da equipa. Segura, entrega, desmarca com a mesma facilidade com que ultrapassaria, se assim fosse proveitoso, meia-dúzia de adversários. Cada movimento seu enfeitiça o apreciador de bom futebol: o seu jogo tem um perfume que nem todos podem ter. Destes brasileiros, poderiam vir às centenas para o nosso campeonato.

"É lento!", dirá quem o vir. Sim, parece. Mas é a aparente lentidão que lhe dá o encanto e que lhe permite a execução fina e o gesto perspicaz. "Se não é lento, pelo menos não é agressivo!", insistem. Não, não é agressivo. Mas desde quando é que a agressividade é critério? Laudrup, Bergkamp, Hagi eram agressivos? Zidane? Rui Costa? Quantos há que nunca precisaram de agressividade? Não tem o volume de jogo de Adrien Silva, de quem se fala excessivamente. Não aparece a dividir todas as bolas como este, nem reúne os aplausos babados do público por estar assim mais em jogo. Ofensivamente, contudo, além de suficientemente talentoso, é um trabalhador. Corre, dá espaços, cria linhas de passe, respeita apoios, entrega simples... Se defensivamente parece carecer de força e agressividade, compensa posicionalmente, sendo tacticamente irrepreensível. Se ofensivamente não se lhe notam rasgos individuais, compensa fazendo fluir de forma única o jogo. Não é ele quem dá nas vistas, mas é ele quem possibilita que os outros dêem nas vistas. Além de tudo, parece ainda ser extremamente humilde: qualidades daquelas seriam sempre uma tentação, mas parece não querer deslumbrar-se com todo o valor que tem.

Quero acreditar que um jogador destes vai ser aproveitado no futuro, mas temo que o não seja. Tem valor para estar ao mais alto nível dentro de poucos anos, mas a imbecilidade dos treinadores de futebol e, sobretudo, dos adeptos, pode fazer periclitar a sua promissora carreira. Jogadores como ele, que não deslumbram quem não percebe de futebol, têm sempre dificuldades em vingar neste mundo iníquo. O melhor que lhe poderia acontecer seria ficar este ano já no Sporting. A pré-época, vai fazê-la. Vejamos depois o que se segue, mas nada melhor que ser treinado por alguém que entende de futebol e que sabe potenciar os jogadores. Por tudo isto, boa sorte para o Yannick Pupo...

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Sub-20

Viver no mesmo planeta que José Couceiro já é mau. Viver no mesmo planeta que os comentadores do jogo de estreia da selecção nacional de sub-20 no mundial da categoria é ridículo. Exijo um planeta para mim! Portugal venceu por 2-0 a Nova Zelândia, equipa que para dar dois toques seguidos na bola tinha de pedir licença. E, satisfeitos, os senhores comentadores, acharam que Portugal tinha jogado bem e, mais absurdo, que alguns elementos têm enorme futuro.

Bruno Gama marcou dois golos e, segundo os comentadores, foi o MVP.

Agora a sério: Bruno Gama é mau. É limitado tecnicamente, mas pensa que é o Maradona. Não tem imaginação; é egoísta; não tem ideias, é egoísta; não tem cérebro; é egoísta. Marcou um golo de livre, chutando a bola na direcção do Guarda-Redes adversário, que teve a bondade de se desviar. Marcou um golo de penalty, mas ia falhando a bola na hora do remate: por sorte, o Guarda-Redes teve a bondade de se voltar a desviar.

Zéquinha, disseram os comentadores, é um portento. Tem sempre os olhos na baliza, remata muito, é mexido.

Agora a sério: Zéquinha é mau. Não, minto. Zéquinha é muito mau. Ter os olhos na baliza é mau, porque não os tem nos colegas. Mexer-se muito só seria bom se se mexesse para os sítios certos, o que não é o caso. Faz tudo em esforço; chega mais tarde aos lances que os centrais neo-zelandeses, que são fraquinhos; não tem uma única boa opção; cruza sem olhar para o avançado que deveria estar na área, mas que não está porque é ele e está a cruzar para si próprio. Depois, foi aplaudido pelo único remate que levou a direcção da baliza. Muito aplaudido. O gesto técnico, uma bicicleta potente, foi bom. A opção, terrível. Rematar de bicicleta a meio do meio-campo é coisa de gente parva. Além disso, tinha Pelé em melhor posição. Melhor ainda seria pousar a bola e entregá-la como faz, por exemplo, um jogador de jeito. Zéquinha ainda tem outra coisa contra si. Está a jogar na posição de Diogo Tavares, que é muito melhor que ele. Não sou religioso, mas pedi a Deus uma lesão grave para este jogador. Como é costume, Deus preferiu ficar do lado do estúpido do Couceiro.

Pelé, segundo os comentadores, é forte fisicamente, é completo, faz tudo bem.

Agora a sério: Pelé é mau. Contra a Nova Zelândia até parecia ser bom tecnicamente. Conheço meia dúzia de velhos que também pareceriam. Pelé, atleticamente, é bom. Com a bola nos pés, não é mau como costumam ser os jogadores da sua envergadura. Mas como a restante equipa, deixou o cérebro em casa. 80% das bolas que entrega, são pontapés para a frente. Pensa que, por ter um remate capaz de partir tijolos, deve rematar muito. Alguém lhe diz que só é golo se a bola for à baliza?

Nuno Coelho, disseram os comentadores, é qualquer coisa que não me lembro.

Agora a sério: Nuno Coelho é mau. Nem vale a pena tentar lembrar-me o que disseram dele.

Mano é péssimo. Mas pior ainda é Vítor Gomes, o tipo que entrou para o seu lugar. 2 perguntas para o senhor Couceiro: 1) por que é que não jogou Pedro Correia? 2) por que é que o André Nogueira não foi convocado?

João Pedro é horrível. Aquilo não é nada. Centrais daqueles já não se fazem.

Antunes é um flop. É muito bom a defender e potente a atacar. Mas raramente entrega uma bola no meio. É tudo na linha, tudo na linha, tudo na linha. Ou então, um pontapé a rasgar para o flanco contrário. E o Pereirinha a correr a dar opções para o boneco.

Salvam-se:

1) Fábio Coentrão. Tem tudo para ser um bom jogador. Tecnicamente acima da média, concilia os seus atributos com alguma inteligência. Boa contratação do Benfica.

2) Rui Patrício. Não é muito ortodoxo nem muito ágil, mas parece saber interpretar bem os lances.

3) Paulo Renato. Central fino. Teve uma falha no fim, mas tentou sempre sair a jogar. Contra esta equipa, um central que não tente sair a jogar uma vez que seja não merece nada. Parece saber bem que o papel de um defesa não é só cortar lances, mas muito mais dar início a um ataque.

4) André Marques. Melhor que Antunes num pormenor muito importante: preocupa-se com quem vem dar opção ao meio e não entrega a bola invariavelmente no extremo.

5) Zezinando. Não mostrou muito, mas do que conheço dele, é melhor que Pelé e que Nuno Coelho.

6) Diogo Tavares. Não jogou, mas não é preciso. Qualquer um é melhor que Zéquinha. Mesmo que assim não fosse, um treinador que o deixe no banco desta selecção não merecia menos que pena de morte.

7) Pereirinha. A estrela. Para os estúpidos dos comentadores, foi quase sempre discreto. Não tomou uma única má opção. A primeira jogada de jeito da selecção nasce de uma acção individual sua, com um remate a sair ao lado. Os comentadores disseram que deveria ter passado a bola. Pautou sempre bem o jogo da equipa e movimentou-se extraordinariamente. Se não esteve mais em jogo, foi porque os laterais não deram bolas no meio e porque Nuno Coelho e Pelé pensam que são eles quem deve fazer o último passe. Esteve ainda melhor ao tentar, mesmo em situações difíceis, contornar adversários e sair a jogar, em vez de optar por chutar sem nexo para a frente.

Resumindo, José Couceiro, os comentadores, Zéquinha, Pelé, Nuno Coelho, João Pedro e Bruno Gama poderiam tentar um suicídio colectivo. Só para ver o que dá...

P.S.: Quem quiser saber como se assassina um jogador, assista a este mundial e veja como Couceiro dá cabo de um dos maiores talentos do ataque português dos últimos anos: Diogo Tavares...

domingo, 1 de julho de 2007

"Patinho Feio"

Não é preciso perceber muito de futebol para reparar na ironia. Falo de Beckham.


Decerto que todos concordarão com a ideia que a sua carreira terá ficado aquém das suas possibilidades. E eu não sou excepção, mas encontro razões diferentes das que tenho lido, e ouvido.


Não ignoro o facto de muitas vezes o inglês se ter "distraído" no seu trajecto futebolístico. Mas penso que esta não é a principal razão. Acho até que o jogador é, neste caso, vítima, e não réu.


Por saber muito bem quais a suas principais qualidades, explorou-as sempre ao máximo. Por isso criou-se o mito de que era um jogador limitado no um para um, que não era muito activo nas transições, que se limitava a tocar a bola, e que apenas desiquilibrava nas bolas paradas.


Porque não era daqueles que corria e depois pensava, dava a sensação que não corria muito, que não era muito disponível fisicamente. Nada mais errado! Inteligente, e elegante, disputava sempre os lances em situação priveligiada, dando, por isso, a ideia que não se esforçava. O tal aforismo que o futebol é sobre esforço físico, relegando para segundo plano o intelecto. Tecnicamente evoluído, soberbo na recepção, e no passe, foi sempre de uma tremenda importância para as equipas que representou. Porém, a verdade é que não houve um treinador que soubesse "espremer" todo o talento deste jogador.

Tivesse sido proporcionado a Beckam a possibilidade de fazer parte de um projecto coerente e organizado, e teria sido enorme. Não deixa de ser irónico que talvez o principal defeito que lhe possam apontar é ter sido, durante toda a sua carreira, um jogador que se ocupava mais das necessidades desportivas da equipa, do que do seu ego futebolístico.

Assim, o facto de muitas vezes optar efectuar um passe curto, respeitando a movimentação, e dinâmica da equipa, evitando efectuar um cruzamento, ou um remate, que, não deixando de ter boas possibilidades de fracassar, iriam resultar, algumas vezes, em momentos fantásticos. Tenho a certeza que esta sua maneira de entender o jogo, trouxe mais benefícios do que prejuízos às equipas que defendeu. Mas se ele tivesse optado pela via menos "altruísta", decerto que a meia dúzia de momentos com que seria recompensado o elevariam, junto da crítica, e do comum adepto, a um nível fantástico. É verdade que para essa meia dúzia de momentos surgir, muitos ataques seriam sacrificados, e no fim, provavelmente, as suas equipas teriam acumulado menos alguns pontos, mas também ninguém estaria a contar, certo? Perguntem ao levezinho...
"Não há deus que se digne, que não sacrifique uns quantos carneiros ao povo que passa fome..."

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Certezas (4)

O carisma que demonstra fará dele, se não for "vítima" de uma transferência precoce, uma referência do universo leonino. O seu talento proporcionar-lhe-á lugar de destaque no futebol português, no mínimo.

Porque não se destaca por ser maior do que outros na sua posição, tão pouco por demonstrar no aspecto físico grande exuberãncia, poderá provar algumas dificuldades na sua afirmação como sénior. Todavia, sendo bastante equilibrado, nesses mesmos factores, a sua qualidade técnica destoa da generalidade dos jogadores que evoluem neste sector.

Uma leitura de jogo superior, aliada a uma maturidade invulgar, permitem-lhe resolver a maioria dos problemas com grande elevação. E, mais importante, principalmente para um jogador que milite numa equipa com objectivos ambiciosos, percebe que o objectivo premente num defesa, não é "cortar", mas sim recuperar a bola.

A "mescla" de todas estas características, resulta num central que tem um longo, e penoso caminho pela frente, mas que no fim, se ignorar as sombras que lhe irão surgir, decerto, lhe poderá escancarar as portas do "Olimpo", junto de nomes como os de Ricardo Carvalho, Mathaus, Maldini, Baresi...

Por agora, espera-se, que depois do Europeu de Sub-19, vá espalhar a sua classe num relvado da Superliga, que deslumbre com o seu tempo de entrada, com a qualidade com que define as suas movimentações, seja num "cabrito", sobre uma qualquer gigante que lhe surja pela frente, seja pela maneira como facilmente descobre o caminho da baliza adversária, ou então, como esconde os caminhos da sua...

É este o "fardo" que Daniel Carriço irá carregar consigo...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Certezas (3)

Neste espaço dedicado aos jovens do futebol português, àqueles que, incontestavelmente, estarão entre os grandes jogadores nacionais dentro de alguns anos, quero desta vez falar do promissor ponta-de-lança do Benfica, Yu Dabao. Quer dizer, até nem quero...

quinta-feira, 21 de junho de 2007

El campeon...

Uma pequena contrariedade pessoal, permitiu-me pela primeira vez, este ano, ver um jogo do Real até ao fim. Precisamente o do título. Até esse jogo, apenas vi os resumos de alguns jogos, e li algumas coisas sobre os merengues.


Por isso, debruçarei-me apenas sobre o último jogo. O Real jogava em casa, contra uma equipa do meio da tabela, sem ser conhecida por possuir um grande potencial, pelo menos em termos ofensivos. Dependendo apenas de si, seria de esperar um Real mandão, cheio de personalidade, que, depois de uma época muito atribulada, iria entrar determinado a ganhar o jogo.


Nada mais errado. Sem qualquer tipo de mecanismos, ou dinâmica, nos processos ofensivos, limitaram-se a entregar o destino da equipa ao talento que para ali predomina. Era ver Raúl, Van Nistelrooy, Beckham ( e deste falaremos num outro momento, com mais cuidado), Robinho... cada um por si. Esta equipa chegou a este ponto? Ou seja, a jogar desta forma, conseguiu entrar para a última jornada como a mais forte candidata a erguer o título?


Marcou o Maiorca, que, sem ser nada por aí além, até à altura do golo, pelo menos perder não merecia. Pensei que entao os merengues acordassem e partissem então para uma boa exibição. Bolas! Pensei para comigo, esta semana não há euromilhões para ninguém. O cinzento continuou, apesar da entrega dos jogadores, que, em desespero, se desmultiplicavam em sucessivos passes longos, facilitando, e de que maneira, a vida aos adversários.


O intervalo veio, e então, o homem num acto de loucura retira Emerson, fazendo entrar Guti para o seu lugar! Pensei logo, perdeu o Juízo! Então em casa o Real joga só com um médio de características defensivas? Durante 45 minuots!! Se ainda fossem uns 5, vá 15 minutos -isto no caso de o Maiorca fazer o segundo golo, claro! - ainda se aceitava, agora nestas condições...


O que se passou no segundo tempo, porém, é que o Real, tirando os primeiros 5/10 minutos, arrancou para uma exibição razoável, mais condizente com os seus pergaminhos. E conseguiu dar a volta ao marcador, avomulando o resultado num expressivo 3-1.


Nunca se viu uma equipa com um mecanismos por aí além, mas o facto de contar com um jogador como o Guti na linha intermediaria, ajudou a disfarçar essas deficiências. Não sendo daqueles que põe a lingua de fora e faz do futebol, um desporto, do ponto de vista físico, desumano, é um jogador que empresta clarividência e estratégia ao conjunto.


A ironia que sobra do texto, não pretende roubar mérito ao Capello, admito que ele terá algo, que lhe proporciona tantos êxitos, seja a maneira como trabalha os processos defensivos, seja os métodos de treino, não sei. Mas admito que não será apenas sorte. Mas a verdade é que neste domingo que passou, foi de uma felicidade tremenda, pois por centímetros, não viu o Maiorca elevar para 2-0 o jogo, e ai ninguém sabe como teria decorrido o jogo. E também não é esse o meu propósito, eu apenas pretendo demonstrar que os que dizem que dizem que jogar bem, com uma forte cadência ofensiva, de maneira organizada e sustentada, dificilmente se traduz em êxitos. Não fosse essa aposta, esse aumentar do fluxo ofensivo, e de certo que Messi, Ronaldinho, e comp., teriam revalidado o título. Ou seja, afinal manter uma atitude positiva, ofensiva, sendo mais honesto para o futebol, e para os seus verdadeiros adeptos, não significa fracasso, bem pelo contrário...

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Grande!

Desta vez, o texto é curto. Para compensar, porém, a mensagem é forte: Que grande treinador é o José Couceiro!

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Equipa do Ano

Agora que acabou o campeonato, quero eleger aqui os melhores da Liga Portuguesa.

Guarda-Redes: Hélton.
Defesa Direito: Bosingwa.
Defesa Esquerdo: Tello.
Defesas Centrais: Polga e Ricardo Rocha.
Médio Defensivo: Miguel Veloso.
Médios Ofensivos: Moutinho e Romagnoli.
Extremos: Quaresma e Simão.
Avançado: Miccoli.

Menções Honrosas/Revelações:

Guarda-Redes: Quim
Defesa Direito: Nélson.
Defesa Esquerdo: Antunes.
Centrais: Rodriguez e Pepe.
Médio Defensivo: Katsouranis.
Médios Ofensivos: Rui Costa e Lucho González.
Extremos: Lisandro e Nani.
Avançado: Linz.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Sentir Dez...

No futebol, como tudo na vida, todos são importantes. Por todos tenho: jogadores, staff técnico, dirigentes, adeptos, árbitos, etc. Mas todos concordamos, que uma grande fatia, se não mesmo a maior, do fascínio do futebol, "assenta" nos jogadores. E o mesmo princípio repete-se. Todos, desde o guarda-redes, até ao ponta de lança, são importantes para o desempenho da respectiva equipa. Nada de novo.

Mas o assunto que me "empurra" para estas palavras, é muito menos harmonioso.
Falo da prerrogativa de ser DEZ. Este privilégio nada tem a ver com o dorsal que qualquer jogador pode ostentar - já chegamos ao cúmulo de um guarda-redes o usar -, mas sim com um sentir "diferente" o futebol, aliado a uma perspectiva muito sua. Muito nossa.
Se se pudesse escolher, muitos optariam por ser dez. Os que me dizem que não é assim, decerto que o fazem por frustração. Mas o que é afinal ser Dez?

Ser Dez, não se reduz apenas à posição que se ocupa. Jogadores há que ocupam essa posição durante toda sua carreira, sem nunca o serem.
Uma relação especial com o futebol, e com a bola. Uma maneira diferente. Romântica. Apaixonada. Não é o que faz dentro de campo, mas sim como o faz.
Cuida da bola como se de uma amante se tratasse. Sedu-la, acaricia-a, ama-a. Mesmo quando aparenta tratá-la com violência, não nos esqueçamos que uma palmada fica sempre bem...
É ser orgulhoso, vaidoso, de alguma forma até malicioso. Não procura a forma mais fácil de jogar, mas sim a que mais prazer lhe proporciona. Porque ser dez, acima de tudo é um prazer. O prazer de ser diferente, nem melhor, nem pior, apenas... diferente.
No seu crescimento, na sua maturação, até pode aceitar ser desviado do seu papel de príncipe na equipa, tal como pode parecer submisso ao conceito generalista das boas maneiras. Qual borboleta que nasce de uma larva, este ser de excepção, quando se emancipa demonstra o seu real carácter. Umas vezes dará a impressão de ser arrogante. Outras de ser um perfeito egoísta. Mas o facto é que o genuíno Dez na sua definição, é-o. Não se deve subjugar o seu fado às necessidades da equipa. Antes pelo contrário. As equipas, as que tem o privilégio de contar com um jogador assim, devem, da melhor forma possível, retirar o máximo proveito do mesmo.

"Sentir Dez" não se trata de golos, não se trata de espírito de sacrifício. É uma arte, e como tal, mascara-se de fútil. Quando se acusa esta selecção de jogadores de adornar os lances, fazendo deste facto uma opção consciente, comete-se uma tremenda injustiça. Eles não a têm. O futebol "romântico" está-lhe embutido nos genes. No conceito de bom futebol comete-se o erro de generalizar. Diz-se muitas vezes que a beleza do futebol consiste em jogar simples, que isso sim é que é complicado. Que isso sim, é que torna o futebol bonito, fluido, estimulante. A estes respondo: não me estou a referir a um trinco. A beleza de movimentos de um Dez está no facto de dissimular o complicado de simples; a facilidade com que executa os mais complicados movimentos, quer na concepção, quer na execução.
O futebol moderno não se compadece com este tipo de jogadores. Outra excelente tirada. Claro que não, até porque pressupõe-se que com a evolução tudo se torne mais banal, e menos inteligível. Perdendo a beleza espaço nesse estado. Claro. Peguemos no caso da raça humana. Todos nós sabemos que o Homo heidelbergensis, do periodo do Pleistoceno, era mais bonito, e mais complexo que seu sucessor, o homo sapiens. Este quando evoluiu tornou os seus processos muito mais simples. Exacto.
Não consigo compreender como se pode catalogar este tipo de jogadores, que se distinguem pela sua inteligência, e elegância de movimentos, de alguma forma "obsoletos". A verdade é que cada vez existem menos. Sim, mas Jardim também foi novamente eleito. E onde é que isso prova que ele é uma pessoa idónea? Não prova, da mesma forma que o facto do desaparecimento deste tipo de jogadores, poderá significar que talvez o futebol esteja a tomar o rumo errado, talvez...



É tão genuíno como o riso de uma criança, tão profundo como a lágrima que acompanha a derradeira despedida de alguém que se ama.

O futebol, por muito que o neguem, não é resultados. Muitos nem sabem o que é, e por isso associam as vitórias à sua paixão por este desporto. Que não é apenas mais um.

O futebol na sua essência, na sua plenitude, é demasiado magnânimo para por todos ser convenientemente interpretado e dignificado, na plenitude das suas feições. E "sentir Dez" é isso mesmo. Acima de tudo defender o futebol, enquanto algo que se transcende para além de um mero desporto. Sem qualquer tipo de subserviência para com os resultados, ideolgias técnicas, nada. Apenas lhe interessa a arte subjacente no mesmo. Por isso resistem, e teimam em fazer sonhar, encantar, e despertar paixão...

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Árbitros (1)

Gosto de contestar as regras, sobretudo quando não fazem sentido nenhum. Ontem, vi um grande espectáculo ser estragado porque um certo árbitro não teve miolos para perceber que, às vezes, se devem fechar os olhos ao que ditam as regras. Que não queiram mudá-las, tudo bem. Mas um árbitro não deve ser um papel químico. Deve conhecer as regras, mas não para aplicá-las tacitamente. Tem que saber interpretá-las. Por exemplo, uma das coisas mais ridículas no futebol, que não tem nada a ver com o que se passou ontem, é a exigência tola dos árbitros em relação aos equipamentos. "Ó jogador, a camisola para dentro dos calções!" - dizem. Nem sequer se dão ao trabalho de pensar. A camisola não deve estar dentro dos calções por uma questão de etiqueta. Deve estar dentro dos calções para se distinguir dos calções, para permitir uma diferença de cor e facilitar o trabalho do árbitro em lances confusos. Logo, num equipamento em que os calções são iguais à camisola, essa exigência não faz sentido. É até despótica. E o mesmo se passa quando a camisola tapa apenas uma parte insignificante dos calções. Um árbitro que se preocupa com isto não me merece respeito. Significa que está demasiado preocupado com pormenores irrelevantes e que não tem inteligência para perceber a irrelevância dessa preocupação. E um árbitro que não é inteligente não interpreta leis, segue-as à risca. E dá no que deu ontem...

Aos 17 minutos, Klose finta um adversário e simula uma falta. Fora da área. Simulação inequívoca, nada a dizer. Manda a lei que o jogador veja o amarelo nessas situações. Perguntemo-nos: faz sentido? A resposta, para quem tem mais que um neurónio, é evidente. Não, não faz. Klose, assim que caiu, levantou-se apressadamente e, de cabeça baixa, recuperou a posição. Não refilou, não pediu nada por aquele acto. Sabia o que fizera e teve a honestidade de não exigir algo que sabia que não acontecera. Respeito isso. E o árbitro também deveria ter respeitado. Se o jogador não protestou, é porque não tentou iludir ninguém. Muitas vezes, uma simulação não passa de um acto instintivo. Muitas vezes, um jogador apercebe-se da proximidade de um adversário e, imaginando um contacto, reage antecipando a queda. Uma acção involuntária destas é facilmente explicada. Serve para se proteger, para preparar uma colisão, para não se aleijar na queda. E não é necessariamente deliberada. Pode ser um acto inconsciente. O que interessa aqui é que, conscientemente ou não, Klose simulou uma falta, mas não pediu nada por ela. Como tal, não deveria ter visto o amarelo, que foi o segundo. O árbitro seguiu a lei, não a interpretou. Não interpretar leis é coisa de ditadores e de estúpidos. Um árbitro como o de ontem, e como a generalidade dos árbitros, reúne as duas qualidades. Aos 17 minutos, o Werder Bremen ficou reduzido a 10 unidades, numa altura em que já ganhava por 1-0, que massacrava. E massacrou, ainda assim, o resto da primeira parte. O Espanhol não chegou uma única vez à baliza dos alemães. Não fosse aquela expulsão, o Werder Bremen chegaria ao intervalo, com relativa certeza, com a eliminatória empatada. Mas um árbitro, um simples e reles árbitro, que deveria ter a incumbência de proteger o espectáculo, deitou por terra as ambições germânicas e estragou o jogo. Mais tarde, mostraria um cartão amarelo a Hugo Almeida por protestos do português, mas não admoestaria entradas a matar de parte a parte. Gostaria de saber o que é que ganham os árbitros ao punirem protestos. Duvido que aquele árbitro ontem tenha percebido uma palavra do que disse o Hugo Almeida. Contudo, o português vociferou e gesticulou energicamente. Foi punido por ter energia e falar alto. Se calhar também cheirava mal da boca. É idiota. É outra das leis que não faz sentido. Uma das coisas, talvez a única, que admiro nos árbitros ingleses é o facto de deixarem toda a gente protestar como bem lhes apetece. Vemos, muitas vezes, os jogadores a gritarem com os árbitros. E que tem isso de mal? Estão a desrespeitar alguém? Não. Expressar sentimentos, insatisfação, desapreço, faz parte do jogo. Esses momentos de descontrolo fazem parte do jogo. São parte integrante da emoção do mesmo. Punir protestos é ridículo! É exactamente o mesmo que punir um jogador por festejar um golo gritando de alegria. É punir alguém por manifestar um estado de espírito. Não aceito isso. Mas, lá está, a lei diz que se deve punir. Acrescento eu - a lei está errada...

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Outro "Mito"...

Falo do mito que se criou em redor do trinco, médio defensivo, número seis, etc...
Deve ser um jogador em que destacam as seguintes características: garra, pulmão, agressividade, e disponibilidade para correr quilómetros. Petit, por exemplo, será o paradigma desta definição. Concordo, que numa equipa pequena, quer a nível social, como ideológico, realmente este tipo de definição seja correcto. Numa equipa de dimensão ofensiva esta definição torna-se falaciosa.

Pirlo, Redondo, Sousa, Guardiola... Nos últimos anos, alguém me consegue apresentar um médio defensivo com mais qualidade que eles? Algum melhor? Albertini, também era bom. Mas não tinha o nível destes. Mas nenhum deles se destacavam nos aspectos acima referidos. Qualidade de passe, visão de jogo, inteligência... Mas não eram, nem de perto, nem de longe, "raçudos", tão pouco se destacavam ( e destacam) pelas maratonas realizadas dentro de campo. E pego nestes jogadores porque se enquadram, totalmente, no que pretendo de um médio defensivo. No futebol que preconizo, o médio defensivo, por paradoxal que pareça, é, acima de tudo, a âncora do futebol atacante da sua equipa. A partir da sua localização, devemos partir para as transições ofensivas, de uma forma apoiada. Deve partir dele o primeiro traço, ainda que de uma forma suave, para um quadro que se deseja belo. Não espero que faça maravilhas com a bola, antes que seja rápido no seu endosso, e perspicaz na avaliação das opções de passe, considerando os riscos que a equipa, no momento, deve ou não correr.
Um grande médio defensivo, de uma grande equipa, correr muito é mau sinal. Este facto pode funcionar até como um delator de um erro, quer no modelo do jogo, quer de uma má associação entre os vários sectores. Por exemplo, um desiquilíbrio causado por um lateral, que ao subir desguarnece o sector defensivo, obriga este elemento a compensar essa acção, na maior parte das vezes. O ser este elemento responsável por este equilíbrio, não está em causa. Uns poderão concordar, outros nem por isso. Mas mais importante que este pormenor, é o facto de que esta situação, tornando-se repetitiva, demonstra que alguma coisa vai mal nas transiçoes atacantes da equipa. Seja o lateral que não respeita a cadência certa para se integrar no ataque, ou porque a equipa não está a aproveitar a sua presença da melhor forma... Enfim, podem ser vários motivos... Mas este facto vai levar a que o trinco se desgate. Da mesma forma que o nosso cérebro, ao detectar uma descida do nível de açúcar no sangue, cria uma estratégia que passa por nos conduzir a um estado de fome, levando-nos a comer, se nos concentrármos apenas no médio defensivo de uma equipa, conseguimos nos aperceber, atravéz da sua movimentação, do que vai mal, ou bem, nessa mesma equipa...

É importante perceber que a missão de um trinco, é muito mais que o ocupar de espaços, e interceptar linhas de passe. A sua movimentação é fundamental para o posicionamento, e atitude da equipa. Mais do que um guerreiro, tem de ser um estratega. Ou então não. Perguntem antes ao Jaime Pacheco...

Diego

Ainda que os separem quase quatro séculos, comunga com o grande pintor o nome próprio e a perfeição de movimentos. Velázquez ficou para a história como um dos pintores mais geniais; o traço, um dos mais perfeitos. Há alguns anos, outro Diego deixou o seu nome gravado nos anais da História. Disseram que foi um dos melhores de sempre, no futebol. Arriscaria a dizer que não houve, não há, nem haverá quem se lhe tenha comparado como futebolista. O terceiro Diego, um que surge agora, no virar do século, e de quem me apraz falar sem moderações, possui o mesmo divino dom para encantar. Joga com paixão, com arte, como se valsasse. Tudo é tão simples, nele. Os movimentos são de uma estrepitosa correcção. Tem com a bola uma relação facílima: ao contrário de muitos, ela é para ele a melhor amiga. Trata-a bem e ela trata-o bem. E de pensar que houve quem o não quisesse...

Diego faz maravilhas. Faz jogar uma equipa inteira e pode desequilibrar individualmente com a facilidade de quem caminha. Há poucos, muito poucos assim. Aliás, hoje em dia a tendência é deixar de existirem jogadores apaixonantes como ele. Talvez por isso, passou pelo futebol português sem que lhe percebessem a excepcionalidade. Correr como correram com ele não é só estupidez; é ingratidão para com o futebol. Ignorar um talento como o dele é de quem percebe pouco, muito pouco, de futebol. Co Adriaanse esqueceu-o no banco, mesmo numa equipa virada para o ataque. Preferiu a correcção de Lucho Gonzaléz e a estabilidade de outros. Foi campeão e, por isso, ninguém o criticou. Ainda que Diego, sempre que tenha jogado, tenha sido dos melhores em campo. O Porto, com ele, era sempre mais equipa; era sempre imprevisível. Antes, marcou golos ao alcance de poucos, como aquele contra o Chelsea, que permitiu aos Dragões permanecer na Liga dos Campeões. Executou passes de 50 metros com precisão de relojoeiro; deixou babados os adeptos de futebol enquanto arte. Lembro com saudades certas exibições inolvidáveis, como uma contra o Belenenses, na qual, depois de jogar mais que toda a equipa adversária junta, isolou Benny McCarthy com um passe de letra. Bailou enquanto jogou e, ainda assim, não convenceu. Sem glória, perdeu o carinho dos adeptos. Pouco apreciado, decidiu partir. E ninguém, por aquela altura, sentiu falta dele. Ninguém, excepto eu. E excepto quem gosta mesmo de futebol.

Os portistas depressa o esqueceram. Diziam que tinham agora outro brasileiro bem melhor. Falavam de Anderson. Tolos. Não sabem o que dizem. Compará-los é ridículo. Diego é, provavelmente o melhor jogador da sua geração, talvez a par de Robinho. Juntos, em precoces idades, ganharam no Santos o campeonato. Ainda não esqueci, também, como Diego conquistou para o Brasil uma Copa América. A perder com a Argentina por 2-1, a "Canarinha" decidiu começar a bombear bolas para a área, na esperança de que Adriano ou Luis Fabiano resolvessem. Sem sucesso algum. Até que entrou Diego. O miúdo, caloiro naquelas andanças, não pediu ordens para mudar tudo. Pegou na bola e não a pontapeou sem nexo como os outros. Os argentinos estranharam. Sairam-lhe ao encalço. Driblou dois, progrediu e, já perto da entrada da área, fez um cruzamento observando a posição dos colegas e colocou a bola, finalmente jogável, nos pés de Adriano. Este, depois, resolveu. E o Brasil acabaria mesmo por vencer a Copa. Anderson até pode chegar ao nível de Diego, um dia. Mas, para já, ainda não provou nada. É igualmente dos mais talentosos da sua geração. Mas - arrisco eu - não tem a classe e a inteligência do primeiro. É mais explosivo, atleticamente superior, rapidíssimo. Mas não possui ideias suficientemente esclarecidas para se tornar um grande jogador. Talvez dê um bom extremo, ou um avançado móvel. Nunca um médio ofensivo. Ao fim de um ano de ausência e também porque agora é imprescindível no Werder Bremen e anda a espalhar talento pela Europa, os portistas começam a sentir saudades. Agora é fácil de reconhecer que ele faz falta - digo eu. E é tarde para se arrependerem...

O futebol português é extraordinariamente contraditório. Por um lado, é reconhecido em todo o mundo como um futebol com apetência para criar jogadores habilidosos. Por outro, nenhum outro futebol desperdiça tantos talentos. Talvez seja da abundância. Não sei. A verdade é que passam por Portugal jogadores fascinantes em quem ninguém pega. E não consigo perceber porquê. Será da estupidez dos dirigentes, da ignorância dos treinadores? Francamente, não se percebe. Quando se tratam de sul-americanos, costumam dar a desculpa esfarrapada de que não se conseguem adaptar ao futebol europeu. Que patetice! Consigo dizer tantos e tantos nomes de jogadores que não vingaram em Portugal e que foram dar espectáculo lá para fora ou que tinham condições para o fazer... Apetece-me lembrar, além de Diego, de Mostovoi, de Roger, de Romagnoli (embora este final de época possa salvar aquilo que a meio da época parecia inevitável) e ainda de dois jogadores que, pelo que fizeram o ano passado no Guimarães, não entendo como não convenceram nenhum dos três grandes: Benachour e Saganowsky.

Enfim, não deixaram Diego brilhar aqui, foi para norte e brilhou lá. Entretanto, já é dos habitualmente convocados para a selecção. Não houvesse Kaká e talvez fosse mesmo titular do Brasil. Não tardará a sê-lo. É demasiado perfeito para não jogar ao mais alto nível. Hoje, dia em que se joga a segunda mão das meias-finais da UEFA, Diego tem a missão quase impossível de fazer com que o Bremen vire uma eliminatória cuja primeira mão deixou os alemães quase eliminados, após uma humilhante derrota por 3-0 ante o Espanyol. Se há equipa capaz de o fazer, é uma que tenha jogadores extraordinários. E Diego é extraordinário. Portanto, talvez seja possível... E ainda que não esteja onde merece este ano, na final, Diego estará onde merece daqui a alguns anos. Estou profundamente convencido disso. E nem a estultícia de quem anda no futebol poderá impedir que ele assim o consiga.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Certezas (2)

A cara de miúdo não engana: é ainda júnior. É, porém, como outros das escolas do Sporting, precocemente talentoso. Muito adulto a jogar, faz lembrar João Moutinho na dedicação ao grupo. Abnegado, põe de lado o talento individual, a extraordinária capacidade de explosão, a velocidade, as correrias desenfreadas com bola, e opta por tentar aprender, ainda verde, a arte de jogar colectivamente. Por causa disso, passa, para já, despercebido. E os idiotas apupam-no, chamam-lhe nomes, duvidam da sua qualidade, põem em causa o seu valor. Fizeram o mesmo quando Hugo Viana se tentou transformar enquanto jogador, quando deixou de praticar o futebol demasiado objectivo que sempre praticara para se melhorar. Não percebem, como não perceberam na altura, o que é um jogador numa fase de aprendizagem, de adaptação. Não se pode avaliá-lo só por isso. Um jogador em transformação está longe de ser perfeito. Para se saber o que vale, seria preciso tê-lo visto jogar entre os seus, despreocupado. Aí, era rei. O ano passado, na equipa júnior do Sporting, era dos poucos juniores de primeiro ano que tinha lugar indiscutível na equipa. Tanto do lado direito do meio-campo, onde trocava as voltas aos laterais contrários, partia rins, fazia comer pó aos adversários, como no meio, onde pautava com classe o jogo da equipa, era eficaz. Já esta época, o primeiro teste entre os adultos. Na segunda liga, foi aprovado com distinção. Entre os grandes, calado, aparentemente tímido, fintava, arrancava, voltava a fintar, fazia passes de morte, cruzamentos perfeitos. E tudo com uma perfeição invejável. Uma das coisas mais impressionantes é a sua humildade. Leva porrada, não resmunga. Concentrado, prossegue o seu jogo. Sabe a qualidade que possui e não duvida dela. Não tardará a calar muita gente. No um para um, é fortíssimo e, embora não tendo a espectacularidade de outros, como Ronaldo ou Quaresma, tem a elegância de movimentos de Figo ou Dani. Tem uma mudança de velocidade estonteante e uma inteligência fora do comum. Ousei pensar, num momento de audácia, que Portugal tinha descoberto o seu Zidane. Não sei se o será. Nem sei se, no futuro, será nessa posição que se destacará. Sei, isso sim, que não demorará a fazê-lo. Ou como extremo, ou como médio de ataque, será uma referência do futebol português na próxima década. Disso não tenho quaisquer dúvidas. E o que mais me agrada é que o terei afirmado antes da grande maioria. Quando outros o reconhecerem, já eu terei firmado a minha certeza há muito, e não há prémio maior que essa satisfação. Esperem para ver e, por enquanto, deixem crescer o... Bruno Pereirinha...

Tácticas (1) - O Bife

Antes de começar, devo avisar o leitor que esta é uma rubrica séria. Estava pensada para falar sobre tácticas, sobre o 442, o 433, por exemplo, e a seu tempo esse será o intuito. Hoje, porém, tinha o sono trocado e decidi escrever um texto... vá lá... trocado... E quero falar dessa táctica maravilhosa que é... o Bife...

Quem é a grande mente por trás deste sistema? Aquele que ficou conhecido, enquanto jogador, pelo pontapé-canhão e que, enquanto treinador, ambicionará, por certo, o epíteto de cérebro-canhão: a cada sinapse, uma bomba de ideias... e cheiro a queimado... Falo obviamente de Ronald Koeman. O timoneiro holandês, que noutra vida terá afundado cada navio que comandava, chegou a época passada à Luz e fez um trabalho - chamemos-lhe assim - esquisito. Deixou a equipa em terceiro, nada que outros treinadores não tivessem feito, e levou-a até aos quartos de final da Champions, feito pelo qual se pensava na sua renovação. Antes que mudassem de ideias, preferiu abandonar o navio e voltar a casa, não fosse a segunda época correr ainda pior. Disseram - e ainda dizem - que é de aplaudir o que obteve. Não consigo entender porquê. Devo lembrar que um homem não é aquilo que alcança, mas a forma como o faz. É muito mais fácil ser culto de terno e gravata, ou ser justo e bom se tiver o que comer. Não me apetece enumerar todos os treinadores que ganharam coisas em clubes que tinham possibilidades de o fazer, mas que nem por isso têm qualquer mérito. Quer dizer, até me apetece. António Oliveira, Artur Jorge, Alex Ferguson, Del Bosque, etc. Fiquemos por aqui. Bom, não falemos do campeonato. Na Liga dos Campeões, Koeman chegou aos quartos de final. Como? Retrocedamos um pouco. A duas jornadas do fim da primeira fase, estava em último no grupo, com 4 pontos. O Lille e o Manchester tinham 5 pontos, o Villareal 6. Acontece então que o holandês se lembra de ir a França jogar - pasmem-se - à defesa. O último classificado, a duas jornadas do fim, com uma equipa francamente acessível, vai ao reduto destes à procura do 0-0. E conseguiu-o. Como é que ele fez isto? Com 2 centrais, 4 laterais e 3 trincos. Inaudito! Com que intenção fez Koeman isto? Simples. Deixar a decisão do grupo para a última jornada, altura em que o Benfica recebia o Manchester. O que o cérebro de Koeman não conseguiu atingir foi que, nessa mesma noite, caso o Manchester vencesse em casa o Villareal, algo francamente provável, a passagem na eliminatória já não dependia somente da sua equipa. Ou melhor, poderia depender, mas teria de ganhar o jogo por mais de 1 golo de diferença. Acontece, porém, que Manchester e Villareal empatam. Sai a sorte grande ao holandês. Agora bastaria vencer o Manchester pela margem mínima, coisa que qualquer clube no mundo deve ambicionar, sobretudo um que joga com 3 médios defensivos. E o que aconteceu? Ganhou mesmo. Como? Com 20 minutos bons e 70 de pontapé para a bancada, contra uns ingleses desinspiradíssimos. Nos oitavos, o poderoso Liverpool. Não poderia ter calhado melhor. Uma equipa inglesa, muito equilibrada defensivamente, mas sem ponta de criatividade, que pratica um futebol directo, ideal para os defesas do Benfica, altos e bons no jogo aéreo. Num lance de bola parada, um golo, e 1-0 na primeira eliminatória, num jogo paupérrimo de lado a lado. Com esta configuração, o Liverpool tinha de ir à procura de um golo, coisa em que não é, de todo, uma equipa capaz. Fê-lo. Enviou 2 bolas ao poste. Depois o Benfica fez um golo... e acabou a eliminatória. Ainda haveria de marcar mais um, deixando para a história um total de 3-0 ao Liverpool, coisa que os estultos gostam de lembrar, imaginando tratar-se de um feito louvável. Chegou aos quartos de final e, por esta altura, nem toda a sorte do mundo lhe poderia valer. Ainda conseguiu adiar as decisões para o segundo jogo, mas Ronaldinho e companhia não deixaram os créditos por mãos alheias. No final, campanha interessante, ao colocar o Benfica honrosamente entre os últimos oito.

Já esta época, Koeman herdou o melhor plantel holandês, a equipa mais equilibrada, fruto de um trabalho bem conseguido por Hiddink. Levou novamente a sua equipa aos quartos de final da Champions. Vejamos como o fez. Na fase de grupos, Liverpool, Galatasary e Bordéus. Resultado: segundo lugar. Nada de extraordinário. Nos oitavos, enfrenta o Arsenal, finalista vencido da edição anterior. Consegue um bom resultado em casa, vencendo por 1-0. Na segunda eliminatória, voltava a precisar apenas de um golo. O Arsenal massacrou, massacrou, massacrou. Enviou bolas ao poste, bolas ao poste, bolas ao poste... Até que conseguiu marcar um golo. Mas, já no final, de novo num lance de bola parada, a sorte sorriu uma vez mais a Koeman, e o PSV passou aos quartos. O que aconteceu aqui? Foi cilindrado pelo Liverpool. E no campeonato? Bom, no campeonato chegou a ter onze pontos de avanço. E como qualquer treinador de sucesso, desperdiça onze pontos para dar emoção à coisa e parte para a última jornada em terceiro, a depender dos outros, como gosta. Van Gaal consegue perder a liderança do campeonato e a mais que provável vitória do mesmo, perdendo o desafio. Já o Ajax, ganhou. Mas o PSV de Koeman também ganhou e os dois ficaram empatados pontualmente. Como decidir então quem era campeão? Recorrendo à prática comum e - arrogo dizê-lo - a mais justa, desempatando através do registo do confronto entre as duas equipas em questão? Não, nada disso. Se assim fosse, o Ajax, que tinha esmagado não há muito tempo o PSV com esclarecedores 5-1, seria campeão. Na Holanda, o primeiro factor de desempate é a diferença entre golos marcados e sofridos e, feitas as contas, o PSV tinha mais um golo que o Ajax. Koeman sagrou-se campeão por um golo. Feito notável, para quem tinha a melhor equipa, o clube mais estável, e onze pontos de avanço...

Em dois anos, Koeman conseguiu ganhar o respeito de quem acompanha o futebol. De quem acompanha mal, acrescento eu. Feitos e títulos não são certificados de habilitações. Koeman atingiu o que atingiu sempre a par da sorte, esse elemento tão previsível. Confesso que não vi o PSV jogar senão contra o Liverpool. Mas vi o que fez no Benfica e tudo indica que não mudou muito. Tacticamente, é um horror. Preferir 3 médios defensivos numa equipa grande é, na minha opinião, uma demonstração inequívoca de falta de categoria. Há quem me diga que são gostos. Talvez sejam, mas os gostos também se discutem, ao contrário do que se pensa. Poderia chamar muita coisa ao sistema táctico empregado por Koeman: leite, vaca, etc... Prefiro chamar-lhe bife... São gostos. Koeman também quis dispensar Nuno Assis, esqueceu-se de Karagounis e recusou a contratação de Van der Vaart. Preferiu o Beto para número 10. São gostos...