domingo, 25 de março de 2007

Salve, Zidane!

Devido às circunstâncias, decido publicar aqui um texto escrito há já algum tempo, achando que esta era a altura certa para o fazer. Não é outro ponto de vista sobre o mesmo assunto, nem uma atestação do ponto de vista do texto anterior, mas uma confidência pessoal sobre o assunto levantado pelo Gonçalo. Como tal, deve ser lido independemente do texto anterior, ainda que com ele partilhe as mesmas certezas.

Esteve Kafka em Santo Tirso? Tudo indica que não. Mas pareceu-me uma forma suficientemente absurda de começar um texto sobre Deus. Quer dizer, não é sobre Deus, é sobre Zidane, mas vai dar ao mesmo. Aproveitando que falei em Kafka, depois de se ler o autor checo, fica-se certamente com a ideia: “Vou-me entregar à arte!” Ou à arte ou à droga. Se bem que a droga não faz tanto mal. Em Kafka, o mundo que rodeia a personagem central é profundamente absurdo. Tudo o que envolve o protagonista é incompreensivelmente antagónico àquilo que ele é e nada do que faça ou pense será entendido. Esse homem, o artista por excelência, para quem todos os outros são absurdos, está acima dos outros: é o único ser verdadeiramente livre, ainda que nada lhe seja consentido. Contudo, de outro ponto de vista, para o mundo é o protagonista que é absurdo, pois é ele quem está em desequilíbrio com o que o rodeia, é ele quem não se adequa à norma, é ele quem é o louco. Para o leitor, absurdo é eu estar a escrever sobre o absurdo. Talvez seja. Ainda assim, parece-me que absurdo é tanto o que é absurdo como o que não é absurdo, dependendo da perspectiva. E, perante isto, pergunta o leitor: Andas nos copos? Nem por isso. A verdade é que tudo isto tem algum sentido. Isto é, há uns minutos, tinha algum sentido. Querem que conte uma história? Tudo bem, não conto. Pego então na já mítica cabeçada de Zidane ao italiano Materazzi, durante o prolongamento da final do campeonato do mundo de futebol, gesto com que o francês terminou a sua áurea carreira de jogador profissional. À excepção de um ou outro pateta, o público foi de opinião que o gesto violento de Zidane envergonhou o desporto e manchou a sua despedida enquanto futebolista. Dizem esses iluminados que Zidane, cuja despedida do futebol poderia coincidir com a gloriosa conquista de mais um campeonato mundial, conquista essa, que, a realizar-se, se deveria quase exclusivamente à genialidade de que era possuidor, traiu-se a si próprio e aos que o idolatravam, ao perder a cabeça. Para esses mesmos seres inteligentíssimos, nada de mais glorioso haveria que terminar a carreira erguendo a taça, de sorriso no rosto. Para essa gente de inomináveis qualidades, glória é apenas nome de mulher. Para esses doutos senhores, a vida é um prazer tão grande como um rebuçado de mentol. Talvez o mundo se vergasse momentaneamente aos pés de Zidane, se tal acontecesse, e talvez, mesmo, ninguém lhe roubasse a conquista da imortalidade, se conduzisse a França ao segundo título mundial. Talvez… Mas basta ao génio a colheita de todos os triunfos? Ou será a glória mais que carimbar o nome entre os ilustres triunfadores? Para aqueles que repetem, de peito feito, que o acto de Zidane lhe subtrai valor, as minhas sinceras saudações pela lucidez de espírito… Não há nada como ignorar a arte, basear-se em ideais pré-definidos ou ajuizar acções pelo grau de catolicismo que transportam para se poder viver em paz… A todos os outros que, estupidamente, se curvam ainda ante o génio do francês: “Tenham vergonha, pá!” Então o homem dá uma cabeçada num companheiro de profissão, deixa os seus ao abandono, passando ingloriamente ao lado da taça que deveria levantar, desencadeia a derrota da sua selecção e a decepção de uma nação, e ainda assim veneram-no?

Fechemos agora os olhos às aparências e finjamos que somos dotados, afinal, de alguma inteligência. O verdadeiro génio não tem que prestar satisfações. Ao cabecear o adversário, violentando todas as regras de conduta da sociedade e ignorando o prejuízo que tal irreflexão acarretaria, Zidane completou-se. Foi como que afirmar: “Se eu quiser, sou campeão do mundo, se não quiser, não sou.” E todos aqueles que depositavam esperanças nele, bem como os que torciam para que ele falhasse, ficaram de repente à mercê da sua vontade. Com um simples gesto, Zidane abraçou o céu. Quem recorda, hoje, os italianos a festejarem o título, ou os gauleses cabisbaixos ante a final perdida? A única coisa que perdurará na memória das pessoas, bem como nos anais da História que contarão às gerações que virão depois de nós, são os segundos dramáticos que acompanharam a saída de Zidane do relvado, caminhando decidido para o balneário enquanto passava ao lado do troféu mais importante do mundo sem lhe lançar o olhar. Só isso restará. Por que nos compraz a figura de Hamlet, se matou a família toda antes de se suicidar? Se Napoleão, enquanto líder de um exército, pode ser responsabilizado pela morte de tantos soldados inimigos e civis inocentes, por que razão é lembrado como um génio militar? Estará o génio acima dos outros homens, acima da moral, da lei?… Para certos loucos, a resposta não é difícil. A única coisa que prende o génio à terra é a expressão corpórea da sua alma. Ignorar o mundo – eis a expressão máxima do talento do homem. Zidane não se envileceu; perfez-se! Ignorar o troféu e a glória humana, a fé com que alimentava os que acreditavam nele e o desafecto dos que eram contra ele, abandonar tudo o que era humano em si, escapando à modorra do mundo e libertando-se totalmente – eis o que o lhe perpetuará a fama… Porém, é inútil pedir que o vulgo compreenda o génio. Tornar-se absurdo, à vista dos outros, é o preço a pagar por se ser diferente… E como os protagonistas de Kafka, Zidane será eternamente vaiado pelos néscios. Como Gregor Samsa, será visto como um insecto frágil, que os homens medíocres não são capazes de compreender, mas que podem aniquilar se lhe ignorarem a existência. Ao mundo é sempre mais fácil ignorar o que não percebe. Portanto, aos olhos do mundo, como Joseph K, Zidane morreu “como um cão”. Mas, tal como o protagonista kafkiano, perdurará, por essa mesma razão, na eternidade… Salve, Zidane!

quarta-feira, 14 de março de 2007

Coerência...e consequência.

Quando Zizou perdeu a cabeça no peito de Materazzi fui dos poucos que, apesar de sentir que ele não tinha tomadao a atitude mais correcta, consegui compreender e aceitar o seu comportamento. Talvez agora surja muita gente a dizer que não fomos assim tão poucos a fazer uma leitura correcta do que se passou naquele instante, que na altura também defenderam Zidane. A dicotomia patenteada entre os dois jogadores é tal, que me arriscava a dizer que os adeptos que apreciam um jogador como o italiano, dificilmente poderão apreciar qualquer linha traçada neste bolg. Mas para os que demonstrarem presença de espírito, vou-lhes expôr as minhas razões para assumir um como o paradigma do futebol ( Zizou), e outro, Materazzi, como a negação do mesmo. Juntos formam a antítese perfeita para o futebol.

No entanto, admito algum benefício na proliferação de jogadores como o italiano. Jogadores como ele dão enfâse a talentos como o de Zidane. Não que o françês precise, mas junto deste tipo de jogadores, o brilho das estrelas chega a ser incandescente.
Começando pela forma como um e outro promove o futebol. Por todo o lado encontraremos vídeos de ambos. Num lado os dribles, passes, recepções, golos, enfim... No outro, as entradas violentas, as entradas violentas, as entradas violentas, mais entradas violentas, e de quando em vez um golo... Mas não é por isso que perco tempo a escrever sobre estes dois monstros, cada um à sua maneira; as diferenças de talento tão pouco merecem discussão.
Uma coisa que nunca me convenceu na história do italiano, foi a necessidade deste se fazer passar por coitadinho: « Eu sou um ignorante», sim, sem dúvida, no que toca a esta afirmação não me parece que haja objecção alguma a fazer, mas toda aquele choradinho nunca me convenceu. Isso, e a inconsistência da sua versão...
E aqui começa a clivagem entre estes dois homens, no pós-futebol. Zidane independentemente, dos pedidos da FIFA, e da UEFA, nunca vacilou, mostrando-se sempre indisponível para se cruzar com o italiano, por outro lado, o seu antagonista demonstrou sempre uma disponibilidade demasiado Cristâ para perdoar Zidane. É, no minimo, suspeito.

Esta atitude de Zidane é muito mais do que uma mera demonstração da sua forte personalidade, e princípios. É uma relação de respeito para um desporto que o transformou num Deus.

E é aqui que nos deparamos com uma realidade que muitos tem dificuldade em perceber. Zidane, como qualquer génio, quando explanava todo o seu espiríto criativo, libertava-se de qualquer disciplina, ou limitação, que pudesse circunscrever o seu talento. Tudo o resto, imposições tácticas, subserviência às circunstâncias do jogo, tudo isto se torna incómodo para quem assume o processo criativo. Caminhando sobre a linha ténue que separa o génio do ridículo e louco, demonstrou sempre que, mais do que a uma equipa, Zidane pertence ao futebol.
Não se encontra, porém, nestas linhas, justificação para a sua atitude. De que maneira, perguntam vocês, se pode justificar a atitude de Zidane, sendo ele tão honesto com o futebol, tão puro? Simples. Não se pode. Ninguém pode, tão pouco ele. Da mesma maneira que não se explica as jogadas que o imortalizaram. A intuição não se explica. Mas este facto, o de imiscuir um factor tão primário, como o instinto, no seu futebol, não significa que o torne menos complexo,ou digno, apenas o perfuma, pois não podemos conceber a razão sem emoção...
Zidane viveu aquele jogo como o seu último, porque o era, e não só. Porque futebol, é um desporto de emoções, de paixão... E o que é paixão senão a ausência temporária do juízo? Ao perder a cabeça daquele jeito, demonstrou que se entregava, como poucos, ao jogo. Não retaliando qualquer tipo de emoção, ou sentimento, ao mesmo. Ele não pensou nas consequências do seu acto. Apenas sentiu, seguiu o mesmo instinto que o levou a marcar a grande penalidade da forma que o fez. Não podemos dissociar um facto do outro. O temperamento é essencial, mas também ambigúo na sua manifestação...
Esta condição, funciona como dom e maldição. O mesmo processo que o levou a transportar de uma forma, quase, exclusiva a França à Final, foi o mesmo que lhe retirou os últimos dez minutos da mesma... Irónico. As emoções, ao contrário do que se pensa, são essenciais á construção do sublime. Tem de se ter prazer... e dor.
Um caso de falta desse mesmo temperamento: M. Laudrup. O dinamarquês era fantástico no toque de bola, no passe, na forma inteligente como definia os lances, todavia, faltou-lhe sempre aquela faísca, aquele assomo que o levasse a ser considerado um "Deus", passe o exagero. Por outro lado, provavelmente também não agrediria o italiano. Poderia falar de um caso português semelhante... Mas não vou ferir susceptibilidades...
Esta final assumiu os contornos de um verdadeiro paradigma da definição de um génio. Louco, arrebatado, distante, e irredutível... Mas não o foram assim todos...?

Por outras palavras, Zidane nunca cedeu. Assumiu a sua condição, nunca defraudando aquilo que acreditava: O futebol, enquanto um jogo Bellíssimo.
Da mesma forma que, agora, ao não aceder aos convites feitos para a reconciliação?, se mostra fiel ás convicções e motivos que o levaram a cabecear o monstro italiano, reforçando, assim, o peso e legítimidade dos mesmos...

terça-feira, 13 de março de 2007

O maior insulto...

"Quando entro em campo, tento jogar como um homem, com força, para me mostrar e para ajudar a equipa". Moses, depois de lhe perguntarem o que achava do lance em que Tonel se lesionou.
Nem quis acreditar quando li estas linhas. Mais do que tudo, este "tento jogar como um homem"deixa-me inquieto. Porque tenho a sensação que são muitos os que não hesitam em assumir que o futebol é um desporto para homens. Pois eu acho que é um desporto para Homens. Neste caso, a maiúscula faz toda a diferença.
Moses cria um paradoxo, sem o saber - provavelmente até desconhece o significado de tal palavra - ; ou então Aristóteles estava errado, quando definiu Homem como um animal racional.
Eu nem consigo imaginar este desporto, se não o for praticado por Homens. Todavia, por vezes a acontece. Como homem... Moses estaria a falar de quê? Deduzo que não se referia á faculdade com que fomos abençoados, de reflectir, de analisar, de raciocinar, e inferir... Seria da honra, lealdade e honestidade ( que deveriam ser) inerentes ao futebol, ou a qualquer acção, que se suponha humana? Hum...
Quando este jogador diz uma barbaridade destas, não se limita a envergonhar o futebol. Menospreza a humanidade e milênios da sua evolução. Não se trata só da lesão que ele provocou num colega de profissão. Trata-se de não ter a capacidade de analisar o que está correcto, ou não; ou seja, ao assumir que não fez nada de mal, que apenas jogou como um homem, assume publicamente que vai manter a mesma atitude, jogo, após jogo...

quinta-feira, 8 de março de 2007

O Útimo...

Não é fácil escrever sobre esta personagem, para mim a maior, do futebol português. Porque não se limita a ser mais um jogador que espalhou classe pelos campos de futebol. Quem me conhece sabe bem de quem falo. É desprepositado; fora de tempo. Sim, mas também ninguém é obrigado a ler estas linhas.

Talvez comece pelo primeiro momento de magia que presenciei deste mago. Lembro-me, com a distância de 13/14 anos, dos movimentos que me enfeitiçaram. Através de uma cassete de video, dessas que o jornal O Jogo publicava no final de campeonato. Época 93/94, Benfica Campeão. E fiquei apaixonado por aquele estilo. Quem era aquele Pedro?

Entretanto ganhou espaço no futebol português. Na época seguinte explodiu.
Quinito, um romântico - infelizmente, o último? - , compreendeu a magnitude do génio que se lhe deparava. Uma época belíssima, com chamadas à selecção. Numa dessas chamadas dissipou todas as dúvidas. Um golo que estava para o futebol, como a água para a vida; são momentos como aquele que nos fazem sonhar, e rever jogos e jogadas, cujo o fim já não oferece surpresa.
Ele era diferente. O último jogador à antiga portuguesa, chamaram-lhe os românticos. Como deveria ser Belo o futebol desse antigamente.
Foi para Alvalade. E, a partir dai, demonstrou todas as idiossincrasias que acompanham os génios.
É impossível fugir ao cliché : Amado por uns, odiado por outros. Nem todos conseguimos entender, e apreciar, arte. A Arte.

Dele disseram que comia demasiados croissants. Era bom que fosse assim tão simples. Infelizmente, por mais croissants que o Joao Alves, Paulo Jorge, ou Adriano comam...
Poderia falar dos três golos com que brindou uma equipa israelita na taça Uefa. À excepção do primeiro golo, foram momentos geniais. Os dribles que se sucediam, num bailado que não se ensina, e a parte interior do seu pé esquerdo, deixaram o país da Estrela-de-David assombrado.
Coerente e consequente, não se deixou enganar por quem lhe tentou roubar o que dele era por direito próprio. Não devemos renegar o nosso destino. Nunca deixou de arriscar, de procurar sempre a mais bela e arriscada opção... E que momentos! Marcou a dois, dos três melhores guarda-redes que por Portugal passaram nos últimos 15/20 anos, - ao outro de certo que também o fez, mas apenas em treinos - com requintes de malvadez...
Os golos nunca foram muitos, mas sim geniais. Porém, para os pragmáticos ( sim apesar de tudo, na minha generosidade imensa, encontrei um momento de comiseração por vocês) tenho um doce: na primeira época, apesar de toda a contestação que sofreu - e que o acompanhou até ao fim da sua (demasiado) breve carreira, sim, porque os grande abandonam sempre cedo demais - foi o terceiro melhor marcador da equipa de Alvalade.
Golos... São o sal do futebol... Isso seria, e será decerto, um assunto para abordarmos com mais tempo; mas os dele foram muito mais do que isso. Fosse um remate impossível, de primeira, que colocava por entre as pernas de um qualquer guarda redes, fosse a maneira como levantava um estádio, depois de concluir um cruzamento com um remate que, na sua elegância, mascarava de fácil. Mas não era só isso. Até quando falhava, algo de divino, e gracioso, o acompanhava. As bolas que enviava ao poste, sempre o segundo, faziam a delícia de qualquer adepto, dos bons.

Frontal, até na maneira como se dava a conhecer demonstrava que estava só. Não digo a mais pois jogadores como ele serão sempre de menos . O discurso inteligente, e responsável, distanciava-o de seus pares. Uma vez um treinador pediu aos sócios leoninos que o "acarinhassem", que não o assobiassem mal o speaker anunciasse o seu nome para o onze inicial. Quando confrontado com o pedido feito pelo seu treinador não se refugiou no mesmo. Assumiu as críticas, não condenou, mas sim assumiu que quem joga num grande tem de estar preparado para lidar com essas situações. À imagem do que fazia no campo não se escondia, dando antes o peito às balas.

Foi sempre incompreendido. Os génios não o seriam, se por todos fossem compreendidos. Essa assunção seria, aliás, contraditória. Tinha carisma, ao que aliava a uma nobreza cada vez mais rara nos tempos que correm. Tornou-se uma figura incontornável no futebol nacional. Capitão de um dos grandes de Portugal, foi fundamental nas últimas grandes conquistas do seu clube. No primeiro campeonato que venceu, quadros como o que pintou no Bessa revelaram-se decisivos. Mas mesmo que não o fossem... Numa eliminatória da taça de Portugal, em pleno estádio das Antas, marcou um belíssimo golo, a passe do seu homónimo, de apelido Martins, à entrada da área sentou P. Santos e quando Erickson deu um passo em frente, preparando-se para fazer a mancha, picou-lhe a bola fazendo um golo fabuloso... Vi e revi o lance inúmeras vezes... Arte, sublime, perfeita... Magia para outros...
Na mesma eliminatória, num segundo jogo entre as mesmas equipas, lesionou-se depois de uma arrancada, em que nem os bichos o conseguiram deter... E durante meses o futebol voltou a ser vulgar...

Não posso falar de todos os momentos em que ele homenageou o futebol com o seu perfume. Vou terminar com uma referência, que poderia ser uma metáfora da sua carreira.
No último grande jogo que o vi realizar, curiosamente jogou apenas alguns minutos, deu a sensação que se tomasse a bola na sua área seria capaz de driblar todos os compatriotas de Vincent van Gogh a passo. A maneira como expulsava quem quer que lhe surgisse à sua frente com um movimento suave... Genial... O problema é que não teria tempo suficiente para o fazer. Neste jogo, como na sua carreira, - e partindo do princípio que o futebol, como tudo na vida, irá evoluir de forma postiva - o tempo foi o seu maior inimigo.
Falo de Barbosa. Pedro Barbosa.

sub-18

No domingo passado fui ver o jogo entre Portugal e Rep. da Irlanda, na categoria de sub-18.
O meu comentário ao jogo, e ao desempenho da nossa selecção, é o seguinte: Conto com vocês, sub-17 e sub-19! Agora tirem as vossas conclusões...

Em defesa dos grandes

Só os que fazem por isso merecem respeito. Talvez por isso, se Materazzi tropeçar na bola e oferecer um golo a um adversário, a nossa reacção seja uma gargalhada ou um insulto. Com outros, a história é outra. Riquelme falhou um penalty na meia-final da Liga dos Campeões na época passada, o que impossibilitou que a sua equipa chegasse à final, e nem por isso deixou de ser o herói que era para os adeptos do Villareal... Um dos melhores defesas centrais portugueses dos últimos anos arrisca-se a passar ao lado de uma grande carreira por pura ignorância de quem anda no futebol. Quando se fala tanto em Pepe para reforçar a selecção, ou se andam a convocar jogadores como Manuel da Costa, é de assumir que a falta de competência do seleccionador nacional é, de facto, um caso sério.

Zé Castro chegou ao Atlético Madrid e assumiu-se quase imediatamente. Sorte? Não me parece. Na minha opinião, Zé Castro tem uma grande virtude: não é burro, como maior parte dos centrais. Disputa as bolas não para as mandar para a quinta (característica do grande defesa, para a generalidade do público) mas para capturá-las e dar início a novo ataque da sua equipa. E faz isto onde quer que esteja. Muitos podem alegar que um central deve é despachar a bola o mais possível. Errado. Muito errado! Defender bem é apenas metade do que um defesa central deve fazer. Outros podem reconhecer que Zé Castro tem muita classe, mas que, por não ir à bola como um touro investe contra um forcado, não tem grande futuro. Novamente errado. Sem fazer muitas faltas, sem ter entradas por trás, sem qualquer espécie de maldade, passando mesmo discreto, recorrendo apenas a um sentido posicional ímpar e à sua velocidade, Zé Castro é um defesa central de altíssima qualidade. Se são precisos exemplos para reconhecê-lo, poderíamos ir ver quantas vezes, por exemplo, secou Liedson. Depois de muito estudo, conclusão óbvia: sempre! A época transacta, por exemplo, num jogo contra o Benfica, deu um autêntico recital. Ganhou bolas no peito a que os avançados não chegavam de cabeça, saiu sempre a jogar com calma e confiança, iniciou maior parte dos ataques da equipa, etc. E é aqui que é preciso chegar. Um defesa que se limita a limpar a sua zona, com pontapés na bola sem nexo, inviabiliza, é certo, grande parte dos ataques adversários e até pode intimidá-los. Não permite, contudo, que a sua própria equipa inicie o seu ataque ou retenha a posse de bola de modo a que o adversário não tente novo ataque. Despejar bolas para a bancada é apenas uma forma de adiar o ataque adversário e não de o anular.

Em nome do bom futebol e da inteligência rara dos grandes jogadores, Zé Castro deve ter todo o apoio de quem realmente entende de futebol. E deve tê-lo não só porque mantém o espectáculo num nível de qualidade assaz agradável, como tem a categoria para entender que, ao contrário do que fazem maior parte dos seus companheiros de posto, para se ser um bom defesa é necessário contribuir para a qualidade de jogo da equipa. Um defesa não é só uma estaca, nem muito menos um Luisão... Esse tipo de defesas podem evitar que um adversário produza perigo numa determinada jogada, mas não ajudam em nada - e isso é certo - na construção de jogo da equipa. E se uma equipa é um todo, todos têm que construir, como todos têm que saber ocupar devidamente as suas posições no terreno. Além disso, ser-se agressivo ou alto não significa necessariamente ser um bom defesa. As grandes virtudes de um defesa são a inteligência, o posicionamento e a velocidade. Como é óbvio, se aliarmos a isto o tamanho, tanto melhor. Ora, Zé Castro tem isto tudo e ainda uma qualidade técnica invejável para um defesa.

Perante este cenário, apraz-me defender tão ilustre jogador das críticas que lhe possam dirigir. Há duas semanas, o Atlético Madrid não ganhou ao Real Madrid porque Zé Castro perdeu uma bola, aparentemente de maneira infantil, e permitiu o golo dos merengues. Vendo o lance novamente, percebemos o que aconteceu, de facto. Zé Castro, numa situação difícil, em vez de recorrer à arma preferida dos defesas, o pontapé estúpido, preferiu segurar a bola, levantar a cabeça e tentar proporcionar à equipa não só o conforto da posse bola como níveis de confiança mais altos. Correu mal. Ou porque demorou mais tempo a dominar a bola, ou porque o avançado se aproximou dele mais rapidamente do que esperava - o que é certo é que correu mal. Antes de conseguir entregar a bola, foi desarmado. É isto motivo para acharmos que aquilo que ele fez foi errado? Deveria Zé Castro ter sido prático naquela situação, não correndo riscos, entregando a bola ao adversário? Julgo que não. Jamais aquele que dispensa o risco tem a felicidade do êxito. Zé Castro foi fiel às suas ideias. Achando ignóbil despejar uma bola para se livrar de acusações que lhe pudessem dirigir caso o lance corresse mal, como correu, preferiu arriscar. Um defesa, quando despeja uma bola sem nexo, faz duas coisas: limpa a jogada, o que só é bom para a equipa a curto prazo, e limpa-se a si, delegando a eventual falência da equipa para outros companheiros ou para outros factores que não os erros individuais. Zé Castro, se tivesse jogado prático, além de ser mal jogado, estaria a fazer exactamente o mesmo que um jogador ao se demitir da sua função de habitual marcador de penaltys, entregando a responsabilidade a um companheiro apenas por não querer correr o risco, caso falhe, de ser julgado pelo erro. Nem sempre o melhor dá os melhores resultados. Mas é garantido que o melhor dá os melhores resultados a maior parte das vezes. Nem sempre jogar bem, da forma mais acertada significa sucesso. Mas de certeza que não há outro caminho mais lógico para se ter sucesso do que jogar correctamente. Zé Castro, além de tudo, revelou coragem. Coragem e inteligência, pois sabe que, apesar do erro, estava certo. É verdade que correu mal e que por isso o Atlético não somou 3 pontos. É verdade. Mas salvou-se a integridade ideológica de um jogador, integridade essa que pode bem ser a sua melhor arma para, daqui a uns anos, estar entre os melhores do mundo.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Falsas aparências

Muito se tem escrito e opinado sobre a tão propalada juventude, excessiva, do plantel do Sporting. Admito que mesmo eu cheguei a cometer esse erro.

Ponto número um - Não têm sido os jovens que tem comprometido nos momentos cruciais. Contem os erros de palmatória de Miguel veloso, Nani, Moutinho, Custódio, Martins, Djaló. Comparem-nos com os erros de Caneira, Ricardo, Liedson- e não é por estar a atravessar um momento bom que devemos esquecer as horríveis exibições do início de época-, e Paredes, este nas poucas vezes que jogou. Os jogadores experientes deviam emprestar equilibrio, e alguma matreirice, a um plantel jovem. Mas não se tem assistido a esse facto, bem pelo contrário.

Ponto número dois - A relutância de Paulo Bento em utilizar Farnerud é exasperante. O sueco é bom de bola, correctos nos critérios de aceleração e organização de jogo.

Ponto número três - O Abel teve de férias ? Não? Então porque não tem jogado? Não me lembro de nenhum jogo em que ele tenha comprometido. Teve um jogo menos bom? O Liedson teve DEZ!!!! Pelo menos...

Ponto número Quatro - Nenhum dos chamados "jovens" do plantel leonino foi expulso por agressão, deixando a equipa em inferioridade numérica...

Não creio, portanto, que a juventude seja a causa dos maus resultados leoninos. Será, sem dúvida, uma questão de más opções. Neste aspecto é curioso o percurso contrário dos treinadores, das respectivas equipas, da segunda circular. Bento começou o campeonato com os melhores, porém, os resultados, que teimavam em não aparecer, levaram a que cedesse e acabou por mudar. Saiu Romagnoli, Martins, Abel... Liedson, esse, continuou; curioso que nessa altura a única coisa que se podia apontar ao Sporting era não concretizar as inúmeras oportunidades que criava. Por causa da JUVENTUDE, claro. No clube da Luz, porém, aconteceu o inverso. Quando Fernando Santos percebeu a verdadeira dimensão de jogadores como Paulo Jorge, Manú, Miguelito... Sem qualquer tipo de desapreço por estes jogadores. Simplesmente, não são os melhores do plantel. O benfica, pode não praticar um futebol deslumbrante, - mas quem é que o tem praticado nas últimas jornadas? - mas joga bem, e de forma intensa, sustentada por uma confiança enorme. Acredito que isto é o máximo que o plantel do Benfica pode oferecer, não lhe reconhecendo talento para passar disto, mas a verdade é que "isto" arrisca-se a ser o suficiente para vencer o campeonato...

quinta-feira, 1 de março de 2007

Rotatividade ou Lotaria?

Numa altura em que o Sporting parece começar a perder o gás, muitos se levantam e gritam a plenos pulmões os erros de Paulo Bento. Poder-se-iam referir muitos, mas há um em particular que me parece significativo. Desde que chegou ao clube, Paulo Bento experimentou uma rotatividade de jogadores que, em abono da verdade, parece saudável. Creio, contudo, que esse excesso de rotatividade tem sido um dos principais factores a contribuir para o rendimento inconstante da equipa. Paulo Bento não tem, nem teve ainda, uma equipa de base. Tem 3 ou 4 jogadores que jogam sempre e vai trocando os outros. Os que costumam jogar sempre são aqueles a quem não se atrevem a apontar defeitos: Ricardo, Polga, Moutinho, Liedson. A estes a titularidade confere uma confiança inabalável. O problema são os outros. Há apenas dois estados de graça num jogador: ou é titular e ganha, com isso, confiança; ou não é titular e, se for uma pessoa determinada, esforçar-se-á sempre para recuperar esse estatuto. O problema é que, de uma forma geral, os jogadores de Paulo Bento não são nem titulares nem suplentes. Uns jogos jogam, outros não. E não importa a exibição que realizem. Não há pior que isto para desmotivar um jogador.

Vítimas de não conhecerem o seu estatuto dentro do plantel são, por exemplo, Carlos Martins, Custódio, Romagnoli e Nani. São jogadores talentosos, mas não têm motivação para explanarem o seu futebol. Na época passada, Carlos Martins estava constantemente lesionado. Mas era titular indiscutível da equipa e, sempre que regressava, notava-se-lhe uma vontade enorme em mostrar o seu valor. Agora, parece custar-lhe entrar, sabendo que um bom jogo pode valer-lhe, no jogo seguinte, um regresso ao banco. Ainda recentemente entrou 15 minutos, abanou o jogo com a sua irreverência e, para o jogo seguinte, nem sequer foi convocado. Isto é incompreensível! Nani, no princípio da época, estava no seu melhor momento de forma. Estava de tal forma confiante que a estreia na selecção foi auspiciosa. Aos poucos, com o desenrolar do campeonato, foi efectuando exibições menos conseguidas. Isso, em vez de lhe valer a colocação no banco, o que poderia motivá-lo a tentar alcançar os níveis do início da época, valeu-lhe uma utilização intermitente, que não pode ser boa para si. O argentino Romagnoli esteve em evidência na pré-epóca e no início da época. Desceu de rendimento, por esta ou aquela razão. E é mais um que vai tendo uns minutos aqui, outros ali. Isto é uma má gestão do plantel.

Resumindo, o problema principal do Sporting é, neste momento, a confiança. Muitos advogam que os níveis de confiança estão baixos por isto ou por aquilo. Para uns, é devido à imaturidade e à juventude do plantel. Para outros, é porque, em momentos decisivos a equipa tem falhado e os jogadores, sabendo disso, perdem confiança. É certo que os resultados menos positivos foram o catalisador desta situação. Se virmos bem, antes da derrota em Alvalade perante o Benfica este problema de confiança não se punha: a equipa estava a praticar um bom futebol e estava bem no campeonato, a pouquíssimos pontos do Porto. Mas estes factores poderiam ser contornados. O problema é outro. O problema reside na falta de confiança, por natureza, que os jogadores sentem devido à indefinição do seu estatuto, devido à lotaria a que estão sujeitos. E esse é um problema de gestão de recursos humanos. De má gestão de recursos humanos...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Os seis que mereciam ser dez - 1

Um gesto lânguido, num segundo que, de certa forma, irá perdurar nas nossas mentes. A melhor opção, sempre a melhor. A linha de passe invisível, até nos ser revelada pelo patrão, num assomo de pura genialidade, e generosidade para os adeptos do futebol. Por vezes dava a sensação de ser lento a executar, mas não, nada disso; apenas criava essa ilusão para assim podermos desfrutar da sua magia. Pois é, e pela primeira vez, senti uma atracção por esse comando, por esse posto. Paulo Sousa.
A maneira como a equipa seguia as suas passadas, dando, por vezes, a ideia que o jogo variava de flanco com apenas um olhar seu, como se este dissesse à bola, « é por ali, é por ali o melhor caminho»; outras vezes, o desenrolar do jogo colava-se ao bater do seu pulso, acelarando, ou detendo-se, conforme o entusiasmo do general.
Seria uma personagem de um qualquer conto de Wilde pela sua graça e elegância; simbolo máximo da vitoria da inteligência sobre o músculo, não se descobria em Sousa indìces fisicos invulgares. Não era rápido, tão pouco forte no choque, não era dotado de uma garra extraordinária, tecnicamente apesar de bom, não deslumbrava... Mas compensava tudo isso com uma inteligência singular. Que prolonga no seu cargo como selecionador, mas isso são contas de outro rosário...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

A grande mentira do futebol.

Este vai ser, provavelmente, um post bastante polémico.
Apesar de admitir que o fenómeno futebol em Inglaterra é excitante, e de certa forma, um grande espéctaculo ( com todos os seus ingredientes - adeptos incansáveis, boas molduras humanas nos estádios, etc.), acho que o futebol, enquanto jogo, é pobre. Mais, acho lamentável a maneira como os árbitos conduzem os respectivos jogos. E a provar o que digo, confirmem a quantidade de entradas violentas que existem todas as jornadas naquele campeonato. Quando me dizem que ali não embarcam em teatros, sou levado a concordar, ali bate-se a valer. É ridícula a justificação que se dá para permitir aquele tipo de atitude que é rainha na Premiership. O futebol é um desporto viríl! Calculo que os momentos de ouro da história do futebol, estejam repletos de virilidade. Pois são homens como Jorge Costa, Paulo Turra, Vidigal, Petit, etc, que nos fizeram apaixonar pelo jogo. Não essas meninas, como Zidane, Laudrup, Baggio, MARADONA, Van Basten, etc.

Outra coisa que não concordo é com o mito de que em Inglaterra o futebol é mais verdadeiro. É apenas um eufemismo para a realidade: é um futebol pobre em termos tácticos, sem ideias, baseado única e exclusivamente, nas pontecialidades fisicas/técnicas dos seus jogadores. Tomemos o exemplo do MU: no último jogo, contra o Fulham, não fosse a qualidade técnica de alguns jogadores, poderia-se dizer que estávamos perante um jogo dos distritais. Sem qualquer tipo de transições definidas, assistiu-se ao estilo very british, kick and run. Entregando a sua sorte ao acaso, Sir Alex, teve em Cristiano Ronaldo a solução para um jogo que parecia condenado. E dei comigo a desconfiar do futebol; como poderia ele recompensar alguém que o ignorava daquela forma, rebaixando-o a um nivel tão primitivo? Fazendo dele não mais do que um desporto baseado em apenas músculo, suor, e uma percentagem exígua de inspiração, sem qualquer qualidade? Porém, a explicação é simples. Num campeonato como aquele, em que todas as equipas, excepto, o Chelsea e o Arsenal, são pobres do ponto de vista táctico, quem tem os melhores jogadores, e a sorte de não ter um grande número de lesões, vence. Com um modelo de jogo básico, e primítivo, conseguem alcançar resultados. Contudo, na europa, as coisas já soam de maneira diferente. E por isso, à excepção do Arsenal e Chelsea, o seu contributo nas provas europeias ficam sempre aquém. O futebol em Inglaterra é jogado de maneira etérea. Sem esquemas, é o país do fair-play. Ok, voltemos então ao jogo do sabado passado. Depois de conseguir o 2-1 de forma casual, como é que o MU passou os últimos 5 minutos de jogo? Pois é, da maneira mais nobre, e leal: levando a bola para a bandeirola de canto, tentando queimar todos os segundos, tentando proteger a bola junto do quarto circulo. Porque, lá está, ter um modelo de jogo definido, que lhe permitisse manter a posse de bola trocando a mesma entre os seus jogadores isso era feio, e desleal. Ok.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Doentes Mentais ou Génios?

Jaime Pacheco diz que Mourinho é doente mental. Hmmm... pois... Jaime, Jaime, o que é que andas a fumar, pá? Ora façamos um paralelo. A diferença entre um doente mental e Napoleão é que o primeiro pensa que é o Imperador de França e o segundo foi-o. O primeiro julga que é um génio militar e que venceu imensas batalhas, mas só o segundo é que as venceu. Então vejamos. Entre Pacheco e Mourinho, quem é o Napoleão e quem é o doente mental? Diz Pacheco que Mourinho deve ser um frustrado por nunca ter ganho nada como jogador. Acredito. Será tão frustrado como os outros 9 milhões, 999 mil e tal portugueses que nunca ganharam nada como jogador. E como treinador, quem será o mais frustrado?

Já há tempos, Jaime Pacheco, numa entrevista, tinha dito que Mourinho só se tornou no que se tornou porque teve sorte, pois nunca treinara equipas pequenas, que fora logo para as grandes. Recapitulemos. Mourinho andou mais de uma década à sombra de Robson e Van Gaal. Realmente, poderia ter usado este tempo para se iniciar como treinador, mas preferiu passá-lo a aprender, coisa que falta a... vá lá... quase todos os treinadores além dele. Depois, chegou ao Benfica. Um grande, é verdade. Mas deu-se ao luxo de abandonar o cargo de treinador e foi para o Leiria. Parece que afinal sempre treinou equipas pequenas. E vejamos o que fez no Leiria. Pois, saiu a meio da época para o Porto, porque era evidente que era bom. Deixou o Leiria em terceiro no campeonato, à frente do Benfica. Depois, no Porto, foi o que se viu. Em duas épocas, só não ganhou uma taça de Portugal. E se quisermos, no panorama europeu, o Porto era uma equipa pequena, mas ainda assim ganhou a UEFA e a Champions. Resumindo, o que Jaime Pacheco diz não tem qualquer fundamento. Mourinho treinou equipas pequenas. Ganhou sempre mais do que era esperado. Parece-me doença mental não saber interpretar isto, sr. Pacheco.

Para finalizar - é preciso dizê-lo sem medo - Jaime Pacheco não percebe nada de futebol. As suas equipas baseiam-se na força. Na força, imagine-se. E como sabemos, tudo o que é preciso num futebolista é força. Mourinho terá reagido a uma acusação de Pacheco dizendo que este só tinha um neurónio. Na minha opinião, foi simpático. Se Jaime Pacheco tivesse um neurónio, tê-lo-ia usado para permanecer calado e não se meter com Mourinho. Jaime Pacheco, como maior parte dos treinadores portugueses, não faz ideia do porquê do sucesso de Mourinho. Julga que teve sorte ou que é por saber disciplinar os seus jogadores. Há que dizê-lo também sem medo: Mourinho teve sucesso porque percebe de futebol e porque não deixa a sorte do jogo ao acaso ou à inspiração dos jogadores. Trabalha e potencia os seus jogadores, de acordo com um modelo de jogo concreto e de acordo com uma filosofia de jogo que não só é a mais correcta como a única que faz sentido. A diferença entre um doente mental e um génio é muito ténue. O que diferencia o génio do doente mental consiste na consciência que o primeiro tem do êxito que alcança. Mourinho não ganhou, como se ganha na maior parte dos casos, acidentalmente. Ganhou porque era muito melhor que os outros. E era de tal forma melhor que dificilmente não ganharia.

Génios

Sexta feira, 23 de Fevereiro. Um jogo entre duas equipas distintas, tais como os seus objectivos, mas que comungaram os mesmos pontos. Nesta altura o mais facíl será dizer o que faz falta ao Sporting; mas não é isso que vou apresentar, não, nada disso. O clube de alvalade apenas aproveita os prejuízos de ter um plantel bastante jovem. Uma grande parte da culpa está imíscuida nos comportamentos dos adeptos, uma vez que, ao invés de se apresentarem como apoiantes, mais parecem procurar na equipa o escape de todas as sua frustrações, dando assim enfâse ás dificuldades, inerentes à idade, resultantes da pressão de jogar num clube com grandes objectivos, mas, não só; um dos predicados das equipas jovens, é a sua irreverência, a sua imprevisibilidade, o seu arrojo e tendência para fantasiar. Porém, refém de uma disciplina rigída, a equipa não consegue explorar os seus valores na sua plenitude. O caso mais gritante passa por Carlos Martins. O seu talento ímpar para ser aproveitado, temos que o deixar ser rei no campo. Deixá-lo sentir os ritmos da equipa, e, então com alguma anarquia, produzir os desiquilibrios que fazem dele um dos maiores talentos da sua geração. Não podemos circunscrver o seu talento com rigidez táctica, tão pouco com um altruismo exagerado. Os génios são individualistas, e serão sempre dotados de temperamento muito sensível, oscilando, sempre em função do momento em que vivem. Por outras palavras, o génio, nunca irá ter a consciência das necessidades dos vulgares, por isso são mais verdadeiros nas suas demonstrações de insatisfação, não se preocupando com as consequências de tais actos.
Não tendo a consciência da correlação entre um talento criativo descomum, e um desajustamento social, que neste caso se refere à equipa, somos levados, muitas vezes, a crucificar estes jogadores por não manifestarem a mesma predisposição para sofrer como os demais. Porém, esta expectativa, por si só, é uma contradição. Num génio o seu intelecto, ou sentido criativo, prevalece de uma forma clara, sobre a sua vontade, ou espírito de sacrifício. Ao Carlos Martins, temos que deixar de pedir que se integre nesta sociedade, cada vez mais triste, e que seja cada vez mais um desajustado. Só assim, não o obrigando a ser igual aos outros, e a ter a consciência das limitações da mediocridade, poderemos comtemplar o talento dos grandes. Teria Zidane sido quem foi, se, por ventura, não fosse o rebelde que sempre se mostrou em campo? Não basta ser diferente com a bola nos pés. É preciso arrojo, coragem de pensar diferente, fazer o inesperado, quando o mais aconselhável, é seguir o convencional. E são esses momentos, em que uma aparente loucura toma conta dos predestinados, que ficam para sempre. Em alkmar, contra o Az, muitos daqui a uns anos, para além do golo do Miguel Garcia, poucas coisas serão recordadas. E uma dessas poucas coisas que surgirão, será o passe em plena pequena área da sua própia equipa, do P. Barbosa para Ricardo, quando à ilharga do primeiro se avistavam dois adversários. Ou, então, quando contra o Feyenoord, depois de um canto contra a sua equipa, em vez de aliviar a bola, fazendo o que qualquer comum jogador faria, e que, muito provavelmente, iria dar origem a um segunda vaga de ataque da equipa holandesa, saiu em drible, tirando do caminho quem quer que lhe aparecesse pela frente. Louco e arriscado? Não!, Superior! Não basta ser brilhante, é preciso a coragem para assumir esse futebol diferente.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

O verdadeiro adepto de futebol

O que é o verdadeiro adepto? Aquele que exulta com cada lance, ficando roxo de tanto gritar? Aquele que insulta, do primeiro ao último minuto, o árbitro, a mãe do árbitro, o adversário, a mãe do adverário, o adepto adversário, a mãe do adepto adversário, e todos os outros e as mães de todos os outros? Aquele que defende, com a vida, se for preciso, a honra do seu clube? Não! O verdadeiro adepto, o verdadeiro apreciador de futebol não se comporta como se comporta a generalidade dos adeptos de futebol. Porquê? Simples. Porque não vai para o estádio para se sentir superior, mas para assistir a um espectáculo. E um espectáculo, como o é um jogo de futebol, não é uma batalha, nem sequer uma competição. O futebol é, acima de tudo, arte. Não digo que se deva retirar ao futebol o elemento competitivo. Longe disso. Esse elemento é fundamental. Até porque o futebol é uma espécie de arte que tem uma finalidade clara que é o golo e a vitória. Sem esse desígnio, não poderia ter expressão. Mas então qual é o problema do adepto que vai para o estádio para se sentir melhor que o vizinho? Simples. Ao invés de se regozijar com o espectáculo, o adepto comum contenta-se somente com o êxito do seu clube. Mas, se ele deve patrocinar a competitividade, não deve felicitar-se com as vitórias? Não! A vitória, o sucesso não é o mais importante no futebol! São o seu fim, não aquilo que o define. Por que não? Porque, como disse, o futebol é mais do que aquilo que o adepto comum pensa que é. O futebol é arte. E, como toda a arte, o seu objectivo não é o sucesso ou o insucesso, mas ela própria. Quando um bom cinéfilo vai ao cinema, só fica satisfeito se a qualidade da película corresponder aos seus padrões de qualidade. Pouco importa que a sua personagem preferida não fique com a mulher por quem está embeiçada ou que morra tragicamente no final. Perante um conhecido quadro de Goya em que se retrata a execução de um grupo de espanhóis durante as invasões francesas, não deixamos de sentir piedade por aquelas pessoas, mas não é por isso que a qualidade geral da tela sai prejudicada. A arte pouco tem a ver com o desfecho das coisas ou com as afinidades de quem a observa. E, se o futebol é arte, também não deve ser observado de forma sentida. O bom adepto de futebol é desapaixonado. Contempla uma forma de arte e pouco se importa com o resultado final, se bem que deseje que aqueles que melhor praticam essa arte sejam condecorados pela vitória, porque esse é o fim dessa forma de arte particular.

O verdadeiro adepto de futebol pode ter um clube do coração, pode gostar mais de um certo clube, mas se reconhecer que o seu clube não é o melhor, não desejará a vitória a esse clube. Como tal, o verdadeiro adepto de futebol é o único isento, o único capaz de decidir, perante a sua análise, quem mais merece a vitória. Esse tipo de adepto defende, antes da sua equipa, antes da selecção do seu país, o futebol de melhor qualidade. É, portanto, aquele que vai mais triste para casa com uma má exibição da sua equipa, ainda que tendo ganho, do que com uma derrota em que os postes e o guarda-redes adversário cometeram o milagre de evitar a vitória. Um verdadeiro adepto de futebol só considera o dinheiro do seu bilhete mal gasto quando não assiste a um espectáculo em conformidade. E o que define a conformidade desse espectáculo? Precisamente a sua qualidade e não o seu resultado. Ao contrário do adepto comum, o verdadeiro adepto satisfaz-se com a qualidade e não com o resultado. Porquê? Porque para uns o futebol é a forma mais fácil de se sentirem poderosos (agora, que a religião perdeu toda a sua força) e para outros é uma forma de arte.

É aqui que o argumento pretende chegar. O verdadeiro adepto não é só aquele que entende o futebol como uma forma de arte. É também aquele que, tendo capacidade de assim o entender, está apto a saber avaliá-lo qualitativamente. O que pretendo provar é que só o adepto que veja o futebol como arte, que consiga colocar a qualidade do espectáculo à frente do seu resultado, é que tem condições para saber distinguir o bom futebol do mau futebol. E isto é fácil de provar. Um adepto que dê preferência ao resultado não saberá distinguir a melhor forma de atingir esse resultado. Porquê? Porque nem sempre os resultados derivam da qualidade. Uma equipa que jogue um futebol demasiado directo pode ganhar vários jogos apenas porque os seus avançados são mais rápidos que os defesas adversários. Num jogo em que isso não se passe, não ganharão. Mas o adepto comum não perceberá porquê. Na sua óptica, ficará sempre a ilusão de que os jogadores não se esforçaram o suficiente, ou que o adversário teve sorte, ou que o treinador não soube planear o jogo. E por que pensa ele assim? Porque só lhe interessa o resultado e porque pensa que, tendo chegado a um resultado positivo, uma equipa tem obviamente qualidade. Falso. Maior parte dos resultados positivos não derivam da qualidade, mas de factores diversos incontroláveis. Em contrapartida, um adepto para quem o resultado não seja importante, que concentre a sua atenção na qualidade do jogo (o único factor controlável no futebol) saberá dizer o que está mal e o que está bem. Porquê? Porque, à partida, conseguirá perceber em que medida os resultados foram derivados de uma boa ou de uma má qualidade do jogo ou de determinados aspectos do jogo.

Como é óbvio, isto não é linear. Há quem consiga fazer isto melhor, há quem consiga fazê-lo pior. O que digo é que saber assistir a futebol, isto é, ver o futebol como arte, é premissa necessária para se perceber de futebol. Só de entre os que assim o fazem saem os que entendem mesmo de futebol. Mesmo entre esses poucos, há quem depois não saiba interpretar correctamente as coisas. Ou quem saiba apenas parcialmente. São raríssimos os que têm inteligência suficiente para saber interpretar correctamente a qualidade de um jogo. Não digo, com isto, que estes adeptos estejam aptos a ser treinadores, conquanto o fossem, certamente, melhor que maior parte dos treinadores que existem. Uma coisa é interpretar a qualidade e saber como atingi-la, outra coisa é ensiná-la, comunicá-la a um grupo de jogadores. Conheço apenas um que o sabe quase na perfeição, mas esse é Especial...

Avé Catennacio!

As equipas italianas estão de parabéns. Ou talvez não estejam. Tudo bem, reconheço que a Itália foi campeã do mundo. Mas não ignoremos que foi orientada pelo menos defensivo dos treinadores italianos das últimas duas décadas e que um dos supostos médios defensivos, Pirlo, era um dos mais talentosos jogadores italianos dos últimos tempos. A Itália de Lippi, até pelo que demonstrou durante o mundial, foi a menos italiana das selecções italianas. Mereceu o campeonato? Não sei responder. Mas mereceu, por certo, mais que qualquer uma desde a Itália de Baggio. Voltando às equipas italianas. Começo pelo Parma. É verdade que, para o vulgar português, a passagem do Braga deve ser motivo de orgulho. Mas dá pena, a um espectador de futebol que não esteja inflamado pelo vício do patriotismo, ver um Parma tão débil. Quanta diferença, desde os tempos de Brolin e Asprilla... Agora, resta uma equipa medíocre, que joga demasiado à italiana. Além de ser uma equipa tacticamente infértil, como de resto o são quase todas as equipas italianas, não possui jogadores de qualidade aceitável (salvo raras excepções, como Gasbarroni) que possam desiquilibrar individualmente. Este Parma é uma nulidade, quer colectivamente, quer individualmente. Passo agora para a Roma. Confesso que não acompanho o campeonato italiano há algum tempo, mas a disposição táctica dos romanos a meio da semana, frente ao Lyon, foi das coisas mais absurdas dos últimos tempos. Conseguiram empatar 0-0, é verdade. Mas foi pura sorte. Quem se lembraria, além de um treinador italiano, de jogar de forma tão defensiva? A equipa actuou num 4-5-1. Mas vejamos quem eram os elementos mais adiantados. Comecemos pelo trio de meio-campo. Perrotta, De Rossi e Pizarro. Pizarro era o jogador com características mais ofensivas, mas, pelo que percebi, nem actuou propriamente como médio ofensivo. Em suma, a Roma jogou com 3 trincos. Depois, os alas: Taddei e Mancini. Confesso que não vi o jogo. Não sei como foi o comportamento destes jogadores, mas sei que nenhum deles é, por natureza, extremo. Em 5 elementos de meio-campo, nenhum com vocações verdadeiramente ofensivas. Mas falta o ponta-de lança, ou qualquer coisa assim parecida. Isolado na frente, jogou - pasmem-se - Totti... Percebo agora com mais facilidade por que razão o Inter, a única equipa italiana que pratica um futebol de teor ofensivo, domina o campeonato a seu bel-prazer. Palmas para o Catennacio...

Entre 10

Para quem vê no futebol muito mais que um espectáculo de massas ou que um despique clubístico e para quem anda farto de comentadores ineptos, eis o Entre 10... Porque o futebol merece um tratamento menos empírico; porque o futebol merece mais que trocas de mimos entre claques; porque o futebol merece mais, muito mais... Aqui, o futebol será visto como deve ser visto - como Arte. Aqui, o fervor irracional do emblema não imperará. Importa não a afeição por um ou outro clube, mas a análise lógica da qualidade de jogo. Aqui, o rigor jornalístico terá pouca relevância. Importa defender os artistas, não julgá-los. Aqui, não ganha quem marca. Não se promete, por isso, qualquer tipo de isenção: todo o jogador que não for capaz de dar dois toques seguidos na bola será vilipendiado. Aqui, o intelecto vence a força bruta. Afinal, tratar-se-á aqui de futebol, não de halterofilismo...