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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Marcação Individual

A marcação individual foi um dos temas dominantes há umas semanas, sobretudo nos dias que antecederam a recepção do Sporting ao Barcelona e porque Lionel Messi estava numa forma impressionante. Para muitos, a genialidade do argentino é tanta que a maneira mais eficaz de tirá-lo do jogo é destacar alguém para o vigiar os 90 minutos, vá ele para onde for. Um dos problemas desta opção é, desde logo, o de não garantir que o alvo da marcação não vá conseguir livrar-se dessa marcação vezes suficientes para fazer a diferença. Outro, ainda mais relevante, é o de tornar cada lance em que o conseguir num lance de potencial perigo. Quando o alvo da marcação se consegue livrar do marcado directo, não fica propriamente com o espaço que teria, se não tivesse qualquer marcação, pois a equipa que defende terá sempre se de reajustar em função disso, e com um jogador a menos, que é aquele que está destacado para a marcação a esse jogador.

O problema principal da marcação individual não é, todavia, nenhum destes. Imaginando que essa marcação pudesse ser eficaz ao longo dos 90 minutos, e que o adversário que se achou importante marcar em cima não fosse capaz de escapar a essa marcação e de ter bola para fazer a diferença, a simples preocupação em seguir um adversário por todo o terreno é uma vantagem tremenda para a equipa adversária. Isto porque a equipa do jogador sobre o qual recai a marcação passa a poder levar um elemento adversário para onde lhe aprouver e, portanto, a poder induzir uma determinada desorganização defensiva nesse adversário. Imagine-se que os dois laterais de uma equipa estão destacados para marcar individualmente os dois extremos adversários (quem tiver pouca imaginação e achar que isso já não se usa assim, pode sempre ver alguns jogos do Manchester United de José Mourinho o ano passado). Se o treinador adversário quiser, pode simplesmente pedir aos seus extremos que passem a frequentar espaços centrais, levando consigo os marcadores directos, e aos restantes jogadores da equipa que façam a bola entrar no espaço que passa a ficar livre em cada flanco.


Há um lance do jogo de Alvalade que opôs o Sporting ao Barcelona que ajudar a ilustrar tudo isto. Trata-se da primeira grande ocasião de perigo criada pelos catalães, e é essencialmente causada pela ausência de gente entre os dois médios (Bruno Fernandes e William) e os dois defesas centrais do Sporting. No início da jogada, que se desenrola pela esquerda, Battaglia está mais perto de Acuña do que propriamente da zona que deveria povoar se estivesse preocupado com a cobertura aos seus médios. A missão de perseguir Messi, mesmo que apenas quando este entrava na sua zona de jurisdição (Battaglia não ia atrás do argentino quando este baixava em demasia nem quando este procurava as zonas do ponta de lança, limitando a mover a marcação individual apenas quando Messi aparecia entre linhas), fez de Battaglia um jogador a menos, do ponto de vista colectivo. Não havendo sintonia entre as referências dos colegas (a bola, o espaço e a posição relativa dos colegas) e a referência de Battaglia (o posicionamento de Messi), era natural que este tipo de coisas acontecesse. É impossível articular o comportamento de um colectivo se o comportamento de um dos elementos desse colectivo for ditado pelo adversário. No que diz respeito a este lance, ter ido atrás do argentino para uma zona tão afastada fez com que se abrisse um buraco entre a linha média e a linha defensiva, e Sergi Roberto aproveitou para invadir essa zona, recebendo sozinho e em condições de se enquadrar para a baliza, apenas com a linha defensiva pela frente. Bastou um movimento sem bola e um passe para o espaço criado por esse movimento para se originarem as condições de perigo ideais.

É verdade que do facto de ser assim tão fácil criar as condições de ataque ideais não se segue que todos os jogadores a quem é movida uma marcação individual se movimentem propositadamente para que isto se suceda. É aliás raro que um jogador o faça deliberadamente, ou que um treinador, perante uma situação destas, perceba a vantagem de que dispõe e saiba explicar ao seu atleta para onde e de que modo deve conduzir o seu marcador directo. Mas, mesmo que o adversário não compreenda essa vantagem e não saiba tirar proveito dela, a marcação individual continua a ser uma opção perigosa. Mesmo que involuntariamente, como aliás parece ter sido aqui o caso, é natural que o avançado a quem é movida a marcação acabe por arrastar o seu marcador directo para zonas potencialmente desvantajosas para quem defende e que a equipa que ataca acabe por usufruir do espaço que se cria na sequência disso. Messi é excepcional e merece considerações excepcionais, concordo. Mas hipotecar a organização defensiva na esperança de que Messi tenha menos influência no jogo parece-me estúpido. Entre apostar na organização para tentar vencer uma equipa na qual joga Messi e apostar na desorganização para se jogar contra a mesma equipa, mas sem Messi, parece-me óbvio aquilo que se deve escolher. Mesmo que, colectivamente, este Barça de Valverde seja banalíssimo, há uma quantidade de jogadores acima da média que podem facilmente usufruir da desorganização propiciada pela segunda aposta. Messi é excepcional, claro, mas achar que Messi é mais perigoso sozinho contra uma equipa bem organizada do que os restantes dez companheiros contra uma equipa mal organizada não me parece fazer muito sentido.


terça-feira, 25 de outubro de 2016

As Incidências do Jogo e as Análises do Resultado

Um jogo de futebol tem 90 minutos, e a análise desses 90 minutos não pode, de maneira alguma, negligenciar as incidências que modificam a face do jogo. Entre essas incidências, a alteração do marcador (e as implicações emocionais e estratégicas dessa alteração) desempenha um papel muito importante. Uma equipa pode começar bem o jogo e, após sofrer um golo, perder a concentração ou modificar deliberadamente a sua forma de jogar. E, no entanto, não é raro os analistas desprezarem a marcha do resultado, quando instados a pronunciar-se sobre o que aconteceu numa partida de futebol. Para tais analistas, uma goleada denota sempre uma superioridade inequívoca de uma equipa sobre a outra, e qualquer vitória, mesmo que obtida nos minutos finais, num lance de bola parada, depois de 90 minutos de pouca qualidade, tem forçosamente de ser justificada mediante um mérito qualquer. Como a única coisa que lhes interessa é justificar racionalmente o resultado final, e geralmente privilegiam explicações simples, tendem a desvalorizar ocorrências que comprometam essa racionalidade ou que a tornem demasiado complexa. Coisas como um golo contra a corrente do jogo, uma expulsão ou uma sequência de falhanços inacreditáveis à frente da baliza têm impacto no modo como as equipas passam a encarar o jogo, do ponto de vista emocional ou estratégico, a partir do momento em que acontecem, e essa mudança tem de ser comtemplada aquando da análise global ao jogo. Há jogos em que, de facto, o resultado expressa bem o que aconteceu em campo. Mas o futebol é um jogo de detalhes, e muitas vezes são os detalhes que definem o resultado, pelo que também há jogos em que o resultado expressa muito mal o que aconteceu em campo. A maior parte dos analistas não considera esta segunda possibilidade, e entende que um resultado favorável traduz sempre uma superioridade qualquer.

Vem isto a propósito de dois jogos da Liga dos Campeões da semana passada. É quase unânime que o Sporting foi muito inferior ao Borussia de Dortmund, sobretudo na primeira parte, e é quase unânime que essa inferioridade se explica pela incapacidade (individual e colectiva) de pressionar Weigl, o médio-defensivo que dava sistematicamente início à construção dos alemães. Não concordo com nada disto, e estou convencido de que tais análises decorrem justamente da impressão que os golos, e o resultado, causam às pessoas. Quando Aubameyang marcou o primeiro golo do Borussia, num lance em que Rúben Semedo não fica isento de responsabilidades (achou que podia tentar ganhar em velocidade, quando podia facilmente ter encostado assim que o gabonês arrancou), o Sporting mandava por inteiro no jogo: já tinha tido duas oportunidades de golo e, sobretudo, não permitia ao Dortmund senão lançamentos longos, a explorar as alas, que invariavelmente acabavam em bolas perdidas. Se, antes do golo, o jogo era diferente daquilo em que se tornaria depois, é absurdo diagnosticar um mal geral ao modo como o Sporting encarou a primeira parte do desafio. Se Bryan Ruiz tivesse conseguido dominar aquela bola que William lhe endossou e, ficando na cara do guarda-redes, fizesse golo, ou se o árbitro da partida tivesse assinalado a grande penalidade sobre Bas Dost no lance que precede o primeiro golo dos alemães, o jogo seria completamente distinto. Mais ainda, o golo não afectou a equipa de Jesus de imediato. Nos minutos seguintes, o Dortmund continuou com muitas dificuldades em ligar o seu jogo, e a liberdade de que Weigl acabou por gozar começou a fazer-se notar apenas aos poucos, e com a descrença que se foi apoderando da equipa leonina. No final da primeira parte, fica-se com a impressão de que Weigl jogou os primeiros 45 minutos sem oposição, que o Dortmund conseguiu sempre superar as linhas de pressão do Sporting e aproveitar o espaço entre a linha de meio-campo e a linha defensiva adversária, e que os leões foram totalmente subjugados. Nada mais falso. Do meu ponto de vista, aliás, o Dortmund fez uma primeira parte relativamente fraca. O jogo interior dos alemães, por exemplo, praticamente não existiu. À excepção de dois lances em que Weigl conseguiu ligar o jogo por Goetze (ao minuto 13, na sequência de uma acção defeituosa de Elias, que se fixa em demasia na referência do homem e deixa um espaço enorme no meio, e ao minuto 29, em que Goetze aparece a receber entre Elias e Gelson, já perto da linha lateral), a opção dos alemães foi sempre o jogo exterior, e esse raramente constituiu um grande problema. É verdade que  o Dortmund conseguiu chegar muitas vezes ao último terço do terreno, e que o Sporting não travou o principal responsável por isso, Weigl, mas raramente lá chegou com a defesa leonina desequilibrada. Os desequilíbrios alemães ocorreram quase todos na sequência de lances de contra-ataque (como o de Pulisic ou como o de Kagawa) ou em acções individuais (como aquelas protagonizadas por Aubameyang). Em organização ofensiva, quantas vezes o Dortmund conseguiu realmente incomodar o Sporting? Conseguiu fazer a bola chegar ao último terço do terreno, mas quase sempre por fora e quase sempre com as linhas defensivas bem arrumadas.

O Sporting começou muito bem o jogo, em todos os aspectos (qualidade a sair de zonas de pressão, capacidade de circular a bola e penetrar no bloco adversário, competência a pressionar, com a linha defensiva muito subida a encurtar os espaços interiores), e continuou a fazer bem algumas dessas coisas. Mas houve uma coisa que mudou com o golo de Aubameyang. Fosse por receio de perder o controlo da profundidade, fosse por desconcentração, a linha defensiva dos leões não se comportou sempre como deveria, afundando em excesso em determinadas ocasiões. Veja-se, por exemplo, o lance de contra-ataque conduzido por Kagawa aos 39 minutos: Bartra recupera a bola, e toda a linha média do Sporting sai em pressão; a linha defensiva, porém, permanece atrasada, e o japonês pôde receber entre linhas, sem ninguém num raio de 20 metros. Foi esse, a meu ver, o principal defeito do Sporting, na primeira parte. Sempre que, em organização defensiva, a linha de defesa baixava, a linha média não tinha outra hipótese que não fosse baixar também, dada a colocação de Goetze e Kagawa (que se posicionavam sistematicamente junto à linha defensiva leonina), e foi isso que permitiu a Weigl toda aquela liberdade. E isso só aconteceu porque o resultado era desfavorável e, concretamente, porque isso resultara de um lance em que Aubameyang conseguira ganhar as costas à defesa do Sporting. Perante um resultado desfavorável, o passar do tempo faz aumentar a descrença dos jogadores, e com essa descrença aumenta também o receio de falhar e a desconcentração. O Sporting continuou a jogar bem, tanto ofensiva como defensivamente, depois de sofrer o golo (esteve muito bem a sair de zonas de pressão, a trocar a bola em espaços curtos, a explorar o jogo interior, a criar situações de ataque através de combinações colectivas, a criar superioridade numérica na zona da bola, a reduzir os espaços no corredor central, etc.), mas num ou noutro momento os jogadores perderam a concentração (geralmente em aspectos em que é mais fácil perdê-la, como seja em acções de posicionamento sem bola), e isso criou a ilusão de que o Borussia de Dortmund tinha dominado o jogo a seu bel-prazer. O Sporting falhou em certos momentos, é certo, mas não me parece justo justificar o resultado de um jogo (neste caso, o resultado que se verificava ao intervalo) com base num falhanço estratégico quando, na verdade, as falhas foram pontuais e em grande medida motivadas pelas incidências do próprio jogo.

O outro jogo que motivou este texto foi a goleada imposta pelo Barcelona ao Manchester City, em Camp Nou. Depois do jogo, aquilo que se ouviu foi que o Barcelona dominara absolutamente, que a diferença de qualidade entre as duas equipas foi avassaladora e que o City de Guardiola ainda não está minimamente afinado. De novo, não só não concordo com nada disto como estou convencido de que tais análises decorrem unicamente dos números expressivos do resultado final. E, no entanto, os primeiros dois terços do jogo não justificam tal análise. Até à expulsão de Cláudio Bravo, o City não estava a ser inferior, de modo algum, ao Barça. Perdia por 1-0, é certo, mas não estava a ser inferior, em termos gerais, ao seu adversário. Em muitos momentos, aliás, estava até a ser superior. Até ao primeiro golo, aos 16 minutos, estava a condicionar por completo a manobra ofensiva dos catalães, e estava a conseguir produzir ataques bem mais interessantes. E mesmo o lance que permitiu ao Barcelona chegar à vantagem é do mais fortuito que há: Messi não só ganhou um ressalto, no início do lance, como acabou por ficar isolado frente a Bravo apenas porque Fernandinho escorregou. Até à expulsão do guarda-redes do Manchester City, no início da segunda parte, as equipas dividiam o jogo, havendo momentos em que uma conseguia superiorizar-se à outra e havendo oportunidades claras de golo em ambas as balizas, e dificilmente se poderia apostar num vencedor. Depois da expulsão, sim, o Barcelona dominou totalmente a partida. Com menos um jogador, o City teve mais dificuldades em suplantar a primeira linha de pressão dos catalães, e começou a cometer alguns erros. E depois do segundo golo, com a partida praticamente decidida, o desnorte apoderou-se dos ingleses. A bem dizer, o Barcelona até justificou a goleada, pelo que conseguiu fazer nos últimos 30 minutos. Mas é anedótico dissociar o que aconteceu nesse período do jogo do acontecimento que o desencadeou. Nenhuma análise séria pode pegar no que se passou nesses 30 minutos sem ter em conta que o Barcelona jogava com mais um jogador, que estava em vantagem no marcador, que tinha a partida resolvida e que os adversários já não estavam emocionalmente comprometidos com o jogo. O Barcelona só foi melhor do que o Manchester City, e só dominou como os analistas disseram que dominou, depois de acontecerem certas coisas no jogo. Foram as incidências do jogo, e só elas, que permitiram ao Barcelona superiorizar-se de modo evidente, e qualquer análise do resultado que procure justificá-lo sem reconhecer a devida importância a essas incidências é uma análise falhada.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O Jogo Interior, a Criatividade e o Sucesso

Quando Rúben Neves apareceu, a primeira impressão que me causou foi negativa. Quase todas as bolas que recebia eram rapidamente levadas para o flanco contrário, sem critério, a explorar às cegas o extremo aberto. Com o passar do tempo, percebi que o problema não era exactamente de Rúben Neves, mas daquilo que lhe era pedido. Não só não era o único a fazê-lo (ainda que fosse aquele que o fazia com mais frequência), como não parecia esgotar-se nisso o que sabia fazer. Hoje, Rúben Neves amadureceu e - percebe-se claramente - tem mais a dar à equipa do que a qualidade de passe longo. O Porto de Lopetegui é, porém, cada vez mais aquilo que o futebol de Rúben Neves o ano passado indiciava. O treinador espanhol gostava do jovem médio português precisamente porque lhe garantia qualidade à variação rápida de flanco, e isso é algo que sempre privilegiou acima de qualquer outra coisa. Não gostei particularmente do seu trabalho na selecção espanhola justamente porque, apesar da enorme qualidade dos jogadores que tinha ao seu dispor, a equipa parecia tender a privilegiar a variação de flanco e o passe longo em detrimento da progressão vertical, pelo centro do terreno. Com os grandes médios nesse selecção, esse privilégio não era tão acentuado e, claro, a equipa ia fazendo bem outras coisas. O mesmo aconteceu o ano passado. Com Oliver e Herrera no meio (a jogar como médios e nunca na posição de segundo avançado) o Porto fazia muito mais do que abrir no flanco e confiar no um para um dos extremos. Apesar dos lançamentos longos dos centrais e do médio defensivo, a bola entrava frequentemente nos médios (muitas vezes vinda desses extremos) e estes punham a equipa a jogar pelo meio, aproveitando os movimentos de aproximação de Jackson e o trabalho entre linhas de Brahimi (ou mesmo de um dos médios). Este ano, pelo contrário, o Porto é o rosto de Lopetegui. Já não havendo médios virtuosos a estragar os planos ao espanhol, o futebol da equipa é, finalmente, aquilo que idealiza: bola longa nos extremos, normalmente a cruzar o campo todo para dar o mínimo de tempo à basculação do adversário, o extremo a receber com qualidade, a ficar com espaço no um para um, a encarar o opositor directo, normalmente flectindo para o meio enquanto o lateral lhe entra nas costas, e os médios a fazerem movimentos verticais, de aproximação às zonas de finalização. O Porto de Lopetegui é isto e só isto. E só não foi sempre isto porque antes as unidades o disfarçavam. Os seus médios servem essencialmente para pressionar e para se aproximarem de zonas de finalização. A construção da equipa é reduzida ao mínimo, e trocada pela bola longa e pela variação constante do flanco. Numa equipa grande, mesmo com extremos muito fortes no um para um, como é o caso de Brahimi e Corona, isto é pouquíssimo.

O Sporting de Jorge Jesus é o oposto disto, e ontem, no clássico, a diferença ficou bem evidente. Jesus privilegia o jogo interior, a progressão pelo centro, apoiada, e a sua equipa não só joga de modo mais compacto e unido como as suas competências ofensivas não se limitam à capacidade individual dos seus jogadores. Mesmo com Carrillo, no início da época, a tendência era para jogar por dentro. O peruano foi sempre forte no um para um, e seria fácil a Jesus trabalhar como Lopetegui, procurando potenciar as situações de um para um com Carrillo como protagonista. A verdade é que nunca o fez, e viu-se Carrillo a jogar sistematicamente por dentro (devo, aliás, dizer que o peruano me surpreendeu, em termos de criatividade em zonas de terreno densamente povoadas). Ao chegar a Alvalade, Jesus procurou desde o início sustentar o seu modelo no jogo interior da equipa, e esse é o principal segredo do seu sucesso presente. Mesmo sem Carrillo, que decerto resolveria bastantes problemas à equipa, o Sporting é a melhor equipa do campeonato porque joga essencialmente sem extremos. Além de tudo o que Jesus faz bem (o comportamento da linha defensiva, a forma como a equipa junta as linhas sem bola, o início da construção, etc.), e que fez sempre bem ao longo dos 6 anos que passou na Luz, o jogo interior deste Sporting é talvez o mais parecido com aquele que apresentou no primeiro ano de Benfica. Ao contrário de alguns treinadores, que se transformam irremediavelmente ao longo das suas carreiras, é bom ver que Jesus pode recuperar algumas das coisas que ajudaram a consagrá-lo. Se Jesus me foi desiludindo de época para época, no Benfica, este regresso às origens merece o meu aplauso.

Que o Sporting pareça hoje uma equipa muito mais confiante e adulta do que no passado não é mérito de Jesus enquanto líder. Há sempre a tendência para achar que, quando os jogadores denotam confiança, é porque o treinador, dotado de competências psicológicas notáveis, os sabe incentivar. Não. O mérito é de Jesus enquanto treinador. Os jogadores parecem mais confiantes porque o modelo de jogo os beneficia. Como lhes é mais fácil fazerem aquilo que os faz parecer melhores, é natural que sintam e transpirem mais confiança. A liderança, em futebol, é um mito, e faz-me sempre muita confusão que se atribuam competências de líderes a treinadores que não sabem nada do jogo. Os treinadores não são feiticeiros. Não é com palavras que se lidera; é com ideias. O treinador pode berrar muito, pode ser muito amigo dos jogadores e pode até saber encorajar os seus altetas a fazer o que outros atletas não conseguem. Se o seu modelo de jogo não lhes permitir que se destaquem, os jogadores só terão confiança enquanto as circunstâncias forem favoráveis. Actualmente, os jogadores do Sporting parecem cinco anos mais experientes, mais inteligentes e mais confiantes do que há um ano atrás. Porquê? Porque o modelo de jogo em que estão inseridos potencia amplamente as suas qualidades. E, na base desse modelo de jogo, está o privilégio do jogo interior. Insistindo tanto nesse jogo interior, privilegiando os movimentos de aproximação e não os de afastamento, preferindo fazer a bola chegar ao flanco contrário com vários passes e não com um pontapé longo, fazendo com que os seus jogadores se agrupem no centro em detrimento de esticar ao máximo as linhas, o Sporting troca melhor a bola, está melhor preparado para a perda dela, mantém-se mais compacto, cria a sensação de uma maior solidariedade entre os seus jogadores e, sobretudo, trabalha melhor os seus lances de ataque, desposicionando com maior facilidade os defesas e os médios contrários. É isto tudo que dá confiança a cada um dos atletas, não as palavras mágicas do treinador durante a semana, antes do jogo ou ao intervalo.

A contratação de Bryan Ruiz foi, de resto, o momento-chave da época. Sem Ruiz, o Sporting seria uma equipa bem organizada e talentosa, e continuaria a ter, no último terço do terreno, alguns jogadores criativos, capazes de tabelar, de procurar apoios frontais e de encontrar soluções colectivas para furar as defesas adversárias. Mas, à excepção de João Mário, nenhum outro desses jogadores parece agradar a Jesus a ponto de ser uma aposta incondicional (Matheus e Gelson, pela juventude, Montero e Aquilani certamente por outras razões). Bryan Ruiz tem sido uma aposta continuada e, a meu ver, o melhor jogador do Sporting. Além das competências tácticas e da inteligência, é o jogador que melhor compreende a importância dos colegas para desequilibrar as defesas adversárias, quer os use como apoios, para tabelas, quer aproveite os seus movimentos sem bola, quer lhes solicite a desmarcação. Não há um drible que tente, por exemplo, que não seja motivado por aquilo que os colegas lhe oferecem. Em termos ofensivos, é o jogador mais criativo da equipa, e, mesmo sem ser excepcionalmente forte no um para um, é pelos seus pés que passa quase tudo o que a equipa faz de realmente invulgar. Sim, é verdade que João Mário é finalmente o médio de ataque que eu comecei por duvidar que pudesse vir a ser (desde que apareceu que me parecia poder vingar sobretudo como médio-defensivo), e é verdade que tem momentos de criatividade assinaláveis, mas é em Bryan Ruiz que reside o melhor exemplo do que é um médio-ofensivo verdadeiramente criativo. Se o modelo de jogo permite que cada um dos jogadores do Sporting potencie as suas capacidades, a criatividade de Ruiz permite que a equipa não seja apenas, sobretudo no último terço do terreno, a soma dessas capacidades assim potenciadas. O costa-riquenho dá à equipa aquilo que Jesus, no passado, nem sempre valorizou, e é também por isso que o Sporting me parece o principal candidato à conquista do título de campeão. Quando a um modelo de jogo baseado no jogo interior se junta esta quantidade de criatividade, é natural que uma coisa potencie a outra, e que a equipa fique mais próxima do sucesso. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Benfica de Rui Vitória

O Benfica de Rui Vitória é, até à data, pouco mais do que um conjunto de jogadores espalhados num campo de futebol. A conclusão não é tardia nem motivada pelo descalabro do último fim-de-semana; em abono da verdade, foi o que tem vido a ser, jogo após jogo, desde o início do campeonato. Os resultados e a confiança que eles trazem mascararam essa realidade, criando a ilusão de que a equipa estava a crescer enquanto equipa. Não estava. O Benfica de Rui Vitória, até à data, não cresceu rigorosamente nada. Luís Freitas Lobo, por exemplo, acredita que este Benfica, em comparação com o de Jesus, é mais compacto e equilibrado, joga com as linhas mais juntas e é capaz, por isso mesmo, de jogar de forma mais pausada. É inacreditável que se possa sequer acreditar nisso. Basta ver 10 minutos de um jogo do Benfica de Rui Vitória para se perceber que o portador da bola é invariavelmente deixado ao abandono, que os homens sem bola raramente fazem movimentos de aproximação, que os alas e os avançados pouco ou nada são encorajados a invadir espaços interiores ou a baixar, que a tendência é para ocupar o máximo de espaço no terreno de jogo e que a inferioridade numérica no meio-campo, decorrente da insistência num modelo de jogo que requer necessariamente formas de compensar essa inferioridade é sempre, mas sempre, perniciosa para a equipa. O Benfica de Rui Vitória, até à data, é uma perfeita nulidade enquanto equipa.

Dois ou três resultados gordos (um deles construído nos últimos 20 minutos) e uma vitória inesperada em Madrid, conquistada às custas de 90 minutos a defender e de um Júlio César intransponível, não deveriam ser suficientes para se tirarem ilações positivas deste Benfica. Como sempre, as pessoas fiam-se nos resultados, e depois acontecem coisas que não conseguem explicar. A derrota humilhante deste fim-de-semana, uma das mais pesadas de sempre do Benfica em casa, não foi surpreendente, porém, para quem vê o que é importante ver. O Sporting ganhou com justiça, sem sequer fazer um jogo extraordinário. Foi eficaz e soube potenciar os erros do modelo do Benfica. Mas, mesmo que o não fosse, bastaria ocupar relativamente bem os espaços, coisa que as equipas de Jesus costumam saber fazer, para ter o domínio relativo do jogo. Tal como na Supertaça, o Sporting foi superior ao Benfica essencialmente porque foi uma equipa mais equilibrada em cada momento do jogo. Isso é o princípio de tudo. Sem ter sequer feito da troca de bola um modo de desposicionar o Benfica, bastou ao Sporting esperar que os encarnados, tendo que assumir as despesas do jogo, se desorganizassem por si. E assim foi. O Benfica foi sempre uma equipa desorganizada, tanto a defender como a atacar; teve sempre menos gente na zona da bola; nunca se preocupou com os apoios recuados ou com os apoios laterais, deixando o portador da bola sem outra solução que não o apoio vertical; defendeu sempre demasiados metros em largura quando a bola entrava nas alas, o que criava espaços excessivos entre os jogadores  (veja-se o espaço entre os centrais no segundo golo, potenciado por uma linha defensiva demasiado centrada quando a bola está encostada à linha esquerda); etc..

Para dar um exemplo do que é o Benfica de Rui Vitória, note-se a falta de rede no meio-campo, no terceiro golo do Sporting: o médio que incia a jogada não tem atrás de si nenhum outro médio, a dar um apoio recuado e a oferecer a cobertura numa eventual perda de bola, assim como não tem ninguém à sua direita, em cerca de quarenta metros, a não ser o lateral, que procura abrir. Assim é muito fácil ao adversário prever a opção do portador da bola. A antecipação que origina a perda de bola não é demérito do portador  nem do receptor, nem sequer é mérito do defesa sportinguista; é demérito colectivo do Benfica. O principal motivo da perda da bola é a desorganização colectiva que torna fácil ao adversário ler o lance. A agravar a situação, os centrais estão muito longe do portador da bola e do meio-campo, ficando, por conseguinte, incapacitados de reagir rapidamente à perda. No lance do terceiro golo, as pessoas vão crucificar o médio que cometeu a imprudência de fazer um passe à queima, ou o atacante que teve o desmazelo de se deixar antecipar, ou até mesmo o lateral direito, Sílvio, que demorou a reocupar a sua posição depois de a equipa ficar sem a bola, apesar de ser o único que, no momento ofensivo, se preocupou em dar uma solução de passe ao portador da bola (o que o deixou  naturalmente em condições deficientes para recuperar rapidamente). As pessoas vão crucificar qualquer um destes três, ou mesmo qualquer um dos outros jogadores que estavam em campo, pois não são capazes de perceber que um jogador joga aquilo que o colectivo lhe permitir jogar. As pessoas vão crucificar os jogadores, mas o principal responsável é Rui Vitória. O Benfica de Rui Vitória é, até à data, aquilo que foi exemplarmente neste jogo: pouco mais que nada.

P.S. O que pude ver do arranque da época fez-me antecipar, desde muito cedo e sem grandes hesitações, que o Sporting era o principal candidato ao título, este ano. Ainda que essa convicção tenha ficado enfraquecida depois do afastamento de Carrillo, possivelmente o melhor jogador do arranque de temporada leonino, creio que continuo a subscrever esse prognóstico.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Curtas de Dezembro

1. Depois de uma época que só não foi exemplar por ter deixado escapar a Liga Europa, Jorge Jesus perdeu vários jogadores e começou a época com um plantel bem menos forte do que o dos últimos anos. O sorteio da Champions não ajudou, e o Benfica acabou eliminado das competições europeias mais cedo do que nos últimos anos. À margem das circunstâncias adversas, o futebol encarnado depende, mais do que nunca na era de Jesus, da qualidade individual, e é essa a principal crítica que lhe deve ser feita. Num modelo como o de Jesus, o mínimo desinvestimento tem um impacto significativo, e o desempenho ofensivo dos encarnados, esta época, é quase exclusivamente explicado pelos golos de Talisca, pelas arrancadas de Salvio e Gaitan, e pela qualidade de Enzo.

2. O Porto de Lopetegui é uma equipa de oito e oitenta. Tem um plantel formidável do meio-campo para diante; tem uma plantel banalíssimo do meio-campo para trás; tanto goleia como empata com o Boavista; tanto sufoca o adversário do primeiro ao último minuto como se deixa surpreender depois de estar a vencer por alguns golos de diferença. Agrada-me a atitude ofensiva da equipa e agrada-me a intenção de pressionar alto; desagradam-me, porém, as variações constantes de flanco, o excesso de vertigem e a incapacidade, mais ou menos geral, para controlar o ritmo de jogo. Não sei o que acontecerá na segunda metade da época, até porque, sobretudo numa prova de regularidade como é o campeonato, uma equipa assim tanto arrisca o fracasso quanto o sucesso.

3. Marco Silva está a fazer um trabalho interessante. Um clube como o Sporting deve ambicionar sempre o título. O que não pode fazer, num momento complicado em que não pode, de maneira nenhuma, competir com o investimento dos dois rivais e que vem na sequência de anos de crise desportiva, é anunciar publicamente essa ambição. Enquanto "outsider", o Sporting pode sempre intrometer-se nessas contas, como aconteceu o ano passado; enquanto candidato, dificilmente. Não tem plantel para isso e entra em campo pressionado para ganhar. Não obstante, Marco Silva tem apresentado bons indicadores. É verdade que ter Nani - que só por questões extra-desportivas não está a jogar num dos dez melhores clubes europeus - ajuda muito, mas a equipa tem comportamentos interessantes. Acima de tudo, é menos mecânica do que a equipa de Leonardo Jardim, que obteve o máximo do que poderia ter obtido a época transacta, e isso é já um indício do quanto poderá evoluir no futuro. Era importante agora, a meu ver, que dessem finalmente oportunidades a dois jogadores da equipa B que, por quaisquer razões, continuam na gaveta: Chaby e Iuri.

4. Em Espanha, o Real Madrid só não é campeão se não quiser. Dia sim, dia não, a imprensa portuguesa diz que Mourinho é o melhor do mundo. Mas basta ver as diferenças do Real de Mourinho para o Real de Ancelotti para se perceber que, no mínimo, a imprensa portuguesa é tendenciosa. Mourinho jogava com médios como Khedira, Granero ou Diarra. Chegou a jogar com Pepe no meio-campo. Modric nunca foi opção. Ancelotti joga só com dois médios: Modric e Kroos. Não é preciso falar de títulos para que se percebam as diferenças. Mesmo sem Ozil e sem Di Maria, jogando num sistema de jogo que nem sempre oferece uma boa rede de apoios, o Real é uma máquina de futebol de ataque. E isso tem a ver, acima de tudo, com as ideias de Ancelotti a respeito do seu meio-campo. É aí que é profundamente diferente de Mourinho. E é por aí que o seu Real é bem mais competente e criativo do que o Real de Mourinho. Voltemos alguns anos atrás no tempo, lembremo-nos de que foi ele quem "inventou" um meio-campo inteiro para que um jogador que nunca sequer tinha jogado como médio-defensivo se pudesse tornar o melhor dos últimos quinze anos nessa posição e teremos a melhor descrição possível de Carlo Ancelotti.

5. O novo Barcelona começou muito bem. Luis Enrique conseguiu que a equipa jogasse com o bloco tão subido quanto na era de Guardiola, com os sectores muito juntos e a pressionar muito alto. Ao mesmo tempo, ia apostando em jovens jogadores de grande talento, como Munir, usava aos três e aos quatro médios criativos, e conseguia dinâmicas inacreditáveis. Tudo isso se foi, pouco a pouco, dissipando. Às vezes fala-se da coragem de um treinador sem se saber muito bem do que se fala. Para mim, coragem é manter as ideias quando as coisas não correm bem. E o que Luis Enrique fez, a partir de dada altura, foi mostrar que não a tem. Primeiro, foi Piqué, de longe o melhor central do plantel (seguido de Bartra) a ser encostado. Luis Enrique prefere Mascherano e Mathieu porque são mais compenetrados, metem mais o pé, esfolam-se mais, etc.. Depois, foi a derrota diante do Real Madrid. O Barça ainda não tinha sofrido golos no campeonato, jogava bem e fazia coisas que mais nenhuma equipa (salvo o Bayern de Guardiola) faz. Depois da derrota com o rival da capital, o Barça é uma equipa mais banal do que o Barça de Tata Martino. Já não joga com a defesa subida, já não aproxima os sectores, já não pressiona alto, e já nem sequer é capaz de fazer um jogo de posse como antes. Entretanto, desde que Luis Suarez passou a poder jogar, Pedro Rodriguez nunca mais foi titular e Munir raramente foi chamado. Mais do que nunca, o Barça é uma equipa de avançados, e o seu treinador espera que Neymar, Messi e Suarez, para os quais os outros oito jogam, resolvam individualmente o que o colectivo deixou de querer resolver.

6. Paco Jémez foi um dos nomes mais falados para substituir Tata Martino. A direcção do Barça acabou por escolher mal, e Paco Jémez manteve-se aos comandos do Rayo Vallecano. Esta entrevista devia ser lida por toda a gente, mas principalmente por Luis Enrique, que é quem tem a responsabilidade, pela herança que tem, pela tradição do clube e pelas características dos jogadores que possui, de fazer o que nela é ensinado. Para Jémez, ter a bola a todo o custo, arriscando se for preciso arriscar, é o que mais importa, e metê-la na frente é sempre pior do que procurar alguém perto com critério. Além disso, é o adversário que tem de se preocupar com a sua equipa, não a sua equipa com o adversário, e a defesa defende os espaços, não os adversários. Por outro lado, quando um lateral sobe, deve estar preocupado com tudo menos com o facto de ter de vir defender a seguir: a equipa encarregar-se-á de compensar essa subida colectivamente. Para Paco Jémez, é falso que não se possa pressionar durante 90 minutos essencialmente porque pressionar, em seu entender, é um esforço colectivo que depende mais de ajudas, coberturas e posicionamentos relativos do que com esforço muscular, agressividade perante o portador da bola e perseguições individuais. Empatar, acrescenta ainda, é o pior resultado que pode obter: prefere perder, porque, evidentemente, pode perder dois jogos em cada três e fazer os mesmos pontos que faz com três empates. Há pouca gente que pensa assim, e há pouca gente que não vai achar em quase tudo o que Paco Jémez diz um certo atrevimento. E, no entanto, diz mais coisas acertadas em meia-dúzia de respostas do que se diz em dez anos de cursos de formação de treinadores.

7. Nuno Espírito Santo começou a sua aventura em Valência e tem sido bastante elogiado. Evidentemente, é elogiado porque tem tido bons resultados. O futebol do Valência baseia-se, porém, no erro do adversário e no contra-golpe. Tudo o que Nuno pretende é que a equipa chegue rapidamente à baliza adversária, assim que rouba a bola. Defensivamente, os comportamentos da equipa nem são maus, parecendo saber exactamente o que fazer nos momentos de pressing. Mas com bola exigia-se muito mais. E exigia-se sobretudo menos pressa. O Sevilha, o Villareal e o Rayo Vallecano, para dar exemplos de equipas com orçamentos inferiores ou muito inferiores, jogam muito mais à bola do que o Valência, e quando as coisas começarem a correr menos bem e os resultados começarem a ser menos lisonjeiros, talvez caia em desgraça com a mesma velocidade com que caiu em graça.

8. Em Inglaterra, o campeão Manchester City cometeu, a meu ver, o maior pecado que um campeão pode cometer: não ter mudado nada para a nova época. Os campeões precisam de estímulos novos para continuarem a querer ser os melhores, e uma boa maneira de criá-los seria modificar qualquer coisa, sobretudo na forma de atacar da equipa. Sem grandes reforços e sem grandes mexidas na maneira da equipa jogar, o City perderá a pouco e pouco a capacidade de continuar no topo em Inglaterra.

9. O Arsenal de Wenger continua incapaz de ser uma equipa competitiva durante toda a época. Embora o investimento comece a aproximar-se do investimento feito por alguns rivais, e embora consiga finalmente preservar os melhores jogadores de ano para ano, mantêm-se os principais problemas na equipa: as competências defensivas e as lesões. É pena, porque a equipa consegue fazer coisas que a esmagadora maioria das equipas não consegue. E é pena porque Wenger é dos treinadores mais interessantes, do ponto de vista ofensivo. Gosto do estilo, mas tenho de reconhecer que, se não caprichar mais, sobretudo na forma como a equipa defende, o estilo de Wenger não é suficiente.

10. O Chelsea de Mourinho tem o melhor plantel, de muito longe, da Premier League. E mesmo com um meio-campo composto por Matic, Fabregas e Óscar, o futebol praticado é, na maioria das vezes, muito pobre. Defensivamente, a equipa não podia ser mais competente, mas continua a preferir entregar a decisão dos jogos às iniciativas individuais e ao aproveitamento dos detalhes do que às qualidades colectivas. Ainda assim, é capaz de chegar para ser campeão. Em Espanha, em Itália, em França e na Alemanha, Mourinho dificilmente seria campeão a jogar desta maneira. Mas em Inglaterra não há uma equipa capaz de ser regular desde que Ferguson se reformou, e isso é tudo o que importa. O seu Chelsea é competente defensivamente, e isso talvez seja suficiente.

11. Entretanto, Mourinho não perde uma oportunidade para aludir a Guardiola. Quando lhe perguntaram se podia ganhar quatro competições esta época, disse que não porque, ao contrário de outros campeonatos, o campeonato inglês não tem pausa de Inverno e até se joga no Natal. Já aqui tinha sugerido que a carreira de Mourinho pode ser descrita, a partir de certo momento, como uma tentativa de resposta a uma certa obsessão. Agora parece que encontrou outra.

12. Depois de uma época quase brilhante, o Liverpool de Brendan Rodgers está a fazer uma campanha sofrível. A saída de Suarez e a lesão de Sturridge fazem com que o ataque da formação inglesa seja muito diferente do que foi a época passada, e essa pode ser uma explicação para o sucedido, até porque não há muitas mais diferenças. Gosto de pensar, contudo, que uma equipa em que Mario Balotelli é titular em praticamente todos os jogos e em que Lazar Markovic mal tem oportunidades para jogar é uma equipa que não merece muito mais do que a modesta posição que ocupa. Pode-se tentar explicar o insucesso do Liverpool de muitas maneiras, mas referir um treinador que avalia tão mal a qualidade individual dos atletas que tem à sua disposição é capaz de ser suficiente.

13. Gostei muito do trabalho de Pochettino no Espanyol e, do que vi em Inglaterra, só posso dizer bem. A aventura com o Tottenham não tem sido tão feliz quanto isso, ainda que a equipa mantenha as aspirações intactas (está a cinco pontos do acesso à Liga dos Campeões) e há muita gente que tem criticado o seu trabalho. A primeira coisa que gostava de dizer é que Pochettino herdou uma equipa absurda, quase toda formatada pela ideia absurda de jogo que André Villas-Boas tentou implementar. A qualidade individual do Tottenham, ao contrário do que se possa pensar, é muito má, quando se pensa que o clube tem aspirações europeias: Lloris, Verthongen e Lamela são talvez os únicos que podiam jogar num clube maior. Daí que exigir a Pochettino outra coisa que não ficar entre os dez primeiros me pareça um exagero. Ainda assim, não se vê o técnico argentino a jogar para os pontos. Pelo contrário, é das poucas equipas da Premier League que tenta fazer coisas diferentes, que tenta jogar pelo meio, que tenta invadir espaços entre linhas, que joga com os apoios próximos. As derrotas não têm ajudado e vê-se que muitos dos jogadores não gostam de ter de pensar tanto e preferiam um futebol mais à inglesa. Há uns anos, Juande Ramos tentou fazer coisas parecidas e os jogadores do Tottenham, na altura, fizeram-lhe a cama. Lembro-me de ter dito que, embora tivesse regressado às vitórias com Harry Redknapp, o Tottenham perdera nessa altura uma boa oportunidade de se tornar um clube grande em Inglaterra. Não me enganei, ainda que os quartos e quintos lugares de Redknapp tenham dado alegrias a muita gente. Com Pochettino, o Tottenham tinha finalmente a oportunidade de ser, a médio prazo, uma equipa muito forte em Inglaterra. É verdade que os jogadores não são os melhores para isso, mas, para já, era pelo menos importante que esses mesmos jogadores não preferissem ser jogadores de equipa pequena. Infelizmente, é isso que me parece que querem ser.

14. Tim Sherwood, antigo treinador do Tottenham, percebe tanto de futebol como um lagarto ao sol percebe de física quântica. Na sequência da recente derrota do Tottenham com o Chelsea, sugeriu que o belga Verthongen é "muito mau a defender". Para Sherwood, defender é aquilo a que, nas distritas e na Premier League, vulgarmente se chama ter caparro. Verthongen, realmente, não tem caparro. Ou não faz grande uso dele. Isso não significa que não saiba defender. É com preconceitos deste género, preconceitos de que o futebol está completamente cheio, que continuamos a ter de lidar. Esta gente ganha milhões e continua a pensar como o velho que vai à bola ao Domingo a dizer que o futebol era bom era no tempo dos cinco violinos.

15. Na Alemanha, o Bayern vai chegar de novo à viragem do ano com o campeonato praticamente no bolso. É verdade que a resistência interna não é muita, e que o Dortmund, ainda por cima, tratou de facilitar a vida aos bávaros, mas não deixa de ser uma proeza. Quanto ao futebol da equipa, vai crescendo aos poucos e, mesmo sem alguns dos melhores intérpretes, Guardiola tem os seus pupilos cada vez mais próximos do que pretende. Além do 433 da época passada, a equipa joga agora também em 343 e em 352 com uma facilidade impressionante. A linha defensiva está sempre muito alta, o que é absolutamente decisivo para quem queira jogar como Guardiola joga, e os sectores sempre muito juntos, pelo que é fácil depois à equipa adaptar-se a um posicionamento diferente. Mais significativo ainda é perceber que o 343, por exemplo, não serve tanto para abrir a frente de ataque, pois os extremos são essencialmente jogadores para jogar por dentro e vir solicitar o passe a zonas entre a linha defensiva e a linha de meio-campo, quanto serve para ter mais gente no meio. A diferença de Guardiola para os restantes treinadores de futebol é tanta que fazer com que as pessoas a percebam é muito difícil.

16. Por cá, nos últimos dias, o Benfica recebeu o Belenenses, que jogou sem Miguel Rosa e sem Deyverson, possivelmente os dois jogadores mais influentes da equipa esta época. Se calhar é patetice minha, mas isto é capaz de ser um caso de polícia. Miguel Rosa desvinculou-se do Benfica e, mesmo assim, continua a ver a sua carreira comprometida por quem quer que no Benfica tenha algum poder. Já o ano passado tinha sido assim, e voltou a sê-lo este ano. E a única coisa que se faz é assobiar para o lado. Há muita coisa que vai mal no futebol. Há pouca coisa tão abjecta como isto.

17. Por falar em mafiosos, um dos sites portugueses com maior afluência, o TV Golo, foi há tempos bloqueado por todas as operadoras, segundo consta, na sequência de uma ordem judicial desencadeada por uma queixa da Sporttv. O site em questão disponibilizava links para videos de golos e apanhados dos melhores lances de jogos de muitas ligas. Não sei muito bem o que leva uma empresa como a Sporttv a sentir-se lesada por um site deste género (ainda por cima, tanto quanto pude perceber, o site inglês okgoals.com disponibiliza boa parte do que era disponibilizado pelo tvgolo.com), da mesma maneira que não consigo compreender a maior parte das razões contra a livre divulgação de conteúdos na internet, em geral. De qualquer modo, é no mínimo irónico que esta acção moralizadora dos costumes dos utilizadores da internet tenha vindo precisamente de uma empresa que, pelo menos até há bem pouco tempo, detinha o monopólio do negócio do futebol em Portugal e que o vendia como queria e pelos preços que queria. Haja escrúpulos...

domingo, 30 de março de 2014

William Carvalho e o Sporting de Leonardo Jardim

A época do Sporting tem sido suficientemente boa para que mereça o devido destaque e para que se elogie algumas das coisas que Leonardo Jardim tem conseguido. Num ano que se esperava, acima de tudo, de transição, com um orçamento bastante reduzido, a verdade é que o Sporting foi capaz de se mostrar muito competitivo, e o acesso directo à Liga dos Campeões é agora uma possibilidade real. Esta época, ainda que termine sem títulos, deve por isso levar muita gente a reflectir. O Sporting tem na sua formação uma arma que deveria ter explorado melhor nos últimos anos, e que esta época, sendo forçado a isso, mostrou estar à altura das exigências. O que Leonardo Jardim tem mostrado é que é possível construir uma equipa competitiva com um orçamento mais reduzido, recorrendo a alguns jovens com qualidade, jovens como Eric Dier, William Carvalho, Adrien Silva, André Martins e Carlos Mané, e que dificilmente teriam as oportunidades que tiveram caso o clube vivesse dias de desafogo financeiro. O Sporting pode não ter, neste momento, equipa para lutar, por exemplo, com o Benfica, mas ficar à frente do Porto, como pode bem acontecer, é já um feito tremendo. A equipa tem sido regular e tem mostrado personalidade. Não jogando um futebol extraordinário, tem sido capaz de manter índices competitivos altos. Ajuda o facto de não estar envolvida em competições europeias, mas ajuda também não se terem criado expectativas como em outros anos. Leonardo Jardim aproveitou-se disso e, com os poucos recursos que tinha ao seu dispor, pôs a equipa a jogar à sua imagem. Independentemente da rigidez do modelo, um 433 pouco dinâmico, em muitos momentos do jogo, com extremos demasiado clássicos que pouco se envolvem no jogo interior da equipa, e com os médios raramente a solicitar a bola entre linhas, o Sporting tem sido uma equipa sólida, competente a nível defensivo, e que sabe aquilo que quer. As equipas de Leonardo Jardim não praticam um futebol entusiasmante, mas são geralmente muito organizadas e sempre preparadas para aquilo que devem fazer.

Boa parte do bom futebol que esta equipa pratica deve-se, a meu ver, à presença de William Carvalho. Foi uma das maiores demonstrações de coragem de Leonardo Jardim no início da época, relegando para o banco Rinaudo, um dos poucos que parecia ter, para a opinião pública, lugar garantido. A verdade é que William é a grande revelação do campeonato. Conhecia-o de escalões inferiores e, embora reconhecesse nele muitas competências, duvidava que se pudesse impor com tanta facilidade. Claro está que a minha opinião era em função da posição em que jogava nessa altura, como médio de ataque. Aí, francamente, não lhe augurava nada de extraordinário. Era um jogador tecnicamente evoluído, sim, mas que não tinha propriamente facilidade em se movimentar entre as linhas adversárias; era pouco ágil, o que, em espaços curtos, costuma ser relevante. A sua evolução passou então por recuar no terreno, por passar a jogar nas zonas mais apropriadas às suas características, e isso foi decisivo. Como médio-defensivo, William tem um futuro muitíssimo promissor. Em certa medida, parece-me ser esse o problema também de João Mário, um jogador que querem a força que seja médio de ataque, organizador de jogo, ou lá o que seja, mas que não tem, parece-me, vocação senão para jogar como médio recuado. O mesmo se poderia dizer, para ir ainda mais longe, de Nemanja Matic, que sempre que jogou em zonas mais avançadas, por se reconhecer que tecnicamente era muito dotado, não apresentou o rendimento que apresentava na posição de médio mais defensivo. O que William e Matic revelam é que aquela crença enraízada de que jogadores tecnicamente evoluídos devem ter facilidade para jogar em zonas mais ofensivas é falsa. A técnica não chega. A agilidade, a capacidade de drible e, sobretudo, o perfil de decisão do jogador são características bem mais relevantes. William pode ser tecnicamente muito evoluído, mas pensa de uma determinada maneira, e essa maneira de pensar é incompatível com o que se exige em certas posições. Onde está como peixe na água é fora do bloco, com espaço e tempo para tomar as suas decisões, podendo ver constantemente quase tudo o que está a acontecer no campo.

Com William, o Sporting de Leonardo Jardim sai quase sempre da zona defensiva com qualidade. A forma como se posiciona, como gere os ritmos da equipa, como faz a bola circular, como espera pelas melhores opções de passe, como entrega quase sempre jogável, é decisiva para que a equipa tenha a capacidade de se instalar no meio-campo adversário e a capacidade para manter o domínio do jogo que tem demonstrado. Faltar-lhe-á, na minha opinião, aprender algumas coisas a respeito de posicionamento defensivo e algumas coisas a respeito de decisão circunstancial em momentos defensivos, mas é para já inegável que, em termos ofensivos, é já um jogador incrivelmente maduro, não só pelo que faz com bola como pela forma como equilibra a equipa quando esta está em posse, mantendo-se sempre como referência recuada por onde se pode circular. A facilidade que tem, depois, para manter a bola em situações de aperto, para a proteger até que surja uma opção de passe apropriada, permitem que não se desfaça dela de qualquer maneira e que, por mais que a estratégia adversária passe por pressioná-lo, o Sporting não perca qualidade em posse. Os maiores clubes da Europa não têm estado desatentos e começam já a juntar os trocos para poder adquiri-lo. Não sei se o Sporting terá capacidade para mantê-lo mais um ano ou não, mas desconfio que isso será pouco relevante para o futuro de William. Seja no final da época, seja daqui a uma ou duas épocas, parece-me neste momento mais ou menos certo que William Carvalho tem uma carreira brilhante à sua frente. Foi preciso o clube entrar em agonia para que, em poucos meses, se percebesse que há diamantes que, sem a competição, dificilmente poderão aparecer. Se o exemplo de William servir para alguma coisa, pode ser que sirva para se perceber finalmente que uma equipa como o Sporting tem tudo a ganhar em construir plantéis em que metade dos jogadores são provenientes da formação. Há muito que dizemos aqui que é esse o único caminho viável, a única e a melhor forma de competir com Benfica e Porto, e que a estratégia oposta, tal como foi posta em prática nos últimos anos, só poderia terminar em fracasso. Agora que está à vista de todos o que é que um clube como o Sporting deve ser, seguir-se-ão, assim não se deslumbrem os seus dirigentes, outros Williams.

terça-feira, 4 de março de 2014

Três Apontamentos

No fim-de-semana passado, sem ninguém saber porquê, nem mesmo o seu treinador, Miguel Rosa ficou na bancada e não defrontou o antigo clube. O Benfica ganhou sem jogar bem e beneficiou de um erro do árbitro, mas continuo a achar que ninguém deu importância àquilo que realmente importa. Maus jogos e vitórias à custa de foras-de-jogo mal tirados acontecem a toda a hora. Que um jogador que andou claramente a ser queimado nas últimas cinco épocas se tenha desvinculado do clube que andou a tentar acabar com a sua carreira e que, ainda assim, continue a ser queimado é que me parece motivo de uma investigação. Se houvesse jornalismo a sério em Portugal, e se por algum milagre parte desse jornalismo fosse dedicado ao jornalismo desportivo, andava meio país de volta de Miguel Rosa, dos dirigentes do Belenenses e dos Carraças que para aí andam. É inacreditável que um dos mais promissores jogadores da sua geração, mesmo tendo conseguido libertar-se do vínculo com o clube ao qual deu mais de metade da vida, continue a ser prejudicado por, de algum modo, ter pisado os calos a alguém com suficiente poder para lhe arruinar a carreira. Fora das quatros linhas, o futebol são hienas. Como tenho opiniões controversas acerca do que fazer a hienas, abstenho-me de dizer mais do que isto.

No mesmo fim-de-semana, uma paulobentice por um discípulo. O futebol das equipas de Abel é tão pobre que ficar do lado do treinador, por mais razão que possa ter, me parece idiota. Não sei o que se passou, e na verdade não preciso. A ser verdade o que foi noticiado, Iuri Medeiros entrou em campo na segunda parte, provavelmente já amuado, e não mostrou muita vontade, sobretudo em defender. Devo dizer que o simples facto de um dos mais talentosos jogadores da equipa ficar no banco me parece mais grave do que qualquer amuo de um miúdo de 20 anos. O problema de Abel é que nunca foi muito talentoso. Quando se tem talento, e se vê outros que não o têm a jogar no lugar de quem o tem, é difícil arranjar motivação. Alegam os mais conservadores que poder um dia jogar na equipa principal devia ser motivação suficiente para Iuri. Quem o alega não sabe o que é jogar futebol, não sabe o que é ter consciência de que se é muito melhor do que certos colegas e ser preterido porque esses colegas são mais "esforçados", não sabe o que é ter expectativas quanto à progressão numa carreira curta como a de jogador de futebol e sentir, semana após semana, que essa progressão depende de quem não percebe nada do jogo, etc.. Iuri Medeiros é um dos melhores jogadores da sua geração. Tem mau feitio? É irreverente? Acha que é vedeta? Estes jogadores motivam-se pondo-os a jogar, dando-lhe responsabilidades acrescidas. Ninguém com o perfil dele fica melhor jogador por ser castigado. Os castigos vão apenas fazer com que se sinta mais revoltado e com menos vontade de mostrar o que vale. Se querem ensinar-lhe alguma coisa, a ser solidário, por exemplo, façam com que se sinta responsável por alguma coisa: dêem-lhe a responsabilidade de bater os cantos, de usar a braçadeira de capitão, etc.. Enquanto não compreenderem que os jogadores de futebol, nos dias que correm, não cumprem deveres só porque é isso que devem fazer, não compreenderão nada e continuarão a desperdiçar talentos. Para que alguém como Iuri faça em campo o que Abel gostaria que ele fizesse, era preciso que Abel o convencesse de que ele, mais do que um dever a cumprir, tem uma responsabilidade para com ele mesmo. Mas isso, dado o perfil de treinador de Abel, é coisa que dificilmente será capaz de fazer. Esperemos, para o bem de Iuri e do futebol português, que Abel não dure muito tempo nestas funções.

Muito se tem falado do Atlético de Madrid de Diego Simeone esta época. A minha opinião mantém-se mais ou menos a mesma, independentemente de este ano estar envolvido na luta pelo título. Reconheço que, defensivamente, o Atlético é uma equipa que raramente se desorganiza, que defende com muitos homens junto da bola, e que sabe escolher os momentos de pressão. Reconheço também que essas são as únicas virtudes da equipa. O resto é fé, muita fé, níveis de confiança altíssimos, e a equipa mais parecida com o Boavista de Jaime Pacheco desde que deixaram de permitir dez entradas acima do joelho por jogo. O desafio deste fim-de-semana, frente ao rival de Madrid, tirou todas as dúvidas. Mourinho tinha construído uma equipa de caceteiros (até Ozil batia), uma equipa que só com muita boa vontade dos árbitros, sobretudo nos jogos contra o Barcelona, era capaz de terminar a partida com onze jogadores. Passado o período de Mourinho, essa equipa perdeu boa parte desses maus hábitos, salvo talvez os dois animais que jogam como defesas centrais. Devo dizer, porém, que essa equipa, ao pé do Atlético de Madrid de Diego Simeone, era uma equipa de escuteiros. Ao intervalo, este fim-de-semana, quantos jogadores do Atlético de Madrid teriam conseguido permanecer em campo, com um árbitro rigoroso? O Atlético entra em campo com onze arruaceiros, e a arruaça é, sem sombra de qualquer dúvida, a arma pela qual conseguem nivelar as suas partidas. Tudo espremido, o futebol do Atlético de Madrid de Simeone dava talvez para andar a lutar pela manutenção (em termos colectivos, claro). Valem os agarrões, os puxões, as entradas violentas, a agressividade bem à margem das leis, a pressão constante, intimidatória, mesmo, sobre os árbitros, etc.. O Atlético ganha os seus jogos, geralmente, porque empurra - literalmente - os adversários para o seu último reduto, acabando por marcar nalgum lance confuso, num ressalto, ou numa perda de bola qualquer. Raramente se vêm jogadas pensadas. Vencem pelo desgaste, pela garra, pela provocação, pela dureza física. O Boavista de Jaime Pacheco também não jogava futebol. Confesso, todavia, que julgava que equipas que confundem futebol com lutas de galos tivessem os dias contados. Infelizmente, não têm. De tempos a tempos, lá aparece um arruaceiro, secundado por outros arruaceiros, a comandar onze arruaceiros e a gozarem da complacência de quem tem medo de arruaceiros. Como se viu no passado, equipas assim duram enquanto durar aquilo que as anima: a crença de que podem superar-se e a complacência de quem os deixa jogar de acordo com leis diferentes. Quando se acabarem estas coisas - digamos assim - acaba-se tudo. A Diego Simeone auguro, por isso, pouco mais do que augurava a Jaime Pacheco há década e meia: um ou outro título no currículo, talvez um contrato num clube com maiores aspirações, um resto de carreira  repleto de fracassos sucessivos e a posteridade recordando-se eternamente do quão feio era o futebol das suas equipas.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Cumprir Estratégias

Não é uma coisa recente (nem são poucos o que assim pensam) avaliar qual das duas equipas esteve melhor num determinado desafio consoante aquilo a que se vulgarizou chamar a "estratégia" com que entram na partida. Não é raro, por exemplo, que o treinador de uma equipa pequena que entra para defender durante 90 minutos e tentar um ou dois contra-ataques, e que perde por 1-0, no único lance em que o adversário conseguiu criar, afirme que a sua equipa merecia outro resultado. Tal afirmação faz sentido se se considerar que o jogo, à excepção desse lance, correu exactamente de acordo com a estratégia delineada. O que não faz sentido é que o mérito de uma vitória dependa de qualquer estratégia, seja ela qual for. O Barcelona de Guardiola, pela capacidade inigualável de empurrar os adversários para a sua defesa, fomentou, como nenhuma outra equipa, estratégias adversárias desse tipo, e não foram poucas as vezes que se defendeu que os adversários do Barcelona, mesmo concedendo 6 ou 7 situações de golo, e não fazendo senão 1 ou 2 contra-ataques no jogo inteiro, mereciam vencer. O erro, obviamente, está em acreditar que uma equipa merece vencer se conseguir cumprir a estratégia com a qual se comprometera no início da partida, qualquer que seja essa estratégia.

Num jogo em que uma equipa assume as despesas do jogo, procurando construir desde a sua defesa, em futebol apoiado, e a outra joga em reacção, procurando forçar o erro do adversário para depois, com poucos passes, chegar à área adversária, é natural que pareça que a segunda consegue cumprir a sua estratégia e a primeira não. Isto porque a estratégia da segunda é de muito mais fácil cumprimento. Para que ela se cumpra, basta que consiga pressionar bem, roubar duas ou três bolas, fazer dois ou três passes, e atacar sempre com o adversário desposicionado. Se a equipa que assume o jogo encontra alguns problemas em materializar o seu futebol em oportunidades de golo, se consegue manobrar a bola nos dois primeiros terços do terreno, mas encontra algumas dificuldades (naturais, pois o espaço é francamente menor) no último terço do terreno, é fácil para quem está de fora conjecturar que essa equipa, ao contrário da equipa adversária, não está a ser capaz de cumprir a estratégia com que partiu para o jogo. Num jogo com estas características, é quase consensual dizer-se que está a jogar melhor quem está a defender, porque o adversário não está a conseguir penetrar na sua defesa, e porque até já se conseguiram ligar uns quantos contra-ataques. E, no entanto, raramente se fala do que a equipa que ataca está a fazer bem, apesar das dificuldades que está a encontrar no último terço do terreno.

Vem isto a propósito do derby desta noite e dos disparates dos responsáveis do Sporting, embora possa e deva ter uma aplicação mais geral, até porque a partida de hoje não foi desta falácia o melhor exemplo. Em primeiro lugar, o Benfica não fez um jogo extraordinário (o que não é nada de novo) e errou muitos passes, sobretudo antes do primeiro golo. Não está, por isso, em causa, a desinspiração dos encarnados. Mas acreditar que o Sporting, que jogou (como as equipas de Jesualdo, diga-se) em reacção, merecia vencer parece-me absurdo. A estratégia de Jesualdo foi cumprida na perfeição, é verdade, mas para que o Sporting tivesse jogado melhor do que o Benfica era preciso que cumprimentos de estratégias fossem coisas mais eficazes do que as estratégias em si. O Benfica trabalhou mais o seu jogo e, mesmo não tendo jogado bem, procurou construir as suas situações de golo o melhor que sabe. Mesmo estando a falhar naquilo a que se propunha, estava a fazer o que tinha a fazer. E nas duas vezes, em todo o jogo, que a coisa correu bem, ou seja, nas duas jogadas, em todo o desafio, com cabeça, tronco e membros, fez dois golos. Poder-se-á dizer que duas jogadas em 90 minutos é pouco, ainda assim. Com certeza que o é. Mas são duas jogadas a mais do que aquilo que fez o adversário. E o Sporting até teve lances de perigo. O que não conseguiu foi construir uma jogada decente. A estratégia que tão bem cumprida foi, aliás, inviabilizava à partida que a equipa conseguisse construir jogadas decentes. Jogadas decentes, de resto, são coisas que estratégias como a que Jesualdo apresentou, e que tão bem cumpridinha foi, não permitem.

Não está em causa a seriedade com que o Sporting jogou, nem algumas das coisas que alguns dos seus jogadores conseguiram fazer, em termos estritamente individuais. Está em causa, sim, a estratégia colectiva e a relação entre essa estratégia e o resultado final. Colectivamente, o Sporting fez pouquíssimo para que merecesse mais. Defendeu-se razoavelmente bem, soube pressionar em algumas zonas, mas, ofensivamente, a estratégia era simplesmente apanhar o Benfica desposicionado, após a perda da bola. Tudo o que fez fê-lo, por isso, em esforço, envolvendo poucas unidades e sempre de acordo com o espaço que o Benfica concedeu. Não criou uma única ocasião de golo em condições favoráveis, e pouco mais fez do que adiar o golo adversário. Jogar futebol é mais do que definir e cumprir estratégias. E não basta a uma equipa, para merecer a vitória, que defina e cumpra uma estratégia, qualquer que seja essa estratégia. Se, pura e simplesmente, essa estratégia não for grande coisa, que importa que a consiga cumprir? Por outro lado, mesmo sem cumprir estratégias, mesmo que pareça que não esteja a ser capaz de realizar tudo aquilo a que se propõe, mesmo que, aparentemente, o seu futebol pareça inconsequente e o adversário pareça estar a levar a melhor, de acordo com a contra-estratégia que definiu, uma equipa pode estar a jogar bem melhor do que o seu adversário. Ter cumprido ou não ter cumprido estratégias é, pois, um critério falacioso para definir quem jogou melhor, e alegar que a equipa cumpriu exactamente o que tinha em mente é pouco relevante para aferir a qualidade do seu jogo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Domingos e a Coragem

Não sabendo a melhor forma de iniciar este post, entre uma coisa boa e outra má opto pela boa: vou começar por falar da expulsão de Kompany no recente derby para a Taça de Inglaterra. A estupefacção que me assaltou ao dar conta da expulsão do jogador do Manchester City em nada se relaciona com um possível desacordo no que toca à medida sancionada pelo Sr. Chris Foy, mas sim com o facto de um árbitro em Inglaterra ter tido a coragem de expulsar um jogador nestas circunstâncias. A intenção do central do City foi jogar a bola, dizem uns; ele nem tocou no Nani, apregoam outros; e que dizer daqueles, mais dedicados ao ramo da psicologia e do comportamento humano, berrando a quem quer que deles discorde, a suprema prova do crime: o Nani nem sequer reclamou.

Não discuto nenhum destes factos: realmente, Kompany apenas tocou na bola; acredito que apenas quisesse jogar a bola, e não me pareceu encontrar na figura de Nani esboço de protesto. No entanto, não há uma conjugação possível destas premissas que, na forma de um argumento, possa colocar em causa a legitimidade da expulsão. Kompany entra a pés juntos numa bola dividida, não manifestando qualquer tipo de respeito pela integridade física de um colega de profissão (que, diga-se de passagem, escapou impune porque abdicou de dividir o lance, face à entrada do central belga). A ele apenas lhe importou ganhar o duelo, independentemente da abordagem e das consequências da mesma. Isto não é uma caça às bruxas, até porque é um central que aprecio. Daqui decorre que este comentário não tem um cariz pessoal, mas sim particular; e, se assim é, é-o porque este caso, e a respectiva sanção, tem tanto de correcto, como de raro. São poucos os árbitros que têm a coragem expulsar jogadores em lances semlhantes, o que muito agrada a Pepe, bem sei, embora nem tanto àqueles que realmente gostam de jogar futebol. Como tal, decerto que entradas como estas se propagarão pelos estádios, inibindo os artistas mas alegrando os cuteleiros. Mas, ainda assim, indignando meio-mundo, é bom que de quando em vez alguém alie bom-senso a coragem, e mande um tipo destes tomar um duche frio.

Passemos agora à coisa má. Renato Neto, ou talvez Domingos. Quem sabe se os dois. Renato Neto, pelo jogo horrível; Domingos, por lhe ter permitido fazer um jogo horrível. Vamos por partes. Apresenta o Sporting este ano um excelente plantel. Não sei se será o melhor dos últimos dez anos, mas é, sem qualquer dúvida, um dos melhores: Schaars, Elias, Matías Fernandez, Izmailov, André Martins, Pereirinha, Onyewu, Rinaudo, Carriço, Ínsua, Wolfswinkel, Rodriguez, Carrillo, Jeffrén, etc. (e um Patrício que finalmente se justifica como titular), são jogadores que conferem qualidade e quantidade a Domingos. Não me revejo nas escolhas que Domingos faz, nem tão pouco na maneira como a equipa evoluiu, principalmente no plano ofensivo: os ataques fazem-se quase sempre pelos corredores laterais, tornando-se uma equipa demasiado previsível, facto que, timidamente, é disfarçado pela qualidade dos jogadores à disposição do treinador. No entanto, mesmo tendo em conta a minha incredulidade em Domingos, nada me preparou para a opção que tomou para o embate frente aos dragões; e as consequências só não tomaram proporções desastrosas porque encontrou um Porto muito debilitado, sem imaginação, a anos-luz do Porto da época passada.

O posicionamento horrível de Renato Neto criou um enorme espaço entre o meio-campo e a defesa leonina. É verdade que o Porto nunca soube aproveitar esse mesmo espaço, mas isto não escamoteia a péssima opção de Domingos, assim como não dilui a fraquíssima exibição do novo 31 de Alvalade. Talvez dando conta disso, Domingos lançou Matías e Izmailov, na segunda parte, baixando Schaars e Elias para um duplo pivô, ganhando com esta opção mais qualidade no passe, e uma melhor gestão do espaço. Acredito, e por momentos cheguei mesmo a acreditar que tal fénomeno seria possível, que a melhor solução para o sábado passado passasse pelo recuo de Schaars para trinco, colocando Matías e Elias como médios-ofensivos. Mas também era pedir de mais, bem sei...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Clássico e os Detalhes

Não tenho muito a dizer do clássico do passado fim-de-semana, a não ser que, embora emotivo, embora bem disputado, não foi propriamente bem jogado. Ambas as equipas arriscaram o menos possível, e o que acabámos por ter foi um jogo dividido, com muitas disputas de bola, muita luta, muito choque, e pouco futebol. O número de passes acertados foi certamente baixo, e as duas equipas preferiram sempre jogar no erro adversário. Ainda assim, nenhuma delas se entregou às evidências, procurando condicionar a posse adversária o melhor possível. Num jogo com estas características, diria eu, os detalhes são importantes, claro. E foi num detalhe, num lance de bola parada, que tudo se decidiu. Mas os detalhes não ocorrem apenas porque sim. O Benfica venceu num detalhe, mas foi também a equipa que mais fez para contar com a benesse dos "detalhes".

É evidente que a vitória podia ter sorrido a qualquer uma das equipas, e que, mesmo estando onze para onze, não houve uma superioridade significativa, em termos da quantidade de oportunidades de golo, dos encarnados. O resultado mais justo, mesmo sem contar com o que o Sporting fez após a expulsão de Cardozo, talvez até fosse o empate. Mas o jogo do Benfica, ainda que sem a qualidade desejável, procurou o mínimo de racionalidade. Fosse por a bola ter chegado mais vezes a Aimar do que a Matías Fernandez, fosse porque Witsel, Aimar e Gaitan se entenderam melhor entre eles, fosse porque os hábitos encarnados são diferentes, a verdade é que o futebol do Benfica foi menos precipitado. O Sporting nunca se interessou por construir fosse o que fosse. Apostou numa pressão alta, excessivamente condicionada pelas referências ao homem, a meu ver, e por conduzir os seus ataques após recuperações de bola, o mais rapidamente possível. Tudo o que vimos, do lado dos leões, foram solicitações dos homens mais adiantados, cruzamentos largos para a área, correrias de Capel, movimentos verticais de Elias e Schaars, e pouquíssima imaginação. É verdade que conseguiu criar algumas oportunidades nestas condições, mas também é verdade que não foi capaz, precisamente por causa deste tipo de decisões, de criá-las em condições minimamente favoráveis.

Como disse anteriormente, a diferença entre as equipas não se traduziu em número de oportunidades de golo. As melhores oportunidades que o Benfica criou foram ou de bola parada, ou após recuperações ou perdas do adversário (lances de Cardozo e de Rodrigo, por exemplo). Mas sentiu-se sempre que o Benfica chegava às imediações da área leonina em melhores condições, que trabalhava melhor os lances, que era mais criterioso, que se preocupava mais em fazer as coisas de modo racional. A sofreguidão leonina podia ter conduzido a outro resultado, até porque a racionalidade dos encarnados não foi assim tão concludente, mas a verdade é que essa mesma sofreguidão condicionou a equipa, e tem de ser introduzida na conversa sobre detalhes. O jogo decidiu-se num detalhe, sim, mas a própria estratégia de Domingos implicava a aceitação de um jogo decidido pela "lotaria" dos detalhes e deixava a equipa menos preparada para os mesmos.

Fala-se demasiado em detalhes, como se os detalhes merecessem uma análise à parte do resto do jogo. Mas a verdade é que, para que uma partida se decida num detalhe, algo tem de acontecer para que esses detalhes se possam verificar. A meu ver, o principal mérito do Benfica na partida foi precisamente o modo racional como tirou partido da sofreguidão do Sporting. Nem sempre o fez bem, obviamente, e tenho até dúvidas de que o tenha feito conscientemente. Mas fê-lo, nem que tenha sido apenas pelas características dos seus jogadores. Jogando com isso, puxou convenientemente o jogo para o tipo de decisões que mais lhe eram favoráveis, e fez pender os pratos da balança para o seu lado. O jogo foi, de facto, repartido em termos de oportunidades de golos, em termos de emoção junto às balizas, mas foi melhor controlado pelo Benfica. A decisão do mesmo através de um detalhe não pode por isso ser demasiado restrita. Decidiu-se num detalhe, sim. Mas um detalhe que o resto do jogo e o comportamento das duas equipas em campo potenciou.

P.S. Não se tem falado muito da ausência de Saviola do onze encarnado, e tem-se gabado o Benfica desta temporada mais do que me parece razoável. De facto, o melhor Benfica da época foi o dos primeiros jogos, altura em que o argentino ainda fazia parte das primeiras opções de Jorge Jesus. Como sempre disse aqui, a principal arma encarnada no primeiro ano de Jesus, aquilo que introduzia diversidade na equipa, eram as combinações curtas entre Aimar e Saviola, assim como a liberdade de que os dois gozavam no modelo de jogo. No segundo ano, Jesus procurou potenciar em excesso aquilo que a equipa já fazia bem, e deu menos liberdade à criatividade dos dois argentinos, evitando até, o mais possível, que os dois jogassem em simultâneo. Esta época acentuou apenas essa tendência. O Benfica deste ano ganhou alguma inteligência e capacidade de gestão de ritmos com os reforços (sobretudo Witsel, Bruno César e Nolito), mas perdeu ainda mais criatividade no último terço do terreno. Parece uma equipa menos dependente das correrias de outrora, menos interessada em jogar a uma velocidade altíssima, mais competente a gerir a bola em zonas baixas do terreno, mas é uma equipa menos forte a penetrar em blocos mais densos, menos imaginativa. Privar as pessoas daquilo de que Aimar e Saviola, juntos, são capazes, é hoje o maior crime de Jorge Jesus.

sábado, 27 de agosto de 2011

Oportunidades de Golo

É vulgar que o principal critério usado para justificar o mérito de um resultado sejam as oportunidades de golo criadas por uma equipa, quando cruzadas com as oportunidades de golo criadas pelo adversário. E é comum que se defenda que a equipa que mais justifica a vitória seja a que mais oportunidades de golo consegue criar. Embora concordando que as oportunidades de golo criadas por uma equipa digam algo acerca da sua produção ofensiva, e que as oportunidades de golo concedidas ao adversário digam algo acerca da sua produção defensiva, discordo deste critério. Para além do problema óbvio do critério utilizado para avaliar aquilo em que consiste uma oportunidade de golo, parecendo difícil, em muitas situações, dizer se um determinado lance constitui ou não uma oportunidade, a minha discordância diz respeito sobretudo à quantificação da coisa. O que quero dizer é que as oportunidades de golo não sao todas iguais, que há diversos factores que devem ser pesados, e que me parece perfeitamente defensável que uma equipa que crie uma oportunidade de golo mereça mais a vitória do que outra que consiga criar dez. Deste ponto de vista, o critério que estou a defender é um que substitua a análise quantitativa das oportunidades de golos criadas pelas duas equipas por uma análise qualitativa.

Não é isto, como é fácil de perceber, uma conversa sobre vitórias morais. O argumento consiste essencialmente em defender que há equipas que, por mais perto que andem da baliza adversária, por mais que rematem, por mais que metam a bola na área, não fazem o suficiente para criar verdadeiras oportunidades de golo. Cruzamentos para área, a pedir uma resposta de cabeça, sobretudo quando a densidade populacional na área é grande e sobretudo quando o adversário está de frente para a bola e organizado, raramente são oportunidades de golo claríssimas. Mesmo originando confusão, mesmo causando calafrios, mesmo que um avançado consiga cabecear e levar a bola a passar perto da baliza, mesmo que o guarda-redes a defenda. A menos que o avançado cabeceie em condições favoráveis, com espaço e tempo para escolher o sítio para onde quer enviar a bola, dificilmente concordaria que um desvio de primeira, no meio da confusão, equivalha a uma oportunidade de golo clara. Há equipas que conseguem ter um caudal ofensivo grande, que conseguem passar grande parte do desafio no meio-campo adversário, mas que têm pouca imaginação nas imediações da área e as oportunidades que criam são invariavelmente deste tipo, que dependem mais de um desvio feliz do que do talento finalizador, da frieza, da qualidade do avançado. Quando se diz, portanto, que uma equipa conseguiu criar lances suficientes para vencer um jogo, é preciso primeiro ver que tipo de lances foram esses, de que condições aquele que finaliza dispôs para finalizar, quais as probabilidades de êxito de cada acção, etc..

A meu ver, uma equipa que não seja capaz de deixar aquele que finaliza numa posição frontal para a finalização, com espaço e tempo para poder decidir minimamente para que lado quer enviar a bola, seja através de um passe de ruptura pelo corredor central, com o avançado a desmarcar-se nas costas da defesa, seja através de um cruzamento recuado, junto à linha de fundo, seja através de uma tabela, seja através de um cruzamento para a zona entre o guarda-redes e a defesa, uma equipa que não seja capaz de criar situações de golo deste tipo, que todos os lances de perigo que cria são provenientes de lances de bola parada, de cruzamentos a pedir um desvio no meio da confusão, de remates de meia-distância, de ressaltos, uma equipa que, no fundo, não seja competente a propiciar situações de finalização favoráveis, pode criar dezenas de oportunidades, mas as probabilidades de ser bem sucedida manter-se-ão reduzidas. Fala-se excessivamente de problemas de eficácia, quando uma equipa não marca golos, mas domina os jogos e até consegue fazer com que a bola ronde a baliza adversária. Cada vez mais discordo do tema da conversa. O problema dessas equipas não está na eficácia, não está nos golos que podia marcar mas que não marca; o problema está antes, está no tipo de oportunidades que cria. Quando se diz, por isso, que uma equipa tem tido azar, que os postes ou os guarda-redes adversários têm estado insuperáveis, que os seus finalizadores não andam inspirados, que bastava que uma bola entrasse para que tudo fosse diferente, talvez fosse melhor analisar bem o tipo de oportunidades que se têm criado. É que o problema, na maior parte das vezes, não está na falta de eficácia, mas na falta de imaginação em tudo o que antecede o momento em que é preciso ser eficaz. Se se souberem criar situações mais favoráveis, verdadeiras situações, diria até, depender-se-á menos da eficácia. É evidente que estas equipas podem ganhar muitos jogos sem criar oportunidades de golo em melhores condições. Mas dependerão mais daquilo que não podem controlar, da sorte de um desvio instintivo do avançado não ir direito ao guarda-redes, por exemplo. O que estou a afirmar é que não é o volume do jogo, a capacidade para fazer a bola rondar a baliza adversária, a criação de quaisquer situações de perigo, que reduz a dependência de uma equipa da sua eficácia ofensiva; é, isso sim, a capacidade de criar "certas" oportunidades de golo. E o vocábulo "certas" é aqui - perdoem-me a redundância - o mais acertado: pode ter não só a função de pronome indefinido, significando "determinadas", como de adjectivo, significando "verdadeiras". Na minha opinião, portanto, o melhor remédio para os problemas de eficácia de uma equipa raramente é a substituição de um finalizador por outro ou raramente consiste em qualquer afinação do momento de finalização. Pelo contrário, problemas de eficácia resolvem-se criando condições para que não se dependa tanto de momentos de finalização pouco favoráveis. A menos que se trate de um caso de aselhice colectiva - e tal pode eventualmente acontecer - nenhuma equipa perde sistematicamente pontos por falta de eficácia no momento de atirar à baliza. Jogue-se bem e criem-se oportunidades de golo a sério, que os problemas resolver-se-ão por si mesmos.

Para terminar, o texto tem uma aplicação universal e abstracta, mas há dois bons exemplos recentes com que posso ilustrar o que estou a dizer. O início de época do Sporting trouxe ao de cima, para muita gente, determinados problemas de finalização da equipa. A fraca produção de golos - dizem - sobretudo com tanto volume de jogo ofensivo, só tem justificação pela falta de pontaria dos avançados. Discordo inteiramente disto. O problema do início de época do Sporting, a meu ver, está muito mais relacionado com o que antecede esse momento de finalização. Quantos lances conseguiu o Sporting produzir em que aquele que finaliza o faz em posição frontal, com espaço para escolher o lado para onde enviar a bola? Quantas vezes se isolaram os avançados do Sporting? Quantos cruzamentos rasteiros, a pedir um gesto técnico mais simples que o cabeceamento? Quantas verdadeiras oportunidades de golo teve o Sporting até agora? Domingos, a maior parte dos comentadores futebolísticos e alguns feiticeiros garantem que a equipa tem produzido inúmeras oportunidades evidentes de golo. Eu conto pouquíssimas. Nos dois jogos do campeonato, então, conto apenas duas, uma que deu golo de Postiga, contra o Olhanense, mas que foi anulado, outra em que o defensor do Beira-Mar cortou o remate de Capel em cima da linha de golo. O resto são respostas a cruzamentos ou remates à entrada da área, a maior parte das quais em condições francamente deficientes. O segundo exemplo é o jogo de ontem da Supertaça Europeia. Foi sugerido que o Porto merecia vencer, pois criou mais oportunidades que os catalães. Mesmo em número de ocasiões, duvido que isto seja muito exacto. Mas o que me impressiona é a ausência de espírito crítico da análise. Sejamos honestos: o Porto não criou uma única ocasião de golo flagrante. Fez alguns remates de longe, um ou dois mais promissores, teve um cruzamento em que Valdez falhou o tempo de saída da baliza e Mascherano cortou de cabeça, e pouco mais. O Barcelona, sem ter feito um grande jogo, teve 5 ou 6 oportunidades bem mais significativas, e é inquestionável que tenha merecido vencer o troféu. Nada disto tira mérito ao que o Porto fez, principalmente em termos defensivos. Defensivamente, o comportamento da equipa foi exemplar: controlou a posse catalã recorrendo a uma estratégia de pressão muito bem planeada, manteve os sectores juntos, a resposta colectiva aos momentos de pressão foi incrivelmente boa, e conseguiu mesmo provocar erros na construção do adversário que poderiam ter ocasionado lances de perigo a seu favor. Infelizmente, sobretudo em ataque organizado, a equipa voltou a denotar uma esterilidade preocupante, e foi absolutamente inconsequente. Fica, apesar de tudo, o exemplo a seguir da estratégia sem bola.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lições de Mestre (8)

Este texto não estava previsto, mas seria estúpido não aproveitar a oportunidade. E já que também não estava previsto que o jogador ficasse no plantel, junta-se tudo para falar de algo que merece ser falado, apesar de a minha opinião acerca do assunto ser já sobejamente conhecida. O que trago é uma jogada a acabar o jogo de apresentação do Sporting, frente ao Valência, e, a meu ver, um dos lances que melhor definem aquilo que, para mim, significa o termo "classe", quando aplicado ao jogo. Antes de falar daquilo que quero, vou perder algum tempo com a consequência que o lance teve, ou seja, com a possibilidade de cruzamento em zona muito mais privilegiada e com o lance de perigo criado pela equipa. Como o Jorge D. escreve neste texto, um cruzamento é como outro passe qualquer. Apesar de ouvirmos recorrentemente que uma equipa deve chegar à linha para cruzar, não creio que cruzar deva ser uma tarefa, nem individual nem colectiva, a ter em conta numa equipa de futebol. Depende da circunstância, das probabilidades de êxito, do posicionamento dos colegas em função do posicionamento defensivo do adversário. Nunca percebi a ideia de chegar à linha e cruzar lá para dentro, mesmo quando o jogador que cruza - o que é raro - olha para a área antes de cruzar. Entre outras coisas, o lance que trago mostra como um jogador com uma inteligência muito acima da média entende aquilo de que se está a falar. Por duas vezes podia ter cruzado, uma com o pé esquerdo, outra com o pé direito. Tinha colegas na área, arranjou espaço para o fazer, e era o que quase toda a gente achava que deveria ter feito. Ninguém o criticaria, como ninguém critica quem quer que seja que cruze uma bola para a área, por menos sentido que faça cruzar nessa ocasião. Quanto a mim, desde que pegou na bola que percebi que não era assim que iria terminar o lance. E percebi-o por uma única razão, porque sabia que o portador da bola se chamava Pereirinha.



Não sei se é possível definir melhor aquilo que entendo por "classe" como aquele atributo que é comum a um jogador de futebol e a um toureiro. Nos dias que correm, privilegia-se a intensidade, o fazer as coisas com a concentração máxima, o empenho, o esforço. Um jogador com classe é normalmente hostil a fazer as coisas com os dentes cerrados. Não é que não possa fazê-lo também, mas é algo que lhe macula a imagem. Fazer as coisas com calma, como se o gesto técnico mais complicado do mundo fosse a coisa mais fácil para aquela criatura, é o que define essa pessoa. Dá sempre a impressão de que se manda no jogo, de que os adversários são bonecos que se tira da frente sem grande esforço. Um jogador com classe faz as coisas difíceis parecerem fáceis, faz as coisas com graciosidade, dando a impressão de que, se as faz assim, com aquele desprezo todo, talvez pudesse fazer muito mais, se de facto se empenhasse. A meu ver, um dos principais problemas do futebol actual é não se priviligiar a classe acima de qualquer outro atributo. Imagine-se uma equipa em que os jogadores fazem tudo com classe e tem-se o Barcelona. Só para demonstrar o quão importante pode ser a valorização de tal atributo, olhe-se, por exemplo, para o que era Abidal antes de perceber que, ostentando classe, era muito mais jogador. Antes era um jogador cinzento, eficaz a defender, mas banalíssimo com bola. Agora parece um médio criativo a jogar a defesa, a parar a bola dentro da área defensiva, com vários adversários à ilharga, a dar toques em zonas perigosas, a sair a jogar onde mais ninguém se arriscaria a sair a jogar. Agora que descobriu o que é ter classe, parece outro jogador. Isso conseguiu-o porque o ambiente que o rodeia lhe mostrou que não há outro atributo mais importante que esse.

Muito sinceramente, o mais difícil, em qualquer arte, é fazer as coisas mais difíceis dando a impressão de que são fáceis. Em futebol não é diferente. É por isso que um jogador que consegue ter pormenores de classe não pode ser um jogador banal; é por isso que alguém que faz aquilo que Pereirinha fez neste lance tem de ser valorizado acima de qualquer outro jogador. Não está em causa o excelente trabalho a livrar-se dos dois primeiros jogadores, mas essencialmente a forma como os toureou posteriormente, como ameaçou cruzar e pôs a bola entre os dois, solicitando o colega nas costas deles. E não o fez de uma forma simples; fê-lo de tal maneira bem feito que, apesar de não ter dado velocidade à bola, os dois adversários ficaram sem capacidade de reacção. A isto chama-se classe. Tomou a melhor decisão, permitiu a um colega ficar numa posição bem mais privilegiada para cruzar do que a que tinha, e ainda humilhou dois adversários. Nas bancadas, o público gostou da faena. Mas, apesar de ter entusiasmado as bancadas como mais ninguém naquela noite, duvido que alguém se lembre de dizer que Pereirinha merecia mais a titularidade do que dois Joões Pereira. O que Pereirinha fez não está ao alcance de muitos. Mas há palermas que o acham banal, palermas para os quais nem sequer devia entrar nas contas de Domingos. Pois eu digo que, para além de Postiga e Matías Fernandez, ninguém tem mais classe que ele naquele plantel. O futebol tinha tanto a ganhar se as pessoas se deixassem de preocupar com atributos cristãos como a transpiração e a dedicação, e passassem a perceber o que distingue um grande jogador de futebol de um atleta medíocre que se esforça.

P.S.: Ao terminar o texto e ao rever o lance, percebi que um dos dois jogadores do Valência toureados era Daniel Parejo, um dos jogadores actualmente com mais classe no futebol espanhol. Um toureiro a tourear outro - não podia ser mais perfeito.

terça-feira, 22 de março de 2011

Façam o favor de serem inteligentes...

“O Frank foi muito importante para o Barcelona. Gostaria agora de lhe poder retribuir alguma coisa. Caso seja treinador do Sporting tudo faremos para ajudar a sua equipa”, afirmou.

Rosell adiantou ainda que no dia a seguir à vitória de Dias Ferreira “serão iniciadas de imediato negociações entre as duas equipas para formalizar esse mesmo apoio”.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Requiem

"Lacrimosa dia de lágrimas, aquele em que o homem pecador renasce de sua cinza para ser julgado. Tende, pois, piedade dele, Deus. Ó piíssimo Jesus, ó Senhor, concedei- lhe o repouso eterno. Amén."

Mozart, Requiem


Este texto, pretendendo prestar o devido respeito ao clube finado, e compadecendo-se com a perda leonina, deve ser lido enquanto se escuta a sempiterna Lacrimosa de Mozart, a secção final do seu Requiem a que a epígrafe faz referência.

No dia em que o futebol português voltou a ter 3 clubes capazes de competir pelo título, Alvalade chorou a perda do super-herói que, nos últimos 8 anos, fazendo valer-se dos seus inimitáveis super-poderes, impediu que o Sporting descesse de divisão. Sem Liedson, como poderá o Sporting agora sobreviver? Duvido sinceramente que seja capaz de aguentar mais do que duas épocas na primeira divisão. Aliás, compreendo bem o choro da família sportinguista. É mais ou menos o que aconteceu aos escravos quando se aboliu a escravatura: após anos e anos de opressão, verem-se livres para fazerem o que bem entenderem, não dependerem de senhores prepotentes e não trabalharem ao ritmo da vergasta e do chicote, não é fácil. A reacção dos escravos, perante a mudança, por melhor que fosse essa mudança, foi certamente chorar. Estavam tão habituados à pobre condição de escravos que achavam a escravatura mais confortável que a liberdade.

O que é certo é que, em uníssono, Alvalade compôs um requiem de lágrimas perante a despedida do seu mais valioso futebolista dos últimos anos. Ainda por cima, após um jogo em que o super-herói marcou dois golos. E que golos! Um deles, à boca da baliza, graças a um faro de golo apuradíssimo, que o fez perceber com clareza que o guarda-redes contrário iria defender para a frente, após um lance vulgaríssimo do vulgaríssimo companheiro de ataque, Hélder Postiga. O outro, melhor ainda, seguido de um ressalto vindo de um médio da Naval, deixando-o inadvertidamente isolado. É disto que Alvalade mais terá saudades, desta forma extraordinária de aproveitar tudo o que é acidental, ressaltos, maus alívios, erros dos adversários, disparates alheios. Não poderia terminar melhor a sua passagem pelo clube do que com dois golos que, afinal, tão bem o definem. Aliás, não poderia terminar melhor do que com esses dois golos e com os outros dois que flagrantemente falhou, um dos quais o define igualmente muito bem, a desaproveitar um passe fraquinho de Postiga, falhando isolado perante o guarda-redes adversário.

Por todas as alegrias que o seu super-herói lhes deu nos últimos anos - e foram vários os troféus que ajudou a conquistar - mas sobretudo pelo magnífico desempenho deste último jogo - pois têm mais facilidade os seres humanos em lembrar as últimas coisas e os lances capitais de um jogo - chorou então todo o estádio. Chorou também todo o estádio por saber interiormente que a perda daquele que invariavelmente resolvia todos os problemas da equipa significava o fim do próprio clube. A mim, que tenho um coração de manteiga, a missa fúnebre que foi a cena final comoveu-me muitíssimo, e senti vontade de assistir àquilo tudo com o Requiem de Mozart como música de fundo, para condizer. Desejo acabar, porém, com a nota de optimismo a que subtilmente aludi no início do texto: apesar da tragédia e da choradeira, apesar de não restar agora qualquer réstia de esperança na salvação, apesar da partida do super-herói e do enterro público do defunto, há que ver que, para o futebol o português, é capaz de ser positivo passar a haver mais um candidato ao título.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Os Golos de Liedson

Liedson é, há muito, um dos assuntos predilectos deste espaço. Uma das coisas que defendemos sempre é que se trata de um jogador que, embora mantenha um faro de golo apreciável, está incrivelmente sobrestimado. Do meu ponto de vista, Liedson tem como único atributo interessante o facto de marcar golos; em tudo o resto é um jogador banal ou até bem abaixo da média. Além de tudo isso, creio mesmo que a sua apetência para o golo advém de algo bem particular e é até parte da razão pela qual Liedson é depois mais fraco nos restantes momentos do jogo. Em poucas palavras, Liedson marca muitos golos (ou pelo menos, marca golos com alguma regularidade) porque não se preocupa senão com isso.

Esteja um colega a precisar de um apoio, seja necessário um movimento nas costas para criar uma situação de desequilíbrio, esteja ele de costas para a baliza e um colega de frente em melhor posição, Liedson prefere sempre procurar o golo. Toda a sua movimentação sem bola é no sentido da baliza, das zonas de finalização, para aproveitar ressaltos, bolas defendidas para a frente pelo guarda-redes, cruzamentos, etc. Se um ponta-de-lança deve ter este tipo de movimentações no seu código genético, não deve porém limitar-se a elas e deve, sobretudo, perceber quando é que as circunstâncias de jogo as requerem.

Ora, uma das coisas que sempre se disse aqui é que Liedson marca muitos golos porque só se preocupa com este tipo de movimentações, com o estar no sítio certo à hora certa, seja isso a melhor coisa a fazer ou não. Se isso lhe vale a reputação que, com o tempo, construiu, vale também uma menor capacidade colectiva à equipa em que actua. Em suma, Liedson marca mais golos, mas a equipa joga pior e ganha menos. O que este texto pretende é demonstrar que os golos de Liedson são, invariavelmente, resultado deste tipo de movimentação e que, ao contrário do que se diz, falta muita coisa ao avançado do Sporting para ser um grande avançado. Como se verá, os golos de Liedson são quase todos obtidos ao primeiro toque, isto é, sem preparação, e em zonas próximas da baliza. O que ele faz é aparecer muitas vezes nas zonas vitais e, como aparece lá muitas vezes, goza de muitas oportunidades para marcar. Não marca golos trabalhados por si, não marca golos de fora da área, nunca dispõe de lances de um para um com o guarda-redes, e marca muitos golos depois de ressaltos, depois de erros de adversários, ou em lances em que é só preciso meter o pé na altura certa e fechar os olhos. Fica o filme, ao ritmo de Mozart, com os lances dos golos marcados por Liedson na temporada transacta. Mais abaixo, algumas reflexões acerca dos mesmos.



1. Liedson marcou um total de 22 golos, 2 deles ao serviço da selecção e 20 ao serviço do Sporting: 13 golos na Liga, 4 na Taça UEFA, 2 na Taça de Portugal e 1 na Taça da Liga. De acordo com os minutos jogados em cada competição, Liedson marcou então 0,47 golos por cada 90 minutos na Liga Portuguesa, 1 golo a cada 90 minutos na Taça de Portugal, e 0,44 golos por cada 90 minutos na Taça UEFA. As suas médias de golos são assim parecidíssimas com a de anos anteriores, não havendo por isso grande alteração a esse respeito, ficando claramente atrás de jogadores como Mantorras, Farías ou Cardozo nesse aspecto.

2. Dos 22 golos que marcou, 14 foram obtidos de primeira, em respostas a cruzamentos em que tudo o que se impõe a um avançado é que ataque a zona de finalização no momento certo. Assim, 64% dos golos que marcou foram marcados graças a movimentos para zonas de finalização e em desvios oportunos.

3. Dos 22 golos, 4 foram obtidos por erros grosseiros não potenciados de defesas contrários, como sejam o falhanço do defesa do Penafiel, que perde a bola para Moutinho, ou a entrega de Nuno Santos, pensando que o jogo estava parado, ou o passe de Gustavo Lazaretti, que acerta nas pernas do avançado do Sporting e o deixa isolado, ou o falhanço clamoroso do central norte-coreano. A acrescentar a estes, obteve ainda 2 golos por obra do acaso, como sejam o golo contra a China, que lhe bateu nas pernas sem que houvesse da sua parte qualquer intenção de desviar a bola, e o segundo golo frente ao Belenenses, após confusão na área, com a bola a sobrar fortuitamente para ele. Ou seja, 27% dos golos marcados por Liedson foram obtidos por mero acaso, por erros alheios ou por pura sorte, sendo que em nenhum destes lances é possível apelar a qualquer espécie de mérito do avançado leonino. E ainda há quem diga que o rapaz não tem sorte...

4. De entre os 15 adversários na Liga, poderíamos, com algum grau de exactidão, eleger o Benfica, o Porto, o Braga, a Académica de Villas-Boas e o Rio Ave como as cinco equipas que melhor defendiam, aquelas que tinham conceitos de zona mais bem definidos e nas quais a interpretação do momento defensivo era mais bem conseguida. Ora, dos 13 golos que Liedson marcou na Liga da época transacta, só 1 foi a uma destas 5 equipas, precisamente ao Rio Ave, na goleada da segunda volta, e num jogo em que o Rio Ave sofreu cinco golos, defendeu muito pior do que o habitual e vinha de outra derrota por cinco golos, num período de clara descompressão, em que os objectivos do clube já tinham sido atingidos. Assim, podemos concluir que 92% dos golos de Liedson foram apontados contra equipas defensivamente menos bem organizadas e contra as quais a falta de qualidade e a previsibilidade das movimentações ofensivas de Liedson (que procura sempre a zona de finalização) menos se fazem notar.

5. De igual modo, dos 13 golos marcados por Liedson, só 3 foram marcados contra equipas que terminaram na primeira metade da tabela. Assim, 77% dos golos de Liedson foram obtidos contra equipas mais acessíveis, indiciando, de outro modo, o mesmo a que fiz alusão acima, que a capacidade goleadora de Liedson não é, de modo algum, regular, sendo muito influenciada pela qualidade do adversário.

O que estes números evidenciam é que o avançado do Sporting não goza da reputação que tem apenas por mérito próprio. Muito dela se edificou com base em números descontextualizados, assumindo-se a capacidade goleadora como resultado de um talento especial que, em quaisquer circunstâncias, se manifestava. Não é bem assim. Liedson não consegue manter a bitola contra equipas mais fortes e, sobretudo, contra equipas cujo modo de defender se baseie numa ideia colectiva. A razão pela qual isso é assim tem a ver com a outra evidência que estes números tornam clara: mais de dois terços dos golos de Liedson são obtidos do mesmo modo, aparecendo em zonas de finalização sem qualquer tipo de movimentação extraordinária, limitando-se a desviar a trajectória da bola. Acontece que esse tipo de capacidade pode ser-lhe útil contra equipas que não defendem bem, que apostam na capacidade individual dos defesas. Contra equipas que formam boas coberturas, em que se privilegia o ocupamento das zonas de finalização e não as marcações aos atacantes adversários, o espaço onde Liedson costuma aparecer é menor. Assim, a sua produtividade, contra esse tipo de equipas, diminui drasticamente. Sendo um avançado que marca sobretudo nessas situações, é um avançado limitado contra equipas que se defendem bem desse tipo de situações. Assim, Liedson, enquanto finalizador, é previsível contra essas equipas. Não tendo, igualmente, muitos mais recursos (raramente consegue isolar-se, não é bom no um para um com o guarda-redes, não é bom a rematar de meia distância), torna-se, enquanto finalizador, uma nulidade. Se acrescentarmos a isto o facto de a capacidade de finalização ser o seu único recurso interessante, concluímos que Liedson é um jogador banal, um jogador que goza de uma reputação que não condiz com a sua real qualidade essencialmente porque, apesar de marcar alguns golos, marca-os sobretudo contra equipas menos cotadas, eclipsando-se em jogos em que o grau de exigência aumenta (como, aliás, Pedro Pauleta), e não é sequer, enquanto finalizador, que é a sua melhor característica, um jogador excepcional. O problema é que as pessoas tendem a valorizar a regularidade sem um critério claro. É que, neste caso, a regularidade de Liedson é obtida às custas de uma irregularidade gritante, que faz com que marque muitos golos contra equipas fracas e poucos contra equipas melhores, ficando assim, no final, com uma soma agradável aos olhos dos míopes.