Se, por um lado, o recente distanciamento entre os dois principais candidatos ao título em Espanha tem motivado os disparates habituais daqueles que têm por santo protector José Mourinho, suscitou, por outro, a ideia de que o Barcelona se encontra em crise. Para quem não vê os jogos, e olha apenas para os resultados, talvez seja esta a impressão que dá. Para aqueles que se acham muito espertos e que perdem horas a fio a tentar perceber o jogo, é no mínimo inaceitável que pensem desse modo. Falar em crise interna é absurdo, precisamente porque os resultados negativos dos catalães são relativamente fáceis de explicar. Começo pelo recente jogo em Pamplona, diante do Osasuna. Num campo com aquelas condições, a vantagem que o Barcelona tem em qualquer jogo por trocar a bola com facilidade entre as linhas adversárias fica imediatamente posta de lado. Num terreno em que era praticamente impossível jogar ao primeiro toque com o mínimo de segurança, o Barcelona não pôde exercer o seu habitual jogo de posse com a mesma qualidade. Se juntarmos a isso o facto de Xavi, Iniesta, Fabregas e Busquets não terem alinhado, ficamos praticamente com a explicação de que precisamos. Sem estes, o meio-campo do Barça, que é o sector mais importante no modelo da equipa, não podia necessariamente ter o mesmo rendimento, sobretudo em termos de criatividade. Juntemos a isto a ausência de Keita, na Taça das Nações Africanas, e temos que Guardiola teve de fazer alinhar Mascherano no meio-campo, pela primeira vez esta época. O argentino não só compromete incrivelmente em termos ofensivos, como é uma nulidade em termos posicionais, e teve responsabilidades directas em todos os golos sofridos. Significa isto que o Barcelona está em crise?
Para mim, a diferença no campeonato (que estará praticamente ganho pelo Real), pode ser facilmente explicada, sem recorrermos à ideia de que há alguma crise. Principalmente porque não há crise nenhuma. A explicação não é linear, obviamente, mas ainda assim fácil de obter. Veja-se o tempo de utilização dos jogadores. No Real, Mourinho raramente mexeu no seu onze. Guardiola tem optado por outra estratégia. Callejon, Altintop, Granero e Nuri Sahin, por exemplo, têm menos minutos de utilização do que Isaac Cuenca, que seria, à partida, apenas a quinta opção para as alas. Christian Tello, Sergi Roberto, Jonhattan dos Santos e Gerrard Deulofeu têm sido presença praticamente assídua na convocatória. As lesões de Villa, Afellay, Pedro, Xavi, Fabregas, Iniesta e Busquets têm, evidentemente, possibilitado que assim seja. Mas o importante é que Guardiola não tem forçado os mais conceituados a jogar sistematicamente. Faz isto com que, ao fim de alguns jogos, o Real consiga manter a consistência, e o Barça não. Agora, falar de crise quando os maus resultados do Barcelona foram quase sempre obtidos em jogos em que se verificaram muitas ausências parece-me estúpido.
No campeonato, o Real encarou cada jogo como uma final, e não facilitou minimamente. Pôde dar-se a esse luxo por várias razões: porque não teve, tirando Ricardo Carvalho e, mais recentemente, Di Maria, lesões em jogadores fulcrais (no Barcelona, Afellay, Villa e Pedro praticamente ainda não jogaram; Piqué e Puyol passaram os primeiros dois meses de competição parados ou a adquirir ritmo; Alexis, Fabregas, e Iniesta já tiveram lesões que os obrigaram a parar várias semanas; Xavi tem sido gerido a pinças; Keita esteve um mês ausente), porque o grupo da Liga dos Campeões era ridiculamente acessível, e até porque foram eliminados da Taça do Rei (os últimos 5 pontos que o Barça perdeu foram em jogos três dias antes ou três dias depois de compromissos a meio da semana para a Taça do Rei). O Real apostou forte no campeonato, e tem conseguido manter-se na frente, muitas vezes com vitórias alicerçadas numa força de vontade francamente assinalável. O Barcelona já ganhou 2 competições, continua na Taça, e acabou por perder pontos importantes no campeonato. Não há crise nenhuma. Há pontos decisivos perdidos, que a juntar à campanha praticamente imaculada do Real explicam tudo.
Para os que acreditam na ideia de uma crise, o conselho que dou é que vejam os jogos do Barcelona, e não apenas os resultados ao domingo à noite. E lembrem-se também de que era de crise que se falava há quatro anos, quando o Barcelona (na altura no primeiro ano de Guardiola) somou apenas um ponto nas primeiras duas partidas na liga. Se tivessem visto os jogos nessa altura, como se vissem os jogos agora, pensariam talvez duas vezes antes de falar em crise. Eu, que vi os jogos todos do Barcelona esta época, ainda não vi um único jogo em que os catalães não merecessem a vitória. Um único. Ainda não vi um jogo em que a equipa não conseguisse encontrar maneiras de resolver os seus problemas, um único jogo em que pudesse dizer que o adversário tivesse conseguido manter os catalães desinspirados e longe das imediações da sua baliza, como por exemplo o Hércules conseguiu em Camp Nou o ano passado. Repito, ainda não vi um único jogo em que o resultado não devesse ser favorável à equipa de Guardiola. Como é óbvio, houve jogos menos bons, jogos em que a equipa se "pôs a jeito", jogos em que facilitou. Nesses jogos, ao contrário do que aconteceu com o seu rival, o Barcelona perdeu pontos. Mas, em todos eles, tal como perdeu pontos por um ou outro detalhe, podia facilmente não os ter perdido, e era até isso o mais provável. Aconteceu frente à Real Sociedad, por exemplo, em que a seguir a uma primeira parte de domínio absoluto, com 2-0 ao intervalo, a equipa entrou para a segunda parte desconcentrada, acabando por consentir o empate. Aconteceu contra o Getafe e contra o Osasuna, em que o estado do relvado não ajudou. Aconteceu também contra o Atlético de Bilbao, debaixo de uma tempestade que fez com que o jogo não fosse fácil de jogar. Mas, em qualquer um destes jogos, mesmo tendo o Barcelona jogado menos do que poderia, jogou mais do que o suficiente para vencer.
Tal não se pode dizer, por exemplo, do Real Madrid, que chegou já a golear em jogos em que, francamente, nem empatar merecia. O futebol é assim mesmo, e o que é facto é que a equipa de Mourinho tem sabido contrariar a pouca inspiração que tem denotado em muitos jogos com uma força de vontade e uma mentalidade incríveis. Se me perguntassem, diria que não acreditava que uma equipa conseguisse ganhar sistematicamente tendo como principal arma uma mentalidade vencedora, mas a verdade é que o Real, que em alguns jogos até tem apresentado bastante qualidade, tem vencido muitos apenas pelo "querer". Perdi mesmo já a conta dos jogos em que o Real arrancou a perder, fez uma primeira parte miserável, e acabou por dar a volta na segunda, sem apresentar um grande futebol, mas com uma força anímica muito grande. Foi assim com o Levante, este fim-de-semana, por exemplo, se bem que ter ficado a jogar contra dez ajudou. Tal e qual foi o jogo com o Atlético de Madrid, em que goleou, é verdade, mas em que, até aos 20 minutos (antes do golo do empate e da expulsão do guarda-redes colchonero) estava a ser completamente manietado e perdia por 1-0. Há duas semanas, com o lanterna vermelha Saragoça, em casa, podia facilmente ter perdido pontos, tal foi o mau futebol que apresentou. Frente ao Maiorca, igual: começou a perder, a jogar muito mal, e acabou por dar a volta na segunda parte, já perto do final, quase só pelo esforço. Frente ao Atlético de Bilbao, levou mesmo um banho de bola (o golo do 2-1 é obtido na sequência de duas faltas evidentes, e a seguir ocorre mais uma expulsão, o que permite ao Real voltar a golear). Aliás, a quantidade de jogos que a equipa tem resolvido após expulsões de adversários também ajuda a explicar a regularidade das vitórias. Frente ao Valência, mais um jogo em que o Real não conseguiu ter o controlo e venceu quase miraculosamente, depois de um jogo magnífico dos comandados de Unai Emery. Frente ao Espanhol, venceu por 4-0, mas passou o jogo a sofrer, com a equipa catalã sempre muito melhor, em quase todos os momentos do jogo. Bastava o Real ter perdido pontos nalguns destes jogos menos conseguidos para que agora o campeonato continuasse em aberto, e não se falasse agora em crise no Barcelona. Como, apesar de o Barcelona continuar a controlar muito melhor as suas partidas do que o Real, acabou por ter deslizes que os madrilenos não tiveram, e que se explicam principalmente porque nem tudo é controlável num jogo de futebol, acha-se que os pontos que o Barcelona perdeu demonstram que a equipa tem estado pior no campeonato. Pois não tem. Tem estado bem melhor do que o Real Madrid, até. Simplesmente, tem tido lesões que os madrilenos não têm tido, tem feito uma gestão de esforço que os outros não têm feito, tem tido infortúnios, etc.. E tudo isso são detalhes suficientes para que exista uma distância pontual que não condiz com a qualidade de jogo que as duas equipas têm apresentado.
Por fim, queria ainda chamar a atenção para duas coisas. O Real está empenhadíssimo em vencer o campeonato, e é muito difícil a uma equipa como o Barcelona, que ganhou tudo o que havia para ganhar nos últimos tempos, ainda por cima de forma categórica, manter os índices de concentração tão altos como no passado. Em certos momentos isolados dos jogos (início e final das partidas, após uma vantagem dilatada, etc.), a equipa tem denotado algum relaxamento. Em termos de concentração competitiva, neste momento, o Real Madrid é superior, o que não é nada de extraordinário. A meu ver, esse tem sido o principal factor para que a equipa de José Mourinho tenha mantido a regularidade de vitórias. No Barcelona, quando muito explicará um ou outro deslize, como o que aconteceu ante a Real Sociedad. O que quero com isto dizer é que esse é um factor circunstancial, que advém do facto de o Real estar há muito tempo sem vencer o campeonato, do facto de não conseguir vencer o Barcelona, e do facto de querer recuperar a dignidade perdida. Estas circunstâncias permitem a campanha da equipa. Sem elas, o Real é o mesmo Real do ano passado, com o mesmo tipo de problemas ao nível da qualdidade do jogo: trata-se de uma equipa fortíssima do ponto de vista individual, muito bem trabalhada em transição, mas com problemas a nível de organização ofensiva (acho que tem melhorado nos últimos tempos, e a meu ver porque Kaká e Granero têm jogado mais, em detrimento de Khedira, Lass e Di Maria). Em organização, o Real já tenta mais penetrações pelo meio, e já privilegia mais o toque curto e o passe vertical, mas continua a não ser capaz de invadir blocos baixos com facilidade. A sua força, neste momento específico do jogo, tem sido essencialmente a alma guerreira da equipa, assim como a qualidade individual dos seus jogadores.
Uma última coisa, apenas a respeito da gestão do plantel. Guardiola, mesmo numa época em que o Real Madrid não tem cometido erros, não tem tido quaisquer problemas em lançar vários jovens: Cuenca, Tello e Sergi Roberto, principalmente, já para não falar de Thiago. Tratam-se de jovens com qualidade, mas que, se não tiverem a oportunidade de jogar com o mínimo de regularidade, nunca se afirmarão. Isto para dizer que, ao contrário de Mourinho, que está principalmente interessado em engordar o currículo, em vencer no presente, Guardiola tem de juntar às ambições presentes a ideia de clube e de futuro que não preocupa o português. A curto prazo, isso pode ter ajudado a custar este campeonato ao catalão, mas dará certamente dividendos no futuro. Também por isso, não posso deixar de presenteá-lo com o meu largo aplauso pela coragem. E, acima de tudo, é mais uma lição para clubes que acham que apostar na formação é apenas arranjar maneira de ter os melhores miúdos do bairro a jogar pelos seus escalões mais jovens. O Sporting, acima de qualquer outro clube em Portugal, deveria aprender com o que Guardiola está a fazer em Camp Nou. A sede de títulos não pode nunca pôr em causa a ideia de futuro de um clube, e se há jovens com potencial para servir esse clube, esses jovens devem ser lançados sem medo, mesmo que, a curto prazo, a equipa se ressinta dessa aposta. O futuro desses jovens, e o contributo que darão à equipa, justificará certamente o risco.
Para finalizar, agora sim, não concordo, de maneira nenhuma, que se associe aos resultados internos do Barcelona uma crise. Esses resultados têm explicação fácil, e qualquer pessoa justa que tenha visto os jogos das duas equipas que lideram o campeonato dirá que a qualidade que os catalães têm apresentado em campo continua a ser bem superior. Significa isto que o Barcelona, podendo não vencer este campeonato, continua a ser a melhor equipa do mundo, a larga distância dos outros, e continua a ser o principal candidato a ganhar tudo o resto. A única coisa em que o Real de Mourinho tem sido superior tem sido na determinação em vencer. E isso, desculpem-me o cepticismo, é muito pouco. As pessoas que falam em crises têm teorias acerca das oscilações de forma das equipas. Mas até nisso este Barcelona é diferente de todas as outras equipas, no presente e no passado. É que não houve nunca uma equipa que estivesse tão imune a crises, a oscilações de forma, a perdas de motivação, como esta. Tem isso a ver, também, com o próprio modelo de jogo, que exige dos jogadores uma concentração que outros modelos não exigem. Pode haver momentos de descontracção pontuais, mas não há, nem nunca houve, e, arriscaria, não haverá tão depressa, uma perda de motivação ou de concentração significativa que faça com que a equipa fique mais perto de perder os seus desafios. Não há crise nenhuma na Catalunha. Há, talvez, isso sim, um desejo enorme fora dela de que essa crise de facto exista. Infelizmente, para os que a desejam, estão equivocados. Mesmo perdendo uma ou outra competição, ainda demorará algum tempo para que a hegemonia de Guardiola e dos seus pupilos possa realmente ser posta em causa.