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quarta-feira, 3 de maio de 2017

O mesmo que se faz aqui, mas em mau...

Sabem por que é que aquilo que o António Tadeia faz é o mesmo que se faz aqui, mas em mau? Em poucas palavras: porque não consegue distinguir entre o que é intencional do que não é. Para perceber o que se passa num campo de futebol é preciso, antes de mais, saber identificar as intenções dos jogadores. A actividade de um comentador desportivo não é, desse ponto de vista, muito diferente de outras actividades. Aquilo que distingue o bom crítico literário, o bom analista político e o bom polícia de investigação é a capacidade, no fundo, de compreender as intenções dos escritores, dos políticos e dos criminosos. Confundir uma recepção orientada com uma má recepção não é, por isso, aceitável. Sê-lo-ia, talvez, em quem vê o jogo descontraído no café, ou em quem o vê sem a responsabilidade profissional de interpretar tão bem quanto possível aquilo que acontece dentro das quatro linhas. Há incidências cuja interpretação, de facto, não é fácil, mesmo para quem faz isto há muito tempo, está diante de um ecrã e tem ao seu dispor um número infindável de repetições de todos os ângulos. Nem sempre é possível ter a certeza acerca das intenções dos jogadores, e isso pode desculpar certas interpretações. Mas há incidências que, de tão óbvias para quem já jogou ou tem o mínimo de experiência a ver jogos de futebol, um comentador profissional não pode não saber interpretar. Não saber distinguir entre um toque involuntário e um toque propositado na bola é como não saber distinguir entre um cadáver putrefacto e a bela adormecida. Não, António, o primeiro toque de Lucas Vázquez não foi mau; foi óptimo. Má foi a análise do António, que não percebeu que o atleta do Real Madrid, calculando que podia tirar o defesa do Atlético da frente alargando o drible até à linha de fundo, orientou de pronto a recepção para esse efeito.




Hoje em dia, quase toda a gente fala em decisões. Mas a maioria das pessoas não percebe bem o que é uma decisão, em futebol. Para as pessoas como o António Tadeia, os jogadores só tomam decisões quando decidem chutar em vez de passar, ou quando escolhem uma opção de passe em detrimento de outra. Nas suas cabeças, só faz sentido falar em decisões quando é evidente que há tempo para decidir antes de executar. Na verdade, tudo o que um jogador faz em campo é decidir. Uma simples recepção, por exemplo, acarreta uma decisão. E, mais importante do que isso, tais decisões são geralmente tomadas em fracções de segundo. Assim é porque as circunstâncias de uma jogada mudam em fracções de segundo. Este lance é um bom exemplo disso. No momento em que a bola sai do pé de Ronaldo, a jogada está ainda longe de estar definida, e é absurdo assumir que o jogador que a vai receber já tenha tomado uma decisão acerca do destino a dar à bola (cruzar de primeira ou dominar a bola, por exemplo). Mais do que isso, precisa de perceber como se vão comportar os colegas e os adversários nos instantes seguintes, e só então, avaliando as circunstâncias tais como se apresentarem nessa altura, poderá tomar uma decisão. A verdade é que Godin, o central do Atlético que sai ao caminho de Lucas Vázquez, não protege devidamente a baliza e ainda se aproxima em demasia do portador da bola, tentando dificultar-lhe a recepção. No último instante, o jogador do Real Madrid percebe que, orientando a recepção, tem espaço suficiente para driblar o uruguaio, e é isso que faz. A decisão foi tomada no último instante antes de chegar à bola, e em função das circunstâncias que só nessa altura tornaram claro que o drible era exequível. Não, António, não era preciso acreditar no Pai Natal para acreditar que havia espaço suficiente para tirar o adversário do caminho e cruzar para um dos colegas que se movimentavam na área. Os jogadores de futebol não fazem as coisas ao calhas; são agentes racionais. Lêem circunstâncias específicas, estimam o sucesso de determinadas decisões e agem em conformidade. Ainda que as suas acções não sejam precedidas de uma ponderação demorada, são determinadas por processos racionais. Recebem estímulos, interpretam-nos e decidem o melhor que conseguem. Avaliando os sinais corporais do adversário, a distância até à linha de fundo e a movimentação dos colegas na área, foi possível a Lucas Vázquez perceber (no último instante) que podia ultrapassar Godin, que teria espaço para chegar à bola antes de esta sair e que, entretanto, teria opções de passe diferentes das que havia nesse instante. Não fez nada ao calhas, e o toque que deu na bola foi tudo menos involuntário e mau. António Tadeia não percebeu isto e fez figura de urso. Anda a fazê-la há anos, aliás, desde que lhe disseram que falar de futebol na televisão não era muito diferente de brincar com ursinhos de peluche. E agora não larga o ursinho.

P.S. A figura de urso, na verdade, foi feita ao longo de toda a partida de ontem, sempre que António Tadeia se lembrava de que Isco, cujo virtuosismo técnico não deixou de gabar com toda a condescendência do mundo, não é capaz de acções colectivas relevantes.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Balanço Negativo

Como tive oportunidade de escrever, esta época futebolística representou, de certo modo, um retrocesso na evolução do jogo. Com um campeonato do mundo à porta ao qual alguns dos melhores jogadores do mundo chegam em más condições (ou não chegam, de todo), e a julgar por aquilo que se passou há um ano no Brasil, antevejo uma prova sofrível, o que seria a cereja no cimo do bolo. Não acredito, apesar de tudo, que um ano sirva para inverter a evolução do que quer que seja, e a tendência será, nos anos que se seguem, as coisas voltarem à normalidade. Dito isto, gostaria de fazer um balanço daqueles que foram os principais destaques desta temporada:

Em Portugal, Jesus voltou a ser campeão. Tenho falado muito acerca do quão importantes são, para o reconhecimento de um treinador, um jogador ou uma equipa, as circunstâncias que os mesmos não controlam, como o acaso, o talento dos adversários, as decisões de terceiros, etc., e esta época de Jesus é disso um extraordinário exemplo. Para muitos, porque ganhou mais títulos do que nunca e porque esteve pertíssimo de ganhar tudo o que podia ganhar, este foi o melhor dos cinco anos de Jesus à frente do Benfica. Não só discordo amplamente disto como me parece absurdo que se tenha tal opinião. O Benfica começou muito mal a época, tendo uma participação medíocre na Liga dos Campeões e perdendo muito terreno para o principal adversário. Se o Porto não estivesse fragilizado e conseguisse manter a qualidade do futebol que apresentou no início da época, o Benfica teria tido muitas dificuldades em recuperar o terreno perdido e, pior do que isso, em atingir os níveis de confiança que viria a atingir no final da época. Quando se fala na época no Benfica, concede-se o mau arranque, mas considera-se que a segunda metade da época o compensou. Esquece-se, porém, que só o compensou porque as coisas começaram a correr mal aos adversários dos encarnados. Os níveis de confiança subiram porque os resultados começaram a ser positivos, não o contrário. O Benfica termina a época a poder ganhar tudo porque internamente não teve adversários à altura, o que permitiu à equipa convencer-se de que não tinha defeitos e, assim, elevar bastante os níveis de confiança que, no início, estavam bastante debilitados. Foram as circunstâncias externas, não a qualidade do Benfica propriamente dita, que ditaram o sucesso desportivo desta época. O Benfica de Jesus, tal como o do ano passado, é mais calculista do que nunca. Defensivamente, tornou-se uma equipa fortíssima, mas ofensivamente depende cada vez mais das características atléticas dos seus jogadores. Em termos de criatividade colectiva, foi mesmo o ano mais fraco dos cinco anos de Jesus.

Em Espanha, o Atlético de Madrid foi campeão. Já disse a maior parte das coisas que tenho a dizer sobre a equipa de Simeone, mas posso dizer mais uma ou outra. Continuo sem conseguir dar mérito a uma equipa cuja principal arma é a agressividade com que disputa os seus lances. Não o consigo não por não valorizar o empenho e a crença daquelas jogadores, mas porque acho que, em futebol, níveis de agressividade como os do Atlético de Madrid são contraproducentes. São-no no sentido de desposicionarem e desgastarem excessivamente quem os pratica, já para não falar do risco que é jogar 90 minutos com entradas a pedir cartão, e só podem ter gerado sucesso por factores alheios ao jogo. Em primeiro lugar, pela conivência das equipas de arbitragem. Foram pouquíssimos os jogos do Atlético de Madrid a que assisti em que não ficasse um ou dois jogadores por expulsar. Em segundo lugar, porque os adversários foram bem mais fracos do que em anos anteriores. Por fim, porque a fragilidade dos adversários e a possibilidade do título no horizonte criaram a ilusão aos jogadores de que eram melhores do que são, o que os fez transcenderem-se. O Atlético de Madrid foi campeão e Simeone é hoje um dos treinadores mais aplaudidos na Europa. Individualmente e colectivamente, contudo, a equipa é banalíssima. Há jogadores com futuro, mas são poucos: Courtois, Arda, Adrián e Oliver, principalmente, sendo que os últimos dois praticamente nem foram opção. Colectivamente, não há um princípio de jogo que se possa dizer que seja extraordinário. Ofensivamente, então, desafio mesmo a que me digam que tipo de jogadas é que a equipa privilegia. Assim que as coisas começarem a correr menos bem, a confiança com que chegaram até ao topo evapora-se. E é nessa altura que a verdadeira qualidade ficará à vista. A minha previsão é de que esse momento não tardará.

Em Inglaterra, igualmente, o ano foi muito fraco. Como previa há um ano, a reforma de Alex Ferguson e o regresso de Mourinho iam fazer com que o campeonato inglês fosse mais disputado do que tinha sido nos últimos anos. Não esperava, porém, que, além de disputado, fosse tão mal disputado. Wenger continua a ser pouco perspicaz, em termos defensivos, e isso custou-lhe mais um campeonato. Andou durante muito tempo na frente, mas não teve estofo, na recta final da prova, para preparar a equipa para ser campeã. Ao contrário, todavia, do que se conjecturava, o seu Arsenal esteve mais perto dos principais candidatos, o que comprova que, quando o plantel se mantém, a tendência é tornar-se melhor. A próxima época, não perdendo ninguém, mostrará um Arsenal mais experiente e certamente mais capaz de se impor quando as coisas correrem menos bem. Mourinho foi a principal desilusão (tendo em conta que de André Villas-Boas, depois do que fizera no ano anterior, dificilmente esperava mais do que meia temporada em Londres) e o Chelsea, repleto de jogadores talentosos, acabou a temporada a jogar à Di Matteo. Mata fora o melhor jogador do Chelsea nos últimos dois anos, e foi o primeiro a ser ostracizado por Mourinho. Seguiu-se Óscar. Sobrou Hazard, o que é manifestamente pouco. Abdicar de dois dos três jogadores mais criativos da equipa é de uma estupidez inacreditável. Mourinho pode continuar a ser um treinador atento, muito esperto e competitivo, mas, depois da lobotomia, deixou de pertencer ao restrito grupo dos melhores treinadores do mundo. O Chelsea só não foi campeão porque Mourinho já não é Mourinho. Pellegrini não é um treinador genial, mas é um treinador com uma ideia de jogo interessante. Conseguiu ser campeão porque o principal adversário, pelo menos em termos de recursos, andou o ano inteiro a jogar como uma equipa pequena. Sobre David Moyes e o que aconteceu ao Manchester United, francamente, não me surpreende. O seu Everton foi sempre uma equipa deprimente, e era natural que não conseguisse melhor em Manchester. Conseguir ficar atrás da sua antiga equipa, agora bem melhor treinada, aliás, foi obra. Sobre Brendan Rodgers, não tenho uma opinião muito formada. Não vi muitos jogos do Liverpool, mas os que vi não me entusiasmaram particularmente. É uma equipa competitiva, muito agressiva, e que me parece beneficiar disso por jogar em Inglaterra. Mas não vejo uma equipa criativa, capaz de resolver problemas complicados, e com uma ideia de jogo clara, que não se baseie unicamente em recuperar a bola em zonas adiantadas ou em atacar vertiginosamente. É uma espécie de Atlético de Madrid, ainda que não tão agressiva e com menos qualidade individual, que dependerá muito, no futuro, daquilo em que os jogadores puderem acreditar.

Em ano de estreia na Alemanha, Guardiola fez muitas coisas boas, mas podia ter feito mais. Em termos de títulos, francamente, foi uma época muitíssimo positiva. Ser campeão a 7 jornadas do fim, vencer a Taça e alcançar as meias-finais da Liga dos Campeões é muito bom, e dificilmente se podia pedir mais. Em termos de evolução de ideia de jogo, também me parece irrefutável que este Bayern se tornou mais forte e mais dominador do que era, ainda que não tenha ganho tanto. Faltou, no entanto, uma coisa que, a meio da época, parecia mais ou menos evidente e possível, a capacidade de a equipa continuar a evoluir num modelo de jogo tão exigente como aquele que Guardiola propõe. A minha opinião é a de que Guardiola sentiu demasiadas pressões e, a meio da temporada, não obstante a equipa estar cada vez mais sólida e cada vez mais capacitada para jogar como pretendia, decidiu fazer a vontade a quem o criticava. Aproveitando-se da vantagem no campeonato, começou a preparar a equipa para jogar como jogara em anos anteriores, arriscando menos quando em posse, e isso fez com que os bávaros parassem de aprender a jogar dentro de um modelo que exige coisas que só com muita prática se aprendem. Pareceu-me, porém, que Guardiola nunca se satisfez com isso, e a verdade é que foi em alguns jogos mais exigentes que voltou às suas ideias arrojadas. Na Liga dos Campeões, por exemplo, nunca jogou com dois médios de perfil, como o passou a fazer na segunda metade do campeonato. O que aconteceu foi que, nos dois únicos jogos em que se exigia perfeição à equipa em posse, os bávaros não conseguiram ser perfeitos. E não o foram, essencialmente, porque a exigência de Guardiola na segunda metade da época não foi suficiente. Jogaram de acordo com uma ideia de jogo boa, mas sem o devido nível de preparação para ela. Sem essa preparação, e sem a sorte do jogo que o Real Madrid acabou por ter, o Bayern acabou por desconcentrar-se e terminou a eliminatória dando uma imagem que não é a verdadeira imagem da equipa. Não sei se Guardiola prepara grandes mudanças no plantel para a época que vem, mas o mais importante seria tentar convencer os jogadores de que, apesar do desaire, aquela é a melhor maneira de serem uma equipa de futebol.

A principal prova do futebol europeu foi, talvez, o espelho mais fiel da tenebrosa temporada futebolística que se viveu este ano. Desde jogos horripilantes, como a primeira mão da eliminatória que opôs o Atlético de Madrid ao Chelsa, a decisões dramáticas no tempo regulamentar, como o povo tanto gosta, esta edição da Liga dos Campeões teve mais a ver com religião do que com futebol propriamente dito. As equipas que melhor futebol apresentaram foram sendo eliminadas, fosse pelo azar ditado pelo sorteio, como o Manchester City e o Arsenal, fosse por cobardia, como o PSG, fosse por erros próprios ou porque o futebol, em última análise, é um jogo que se presta a isso, como o Borussia de Dortmund ou o Barcelona, e nas meias-finais só já havia uma equipa cujo futebol era minimamente interessante. Quando, nas quatro semi-finalistas, há apenas uma das seis equipas que melhor futebol mostraram, pouco mais há a dizer. O Real acabou por vencer a décima e foi o menos mau que poderia ter acontecido. A equipa continua longe de jogar bem, mas consegue juntar um leque de jogadores que, do ponto de vista individual, pode ser decisivo. Foi-o, de facto, nos quartos de final e nas meias-finais, e foi por esse leque de individualidades que marcou presença na final. Há, no entanto, muito, mas mesmo muito, a melhorar no ano que vem, sobretudo porque a ambição de ganhar uma competição que não ganhavam há largos anos, o principal dínamo emocional da equipa esta temporada, já não existe, e porque há uma série de jogadores (Ronaldo à cabeça) cuja idade forçará a que o seu rendimento seja, a partir de agora, tendecialmente inferior.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O Síndroma de Mourinho

Acontece a quem valoriza menos as convicções do que o treino, a metodologia, a capacidade de agarrar num conjunto de jogadores e de prepará-los de acordo com as competências de cada um, passar por ser um treinador cujas equipas jogam de determinada forma, com um determinado estilo, quando na verdade é um treinador cujas equipas apenas se caracterizam pela competitividade que consegue incutir-lhes. Já aqui escrevi sobre isso, a respeito de Mourinho, mas posso repeti-lo, para que se saiba do que falo. No Porto e nos primeiros anos de Chelsea, Mourinho valorizava coisas que agora já não valoriza. Pode nunca ter abdicado da competitividade, da intensidade, da compenetração táctica do colectivo, mas as suas primeiras equipas eram mais dominadoras com bola do que o são agora. A partir do terceiro ano no Chelsea, tudo mudou. Sempre achei, e continuo a achar, que a principal razão para tal foi a obsessão em conquistar nova Liga dos Campeões, troféu que lhe fugiu nos dois primeiros anos de Chelsea pelos detalhes de uma ou outra eliminatória. A partir desse ano, Mourinho passou a preparar as suas equipas não para o longo prazo, não para serem regulares, exibindo um futebol de posse, mas para serem equipas calculistas, especialmente aptas para os momentos cruciais da época. Custou-lhe isso não só a perda do campeonato inglês, logo nesse ano, mas sobretudo a perda da identidade. O seu Chelsea não voltou a ser o que fora nos anos anteriores (até o 442 clássico experimentou), passou a privilegiar dois médios defensivos, em vez de um, e por onde quer que tenha passado (Inter e Real Madrid), não obstante o que conseguiu, nunca mais foi capaz de montar uma equipa cuja superioridade, em termos de qualidade de jogo, fosse evidente. Obviamente, não deixou de ser um treinador competente, capaz de ter um conjunto de jogadores moralizados e perfeitamente conscientes do seu papel em campo. Deixou foi de ter um modelo de jogo distinto, que se impusesse naturalmente aos dos adversários, que dependesse pouco da capacidade de concentração da equipa nos momentos decisivos da época, assim como da sorte e de todos os outros imponderáveis.

Para efeitos de argumento, chamarei a esta mudança de crenças (a mudança da crença nas convicções para a crença na versatilidade e na adaptabilidade) o síndroma de Mourinho. Nada do que tenho para dizer neste texto diz, no entanto, respeito a Mourinho senão o facto de usar o seu exemplo para diagnosticar noutros o que nele se passou. Há 3 semanas, haveria poucos que hesitariam perante a seguinte pergunta: qual foi o melhor dos quatro anos de Jesus no Benfica? Por essa altura, preparava-me para escrever um texto para defender que, ao contrário do que muito gente com certeza acharia, a melhor época de Jorge Jesus não era a presente, mas a primeira de todas. Independentemente dos resultados malogrados, continuo a achar que esta época do Benfica, em termos de rendimento, foi muito boa e que será difícil o Benfica encontrar um treinador capaz de fazer com que a equipa tenha um rendimento tão alto. Mas, ao contrário do que muita gente acredita, não creio que uma época de rendimento alto implique que a época tenha sido boa. A meu ver, esta foi, aliás, a pior época do Benfica, desde que Jesus chegou. Não porque não tenha ganho nada e não porque tenha prometido e falhado tudo. Foi a pior época simplesmente porque foi a época em que a equipa jogou pior. É verdade que não escrevi muito sobre isso ao longo da época, mas o Benfica de Jesus, este ano, foi sobretudo uma equipa muito competitiva, capaz de manter os índices de concentração elevados, e que se conseguiu transcender num ou noutro jogo importante, sobretudo na Europa. Não foi, porém, uma equipa com um fio de jogo agradável, não defendeu tão bem quanto noutras épocas, não foi minimamente criativa, e acabou por pagar tudo isso da pior maneira possível. O que proponho de seguida é apresentar as razões pelas quais isto foi assim.

Na minha opinião, aconteceu com Jesus o que aconteceu com Mourinho, ou seja, mudou de crenças. Tal como com Mourinho, este diagnóstico só é possível ao final de algumas épocas. É verdade que já na sua primeira época lhe apontávamos aqui como defeito o excesso de vertigem com que jogara não só no Benfica, mas também no Braga. Embora reconhecêssemos às suas equipas enormes virtudes, agradava-nos mais o seu Belenenses, com um futebol mais pausado, de toque mais curto, em 442 losango, do que o seu Braga ou o seu Benfica. Ao contrário do que seria talvez expectável, os poucos defeitos que identificávamos no modelo (excesso de velocidade e intensidade de jogo, incapacidade de gerir o ritmo da partida, demasiada amplitude e espaço no meio-campo, problemas de transição defensiva e pouca criatividade no último terço do terreno) foram precisamente os aspectos em que Jorge Jesus passou a depositar mais confiança, nas épocas seguintes. Ramires, que não era um extremo e, por isso, jogava mais por dentro, para além de conferir uma qualidade em transição notável, foi substituído por Salvio, e o 4132 passou a ser ainda mais aberto do que era; a dupla Aimar-Saviola, que na primeira época fora o principal motor da criatividade da equipa em espaços muito povoados, foi desfeita e pouquíssimo utilizada a partir de então; a própria pressão alta, uma das maiores bandeiras de Jesus quando chegou ao Benfica, passou a ser feita bem mais atrás. Estes três aspectos, na altura, faziam pouco sentido. Por que razão haveria Jorge Jesus de modificar tais coisas, sendo que algumas delas eram a sua imagem de marca? A resposta a esta pergunta só se tornou clara para mim no decorrer da presente época, e explica-se, como o fiz acima, por uma mudança de crenças.

É claro para mim, agora, que Jesus já não é o mesmo treinador que chegou ao Benfica. Acima de tudo, já não é o treinador convicto que era. Se alguma coisa o caracterizava, era a convicção nele próprio e no futebol em que acreditava. Essa convicção era de tal forma pronunciada que, não raro, descambava em fanfarronice e precipitações. O insucesso europeu da primeira época, com o seu Benfica, avassalador do lado de cá da fronteira, a denotar debilidades tácticas e alguma inexperiência fora de portas, mas também, porventura, as sucessivas derrotas com o Porto de Villas-Boas na época seguinte (entre elas, a perda da Supertaça, uma derrota pesada no Dragão, a derrota em casa que permitiu os festejos do título na Luz, e a derrota em casa na segunda mão das meias-finais da Taça de Portugal, perdendo a vantagem de 2 golos que trazia da primeira mão), a diferença de 21 pontos para o mesmo Porto, e a saída prematura da Liga dos Campeões num ano em que afirmara ser candidato a vencê-la terão sido machadadas demasiado fortes nas convicções de Jorge Jesus. Se não imediatamente no princípio da segunda época, pelo menos a meio dela já Jesus sentia que o insucesso lhe impunha a necessidade de modificar o seu modelo. Todas as modificações que se verificaram desde essa altura são uma resposta a essa imposição. Jamais, antes desse momento, Jesus pensaria em entrar em partidas a defender atrás da linha de meio-campo e em conceder toda a iniciativa do jogo ao adversário, como o fez variadas vezes esta época; jamais especularia sem bola, encontrando-se a vencer apenas por um golo, como o seu Benfica quase sempre fez ao longo desta temporada. O Benfica da primeira época de Jesus era voraz. Evidentemente, essa voracidade causou, num ou noutro momento de inexperiência, alguns dissabores. Mas, no longo prazo, foi o que garantiu não só o sucesso mas também o espectáculo. Atrevo-me até a dizer que, com o Jorge Jesus dessa primeira época no banco, esta época, o Benfica não teria perdido o título no Dragão, pelo menos não da maneira que perdeu, e não teria perdido a final da taça depois de estar em vantagem.

Essa equipa podia ter, de facto, momentos de ingenuidade, mas era capaz de golear com uma regularidade de que nenhuma outra equipa de Jesus, desde então, foi capaz. Depois desse ano, ou talvez no decorrer da época seguinte, Jorge Jesus sentiu que tinha de ser mais calculista, que tinha de fazer com que a sua equipa aprendesse a gerir vantagens sem bola. Durante muito tempo, Jesus identificou-se com a escola holandesa, e foi assim que foi campeão logo no ano em que chegou à Luz. Depois disso, italianizou-se. Não só nunca mais teve os êxitos desportivos desse ano como, sobretudo, nunca mais soube pôr o Benfica a jogar como nesse ano. Se, no primeiro ano, o seu Benfica pecava por alguma verticalidade, não sabendo identificar com exactidão os momentos do jogo em que se pedia uma gestão da bola e da velocidade mais correcta, o seu Benfica de hoje é uma equipa absolutamente vertical. É absolutamente vertical não no sentido de ser vertiginosa (a esse respeito, não o é tanto, é verdade), mas no sentido de ser muito menos competente a jogar por dentro, a construir horizontalmente, a tabelar, a criar espaços através de movimentações sem bola, etc.. Desde que Aimar e Saviola deixaram de jogar juntos, por exemplo, que não há criatividade, em termos colectivos. Os momentos de criatividade que há são individuais, e tudo o que a equipa consegue consegue-o às custas da intensidade, da competitividade e do talento de cada um dos jogadores. Para combater o insucesso, Jorge Jesus transformou um modelo no qual, apesar de tudo, havia espaço para a imaginação, para a inteligência e para a criatividade num modelo que privilegia unicamente a concentração e a atitude competitiva, a mecanização dos processos de jogo e as faculdades motoras dos jogadores. Está, por essa razão, mais igual que nunca a José Mourinho. Não deixa de ser irónico, por isso mesmo, que, apesar das expectativas que se criaram quer em torno do Benfica, quer em torno do Real Madrid, os dois tenham perdido este ano todas as competições pelas quais pugnaram. Seria bom, portanto, que este insucesso os fizesse reflectir, como outrora o insucesso lhes motivou o abandono das primeiras convicções.

quarta-feira, 6 de março de 2013

A Imponderabilidade dos Detalhes

Para muitos, o futebol distingue-se de outros desportos por ser um jogo de detalhes, isto é, porque os detalhes, ao contrário do que acontece em outras modalidades, podem ajudar a definir um vencedor. É verdade que, sendo o jogo de futebol um jogo com poucos golos, com "pontuações" baixas, quando comparado com outros jogos, tal distinção faz algum sentido. Mas não faz menos sentido pensar que são precisamente as equipas que mais fazem para depender menos dos detalhes que melhor estão preparadas para o sucesso. Parece haver, portanto, duas maneiras de reagir a esta crença: acreditar na fatalidade de que os jogos se definem pelos detalhes e trabalhar de modo a que a equipa esteja o melhor preparada para lhes responder, ou acreditar que os detalhes, podendo definir um vencedor, dificilmente o definem a longo prazo, e trabalhar de modo a que a imprevisibilidade dos detalhes tenha a menor relevância possível.

Por cá, como deve ser sabido, acreditamos mais na segunda solução. Que muitas vezes, sobretudo ao mais alto nível, os jogos se definem por um erro circunstancial, um mero acaso, uma má decisão do árbitro, uma precipitação, ou um golpe de génio, é evidente. Que a melhor maneira, porém, de responder a isso passe pela preocupação em estar o melhor preparado para esses momentos é que já não me parece tão evidente. Ninguém, no seu mais perfeito juízo, pode acreditar que consegue controlar todos os detalhes do jogo, e muito menos pode um treinador achar que, por mais que treine certas situações, os seus jogadores não vão falhar nesse mesmo aspecto. Sempre me pareceu cobarde condenar um golo falhado com a baliza aberta, ou um penalty mal batido. Erros acontecem, e todos os jogadores, por melhores que sejam, erram. Alguns acreditam que, se trabalharem muito, os jogadores erram menos. Tenho as maiores dúvidas de que muito treino implique melhorias a esse nível. Os lances são, sistematicamente, diferentes; as situações de jogo sistematicamente atípicas. Na minha opinião, treinar o detalhe é absolutamente inútil. Treinar a equipa, então, para que faça a diferença nos poucos momentos em que se define o jogo, negligenciando tudo o resto, parece-me francamente retrógado.

Dito isto, não acredito que seja assim que José Mourinho trabalha. O seu Real Madrid, no entanto, é talvez das equipas que mais parece depender da lotaria do detalhes, actualmente. Foi assim nas últimas semanas, sobretudo na eliminatória da taça do Rei frente ao Barcelona, e na eliminatória contra o Manchester United, mas tem sido assim também desde que chegou a Espanha. Não acreditei, por isso, no final da primeira época, que pudesse ganhar uma competição de regularidade, como o campeonato interno, em que os detalhes acabam por não ser tão determinantes quanto numa competição a eliminar, mas a verdade é que a equipa se conseguiu superar, encarando cada jogo como uma final, mantendo índices de concentração sempre elevados. Como disse também atempadamente, tal só foi possível porque a motivação de bater o Barcelona para a Liga era enorme. Sem isso, não teriam sido capazes de vencê-la, precisamente porque não são uma equipa para ganhar regularmente, como o exige um campeonato interno. Conseguiram superar-se no ano passado, mas não demoraria para que voltassem ao que verdadeiramente são: uma equipa de grandes jogos, de competições a eliminar. O fraco campeonato do Real Madrid não é, por isso, minimamente surpreendente. Este é que é o verdadeiro Real Madrid, não o do ano passado. É um Real Madrid banal numa competição de regularidade, que perde pontos e joga mal com adversários acessíveis, mas um Real Madrid muito competitivo sempre que o desafio é maior. Foi assim que Mourinho preparou a equipa desde que chegou, e é agora, ao final de três anos, que ela melhor espelha o trabalho a que foi sujeita.

Hoje, em Old Trafford, jogou-se o jogo para o qual o Real Madrid de Mourinho foi preparado desde o princípio, um jogo tacticamente fechado, que desde cedo se percebeu que penderia para o lado dos que falhassem menos, e que se resolveria pelos detalhes. O Manchester nunca pareceu muito incomodado em conceder a iniciativa ao adversário, até porque tinha a vantagem na eliminatória, e o Real ia tentando, com pouquíssimo engenho, e mais preocupado em aproveitar uma distracção de um adversário, uma bola parada, um lance de génio de algum dos seus jogadores. Até à expulsão de Nani, o Real Madrid nunca conseguiu criar as suas próprias situações de golo. Nunca conseguiu modificar as coordenadas do jogo estabelecidas pela equipa inglesa. Nunca conseguiu transformar um jogo fechado, que só se modificaria naturalmente na sequência de um detalhe, num jogo que se pudesse decidir por outra coisa que não por um detalhe. É este, aliás, o código genético desta equipa. Foi assim que foi eliminada o ano passado pelo Bayern, e era assim que, muito provavelmente, ia ser eliminada este ano nos oitavos de final, não fosse precisamente o detalhe de uma expulsão absurda a modificar a partida.

Há boas probabilidades de, nos próximos dois anos, José Mourinho não dizer uma única palavra acerca de um certo escândalo num certo estádio inglês, como tantas vezes disse acerca de um outro escândalo num outro estádio inglês, mas hoje o seu Real apurou-se porque foi feliz nos detalhes. Era, aliás, a única forma de se ter apurado, tivesse sido um detalhe externo ao jogo, como uma decisão de um árbitro, tivesse sido, pura e simplesmente, um lance de bola parada, uma escorregadela de um defesa, um erro infantil de alguém que não costuma errar. Foi assim que eliminou o Barcelona da taça do Rei, e foi assim que eliminou hoje o Manchester. Foi feliz nos detalhes. Isto porque, nesta história dos detalhes, tem mais sucesso quem é mais feliz, não quem é verdadeiramente melhor. O Real Madrid, hoje, foi feliz. O ano passado, diante do Bayern, não o foi. Como de resto, raramente o foi, desde que Mourinho chegou a Espanha, com o Barcelona. Mourinho preparou a equipa para ser competitiva, e é-o. Mas não a preparou para saber contornar a imponderabilidade dos detalhes. Se hoje foi feliz, amanhã pode não sê-lo, como não o foi no passado. É tudo uma questão de felicidade, e isso é pouco, numa equipa como aquela. Pode, com certeza, chegar para ganhar a Champions, mas uma competição como esta, como o Chelsea demonstrou o ano passado, é tão imponderável que isso não significa nada. O jogo medíocre da equipa hoje em Old Trafford, incapaz de tomar as rédeas da partida, de obrigar o adversário a desmontar a defesa, pode, pelo resultado final, ter deixado os merengues muito felizes, mas demonstrou também, muito claramente, a vulgaridade de que é feita: tirando a qualidade do plantel, que não tem comparação com nenhum outro plantel no mundo, à excepção, talvez, do plantel catalão, o Real de Mourinho é uma equipa como tantas outras. E é pena que o seja.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Lance que define o Jogo

Aviso: este texto é só para gente honesta! Os desonestos podem guardar as discordâncias para si, pois elas serão fruto não do que aqui vai escrito, mas da desonestidade que possuem.

A história do jogo divide-se em 2 partes, antes e depois do minuto 57. Depois do minuto 57, a eliminatória estava resolvida, e não me parece justo explicar resultados quando a desconcentração de uns e a falta de pressão a que outros passam a estar sujeitos é evidente. Para gente honesta, explicar o jogo é explicar os primeiros 57 minutos. Nesses 57 minutos, quem foi superior? Para os desonestos, mas também para os que acham que explicar o jogo é reparar nos lances dos golos, o Real foi superior, porque marcou 2 golos. Eu discordo, primeiro porque sou honesto, e segundo porque tenho argumentos para provar quer a minha honestidade, quer a minha razão. Em que é que o Real foi superior? Defendeu razoavelmente bem, sim. E mais? Mais nada. Rigorosamente mais nada. Em 57 minutos, o Real teve um único lance de perigo, o do segundo golo. O primeiro golo nem sequer se pode dizer que seja um lance de golo e só um erro infantil de Piqué o permitiu; resulta de um pontapé ao longo da linha, com o Ronaldo a receber, completamente desapoiado, de costas para a baliza, e que era fácil de defender, caso Piqué assim o tivesse desejado. Bastava ter dado a linha a Ronaldo desde início, e de não ter provocado o um para um. Quanto ao Barcelona, pelo contrário, teve 4 ou 5 ocasiões muito boas para marcar, e não o conseguiu fazer. Se o tivesse feito, em qualquer um desses lances, alguém acha que o jogo tinha sido o mesmo? O lance que definiu o jogo foi, pois, o lance do segundo golo. Definiu-o e é a melhor ilustração possível do que foi a partida. Analisemo-lo.

FC Barcelona - Real Madrid 57' Gol Cristiano... por realmadridplay

4 são os momentos do lance: um toque de calcanhar de Xabi Alonso, ao calhas, que faz a bola seguir para Khedira; um alívio sem nexo de Khedira que põe a bola na frente de Di Maria; um drible desajeitado e lento de Di Maria na sequência do qual se isola, porque Puyol escorrega; defesa de Pinto precisamente na direcção de Ronaldo, que não teve dificuldades para finalizar. A jogada define-se em 4 momentos, e em nenhum deles se pode dizer que os jogadores do Real tiveram qualquer espécie de mérito. Alguém acha que qualquer um destes 4 momentos se treina? Que qualquer uma destas coisas resultam de aprendizagem? Pedro Henriques falou da qualidade do passe de Khedira. Qualidade? Passe? Haja paciência! O alemão nem faz um passe, nem olha para onde vai pôr a bola. Miguel Prates, por sua vez, gabou a "decisão genial" de Di Maria. Decisão? Genial? Podia alguém ser mais imbecil? A jogada acabou com a eliminatória, pois o Barcelona passava a precisar de marcar 3 golos, mas, mais do que isso, ilustrou o que foi a partida: uma equipa a jogar futebol (menos bem, é certo, do que nos habituou), a criar oportunidades de golo (lance de Pedro e Messi a abrir; Fabregas falha o remate já dentro da área, sem oposição, em zona frontal, depois de um cruzamento da direita; livre directo de Messi a centímetros do poste; remate de Busquets à entrada da área para defesa de Diego Lopez e recarga de Fabregas evitada in extremis por Varane, e isto depois de dois remates dentro da área, de Xavi e de Iniesta, que batem em Sergio Ramos; remate de Iniesta, após pontapé de canto, na zona de penalty que bate em Sergio Ramos) e outra sem conseguir incomodar significativamente o adversário, que resolve a eliminatória após um erro de um defesa que raramente erra e após um lance absolutamente fortuito. Pelo que foram estes 57 minutos, há alguém honesto que consiga dizer honestamente que o Real Madrid fez por merecer esta vitória?

P.S.: Nem tudo é mau para o Real Madrid. Varane é um defesa extraordinário. Não, certamente, por aquilo que as pessoas gostam nele: a velocidade, o jogo aéreo, a virilidade, etc.. É extraordinário porque, apesar de não ser excepcional com bola, consegue aliar índices de concentração altíssimos e uma maturidade acima da média, para a sua idade, a uma inteligência notável na forma como interpreta os lances defensivos. Há um lance, hoje, que o define, e que devia servir de lição a Piqué. É no início da segunda parte. Messi recupera uma bola, vira-se e fica apenas com Varane e Sergio Ramos pela frente. Vendo que a ajuda vem a caminho (vêm 3 jogadores do Real atrás de Messi), Varane oferece literalmente a sua direita, onde faltava Arbeloa, obrigando Messi a seguir para lá. A partir daí o lance está ganho. Messi só tem aquela solução e a Varane basta acompanhar, à devida distância, o argentino, sabendo ainda que tem a cobertura do outro central à sua esquerda, caso Messi ainda passasse por ele. Muito provavelmente, se em vez de Varane fosse Pepe ou Sergio Ramos, a opção teria sido forçar o um para um, ou, quando muito, esperar pela decisão de Messi. E teriam assim aumentado as hipóteses de Messi ser bem sucedido. Varane antecipou a decisão do argentino e deu-lhe o lado antes de ele poder fazer alguma coisa. É assim que se defende um lance de uma para um, quer se tenha apoio, quer não. Se Piqué o tivesse feito, no lance do penalty, se tivesse tomado a decisão antes de Ronaldo o enfrentar, dificilmente o lance terminaria como terminou. Como no lance de Messi, Ronaldo não tinha apoio, e só poderia fazer estragos se desequilibrasse no um para um. A Piqué bastava não provocar o um para um, oferecer o seu lado esquerdo ao português, conduzindo-o para a linha de fundo, que a jogada, provavelmente, terminaria sem perigo.

P.S.2.: Há quem veja em dois maus resultados seguidos sinais inequívocos de que a forma de jogar do Barça mudou. Esquecem-se é de que, ainda há 2 semanas, no Barnabéu, só não ganhou um jogo em que cilindrou o Real porque falhou uma quantidade absurda de golos; esquecem-se é de que estão a fazer um campeonato melhor, em termos de pontos e em termos de produção ofensiva, do que em qualquer ano de Guardiola. O problema destas pessoas é interpretarem a qualidade geral da equipa, que não é muito diferente do que era, de acordo com um ou outro jogo ou até, o que é mais grave, de acordo apenas com um ou outro pormenor de um ou outro jogo.

domingo, 19 de agosto de 2012

Benzema, os Avançados, e a Ilusão dos Números

Não foi sem controvérsia que, após o desafio que opôs espanhóis a italianos, a contar para a primeira jornada da fase de grupos do europeu deste ano, José Mourinho declarou que a Espanha, jogando sem um avançado de raiz, tinha sido praticamente inofensiva. Tive oportunidade de dizer que as declarações de Mourinho não faziam muito sentido, sobretudo tendo em conta que o avançado, no seu Real Madrid, funciona de modo muito pouco convencional, e que tal parecia muito mais uma bicada a Guardiola do que propriamente algo em que acreditasse. Entretanto, a Espanha sagrou-se campeã europeia, e realmente só foi inofensiva quando jogou com um avançado. O equívoco de Mourinho é, porém, pouco pertinente, para o assunto deste texto, embora sirva para lançá-lo.

Quando Mourinho chegou a Madrid, Gonzalo Higuain foi a sua primeira escolha. O argentino garantia velocidade de execução, profundidade nas costas das defesas adversárias, e bastantes golos. Quando se lesionou, o francês Karim Benzema, até então suplente e pouco utilizado, assumiu a posição. O jejum de golos, e as críticas de que foi alvo, fizeram com que Mourinho fosse ao mercado, em Janeiro, e trouxesse Adebayor. Felizmente para Benzema, Adebayor não pareceu conseguir dar à equipa o que Higuaín dava, e foi então que se começou a perceber que Benzema, mesmo não marcando, permitia coisas ao Real Madrid que o avançado togolês não permitia. Mesmo sem os golos do francês, Mourinho apostou nele e o rendimento colectivo não se ressentiu. Por linhas tortas, percebeu o técnico português a dada altura, por exemplo, que, com Benzema em campo, o rendimento de Ronaldo era muitíssimo superior. Quando Higuaín voltou, esta variável tinha adquirido uma importância de tal modo extrema que o francês, mesmo não marcando tantos golos quantos o argentino, mesmo parecendo passar ao lado do jogo muitas vezes, nunca mais voltou a sentar-se no banco. Benzema, ao contrário de Higuaín, garante movimentos de aproximação, linhas de passe, qualidade técnica em espaços reduzidos. Isto permite ao Real um jogo mais apoiado numa fase adiantada no terreno, uma muito melhor competência entre linhas, e, acima de tudo, a desocupação da profundidade que permite a Ronaldo todas aquelas diagonais da esquerda para o meio. Por força da lesão do seu avançado de eleição, descobriu Mourinho que a sua equipa funcionava melhor com um avançado de características diferentes, um avançado que, acima de tudo, não fosse rigorosamente, no verdadeiro sentido da palavra, e em cada momento do jogo, um avançado.

Se houve coisa em que o Real Madrid melhorou, nesta segunda época, foi na competência em ataque organizado, no último terço do terreno. Ao contrário do que se passou na primeira época, em que a equipa apenas conseguia romper blocos defensivos densos através de lançamentos para as costas da defesa ou através de desequilíbrios individuais, o Real passou a conseguir fazer a bola entrar entre a linha defensiva e a linha média dos seus adversários, passou a conseguir atrair momentaneamente defesas para perto dos médios, quebrando as linhas defensivas com maior frequência, e passou a conseguir complementar isso com as entradas de terceiros (normalmente os extremos, e principalmente Ronaldo) nas costas das defesas. Tal competência só foi possível porque o avançado da equipa, o jogador responsável por jogar na jurisdição dos defesas centrais, não era um avançado cujas movimentações típicas pediam a profundidade, mas um avançado com características diferentes, capaz de vir dentro, de combinar com maior qualidade com os médios, e com maior apetência para segurar e tabelar do que para aproveitar as costas das defesas. Por ser o avançado que é, Benzema permitiu ao Real, enquanto equipa, que fosse mais competente. Com isso, não se terá notabilizado individualmente, em termos de golos, como naturalmente um avançado como Higuain se notabilizaria. Enquanto equipa, o Real Madrid de Mourinho melhorou, de uma época para a outra, principalmente porque passou a jogar com um avançado que não se comporta como a maioria das pessoas acha que os avançados se devem comportar.

De certo modo, portanto, a ligeira melhoria da equipa deveu-se à utilização de uma estratégia absolutamente idêntica àquela que o Barcelona de Guardiola, de forma provavelmente mais enfática, preconizou no ano anterior, uma estratégia que, para muitos, é o calcanhar de Aquiles dos catalães, e que, para muitos também, incluindo o próprio Mourinho, a fazer fé nas suas palavras, era o grande problema da selecção espanhola neste europeu. É verdade que Benzema é um avançado de raiz. Mas não foram os seus comportamentos de avançado típico que permitiram à equipa tal salto evolutivo; foram antes os mesmos comportamentos que qualquer médio, ou qualquer jogador que não jogue habitualmente como avançado, naturalmente exibe quando posicionado na frente de ataque. Apesar de ser avançado, foi por Benzema ter qualquer coisa de médio (se é possível falar assim) que o Real Madrid se tornou melhor equipa. Mourinho, mesmo que o não saiba, mesmo que o critique por naturalmente lhe lembrar o estilo do rival, deve boa parte do seu sucesso em Espanha a algo que, embora de modo mais radical e mais conscientemente, o Barcelona de Guardiola desde há muito procura idealizar.

Antes de terminar, queria desviar-me ainda do assunto principal deste texto, e reflectir um pouco sobre números. Como é sabido, acho que as estatísticas, em futebol, não só não valem nada como são, muitas vezes, enganadoras. No final da época passada, tentei argumentar que a semelhança entre os golos marcados por Real Madrid e por Barcelona não implicava competências ofensivas semelhantes, e tentei demonstrar que essa semelhança de golos se deveu a um final de época em que, sem a pressão de títulos que já não se podiam conquistar, havia objectivos individuais a atingir. Do mesmo modo, fui dizendo ao longo desta época que, apesar de ser o Barcelona, pelos pontos que ia perdendo, quem parecia estar menos consistente, era o Real quem, na verdade, tinha mais dificuldades para vencer os seus jogos. Obviamente, mantenho essa teoria. Para muita gente, não só o campeonato como os números apresentados no final da prova são testemunhos inequívocos do meu engano. Foi por isso que comecei este parágrafo por dizer que os números, além de não valerem nada, costumam enganar. Quem olhar para eles em bruto, naturalmente verificará que a equipa comandada por José Mourinho, além de ter tido mais 4 vitórias que o Barcelona, marcou também mais 7 golos (121 contra 114). Para esses, o Real é talvez mais competente, em termos ofensivos, do que o Barcelona. A minha opinião é de que essas pessoas estão enganadas. É que, apesar de ter marcado mais golos, e apesar de ter obtido mais vitórias, o Real Madrid teve mais dificuldades do que o Barcelona em vencer os seus jogos. Como é isto possível? É o que pretendo demonstrar de seguida.

 Ora, comecemos pelas vitórias. O Real Madrid somou 32 vitórias, contra 28 do Barcelona. Das 28 vitórias dos catalães, 22 começaram a ser construídas na primeira parte. Ou seja, a vantagem obtida na primeira parte não mais voltou a ser anulada. Significa isto que 79% dos jogos ganhos pela equipa de Guardiola começaram a ser ganhos logo de início. Dos restantes 6 jogos, 2 foram resolvidos antes dos 70 minutos, 3 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 1 apenas depois dos 80, mais concretamente o jogo contra o Atlético de Madrid, em que os madrilenos anularam a vantagem dos catalães a meio da segunda parte e obrigaram a um segundo golo aos 81 minutos. Quanto ao Real Madrid, das 32 vitórias, apenas 21 começaram a ser construídas na primeira parte. Significa isto que, ao contrário dos 79% dos catalães, só 66% dos jogos ganhos pela equipa de José Mourinho começaram a ser ganhos logo de início. Dos restantes 11, 6 foram resolvidos antes dos 70 minutos, 3 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 2 depois dos 80. Embora não totalmente claros, até porque uma vantagem de 1-0 desde o primeiro minuto não é bem uma vantagem segura, estes dados permitem desde logo perceber uma tendência: a equipa catalã teve menos dificuldades em resolver os seus desafios, e teve por isso menos necessidade de acelerar para marcar mais golos. Mas passemos agora aos períodos de tempo em que os golos foram marcados. A consistência do Barcelona de que falava anteriormente não poderia ficar melhor espelhada do que na consistência com que os marcou em todos os períodos de tempo. Dos 114 golos, marcou 58 (51%) na primeira parte e 56 na segunda. Na segunda parte, marcou 21 entre o minuto 45 e o minuto 70, 19 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 16 depois dos 80. Ou seja, o Barcelona não teve períodos mais fortes e períodos mais fracos. Foi uma equipa consistente, com o mesmo grau de eficácia em todos os períodos das partidas, quer os adversários estivessem mais frescos ou mais cansados, quer o cronómetro se aproximasse do fim ou não. Já dos 121 golos do Real Madrid, marcou 51 (42%) na primeira parte e 70 na segunda. Na segunda parte, marcou 37 entre o minuto 45 e o minuto 70, 13 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 20 depois dos 80. Ou seja, o Real Madrid foi claramente mais concretizador nas segundas partes dos jogos, tendo especial apetência por marcar ora no reatamento da partida, ora nos últimos 10 minutos. Como comprova a análise destes números, a equipa de José Mourinho foi muito menos consistente do que o Barcelona, e, apesar de mais golos e mais vitórias, teve maiores dificuldades em superar os seus desafios. Podíamos ainda fazer outro tipo de análises. Dos 79 golos que o Barcelona marcou antes dos 70 minutos, só 27% foram marcados entre os 45 minutos e os 70. Já dos 88 do Real, 42% foram marcados nesse período. Dos 35 golos que o Barcelona marcou depois dos 70, 46% foram marcados depois dos 80. Já dos 33 do Real, 61% foram marcados nesse período.

Dividi a segunda parte em três períodos de tempo desiguais propositadamente, porque tinha a impressão de que era nos últimos vinte minutos que o Real Madrid mais marcava. De facto, assim não é, e a equipa marcou tanto como no resto da segunda parte. Apesar disso, marca muito mais nos últimos dez minutos do que nos penúltimos, e isso deve ser levado em conta. No fim-de-semana em que recomeça a Liga Espanhola, é bom que se tenha consciência destas diferenças. O título da época passada, muito mais do que da qualidade apresentada, dependeu essencialmente do sacrifício e da força de vontade. Naqueles jogos em que a qualidade não chegou, foram esses os factores desequilibradores. Foi isso que fez a diferença, e foi por isso que o Real marcou mais e resolveu mais jogos na segunda metade das partidas do que o Barcelona. Ao contrário dos catalães, cuja qualidade ímpar lhes permitiu serem consistentes ao longo da época, o Real de Mourinho teve, muitas vezes, de fazer das tripas coração para vencer os seus desafios. Para compensar a menor qualidade, teve de sustentar as suas vitórias no desgaste dos adversários, na força de vontade da própria equipa, e em índices de concentração muito difíceis de manter sem motivações extraordinárias. De certo modo, a equipa excedeu-se nas segundas partes dos jogos porque a motivação de vencer um campeonato a este Barcelona era altíssima. Foi esse o factor decisivo. Para isso contribuiu também o facto de Mourinho raramente ter rodado a equipa, de ter apresentado quase sempre o seu melhor onze, e de ter contado com pouco mais do que 15 ou 16 jogadores. Numa época com mais lesões, tal seria impossível de realizar. Na época que agora começa, nem a motivação deverá ser a mesma, nem a improbabilidade de realizar uma época com tão poucas lesões se deve repetir. Embora o Real Madrid tenha melhorado, da primeira para a segunda época, no aspecto particular a que me referi acima, a qualidade geral do seu jogo continua a léguas da qualidade geral do jogo catalão. Uma série de factores, alguns deles difíceis de controlar, contribuíram para que pudesse sagrar-se campeão. Veremos de que modo se regenera agora.

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Melhor Equipa do Mundo

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho eliminou o Barcelona, publicou o Entre Dez um texto em que defendia a equipa blaugrana. Não o fez por despeito, mas porque, apesar da eliminação, a equipa manteve a sua identidade, a sua honra, e jogou o melhor que pôde, não vencendo apenas por manifesta falta de sorte. Hoje, após a eliminição ante o Chelsea, repete-se o exercício. No final do jogo, as estatísticas deram 27% de posse de bola ao Chelsea. As estatísticas estão erradas. Desconheço quais os critérios para medir a posse de bola, mas o Chelsea não teve nem 20% de posse. Como é óbvio, a posse de bola não justifica nada, e muitos poderão dizer que o Barça não soube materializá-la em oportunidades. Mas isso também é falso. O Barcelona teve, nada mais, nada menos, do que oito oportunidades claras de golo, ao longo do jogo. Os postes, Petr Cech, e a sorte, protegeram o Chelsea.

Ao longo da partida, Luis Freitas Lobo foi gabando a estratégia do Chelsea. Há cinco anos, Luís Freitas Lobo percebia qualquer coisa de futebol. Hoje em dia é acéfalo. Não sei o que terá acontecido entretanto, mas a verdade é que não sabe o que diz. Há-de haver uma explicação clínica. Aliás, quando o Barcelona fez o primeiro golo, disse Luís Freitas Lobo que estava reposta a lógica na eliminatória. Como é que ele pode dizer isso, quando defendeu que o Chelsea tinha merecido o resultado da primeira mão? Luís Freitas Lobo diz aquilo que os resultados exigem que diga. Se o Barcelona tivesse marcado mais do que o Chelsea, diria que o Barcelona jogou bem, e que vencera a eliminatória quem mais merecera. Como não foi o que aconteceu, foi o Chelsea que mais mereceu. Repito: isto é conversa de gente com problemas na cabeça. Os resultados são o que são, mas nem sempre espelham o que se passa em campo. E o que se passou em campo, nesta eliminatória, foi que o Barcelona esmagou o Chelsea. "Estratégia" é saber defender para atrair o adversário, e depois lançar os ataques. Defender com nove jogadores dentro da área não é "estratégia". É fé. E, às vezes, porque o jogo dá-se a isto, a fé pode vencer a competência. Foi o que aconteceu. Em condições normais, o Barcelona venceria a eliminatória com a facilidade com que venceu o Bayer Leverkusen. Acontece que, juntando-se várias anormalidades (13 oportunidades claras de golo, e apenas 2 golos; 4 bolas nos postes; 3 oportunidades de golo do adversário e 3 golos sofridos; erros de Mascherano), uma eliminatória em que uma equipa esmagou a outra acabou por permitir que a equipa esmagada passasse à final. Pode acontecer. Não é muito normal, mas pode acontecer.

Há que notar que, assim que Fernando Torres marcou o golo do empate, que punha um ponto final na eliminatória, os adeptos entoaram, em coro, o hino do Barcelona. Não sei se não será algo inédito num campo de futebol. Desconfio que sim. É costume dizer que, em Inglaterra, os adeptos aplaudem a equipa mesmo quando esta perde. Isso acontece principalmente porque os adeptos são, na sua grande maioria, estúpidos. Aplaudem porque notam que a equipa se esforçou. Não reparam que, apesar do esforço, jogaram miseravelmente. Hoje, em Camp Nou, os adeptos aplaudiram por outra razão. Aplaudiram porque o orgulho na sua equipa é tanto que supera a frustração de não marcar presença na final de Munique. Isso é inédito. E só podia ser alcançado num clube com um projecto deste tipo, e com um modelo de jogo que, mesmo nos jogos em que o resultado não é favorável, deixa a certeza de que se jogou o melhor que era possível. Hoje, o Barcelona foi derrotado, principalmente porque o futebol permite que o melhor seja derrotado. Mas venceu de outra maneira, novamente. E é por ter vencido dessa maneira que é seguro que seja novamente o principal favorito a conquistar o troféu na época seguinte. Sim, o Barcelona não vai revalidar o título de campeão europeu. Mas continua a ser a melhor equipa do mundo. De longe.

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho derrotou o Barça, apontaram-se defeitos à equipa, apontaram-se erros a Guardiola, etc.. O Entre Dez optou por outro discurso, o mesmo por que opta agora. O Barcelona perdera porque, mesmo sendo o melhor, às vezes perde-se. A terceira época de Guardiola mostrou que tínhamos razão. Apesar de ter sido derrotado, continuava a ser a melhor equipa do mundo, e continuava a ser a equipa que melhor jogava, e que melhores condições reunia para ganhar as competições que disputava. Hoje, que se repetiu o azar de o Barcelona não passar à final da Liga dos Campeões, repetem-se as razões, e repetem-se as nossas previsões. Trata-se da melhor equipa do mundo, da única equipa de que tenho conhecimento que conseguiu aterrorizar o mundo do futebol. Para mim, por exemplo, este é o melhor ano, em termos de qualidade de jogo, da era Guardiola. Aceito que, defensivamente, a equipa não tem estado tão bem como já esteve, embora muito por culpa pelas ausências sistemáticas de Piqué e Abidal. Mas, ofensivamente, foi o ano em que a equipa melhor jogou. Duvido que a maioria das pessoas que me lêem consigam perceber o que digo, sobretudo porque a equipa não vai ganhar o que ganhou noutros anos, mas é assim que penso. Em termos de jogo, a equipa aprendeu a desenvencilhar-se de situações mais difíceis, e tornou-se ainda mais confortável a jogar da maneira que joga. Se, noutros anos, havia equipas que conseguiam dificultar o trabalho aos jogadores catalães, este ano não houve uma única que o conseguisse.

E o Real Madrid, no passado fim-de-semana? Tenho lido várias coisas acerca do jogo de Camp Nou que o Real ganhou, e continuo sem perceber a análise das pessoas. O Real ganhou como o Chelsea ganhou: porque teve sorte. E a sorte, por vezes, protege quem menos faz por ela. Era difícil de prever que o Barça tivesse azar três vezes seguidas, mas aconteceu. Teve azar, e teve o Mascherano em campo. A primeira oportunidade do Real Madrid, no sábado, foi a do segundo golo, aos 70 e tal minutos. Depois, tem outra mesmo a acabar, numa altura em que, aí sim, já havia algum desnorte dos catalães. O Barcelona, mesmo não tendo jogado bem, teve 4 oportunidades flagrantes de golo (uma de Dani Alves, uma de Xavi, e duas de Tello). Somando isso ao facto de os dois golos do Real terem sido precedidos de falta (para não falar no fora-de-jogo no primeiro golo), como é que se pode ser hipócrita ao ponto de dizer que o Real venceu de forma justa e foi a melhor equipa em campo? Ou estão mal habituados, tanto é o domínio dos catalães, ou são, pura e simplesmente, desonestos. Guardiola e Iniesta têm razão no que dizem: o Barcelona não jogou tão bem como é costume, é verdade, mas ainda assim foi superior ao Real Madrid e foi a equipa que mais fez por vencer. A haver um vencedor justo, esse tinha de ser, obviamente, o Barcelona. Mas, como o futebol não se faz de justiça, o Real ganhou. Como hoje o Chelsea ganhou. Acontece.

Por fim, gostaria ainda de falar de Mascherano. Tenho batido na mesma tecla, mas acho que tenho de fazê-lo novamente. Mascherano já tinha sido o responsável no golo sofrido frente ao Milan. Frente ao Chelsea, foi o responsável directo pelos dois golos (não conto o de Fernando Torres, que ocorre numa altura em que o Barça tentava tudo por tudo para apertar o cerco ao Chelsea). Em Stamford Bridge, reage mal ao lance e invade o espaço de Puyol, em vez de oferecer uma cobertura, e quando se apercebe não se reposiciona bem, não cortando a linha de passe possível para Didier Drogba. Em Camp Nou, é ele quem sai da sua posição para ir perseguir Lampard até à linha de lateral, abrindo um buraco desnecessário no centro da defesa que Busquets não conseguiu cobrir a tempo. Frente ao Real, é ele quem falha a cobertura no lance de Ronaldo. É verdade que Adriano vai fechar ao meio quando tinha Busquets ao seu lado, melhor posicionado para o fazer, e isso permite que a bola entre em Ozil. Mas, indo a bola para a linha, Mascherano só tinha que bascular. Além de não perceber o que Ozil ia fazer, que era óbvio, estava praticamente a meio do meio-campo, a mais de 20 metros de Busquets, que é quem sai ao alemão. Se, no meio-campo, é o que é, a defender, por ter menos bola, sempre pareceu o argentino um estorvo menor. O que é certo é que, a jogar com três defesas, a equipa fica mais exposta, e as carências intelectuais de Mascherano mais visíveis. O Barcelona também pagou por isso, e é bom que Guardiola o perceba. Aliás, com Piqué em campo, desconfio que o Barcelona estaria neste momento na final de Munique, e o Real em pânico por estar com um ponto apenas de avanço no campeonato. Às vezes, também é tão simples quanto isto.

Quando se fala, por isso, em passagens de testemunho, e em mudanças de ciclo, apetece dizer às pessoas para terem juízo. Quando virem uma equipa a ser capaz de vergar outra como o Barcelona faz sistematicamente com os seus adversários, ou quando virem uma equipa a ser, por pouco que seja, superior aos catalães no terreno de jogo, aí, sim, atirem foguetes. É que, até à data, o Barcelona ainda só perdeu competições por questões acidentais, e ainda não jogou um único jogo, com quem quer que seja, em que se pudesse dizer honestamente que o adversário foi superior. Há coisas que têm de ser revistas, nomeadamente o reforço do sector defensivo, mas não tenho dúvidas de que a equipa de Guardiola continuará a ter a hegemonia que teve até aqui. E é sobretudo disso que se trata, quando se defende esta maneira de jogar. É que, mesmo perante dois ou três desaires sucessivos, fica sempre a sensação de que é impossível acontecer muitas mais vezes o que aconteceu esta semana.

terça-feira, 27 de março de 2012

O Coice de Ronaldo

Tinha pensado escrever sobre o assunto na altura, há coisa de um mês, mas a falta de tempo acabou por impedir que o fizesse. Acontece que o próprio Cristiano Ronaldo escolheu recentemente o golo que resultou desse mesmo lance como o mais bonito que marcou ao serviço do Real Madrid. Não podendo deixar passar esta segunda oportunidade, serve este texto para distinguir um grande golo de um golo fortuito, uma genialidade de um coice. Falo, claro está, do golo de Cristiano Ronaldo no terreno do Rayo Vallecano, que na altura garantiu mais três pontos à equipa de José Mourinho.

O espanto com a definição do lance tem sobretudo a ver com a imprevisibilidade do seu desfecho. E é por aqui que começo. De facto, ninguém esperava que Ronaldo, de costas, sem se virar, tentasse alvejar a baliza. Por si só, a imprevisibilidade é, obviamente, uma grande arma. Na minha opinião, no entanto, essa imprevisibilidade só deve ser alvo de admiração se de facto lhe corresponder algo genial, algo que surpreendesse o adversário fosse qual fosse o desfecho. O que estou a tentar dizer é que não é a imprevisibilidade do desfecho que merece reconhecimento, mas a imprevisibilidade da acção em si. E, honestamente, o golo de Ronaldo só gerou admiração porque a bola, realmente, entrou na baliza. Se não tivesse entrado, como seria o mais provável, a tentativa não seria senão um disparate de todo o tamanho.



Disse Ronaldo que "foi o que deu para fazer no momento e felizmente deu tudo certo". Para ser honesto, sim, há que reconhecer a parte da felicidade. É que, em 100 lances iguais, dificilmente o resultado seria o mesmo. Além de que não era bem tudo o que dava para fazer no momento. Após um canto, a bola acaba por sobrar para Ronaldo que, de costas para a baliza, e com meia-equipa do Rayo Vallecano atrás de si, se lembra de tentar, ainda assim, fazer golo. Ao seu lado, bem melhores colocados, tinha Pepe e outro colega. Mesmo achando que um passe naquela zona encontraria oposição, poderia sempre conservar a bola, esperar por um apoio mais sólido, por um colega em melhores condições. Ronaldo não pensou assim. Pensou que teria mais sucesso dando um coice na bola e entregando o lance aos caprichos dos deuses; pensou que, mesmo com cinco ou seis jogadores no enfiamento do lance, um coice tinha boas probabilidades de levar a bola a entrar na baliza. É óbvio que não tinha. É óbvio que tomou uma má decisão. E é óbvio que a bola só entrou porque teve toda a sorte do mundo. Às vezes acontece. O que não dá é para eleger um golo de coice, totalmente fortuito, como "um golo muito bonito".

Isto das más decisões tem obviamente muito que se lhe diga. Para aqueles que não lhes dão importância, o que interessa é que a bola entrou, o que interessa é que o resultado dessa decisão, por imprevisível, foi bonito. O problema dessas pessoas é a importância excessiva que dão ao resultado das acções, e não às acções em si. A probabilidade de aquele coice dar golo era baixíssima. Diria até que a probabilidade de aquele coice dar golo era mais baixa do que se Ronaldo tivesse dado um pontapé na direcção de Casillas, de modo a iniciar nova jogada de ataque do Real. No entanto, deu golo. Será isso motivo de aplauso? A meu ver, não. Da mesma forma que um autogolo não é festejado como um grande golo, um golo fortuito também o não deveria ser. Mas como foi de calcanhar, como ninguém esperava aquilo, transformou-se uma banalidade num lance de génio. Ronaldo não foi genial; foi disparatado. Acontece que em futebol, por vezes, um disparate é facilmente confundido com uma genialidade.

O golo de Ronaldo garantiu a vitória do Real Madrid, em mais um jogo francamente mau do Real Madrid. Como em muitos outros jogos desta época, o Real voltou a vencer sem fazer o suficiente para isso. O próprio Mourinho reconheceu que o resultado mais justo, nessa partida, teria sido o empate. Aliás, já nos descontos, o Rayo Vallecano desperdiçou um lance óptimo para empatar a partida, com um avançado a falhar a emenda a menos de um metro da linha de golo, sem ninguém pela frente. O coice de Ronaldo é pois a melhor imagem possível de muito do que tem sido a época do Real Madrid. É verdade que, em muitos jogos, o Real jogou bem e mereceu vencer. Ainda no passado fim-de-semana, frente à Real Sociedad, mereceu amplamente o resultado obtido. Mas as exibições da equipa não foram minimamente regulares, ao contrário do que o ciclo de vitórias consecutivas sugeria. Em muitas ocasiões, o Real venceu apenas porque sim, porque os adversários falharam em momentos chave, porque os árbitros ajudaram, porque as vicissitudes do acaso estiveram do seu lado, porque, substituindo-se à inspiração, um coice qualquer fez entrar uma bola que não entraria de outro modo.

Já o disse várias vezes, e volto a dizê-lo: acho difícil que uma equipa, sobretudo num campeonato como o espanhol e com um adversário como o Barcelona, consiga ser campeã dependendo tanto e tantas vezes de factores como estes, mas a verdade é que, quando o Real venceu esse jogo (na altura, mantendo a distância de dez pontos), pensei que talvez aquele coice fosse o sinal de que, esta época, tudo os protegeria. Como é evidente, há sempre excepções à regra, e se, depois de ganhar vários jogos que não merecia, até com um coice o Real evitava perder dois pontos, talvez fosse prudente reconhecer que, este ano, mesmo não o merecendo, o ceptro iria para Madrid. Algumas semanas depois, porém, o Real começou a perder os pontos que deveria ter começado a perder há muito mais tempo. Em mais dois jogos em que não fez absolutamente nada para sair vencedor, eis que viu a vantagem emagrecer para 6 pontos (sabendo ainda que tem de ir a Camp Nou). Se, na altura, aquele coice me fez pensar que este ano nada os faria cair, agora já não tenho tantas certezas. Sendo verdade que o Barcelona tem no próximo fim-de-semana, entre dois jogos europeus difíceis com o Milan em 6 dias, a recepção sempre perigosa ao Athletic de Bilbao, o calendário do Real Madrid até à deslocação à Catalunha é muito mais complicado: deslocação a Pamplona para defrontar o Osasuna, actual sexto classificado (onde o Barça, por exemplo, perdeu), recepção ao Valência, e deslocação ao Vicente Calderón, três dias apenas depois do jogo com o Valência, para enfrentar um Atlético de Madrid muitíssimo agressivo, desde que Diego Simeone tomou o comando da equipa. A menos que mantenha a vantagem actual de 6 pontos até ir a Camp Nou, o que implicaria passar com distinção em qualquer um dos jogos acima referidos, o campeonato está agora longe de estar decidido. Mais do que nunca, até porque o Real terá ainda de ir a Bilbao, a equipa de Mourinho precisa de coices como o do jogo com o Rayo Vallecano para continuar a ser o principal favorito à vitória final. O mês de Abril será, para essas contas, certamente decisivo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma Crise ou um Desejo?

Se, por um lado, o recente distanciamento entre os dois principais candidatos ao título em Espanha tem motivado os disparates habituais daqueles que têm por santo protector José Mourinho, suscitou, por outro, a ideia de que o Barcelona se encontra em crise. Para quem não vê os jogos, e olha apenas para os resultados, talvez seja esta a impressão que dá. Para aqueles que se acham muito espertos e que perdem horas a fio a tentar perceber o jogo, é no mínimo inaceitável que pensem desse modo. Falar em crise interna é absurdo, precisamente porque os resultados negativos dos catalães são relativamente fáceis de explicar. Começo pelo recente jogo em Pamplona, diante do Osasuna. Num campo com aquelas condições, a vantagem que o Barcelona tem em qualquer jogo por trocar a bola com facilidade entre as linhas adversárias fica imediatamente posta de lado. Num terreno em que era praticamente impossível jogar ao primeiro toque com o mínimo de segurança, o Barcelona não pôde exercer o seu habitual jogo de posse com a mesma qualidade. Se juntarmos a isso o facto de Xavi, Iniesta, Fabregas e Busquets não terem alinhado, ficamos praticamente com a explicação de que precisamos. Sem estes, o meio-campo do Barça, que é o sector mais importante no modelo da equipa, não podia necessariamente ter o mesmo rendimento, sobretudo em termos de criatividade. Juntemos a isto a ausência de Keita, na Taça das Nações Africanas, e temos que Guardiola teve de fazer alinhar Mascherano no meio-campo, pela primeira vez esta época. O argentino não só compromete incrivelmente em termos ofensivos, como é uma nulidade em termos posicionais, e teve responsabilidades directas em todos os golos sofridos. Significa isto que o Barcelona está em crise?

Para mim, a diferença no campeonato (que estará praticamente ganho pelo Real), pode ser facilmente explicada, sem recorrermos à ideia de que há alguma crise. Principalmente porque não há crise nenhuma. A explicação não é linear, obviamente, mas ainda assim fácil de obter. Veja-se o tempo de utilização dos jogadores. No Real, Mourinho raramente mexeu no seu onze. Guardiola tem optado por outra estratégia. Callejon, Altintop, Granero e Nuri Sahin, por exemplo, têm menos minutos de utilização do que Isaac Cuenca, que seria, à partida, apenas a quinta opção para as alas. Christian Tello, Sergi Roberto, Jonhattan dos Santos e Gerrard Deulofeu têm sido presença praticamente assídua na convocatória. As lesões de Villa, Afellay, Pedro, Xavi, Fabregas, Iniesta e Busquets têm, evidentemente, possibilitado que assim seja. Mas o importante é que Guardiola não tem forçado os mais conceituados a jogar sistematicamente. Faz isto com que, ao fim de alguns jogos, o Real consiga manter a consistência, e o Barça não. Agora, falar de crise quando os maus resultados do Barcelona foram quase sempre obtidos em jogos em que se verificaram muitas ausências parece-me estúpido.

No campeonato, o Real encarou cada jogo como uma final, e não facilitou minimamente. Pôde dar-se a esse luxo por várias razões: porque não teve, tirando Ricardo Carvalho e, mais recentemente, Di Maria, lesões em jogadores fulcrais (no Barcelona, Afellay, Villa e Pedro praticamente ainda não jogaram; Piqué e Puyol passaram os primeiros dois meses de competição parados ou a adquirir ritmo; Alexis, Fabregas, e Iniesta já tiveram lesões que os obrigaram a parar várias semanas; Xavi tem sido gerido a pinças; Keita esteve um mês ausente), porque o grupo da Liga dos Campeões era ridiculamente acessível, e até porque foram eliminados da Taça do Rei (os últimos 5 pontos que o Barça perdeu foram em jogos três dias antes ou três dias depois de compromissos a meio da semana para a Taça do Rei). O Real apostou forte no campeonato, e tem conseguido manter-se na frente, muitas vezes com vitórias alicerçadas numa força de vontade francamente assinalável. O Barcelona já ganhou 2 competições, continua na Taça, e acabou por perder pontos importantes no campeonato. Não há crise nenhuma. Há pontos decisivos perdidos, que a juntar à campanha praticamente imaculada do Real explicam tudo.

Para os que acreditam na ideia de uma crise, o conselho que dou é que vejam os jogos do Barcelona, e não apenas os resultados ao domingo à noite. E lembrem-se também de que era de crise que se falava há quatro anos, quando o Barcelona (na altura no primeiro ano de Guardiola) somou apenas um ponto nas primeiras duas partidas na liga. Se tivessem visto os jogos nessa altura, como se vissem os jogos agora, pensariam talvez duas vezes antes de falar em crise. Eu, que vi os jogos todos do Barcelona esta época, ainda não vi um único jogo em que os catalães não merecessem a vitória. Um único. Ainda não vi um jogo em que a equipa não conseguisse encontrar maneiras de resolver os seus problemas, um único jogo em que pudesse dizer que o adversário tivesse conseguido manter os catalães desinspirados e longe das imediações da sua baliza, como por exemplo o Hércules conseguiu em Camp Nou o ano passado. Repito, ainda não vi um único jogo em que o resultado não devesse ser favorável à equipa de Guardiola. Como é óbvio, houve jogos menos bons, jogos em que a equipa se "pôs a jeito", jogos em que facilitou. Nesses jogos, ao contrário do que aconteceu com o seu rival, o Barcelona perdeu pontos. Mas, em todos eles, tal como perdeu pontos por um ou outro detalhe, podia facilmente não os ter perdido, e era até isso o mais provável. Aconteceu frente à Real Sociedad, por exemplo, em que a seguir a uma primeira parte de domínio absoluto, com 2-0 ao intervalo, a equipa entrou para a segunda parte desconcentrada, acabando por consentir o empate. Aconteceu contra o Getafe e contra o Osasuna, em que o estado do relvado não ajudou. Aconteceu também contra o Atlético de Bilbao, debaixo de uma tempestade que fez com que o jogo não fosse fácil de jogar. Mas, em qualquer um destes jogos, mesmo tendo o Barcelona jogado menos do que poderia, jogou mais do que o suficiente para vencer.

Tal não se pode dizer, por exemplo, do Real Madrid, que chegou já a golear em jogos em que, francamente, nem empatar merecia. O futebol é assim mesmo, e o que é facto é que a equipa de Mourinho tem sabido contrariar a pouca inspiração que tem denotado em muitos jogos com uma força de vontade e uma mentalidade incríveis. Se me perguntassem, diria que não acreditava que uma equipa conseguisse ganhar sistematicamente tendo como principal arma uma mentalidade vencedora, mas a verdade é que o Real, que em alguns jogos até tem apresentado bastante qualidade, tem vencido muitos apenas pelo "querer". Perdi mesmo já a conta dos jogos em que o Real arrancou a perder, fez uma primeira parte miserável, e acabou por dar a volta na segunda, sem apresentar um grande futebol, mas com uma força anímica muito grande. Foi assim com o Levante, este fim-de-semana, por exemplo, se bem que ter ficado a jogar contra dez ajudou. Tal e qual foi o jogo com o Atlético de Madrid, em que goleou, é verdade, mas em que, até aos 20 minutos (antes do golo do empate e da expulsão do guarda-redes colchonero) estava a ser completamente manietado e perdia por 1-0. Há duas semanas, com o lanterna vermelha Saragoça, em casa, podia facilmente ter perdido pontos, tal foi o mau futebol que apresentou. Frente ao Maiorca, igual: começou a perder, a jogar muito mal, e acabou por dar a volta na segunda parte, já perto do final, quase só pelo esforço. Frente ao Atlético de Bilbao, levou mesmo um banho de bola (o golo do 2-1 é obtido na sequência de duas faltas evidentes, e a seguir ocorre mais uma expulsão, o que permite ao Real voltar a golear). Aliás, a quantidade de jogos que a equipa tem resolvido após expulsões de adversários também ajuda a explicar a regularidade das vitórias. Frente ao Valência, mais um jogo em que o Real não conseguiu ter o controlo e venceu quase miraculosamente, depois de um jogo magnífico dos comandados de Unai Emery. Frente ao Espanhol, venceu por 4-0, mas passou o jogo a sofrer, com a equipa catalã sempre muito melhor, em quase todos os momentos do jogo. Bastava o Real ter perdido pontos nalguns destes jogos menos conseguidos para que agora o campeonato continuasse em aberto, e não se falasse agora em crise no Barcelona. Como, apesar de o Barcelona continuar a controlar muito melhor as suas partidas do que o Real, acabou por ter deslizes que os madrilenos não tiveram, e que se explicam principalmente porque nem tudo é controlável num jogo de futebol, acha-se que os pontos que o Barcelona perdeu demonstram que a equipa tem estado pior no campeonato. Pois não tem. Tem estado bem melhor do que o Real Madrid, até. Simplesmente, tem tido lesões que os madrilenos não têm tido, tem feito uma gestão de esforço que os outros não têm feito, tem tido infortúnios, etc.. E tudo isso são detalhes suficientes para que exista uma distância pontual que não condiz com a qualidade de jogo que as duas equipas têm apresentado.

Por fim, queria ainda chamar a atenção para duas coisas. O Real está empenhadíssimo em vencer o campeonato, e é muito difícil a uma equipa como o Barcelona, que ganhou tudo o que havia para ganhar nos últimos tempos, ainda por cima de forma categórica, manter os índices de concentração tão altos como no passado. Em certos momentos isolados dos jogos (início e final das partidas, após uma vantagem dilatada, etc.), a equipa tem denotado algum relaxamento. Em termos de concentração competitiva, neste momento, o Real Madrid é superior, o que não é nada de extraordinário. A meu ver, esse tem sido o principal factor para que a equipa de José Mourinho tenha mantido a regularidade de vitórias. No Barcelona, quando muito explicará um ou outro deslize, como o que aconteceu ante a Real Sociedad. O que quero com isto dizer é que esse é um factor circunstancial, que advém do facto de o Real estar há muito tempo sem vencer o campeonato, do facto de não conseguir vencer o Barcelona, e do facto de querer recuperar a dignidade perdida. Estas circunstâncias permitem a campanha da equipa. Sem elas, o Real é o mesmo Real do ano passado, com o mesmo tipo de problemas ao nível da qualdidade do jogo: trata-se de uma equipa fortíssima do ponto de vista individual, muito bem trabalhada em transição, mas com problemas a nível de organização ofensiva (acho que tem melhorado nos últimos tempos, e a meu ver porque Kaká e Granero têm jogado mais, em detrimento de Khedira, Lass e Di Maria). Em organização, o Real já tenta mais penetrações pelo meio, e já privilegia mais o toque curto e o passe vertical, mas continua a não ser capaz de invadir blocos baixos com facilidade. A sua força, neste momento específico do jogo, tem sido essencialmente a alma guerreira da equipa, assim como a qualidade individual dos seus jogadores.

Uma última coisa, apenas a respeito da gestão do plantel. Guardiola, mesmo numa época em que o Real Madrid não tem cometido erros, não tem tido quaisquer problemas em lançar vários jovens: Cuenca, Tello e Sergi Roberto, principalmente, já para não falar de Thiago. Tratam-se de jovens com qualidade, mas que, se não tiverem a oportunidade de jogar com o mínimo de regularidade, nunca se afirmarão. Isto para dizer que, ao contrário de Mourinho, que está principalmente interessado em engordar o currículo, em vencer no presente, Guardiola tem de juntar às ambições presentes a ideia de clube e de futuro que não preocupa o português. A curto prazo, isso pode ter ajudado a custar este campeonato ao catalão, mas dará certamente dividendos no futuro. Também por isso, não posso deixar de presenteá-lo com o meu largo aplauso pela coragem. E, acima de tudo, é mais uma lição para clubes que acham que apostar na formação é apenas arranjar maneira de ter os melhores miúdos do bairro a jogar pelos seus escalões mais jovens. O Sporting, acima de qualquer outro clube em Portugal, deveria aprender com o que Guardiola está a fazer em Camp Nou. A sede de títulos não pode nunca pôr em causa a ideia de futuro de um clube, e se há jovens com potencial para servir esse clube, esses jovens devem ser lançados sem medo, mesmo que, a curto prazo, a equipa se ressinta dessa aposta. O futuro desses jovens, e o contributo que darão à equipa, justificará certamente o risco.

Para finalizar, agora sim, não concordo, de maneira nenhuma, que se associe aos resultados internos do Barcelona uma crise. Esses resultados têm explicação fácil, e qualquer pessoa justa que tenha visto os jogos das duas equipas que lideram o campeonato dirá que a qualidade que os catalães têm apresentado em campo continua a ser bem superior. Significa isto que o Barcelona, podendo não vencer este campeonato, continua a ser a melhor equipa do mundo, a larga distância dos outros, e continua a ser o principal candidato a ganhar tudo o resto. A única coisa em que o Real de Mourinho tem sido superior tem sido na determinação em vencer. E isso, desculpem-me o cepticismo, é muito pouco. As pessoas que falam em crises têm teorias acerca das oscilações de forma das equipas. Mas até nisso este Barcelona é diferente de todas as outras equipas, no presente e no passado. É que não houve nunca uma equipa que estivesse tão imune a crises, a oscilações de forma, a perdas de motivação, como esta. Tem isso a ver, também, com o próprio modelo de jogo, que exige dos jogadores uma concentração que outros modelos não exigem. Pode haver momentos de descontracção pontuais, mas não há, nem nunca houve, e, arriscaria, não haverá tão depressa, uma perda de motivação ou de concentração significativa que faça com que a equipa fique mais perto de perder os seus desafios. Não há crise nenhuma na Catalunha. Há, talvez, isso sim, um desejo enorme fora dela de que essa crise de facto exista. Infelizmente, para os que a desejam, estão equivocados. Mesmo perdendo uma ou outra competição, ainda demorará algum tempo para que a hegemonia de Guardiola e dos seus pupilos possa realmente ser posta em causa.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Sorte e os Problemas Digestivos

Sou o primeiro a reconhecer que a sorte desempenha um papel muitas vezes decisivo numa partida de futebol, e sou também o primeiro a dizer que aquilo que muitas vezes parece competência tem muito mais a ver com sorte do que com outra coisa. Não é raro uma equipa dominar um jogo, fazer tudo bem feito, mas não ser capaz de marcar, e sofrer um golo por um escorregão, ou por um ressalto impróprio. Em futebol, a sorte é muitas vezes negligenciada, e é muitas vezes o factor chave no desfecho de um jogo. Como dou tanta importância à sorte, sempre acreditei num modelo de jogo que procurasse depender o menos possível das incidências da mesma. Esse modelo, está claro, passa necessariamente por ter mais tempo a bola, por jogar o mais curto possível, com os jogadores próximos, por abdicar da vertigem de um jogo de transições constantes, pela paciência, pela calma, pela frieza e pelo raciocínio. Em suma, um modelo que, nos dias que correm, o Barcelona de Guardiola tão bem põe em prática. E é sobretudo por acreditar que um jogo jogado nestas coordenadas se defende o melhor possível desse factor a que se chama "sorte" que discordo inteiramente das observações de José Mourinho no final da partida do passado fim-de-semana, que explicou o resultado do clássico dizendo que fora a sorte a ditá-lo.

Os argumentos de Mourinho dizem sobretudo respeito aos golos falhados por Ronaldo, quando estava 1-0 a favor dos merengues e quando estava 2-1 a favor dos catalães, e ao segundo golo do Barcelona. Não sei muito bem se faz sentido falar em sorte e não em aselhice ou em falta de pontaria, no primeiro caso. De qualquer maneira, justificar a derrota baseando-se em dois golos falhados, quando o Barcelona teve o triplo das oportunidades para marcar, não me parece que faça muito sentido. Sim, Ronaldo poderia ter feito o 2-0. Mas se Ronaldo falhou um golo que, no entender de Mourinho, faria com que a partida, com 2 golos de vantagem para os da casa, se tornasse diferente, minutos antes Casillas tinha livrado o Real do golo do empate, após lance de Messi. Se Mourinho falasse do falhanço de Ronaldo, mas se lembrasse da defesa de Casillas, a partida não ficava assim tão diferente quanto isso. Se Ronaldo falhou o 2-1, numa cabeçada a responder a um cruzamento, que por si só não é um lance de execução tão fácil como isso, quantos lances não tinha já o Barcelona tido para ampliar a vantagem? E se pode Mourinho justificar a derrota recorrendo a falhanços ofensivos, é legítimo ignorar que chegou à vantagem após um erro não-forçado do guarda-redes adversário? É engraçado que se justifique a derrota deste modo quando o único golo que se conseguiu se deveu unicamente a um lance infeliz do adversário, um lance em que não só há um mau passe a propiciar a recuperação da bola numa zona perigosa, como dois ressaltos que favorecem claramente os merengues. Enfim, por aqui me parece plausível sugerir que as observações finais de Mourinho não foram proferidas num total bem-estar digestivo.

Mas falemos do lance do segundo golo do Barcelona, lance que, no entender de Mourinho, determinou o resultado e que foi fruto unicamente da sorte. Disse Mourinho que não houve talento, que não houve competência, que não houve erros defensivos, que a bola entrou apenas porque a sua equipa teve azar. Bom, em primeiro lugar, não é nada certo que Casillas fosse capaz de defender o remate de Xavi, caso a bola não desviasse no defesa do Real, enganando-o. Mas o importante do lance parece-me estar antes do desvio decisivo em Marcelo. Esquece-se Mourinho, e esquecem-se aqueles que concordam com ele, de que o lance nasce após a insistência, tão habitual nos catalães, de entrar no bloco adversário recorrendo a tabelas curtas, colocando os jogadores próximos uns dos outros; esquece-se de que o alívio de Coentrão, que leva a bola até Xavi, é forçado pela excelência do lance em si, e que, sem esse alívio, Fabregas ficaria isolado na cara de Casillas; esquece-se de que a bola sobra para uma zona onde o Barcelona, pela forma como joga, tem constantemente superioridade numérica; esquece-se de que o Barça, nessa jogada, envolve 7 jogadores no processo ofensivo (Abidal, Fabregas, Iniesta, Alexis, Daniel Alves, Messi e Xavi), com 5 jogadores para lá da linha da grande área e outros 2, Messi e Xavi, logo à entrada dela; esquece-se, no fundo, de que tudo o que precede o desvio decisivo é fruto da excelência do modelo catalão, e é, por conseguinte, fruto de talento, competência individual e qualidade colectiva. Sorte? Sim, mas antes de haver sorte há todo um conjunto de condições que propiciam o aparecimento dessa sorte. Não é por acaso que os jogadores catalães parecem ganhar mais ressaltos que os outros, deixando jogadores como Fábio Coentrão com os nervos em franja. Jogam mais juntos, posicionam-se melhor, e, por arrasto, protegem-se melhor da contingência da sorte.

Outra das coisas que explica o sucesso catalão, e que explica também por que razão falar de sorte, neste caso, não é legítimo, é o que fez Valdés ao longo do jogo. O seu erro, na sua primeira intervenção, foi decisivo para o Real ganhar vantagem, mas nem por isso se atemorizou. Continuou a arriscar, a procurar os colegas, mesmo quando o passe envolvia perigos, porque desse risco depende muito do jogo catalão. Guardiola foi claro: prefere que Valdés insista em fazer aquilo, mesmo havendo a possibilidade de isso originar erros decisivos. E prefere que se cometam erros assim porque não o fazer implica comprometer todo o jogo da equipa. O Barcelona, mesmo oferecendo um golo dessa forma, não mudou a sua identidade; manteve-se fiel aos seus princípios e procurou jogar como sempre joga, sabendo que só assim é superior. O golo de Xavi e o domínio catalão dependeram desse tipo de insistência muito mais do que dependeram da sorte. A sorte criou-a o Barça, ao jogar como joga. Na primeira parte, não foi capaz de ser tão dominador como é costume, e errou muitos passes (embora mais por intranquilidade do que por acção do adversário). Mas a segunda parte foi avassaladora. Sorte? Pelo que aconteceu na segunda parte, sorte teve o Real de o resultado não ser mais expressivo e de a humilhação em sua casa não ter sido maior.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mourinho e a Pré-História

Como espectáculo, a Supertaça de Espanha foi emotiva e disputada; como jogo de futebol, foi uma partida de fraca qualidade, com muita precipitação, muito choque, uma equipa claramente abaixo das suas capacidades físicas e outra a roçar o absurdo, em alguns aspectos. Enfim, para muitos, terão sido mais dois grandes duelos. Para mim, foi a confirmação de que o Real de Mourinho dificilmente beliscará a hegemonia do Barcelona de Guardiola nos tempos mais próximos. É quase unânime que o Real esteja cada vez mais forte, e cada vez ameace mais o domínio blaugrana. Pessoalmente, acho isso um disparate. Acho que a estratégia é cada vez mais primitiva e depende cada vez mais ou da desinspiração do adversário, ou da leviandade da arbitragem, ou da sorte.

Já a época passada parecia notar-se a tendência para aquilo de que vou falar de seguida, mas estes dois jogos foram bem mais elucidativos a esse respeito. No mesmo dia, portanto, em que um treinador pré-histórico apurou uma selecção portuguesa para uma final de um campeonato do mundo, provando que o futebol é, de facto, o desporto dos pobres, Mourinho, provavelmente o treinador que mais revolucionou a profissão que exerce, e provavelmente o treinador que mais fez pela modernização dos treinadores portugueses, voltou à Pré-História. Não vi ainda ninguém referi-lo - o que me choca, de algum modo - mas a estratégia do Real Madrid, nos dois jogos, passou por uma marcação homem a homem (sim!, homem a homem) no campo todo. É verdade que não havia acompanhamentos ao longo de todo o campo, e que havia permutas de marcação quando um jogador entrava no espaço de um colega, mas a estratégia passou por haver um jogador madrileno em cima de um catalão, em qualquer zona do campo. Tem sido gabada a pressão alta que o Real Madrid impôs, mas não se tem percebido em que tem consistido. A pressão consiste em encostar, um a um, em cada um dos adversários. Isto não é pressão; é estupidez. E só pareceu dar alguns frutos porque os jogadores do Barcelona, em largos momentos da eliminatória, deram a impressão de ainda estarem de férias.

Este tipo de jaimepachequice tem uma virtude, se é que se pode chamar a isto virtude: potencia os confrontos individuais e, quando uma equipa é (ou está) fisicamente muito superior à outra, pode ter efeitos. De facto, se há altura da época em que o Real Madrid podia, com esta estratégia, vencer o Barcelona, era agora. É no início da época que a diferença de agressividade é mais relevante, pelo simples facto de os indíces físicos de uma equipa que assenta a sua ideia num jogo técnico, nesta altura da época, não lhes permitir explorar todo o seu potencial. Sem capacidade para fazer das suas armas uma mais-valia, perante a agressividade do adversário, o Barcelona concedeu assim mais perdas de bola do que é hábito. É coisa, porém, que não se repetirá no futuro, quando a equipa estiver melhor preparada do ponto de vista físico. O que estou a defender é que a estratégia do Real aparentou ser boa porque a altura da época assim o propiciou. Mas, mesmo tendo-o propiciado, não foi suficiente, o que por si só é até irónico.

Sempre que a pressão homem a homem que o Real exercia conseguia evitar que o Barcelona saísse a jogar, roubando a bola em zonas altas, o Real parecia conseguir ameaçar os catalães. Mas sempre que não o conseguia, sempre que os catalães, pondo o seu jogo de passe curto em acção, conseguiam sair da primeira zona de pressão, o que tinham a seguir era um amontoado de jogadores completamente desorganizados. Por norma, o Barcelona trabalha os seus ataques, lateraliza, especula, etc. Contra um Real Madrid completamente desorganizado, preocupado em marcar homem a homem, sempre que um jogador catalão se soltava, fruto da dinâmica colectiva, ou fruto de uma acção individual, ficava com uma auto-estrada à sua frente, bastando à equipa um ou dois passes para criar uma situação de perigo. Estando a equipa fisicamente no seu melhor, este tipo de coisas tenderá a acontecer mais vezes, e arriscaria a dizer que, entrando Mourinho com esta estratégia no próximo jogo, o mais provável é sair goleado outra vez. O lance mais paradigmático é aquele em que Messi, estorvado já por Pepe, finaliza descaído para a esquerda, com boa intervenção de Casillas. A forma como Messi fica com uma avenida à sua frente, no corredor central, com Pepe e Sergio Ramos, os últimos dois homens, abertos a toda a largura do campo, demonstra bem a falta de organização defensiva da equipa neste último jogo. Sempre que o Barcelona conseguiu soltar um jogador, o Real passou mal, pois teve de ajustar marcações e estava constantemente onde os jogadores do Barcelona queriam que estivesse. Se o resultado não foi mais desnivelado e se o Real pareceu sempre capaz de disputar o resultado, tal deveu-se - como já disse - ao facto de o Barcelona não estar ainda num momento em que consiga potenciar essas situações.

No melhor livro sobre futebol escrito em português, é Mourinho quem é o herói da coisa. Nuno Amieiro, defendendo um conceito de zona que considero absolutamente certeiro, exemplifica por norma com o Porto de Mourinho. Bem sei que as pessoas gostam da versatilidade de Mourinho, mas abdicar de um princípio que lhe foi tão caro desde sempre, e que lhe fez até a fama, é das coisas menos nobres, para não dizer estúpidas, que podia fazer. Percebo a necessidade de, a cada pontapé de baliza catalão, fazer cair um jogador em cada um dos centrais, e outro no médio-defensivo que entra no meio, de modo a evitar que o Barça comece a construir logo desde trás, mas fazer um acompanhamento directo a cada uma das individualidades catalãs, ao longo de todo o campo, não é nunca a melhor forma de tentar parar o Barça. Nem mesmo com a impunidade sobre a violência das entradas. É que basta uma distracção, ou que um catalão consiga desembaraçar-se individualmente do seu opositor, para que toda a estratégia deixe de ter sentido. Em termos defensivos, o Real foi tacticamente uma desgraça, pois os jogadores estavam posicionados onde havia jogadores catalães e não onde deveriam. Mas a verdade é que toda a gente gabou a forma como a equipa da capital conseguiu manietar o Barcelona. É por estas e por outras que afirmo que as pessoas não vêem os jogos; ouvem os barulhos e vêem cores e traços no ecrã que depois interpretam de modo aleatório.

Antes de terminar, um pormenor a que não se prestou atenção. Ao vir para a segunda parte, o Barcelona passou a bater os pontapés de baliza para a frente, abdicando de sair a jogar. Para quem diz que Guardiola não tem versatilidade, eis um exemplo de como estão errados. Apercebendo-se de que a capacidade ofensiva do Real dependia exclusivamente das bolas que conseguia roubar em zonas altas, e percebendo que a sua equipa não está numa fase da equipa em que consiga superar a agressividade dessa pressão, e que estava a ter dificuldades para ultrapassar essa primeira zona de pressão e começar a construir, Guardiola, em vantagem, ordenou que os pontapés de baliza fossem batidos para o meio-campo. Com isto, até pode ter permitido ao Real ganhar quase todas as primeiras bolas, e até pode ter facultado a bola ao adversário, mas preveniu-se contra o único modo de perder o desafio. É que, com bola, o Real nunca teve clarividência para superar a equipa catalã, estando esta organizada defensivamente. Na segunda parte, tirando lances de bola parada, o Real não foi ameaçador. E não o foi porque deixou de poder contar com o único meio pelo qual estava a sê-lo: a recuperação da bola em zonas altas, apanhando o adversário desorganizado. Para aqueles que consideram Guardiola demasiado agarrado aos seus ideais, ficou a boa resposta; do banco, percebeu onde estava a força do adversário, e abdicou de um dos princípios que lhe é mais caro para poder contrariá-la.

P.S. Que mais é preciso que Pepe faça para que alguém decida que está na hora de bani-lo do futebol? Se há cães que vão para abate por serem demasiado perigosos, por que razão não há matadouros para gente como ele? Estão à espera que parta os dentes a quem? Ao Messi? Sem exagero algum, nos últimos 6 duelos entre as duas equipas, Pepe fez o suficiente para ser expulso, no mínimo dos mínimos, 20 vezes. E o atrasado mental do Pedro Henriques, a comentar o jogo, ainda conseguiu ver, num lance em que o Pepe só olha para o Piqué, e voa direito a ele com o cotovelo armado, que o Busquets é que empurrou o Pepe na direcção do central catalão. Haja paciência para tanta imbecilidade!