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terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Legado de Luis Enrique e outras coisas

1. O Fim de uma Era

Quando a época passada terminou, e o Barça de Luis Enrique conquistou os três principais títulos, tive o ensejo de escrever um texto que, por vários motivos, acabei por nunca escrever. O que queria ter dito na altura e não disse é o que, muito abreviadamente, direi agora. O Barça ganhou tudo e, para muitos, voltou ao domínio do futebol europeu. A minha opinião é ligeiramente diferente: o Barça ganhou tudo, e perdeu finalmente a hegemonia que teve na última década. Pode parecer um contrassenso, mas creio que as conquistas do ano passado são o ponto final de uma era que começou com a chegada de Guardiola ao clube. O futebol da equipa de Luis Enrique já não tinha muito a ver com aquele que Guardiola preconizava (e que Tito Villanova e Tata Martino, mal ou bem, mantiveram), e o sucesso desse futebol significa a ruptura decisiva com o passado. Correndo o risco de parecer incoerente, uma vez que defendo que esse futebol já não tinha muito a ver com a da grande equipa de há uns anos, acho que muito desse sucesso se deve ao que os jogadores aprenderam com Guardiola: muito do que seria o trabalho do treinador é dispensado pelo que os jogadores, em termos colectivos, ainda retêm dessa altura. O mérito de Luis Enrique nas conquistas da equipa é, aliás, muito reduzido. Além de um conjunto de jogadores que cresceram a fazer uma série de coisas que agora fazem de olhos fechados, contou com jogadores que, do ponto de vista individual, fizeram toda a diferença. Para dizer de outro modo, o Barcelona ganhou tudo como poderia ter perdido tudo e como várias equipas ganham tudo. Jupp Heynckes ganhou tudo pelo Bayern há uns anos, e não me parece que lhe deva ser dado um mérito especial. Há sempre alguém que tem de ganhar, e o ano passado calhou ao Barcelona. Ao ganhar desse modo, como ganharia qualquer outra equipa, o Barça voltou a ser uma equipa normal. E a hegemonia que teve, e que continuava a assustar toda a gente, acabou. Por outras palavras, foi a melhor equipa dos últimos dez anos, mas arrisco-me a dizer que não será a melhor dos próximos. Se o impacto de Guardiola se viu até ao ano que passou, culminando com o triplete de Luis Enrique, o impacto de Luis Enrique ver-se-á daqui a 5 anos, quando o Barça for uma equipa banal.

2. A Lesão de Messi

Há um pormenor que costuma ser negligenciado quando se fala nas conquistas europeias: as lesões. Os dois anos em que Guardiola não ganhou a Champions quando ao serviço do Barcelona foram pautados por lesões relativamente longas ou recorrentes de jogadores importantes: Ibrahimovic, Iniesta, Villa, etc.. A equipa de Luis Enrique teve um ano praticamente imaculado, a esse nível, e isso também foi decisivo. Foi-o, de modo evidente, na forma como pôde superar o Bayern de Guardiola, fustigado por lesões, mas foi-o também ao longo de toda a época. Não houve lesões de grande duração em nenhum jogador importante, e isso permitiu à equipa manter os seus índices de produtividade. Que o tenha sido não me parece, de modo nenhum, irrelevante. Repetir a sorte de uma época sem lesões é praticamente impossível, e creio que isso ditará um ano bem mais modesto em termos de conquistas. A primeira lesão importante aconteceu este fim-de-semana, e ainda não se sabem bem as consequências dela. Apesar de ser preferível perder Messi nesta altura, dois meses (mais um mês ou dois até recuperar o melhor ritmo) é tempo suficiente para que o Barça perca terreno, por exemplo, no campeonato. Messi, aliás, foi decisivo nos jogos decisivos da época passada, e o principal responsável pelo sucesso de Luis Enrique nas provas a eliminar (em vários jogos da Champions, concretamente contra o Bayern, e na final da Taça do Rei, por exemplo). Sem Messi, o Barça de Guardiola era só a mesma equipa menos o seu melhor jogador. Sem Messi, o Barça de Luis Enrique vale menos de metade.

3. Xavi e Iniesta

Apesar de ter perdido a titularidade a época passada, Xavi foi quase sempre utilizado por Luis Enrique. Quando jogava de início, o Barça era quase sempre melhor, apesar de praticamente ninguém conseguir ver isso. Quando entrava, a equipa passava automaticamente a jogar melhor. Ainda que em final de carreira, aquele que foi, muito possivelmente, o melhor jogador de sempre, no que diz respeito à tomada de decisão, mantinha uma influência incrível, e só aqueles que acham que o futebol requer os melhores atletas não eram capazes de percebê-lo. Como o futebol é dominado por essa gente, tornou-se praticamente consensual que a era de Xavi no Barça chegara ao fim. Tenho para mim que não foi só a era de Xavi que terminou. Com Xavi, foi-se também a melhor equipa de sempre. Aliás, restam dessa equipa poucos jogadores: Dani Alves, Piqué, Busquets, Iniesta e Messi. Com a saída de Xavi (e a de Pedro), a somar-se às saídas em anos anteriores de Thiago Alcântara e Fabregas, por exemplo, o futebol de toque curto, mais pensado do que corrido, chegou ao fim. O próprio Iniesta, se virmos bem, é um autêntico órfão em campo. Messi tem capacidades atléticas (e idade) que lhe permitem adaptar-se a um estilo de jogo diferente, e o entendimento com jogadores mais vertiginosos torna-se fácil. Iniesta não as tem, e o seu futebol eclipsa-se a cada dia que passa. Não quero ser mal entendido: esse futebol não se eclipa por  Iniesta já não ter capacidades físicas para mantê-lo vivo, mas porque já não está rodeado de colegas a quem interessa jogar o mesmo jogo. Cada jogador é aquilo que o rodeia. E Iniesta deixou de estar rodeado dos mais inteligentes. O Barça de Luis Enrique já não é o Barça de Xavi e Iniesta. Em tempos, num lance que não consigo situar (imaginava, erradamente, ter sido o lance em Old Trafford que permitira a Paul Scholes fazer o golo que eliminou o Barça nas meias finais da Champions de 2007/2008), Xavi falhou um passe decisivo à entrada da área por tê-lo feito sem perceber antecipadamente se o colega a quem passava a bola estaria à espera de recebê-la. Ninguém me compreendeu, porque para quase toda a gente não se deve passar a bola antes de olhar a ver se lá está o colega. Xavi, ao falhar esse passe, antecipava o Barcelona de Guardiola. Antecipava-o na medida em que antecipava aquilo que o Barcelona de Guardiola permitia a todos os jogadores, e em especial ao próprio Xavi: jogar de olhos fechados e passar sem precisar de perceber se o colega vai estar onde deve estar. Xavi passou a bola, nesse dia, para onde devia estar o colega. Só que o colega não estava lá porque não tinha sido ensinado a perceber antecipadamente onde Xavi queria que ele estivesse. O Barcelona de Guardiola fez-se sobretudo disto: todos pareciam saber com antecedência suficiente as intenções dos colegas. Numa equipa assim, ninguém superava Xavi. Tinha sempre mais passes que toda a gente, percorria sempre mais metros do que os outros. Sem bola, dava mais opções ao portador do que qualquer outro colega. Com ela, era sempre o mais eficaz, optasse pelo passe curto ou pelo passe longo. Agora que a equipa de Xavi e Iniesta já não existe, a única boa notícia é que estão os dois (especialmente Xavi) mais próximos de se tornarem treinadores de futebol.

 4. As Inconsistências e os Estúpidos

Quando, na segunda época de Guardiola, Ibrahimovic marcou 16 golos na Liga Espanhola em 2034 minutos (num total de 21 golos em 3285 minutos jogados em todas as competições), quase toda a gente concluiu que tinha sido uma má época do sueco. Apressaram-se então a dizer que falhara na Catalunha, ainda que o seu contributo para a manobra ofensiva do Barça tivesse sido inestimável, e que Guardiola se equivocara ao contratá-lo. Guardiola e Ibrahimovic não parecem ter-se entendido às mil maravilhas, é verdade, mas duvido que o rendimento do sueco tenha sido o problema. Guardiola começava a perceber que precisava de colocar Messi numa posição central, e Ibrahimovic não parecia disposto a jogar noutra posição. A saída de Ibrahimovic do clube pareceu dar razão àqueles que defenderam o mau investimento, e o principal argumento foi sempre aquele que os estúpidos mais depressa invocam: os números. Ora, os números de Ibrahimovic nessa primeira época são praticamente os mesmos que os de... isso, acertaram: Luis Suarez! Suarez fez, a época transacta, os mesmos 16 golos em 2180 minutos na Liga Espanhola (num total de 25 golos em 3535 minutos em todas as competições). Em média, Suarez marcou menos golos por minuto jogado na Liga Espanhola do que Ibrahimovic. Com quatro agravantes. A primeira é a de que o Barça de Luis Enrique, enquanto equipa, fez mais 12 golos do que o de Guardiola nessa época, o que significa que Ibrahimovic fez 16,3% dos golos da equipa e Suarez apenas 14,5%. A segunda é a de que, apesar de ter começado a jogar mais tarde, Suarez nunca se lesionou, o que fez com que nunca tivesse quebras de rendimento, coisa que não aconteceu com Ibrahimovic, que esteve constantemente a recuperar de lesões. A terceira é a de que, além dos golos, Suarez não ofereceu mais nada à equipa, o que também não foi o caso com Ibrahimovic, cujo envolvimento com o colectivo foi muito importante. A quarta é a de que Luis Suarez foi bem mais caro do que Ibrahimovic. Tudo somado, até para aqueles que gostam de apoiar os seus argumentos nos números, é impossível defender que Ibrahimovic tenha feita uma má primeira época e  que Suarez tenha feito uma boa época. Mas - surpresa das surpresas - é exactamente isso que é defendido de modo generalizado! Suarez é hoje tido como um dos elementos mais importantes da equipa catalã, está eleito entre os três melhores jogadores da temporada passada, e há sobre ele uma opinião generalizada muito favorável. Não é impressionante que assim seja. A maior parte das pessoas baseia as suas opiniões no que ouvem dizer e o que ouvem dizer é geralmente o que não interessa ouvir. Neste caso, Suarez é tido como uma grande contratação porque o Barça ganhou a Champions e porque Suarez é aquele tipo de avançado do qual se condescende porque é aguerrido. Não tem metade da qualidade de Ibrahimovic, não fez metade do que Ibrahimovic fez em Barcelona e, como se demonstra, nem sequer marcou mais golos do que Ibrahimovic. O futebol continua a ser dos estúpidos, e os estúpidos continuam a fazer-se ouvir a outros estúpidos. Um dos avançados mais sobrevalorizados da actualidade já pode dizer que foi eleito para melhor jogador do mundo; o melhor avançado da história do jogo nunca chegou a sê-lo, e provavelmente já não virá a sê-lo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Histeria em torno de André André e o que isso diz de Lopetegui

Mais irritante do que a cacofonia do nome é a histeria em torno das qualidades futebolísticas de André André, estrondosa nas últimas semanas e após o clássico deste fim-de-semana. Para Luís Freitas Lobo, por exemplo, André André é um jogador extraordinário. Mas pronto, para Freitas Lobo o Benfica de Rui Vitória também é uma equipa com as linhas muito mais juntas do que o Benfica de Jesus e Gonçalo Guedes também é um jogador que pensa o jogo a cada instante. Há que dar a condescendência devida aos parvos, e Freitas Lobo não é excepção. Quanto a André André, enfim, pode apenas dizer-se que é o exemplo mais recente da estupidez com que se olha para um campo de futebol. De tempos a tempos, surgem estes casos absurdos de jogadores sem o mínimo de talento que entusiasmam plateias inteiras. Tem tudo aquilo de que as bancadas gostam: é raçudo, vai a todas, corre que se farta, é voluntarioso, joga com amor à camisola e, ainda por cima, é filho de uma antiga glória do clube. No meio disto tudo, uma pessoa até se esquece de que o que era realmente giro era se tivesse talento. André André não tem talento. É um médio de combate, razoável do ponto de vista técnico, e útil em alguns momentos de um jogo. Não é nem médio para jogar entre linhas, que é como acreditam que deve jogar, nem médio para acrescentar alguma coisa à equipa em organização ofensiva, nem médio para jogar em zonas com pouco espaço. André André não tem um pingo de criatividade. Executa rápido, é verdade, mas apenas considera uma possibilidade. A sua decisão é sempre a mais óbvia, e pode apenas ter alguma utilidade, no passe, em momentos do jogo em que há muito espaço e pouca coisa a considerar. Os treinadores continuam a teimar em médios deste género, e continuam a acreditar que este tipo de jogador tem espaço em equipas que passam a maior parte do tempo em organização ofensiva. É pena, porque o futebol moderno, dados os bons exemplos que se foram acumulando nos últimos anos, já mostrou que não é com músculo, vontade e entrega ao jogo que se constroem equipas competentes. André André é uma espécie de Raúl Meireles. Se este já apanhou uma fase da evolução do jogo em que já não deviam apostar nele, dado aquilo que se começava então a exigir a um médio de ataque, André André aparece numa altura em que só por estupidez se pode achar que a organização defensiva adversária se desfaz com gente que corre muito, toma decisões muito rápidas e disputa cada lance como se fosse a coisa mais importante do mundo. André André é o típico médio de que se gostava muito há 15 anos. Sempre que aparecem jogadores deste tipo, fico com a sensação de que não se percebe o quanto o jogo evoluiu entretanto. 

Quanto a Lopetegui, sempre me pareceu o típico treinador que, tendo sido educado, enquanto treinador, numa escola futebolística que o conduz à posse e ao futebol apoiado, possui a tentação secreta de ser um treinador à antiga. Este início de campeonato desfez finalmente todas as dúvidas. As suas equipas só não são equipas dos anos 80 porque o talento o vai disfarçando. Este ano, porém, parece realmente apostado em recuar às origens. Não é só os extremos sistematicamente abertos, as variações de flanco cada vez mais constantes, o privilégio pelas alas, a distância absurda entre jogadores e a previsibilidade com que a equipa ataca; é também o tipo de meio-campo que está a tentar construir. O ano passado, o meio-campo ofensivo do Porto era muito criativo. Quando não jogavam Oliver ou Herrera, os dois titulares, jogava Evandro, que tem bastante qualidade. E Brahimi tinha liberdade suficiente para vir para terrenos interiores, sem bola, para criar superioridade numérica por dentro e para deixar a largura e a profunidade a cargo do lateral. Este ano, além de ter saído Oliver e ter entrado Imbula, que não tem nem um terço da qualidade do espanhol e vem claramente sobrevalorizado, Herrera saiu do onze e Evandro nem conta. E Bueno, onde anda? O meio-campo do Porto, com Imbula e André André (já para não falar de Danilo), não sabe pausar o jogo, não sabe assumir a posse e não tem capacidade para desmontar linhas defensivas através de trocas de bola e penetrações frontais. Com este meio-campo, o futebol do Porto consiste sobretudo em fazer a bola chegar à linha, para que Brahimi, Corona, Varela e Tello desequilibrem individualmente, e em meter muita gente na área (os médios correm a direito, tendo por missão aparecer o mais possível junto ao ponta de lança, essencialmente a pensar em cruzamentos, em passes em profundidade para as costas da defesa e em segundas bolas). Apesar da qualidade individual do Porto, que me parece ser superior à de qualquer um dos rivais, este género de ideologia será fatal a Lopetegui.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Futebol do Tottenham de Pochettino

O treinador mais interessante da Premier League chama-se Mauricio Pochettino. O adepto normal, assim como o comentador enfebrecido, têm porém os escrúpulos domesticados pelas opiniões vulgares dos que acreditam que a diferença entre o futebol e o halterofilismo é haver uma bola. O tom depreciativo com que os comentadores da Benfica TV falam do Tottenham de Pochettino, por exemplo, é absurdo. No ano passado, quando as coisas não corriam bem, passavam os jogos a sugerir que o treinador argentino viera descaracterizar o futebol inglês. Convencidos de que o futebol inglês é genuíno e de que em terras de Sua Majestade é que se joga a sério, tais comentadores viam o estilo da equipa londrina como uma aberração. Não é preciso muito para mostrar o quão errados estão. O futebol inglês, no seu todo, leva uns 30 anos de atraso; as competências colectivas da maior parte das equipas são pouco mais do que rudimentares; o futebol praticado é horrível, do ponto de vista da criatividade e da inteligência, e só provoca emoções naqueles que não sabem que emoções devem ter; as equipas inglesas, como se demonstra pelos fraquíssimos resultados que continuam a averbar na Europa, não têm capacidade para ombrear com as equipas europeias. Ao contrário do que pensam tais comentadores, o futebol inglês precisa de ser descaracterizado. Precisa, portanto, de mais Pochettinos. Quando as coisas começaram a correr bem ao Tottenham, quando aquele mesmo futebol, que era motivo de escárnio apenas por não obter os resultados que depois veio a obter, passou a ser eficaz, os mesmos comentadores tiveram certamente de engolir alguns sapos.

A segunda época de Pochettino à frente dos londrinos começou, de novo, menos bem, e logo os mesmos comentadores voltaram a fazer-se ouvir. Durante a primeira parte do jogo deste fim-de-semana com o Sunderland, todos os elogios eram dirigidos para os contra-ataques adversários, para a velocidade imprimida por Lens e Defoe. O Tottenham jogava organizado, de pé para pé, com qualidade, procurando atrair para desmarcar, insistindo em desfazer as linhas adversárias com paciência, invadindo o espaço entre linhas e sem pressa de chegar a zonas de finalização. À medida que o tempo ia passado e o nulo inicial não se alterava, os comentadores iam sentindo cada vez mais necessidade de exprimir a sua repugnância por um futebol que não compreendem e julgam errado. Entre outras coisas, afirmavam com desdém que Pochettino tinha "alergia aos extremos" ou que a história e a tradição de uma equipa como o Tottenham impunha outro estilo de jogo. Ora, é muito difícil explicar a tartarugas que "alergia a extremos" é possivelmente o melhor sintoma que podiam verificar actualmente num treinador de futebol. Hoje em dia, convencionou-se que qualquer equipa tem de abrir o seu jogo atacante, que deve usar extremos velozes, fortes no um para um e úteis em momentos de transição. Para a maior parte das pessoas, ter dois extremos deste género em campo é a única forma de provocar desequilíbrios, no futebol moderno. Ora, a maioria das pessoas não percebe nada de futebol. Não sendo contra a utilização de extremos, sou contra a ideia de que os extremos servem para este género de tarefas. É por isso que considero que um treinador que tem orçamento para contratar alguns extremos capazes de desequilibrar e não o faz, um treinador que dispensa os seus extremos (Lennon) ou não os utiliza com regularidade (Towsend), é um treinador que percebe que, ofensivamente, a equipa deve privilegiar soluções colectivas em detrimento de soluções individuais. Ser alérgico a extremos é sintoma de quem percebe que uma equipa é muito mais do que as individualidades que a compõem, e é por isso que Pochettino, ao contrário do que pensam aqueles que não percebem nada de futebol, é muito melhor treinador do que a maioria dos treinadores ingleses.



Não vi a segunda parte do jogo, mas dava muita coisa para ter presenciado a reacção dos energúmenos que comentavam o jogo quando o Tottenham chegou ao golo, já perto do fim do jogo. É que o golo dos londrinos é fruto justamente da insistência no tipo de futebol que esses comentadores não compreendem, no tipo de futebol que dispensa a utilização de extremos velozes a quem entregar a bola assim que é recuperada para que estes forcem os desequilíbrios na defesa adversária. O Tottenham joga preferencialmente pelo centro do terreno, colocando muita gente no meio, e insistindo em passes verticais que servem para desmontar as linhas adversárias e para aproveitar o espaço entre elas. E este golo é o melhor exemplo da utilidade desse futebol. Um toque de Lamela para Mason, o passe vertical deste para Kane, que dá de primeira em Lamela, que entretanto tinha arranjado espaço, fruto do desinteresse em si que a bola motivou, e o passe de Lamela a solicitar Mason no espaço libertado pelo central que foi atrás de Kane foi tudo o que bastou. Três jogadores e quatro passes chegaram para desmontar as linhas defensivas do adversário. Com passes curtos, tabelas e triangulações, o futebol é muito mais eficaz do que com os tão elogiados extremos que correm a direito e provocam desequilíbrios individuais. Os comentadores desportivos, sem grandes excepções, continuam a não perceber isto e continuam, semana após semana, a dizer disparates. O jogo continua a evoluir, mas aqueles que ganham a vida à custa do futebol insistem em falar do jogo que os seus avós lhes ensinaram a ver. A inteligência é uma coisa bonita, mas é quando permite aos homens aprender que aquilo que aprenderam não é válido para sempre.

domingo, 7 de junho de 2015

Pirlo e Xavi

Nos últimos 15 anos, o futebol foi-se tornando, gradualmente, um jogo de médios como estes dois. Com Andrea Pirlo, o futebol mundial aprendeu que os médios-defensivos não precisavam de ser, como até então se julgava, jogadores de competências essencialmente defensivas. O futebol mundial aprendeu, e o futuro precipitou-se. Nenhuma equipa de topo, hoje em dia, tem como médio-defensivo um cão de guarda., e nenhuma equipa de topo que queira ganhar alguma coisa poderá voltar a pensar em ganhar tendo médios que saibam apenas andar atrás dos adversários. Devemos isso a Andrea Pirlo. Um grande jogador vê-se sobretudo no modo como antecipa o futuro da modalidade. Ainda que não pareça haver qualquer relação entre as duas coisas, a revolução de Guardiola não teria sido possível sem Pirlo. Não é por acaso, de resto, que Guardiola quis juntar (e esteve pertíssimo de consegui-lo) Pirlo a Xavi e Iniesta, como conta o italiano na sua biografia. Pirlo é o precursor dessa fabulosa equipa de médios, e o verdadeiro precursor do futebol moderno. É também, em boa verdade, o precursor de Xavi Hernandez, cujo futebol se tornou  perfeito apenas quando Guardiola pegou na equipa e lhe entregou a batuta.

Xavi é o médio mais perfeccionista de sempre. Quando o futebol se tornou, acima de qualquer outra coisa, um jogo de decisões, foi ele quem melhor mostrou como se jogava esse novo jogo. Nenhuma revolução se faz de um dia para o outro, e Xavi herda anos de evolução na Catalunha e herda também aquilo que, por exemplo, Pirlo andava a mostrar há alguns anos. Quando finalmente pôde pôr em prática tudo isso, mudou o jogo para sempre. Fez parte da melhor equipa de todos os tempos, ganhou tudo e mais alguma coisa, mas o seu principal legado são as decisões acertadas. Ninguém, como ele, conseguiu acertar tanto, estar tanto em jogo, receber tanto e passar tanto como ele. Quando Guardiola saiu de Barcelona, pensava-se que aquele futebol tinha acabado, e que o futuro era de equipas que jogavam de modo diferente do seu Barcelona. Não é assim que as coisas se processam. O futebol, como muitas outras coisas, evolui. Tal como nunca mais será possível haver grandes equipas com médios que não saibam jogar à bola, também não voltará a ser possível ganhar continuadamente sem uma equipa que se caracterize pelas boas decisões. A evolução pode não ser linear, pode haver precalços e pequenos retrocessos, mas é irreversível.

Andrea Pirlo é o rosto do futebol do século XXI e Xavi Hernandez a sua alma. Quis a História que terminassem as suas carreiras (ao mais alto nível, pelo menos) no mesmo estádio, na mesma final, disputando o melhor dos troféus, defrontando-se um ao outro e, o que é espantoso, ainda jogando a um nível altíssimo. A admiração mútua é talvez o maior destaque desta final, e é por ela que nenhum dos dois saiu realmente derrotado de Berlim. Pirlo e Xavi mudaram o futebol, e ambos reconheceram a importância do outro nessa mudança. Não é todos os dias que dois campeões deste calibre, com esta personalidade e admirando-se mutuamente, fazem o último jogo oficial na Europa jogando um contra o outro numa final da Liga dos Campões. É por isso que interessa menos qual dos dois ficou com a taça do que o abraço que as câmaras e os fotógrafos registaram no final do jogo. Há pequenos momentos que a posteridade lembra com mais nitidez do que aquilo que se passou no jogo a que correspondem, e este será sem dúvida um deles. O legado de Pirlo e Xavi é maior do que qualquer vitrine premiada, e na retina dos vindouros ficará esta imagem, não o que se passou em campo. Hoje é um dia triste, porque deixaremos de ver dois dos maiores jogadores de sempre. Amanhã haverá, por isso, menos classe nos relvados europeus. Mas o futebol será um jogo muito diferente do que era antes de eles pisarem os grandes palcos. O papel decisivo que ambos tiveram na evolução do jogo ninguém lhes tira, e quem gosta realmente deste jogo só pode estar, por isso, muitíssimo agradecido por tudo o que eles fizeram. Pirlo e Xavi podem ter terminado as suas carreiras, mas o futebol que jogavam não terminou. Voltaremos a vê-los, ainda que nos pés e nas ideias dos melhores médios que se lhes seguirem.

terça-feira, 5 de maio de 2015

As Pequenas Alterações de Guardiola

O Bayern de Guardiola perdeu no Dragão porque os erros individuais, num jogo como o futebol, podem ser decisivos. Dois erros deram em golo, outros intranquilizaram a equipa, e criou-se a ilusão de que a equipa alemã, se devidamente incomodada, não era capaz de contornar a pressão portista. E o Porto de Lopetegui, cuja estratégia de pressão consistiu basicamente em tentar impedir que o Bayern usasse a ligação entre os centrais e Xabi Alonso, saiu da primeira mão com uma vantagem generosa e, mais do que isso, convencido de que encontrara a receita para ultrapassar a eliminatória. Ao contrário do que foi dito por muita gente, não gostei particularmente do modo como o Porto pressionou nesse jogo, e não acho sequer que os erros individuais (os que deram em golo e os outros) tenham sido frutos da pressão e da estratégia de Lopetegui. A intenção de pressionar alto nunca foi acompanhada pela subida da linha defensiva, e só por inépcia e intranquilidade dos alemães o espaço que era dado atrás da linha de médios não foi melhor aproveitado. O Porto subiu linhas, procurou dificultar a saída de bola dos bávaros, jogou com bravura, mas não pressionou excepcionalmente bem. Disse aqui que não perceber isso era meio caminho andado para perder uma eliminatória que, não obstante a vantagem de dois golos e a quantidade de jogadores lesionados do adversário, estava longe de estar garantida.

Ora, não só se comprovou que a eliminatória não estava garantida, como foram exactamente esses defeitos no modo de pressionar do Porto que Guardiola aproveitou. Ao contrário, novamente, do que ouvi e li, não acho que Lopetegui tenha jogado de modo diferente do que fez no Dragão. Tentou sempre impedir a saída de bola dos bávaros, procurando que os seus médios pressionassem alto, e procurou sempre impedir que tal saída se fizesse pelo médio-defensivo. Sempre. A diferença foi que o Bayern conseguiu evitar essa pressão e ultrapassou sistematicamente essa linha de médios, o que no Dragão só aconteceu ocasionalmente. Sempre que o Bayern o conseguiu, o Porto foi obrigado a baixar as linhas e a iniciar a pressão mais atrás. Daí que se tenha criado a ilusão de que defendeu mais recuado e de que procurou esperar mais pelos alemães. Não foi verdade. Tentou fazer exactamente o mesmo que fizera na primeira mão. Mas, ao contrário da primeira mão, em que beneficiou de erros individuais não propriamente forçados por um comportamento colectivo relevante, o que intranquilizou os jogadores do Bayern e afectou a capacidade da equipa alemã para levar a bola para o espaço entre a linha defensiva e a linha média do Porto, a equipa de Lopetegui não foi bem sucedida nessa intenção porque o adversário soube contornar tudo isso.

Ao contrário também do que foram dizendo os comentadores do jogo, a disposição táctica do Bayern foi exactamente a mesma da primeira mão: um 433. A única diferença, do meio-campo para a frente, foi a troca posicional entre Lahm e Müller. O capitão dos bávaros jogara a primeira mão no meio-campo, de perfil com Thiago, mas jogou desta vez na linha, como extremo. Mas Müller não jogou ao lado de Lewandosky; jogou no meio-campo, de perfil com Thiago. A ideia de Guardiola parece-me óbvia: trocar um jogador que, apesar de muito inteligente e de ser posicionalmente muito bom, não é especialmente forte entre linhas, por um jogador cujos movimentos interiores e de aproximação à área que o distinguem nunca foram aproveitados na primeira mão. Müller é fortíssimo a explorar o espaço entre linhas, e foi esse espaço que o Porto concedeu na primeira mão e que o Bayern nunca conseguiu aproveitar condignamente. Para a segunda mão, Guardiola optou por manter dois alas muito abertos (neste caso, Götze e Lahm), de maneira a garantir o máximo de espaço entre os laterais e os centrais e entre os laterais e o médio defensivo, e trouxe Müller para o espaço interior, onde as suas movimentações sem bola pudessem permitir ao Bayern uma solução constante nesses espaços. Müller é possivelmente o melhor jogador do mundo a movimentar-se sem bola, e Guardiola usou esse trunfo na posição certa. Abdicou das movimentações de Müller da linha para a área, nas quais também é muito forte, para passar a contar com elas onde lhe interessava que elas ocorressem, nas costas de Oliver. Com essa pequena alteração, na qual pouca gente aliás terá reparado, a pressão do Porto, porque não era bem feita, deixou de ser incomodativa; com essa pequena alteração, Guardiola virou a eliminatória de pernas para o ar.

Para aqueles que consideram que Guardiola teve a sorte de ter um conjunto de jogadores fantásticos em Barcelona, que acham que o seu mérito termina em ter sabido encontrar um modelo de jogo adequado a um conjunto de jogadores especiais, estes 6-1 são talvez a melhor demonstração do quão errados estão. Até por não haver muita gente que dê valor ao que se pode fazer com o espaço entre linhas que os adversários dão, duvido que houvesse outro treinador capaz de ler tão bem como ele aquilo que o jogo do Dragão tinha sido e aquilo de que a sua equipa precisava para que não voltasse a sê-lo. A mim, não deixa de me surpreender. Tacticamente, continuo a dizê-lo, está a milhas de distância de qualquer outro treinador no planeta. Guardiola trocou dois jogadores e, com isso, mudou completamente as coordenadas do jogo. Acrescente-se a isso outra pequena alteração, a de ter prescindido de sair por Xabi Alonso, o que aliás já tinha acontecido em muitos momentos na primeira mão, e tem-se a melhor explicação do que se passou em Munique com o Porto. Como Guardiola disse ainda, depois da partida, Lopetegui tinha surpreendido na primeira mão, ao mandar Jackson pressionar sistematicamente Xabi Alonso. Para a segunda mão, Guardiola pediu a Xabi Alonso para fazer os mesmos movimentos, para recuar e para se posicionar na mesma entre os centrais, o que obrigava Jackson a acompanhá-lo, mas apenas para dar espaço para a bola sair pelos centrais, preferencialmente Badstuber. Alterando as dinâmicas  sem bola atrás dos médios e alterando a dinâmica da saída de bola, abdicando de usar Xabi Alonso, como habitualmente, na primeira fase de construção, Guardiola aproveitou o principal defeito da estratégia defensiva do Porto e anulou a sua principal virtude. Sem grandes mudanças, sem os principais desequilibradores da equipa, sem quatro habituais titulares, transformou um resultado muito perigoso numa vitória muito tranquila em apenas 45 minutos. Quantos treinadores do mundo o conseguiriam? Continuo a achar que há poucos privilégios, actualmente, como o de podermos desfrutar destas fabulosas lições de quem sabe tanto acerca de futebol. Veremos o que faz agora contra o Barça que criou.

sábado, 18 de abril de 2015

Notas Soltas sobre a Jornada Europeia

1. A primeira nota é sobre a surpresa do Dragão. O resultado é surpreendente, mesmo para um optimista e mesmo reconhecendo que faltaram ao Bayern vários jogadores importantes. Mais surpreendente será, talvez, a apatia dos alemães, sobretudo na segunda parte, e a incapacidade de condicionar o adversário, como habitualmente, pelo jogo de posse. A maior parte das pessoas teceu rasgados elogios à estratégia de Lopetegui e não se coibiu de traçar um nexo causal entre essa estratégia e o resultado do jogo. Não querendo de modo algum sugerir que a pressão portista não teve alguns efeitos desejados, parece-me um exagero, porém, atribuir a essa estratégia qualquer um dos golos com que o Porto construi a interessante vantagem que leva para a segunda mão. Sim, essa estratégia foi importante na forma como, na segunda parte, o Porto conseguiu evitar que o Bayern fizesse o seu jogo habitual de posse e fosse conseguindo as habituais penetrações frontais, mas não foi responsável por mais nada. Já não é de agora, mas sempre que um jogo corre mal a Guardiola, para a opinião pública, é porque o treinador contrário descobriu a pólvora. Enfim... Sobre o terceiro golo, não sei se é preciso dizer mais do que foi um pontapé para a frente, um erro de Boateng, que não percebeu onde é que a bola ia cair, e uma recepção fenomenal de Jackson. Quanto aos outros, são erros individuais não potenciados pela pressão portista, como se alegou. Pressão não é aquilo que Jackson e Quaresma fizeram nos dois primeiros golos, respectivamente. Aquilo é uma iniciativa individual que, quando muito, serve para atrasar a saída de bola do adversário. Pressão é um comportamento colectivo. Não foi a pressão do Porto que forçou aqueles erros e não foi a estratégia de Lopetegui que deu resultado. Foram erros individuais. E os erros individuais não são da responsabilidade dos treinadores. Não perceber isto é achar que, desde que o Porto consiga repetir a estratégia, tem a eliminatória garantida. Não tem.

2. Ainda sobre um aspecto do que disse acima, há a tendência absurda, hoje em dia, para elogiar treinadores cuja estratégia consiste em estabelecer zonas de pressão e em atacar rapidamente assim que se recupera a bola para aproveitar o espaço nas costas do adversário. O absurdo disto está no facto de não se ser capaz de ver estratégia em mais lado nenhum. Só há stratégia, para esta gente, quando uma equipa abdica propositadamente da bola para poder atacar com mais espaço depois. Não há paciência para estes miseráveis... Para esta gente, se uma equipa assume deliberadamente o jogo, é porque tem melhores jogadores; se não o assume deliberadamente, é porque o treinador é um estratega. E quando a estratégia defensiva, calculista, de esperar pelo erro do adversário, não tem sucesso, é porque os jogadores não a souberam cumprir. Para esta gente, a estratégia de defender atrás, pressionar nas zonas certas e sair rapidamente para o contra-ataque é infalível, desde que os jogadores se comportem como devem. Foi mais ou menos isto que Luís Freitas Lobo foi insinuando no jogo que opôs o PSG ao Barcelona. Se, por acaso, o PSG tivesse feito golo naquele contra-ataque conduzido por Lavezzi que terminou com Cavani a perder espaço e a permitir o corte de Mascherano, o que na altura daria o empate, assistiríamos decerto ao elogio da estratégia de Laurent Blanc. Como não resultou, e como o Barça continuou a mandar no jogo e ainda dilatou a vantagem, o insucesso explica-se ou pela apatia dos jogadores ou por o treinador não ter posto outro tipo de jogadores.

3. Foi só isto que se ouviu dizer pelos comentadores de serviço da Sporttv responsáveis pela cobertura da jornada da Liga Europa (Helena Costa e outro pateta). O Wolfsburgo perdeu por 4 a 1 em casa com o Nápoles porque Benitez é um estratega e porque os alemães não apresentaram agressividade, empenho e mobilidade suficiente. Para esta gente, só é possível contrariar aquela super-estratégia de ficar fechadinho atrás da linha da bola sendo mais agressivo, empenhado e mexido. 99% das pessoas que comentam futebol na televisão repetem ladainhas e ideias disseminadas que ou estão erradas ou não são bem aplicadas. Vêem um ou outro jogo e aplicam rótulos que ficam para sempre. Como ouviram dizer que Benitez é assim e como, se calhar, viram um jogo do Sevilha contra um adversário mais forte, decidiram que Unai Emery é como Benitez. E passaram o tempo todo a falar de como os dois são iguais, de como as equipas de ambos jogam defensivamente, esperando o momento certo para atacar, e de como, por essa razão, são mal amados num país em que a maior parte dos treinadores defende uma cultura de posse. Eu até aceito que em Espanha haja mais treinadores a defender uma cultura de posse do que noutros países. Daí a serem todos vai um salto enorme. E incluir Unai Emery entre os treinadores calculistas cujas equipas abdicam da bola é um disparate que não é possível qualificar.

4. Regressando ao jogo de Paris, Luís Freitas Lobo também repetiu alarvidades. As principais tiveram a ver com Matuidi e com Pastore. Para Freitas Lobo, Matuidi é o melhor médio a jogar pela meia esquerda do mundo, signifique isso o que significar. A única coisa que Matuidi fez, no jogo de quarta-feira, foi aparecer no flanco esquerdo, a ir buscar bolas perto da bandeirola de canto. Não fez mais nada senão piques para ir apanhar a bola onde ela dificilmente seria útil. Piques! Um jogador é o melhor do mundo a jogar ali pela meia esquerda porque faz piques! Ao que chegou o comentário futebolístico em Portugal! Só esta opinião seria suficiente para que Freitas Lobo merecesse o internamento, mas é preciso confrontá-la com a opinião sobre Pastore para se perceber exactamente o tipo de coisas de que gosta. Ao contrário do que disse de Matuidi, que elogiou ad nausea, e sempre que mexia uma das pernas, Freitas Lobo passou o jogo a dizer que Pastore gostava de fazer as coisas com classe, que tecnicamente era evoluído, mas que era lento para jogar a este nível. O que fazia falta, a meu ver, era um comentador que, quando Freitas Lobo dissesse estas coisas, lhe perguntasse rapidamente o que achava de Pirlo, de Kroos, de Busquets, de Iniesta, de Thiago Alcântara ou de Fabregas. Gostava de saber, embora já saiba, de que maneira para Freitas Lobo estes jogadores são diferentes de Pastore. A resposta é óbvia, apesar de Freitas Lobo não a saber dar: são jogadores conceituados e, como tal, o que fazem é bem feito. A lentidão é apenas um defeito, para Freitas Lobo e outros atrasados mentais, de jogadores que não sejam conceituados. Nesses, lentidão é contemporização, planeamento, cérebro. Sim, pode-se jogar a este nível sem pressas, senhor Freitas Lobo! E não só se pode como é aconselhável que se faça. Na opinião de Freitas Lobo, o que falta a Pastore é ser Matuidi. Na opinião de quem percebe alguma coisa do jogo, pelo contrário, não falta nada a Pastore e falta tudo a Matuidi.

5. Sobre o duelo madrileno, tenho pouco a dizer. Foi mal jogado, de parte a parte, e só os adeptos de outros desportos e os amantes do futebol inglês é que podem gostar de um jogo cujo único motivo de interesse é a disputa da bola. Sim, foi um jogo intenso, muito disputado, com os jogadores muito empenhados. Dito isto, foi um jogo paupérrimo. Quando as equipas se preocupam em demasia em disputar cada bola como se fosse a última, transferem a concentração para essa necessidade e o futebol perde qualidade. Aproveitando a dicotomia proposta por Freitas Lobo, foi um jogo de Matuidis quando podia ter sido um jogo de Pastores. Há, no entanto, um lance que merece o meu reparo. Passou-se na área do Atlético de Madrid, com Benzema a receber uma bola com algum espaço. Ao invés de se tentar virar para a baliza, enquadrando-se com ela, o francês tentou uma habilidade de calcanhar, deixando a bola, contra todas as previsões, à entrada da área, para Ronaldo finalizar. Como Ronaldo estava apertado, o remate acabou por ser obstruído, e a jogada não teve efeito. Para Pedro Martins, que comentava o jogo, o avançado do Real tomou uma má decisão, pois estava em boa posição quando recebeu a bola e devia ter tomado a decisão mais simples de tentar finalizar ele. Não só não é certo, contudo, que Benzema ficasse com espaço para finalizar depois de rodopiar sobre si próprio, como não me parece que ser o mais simples possível seja sempre o melhor que há a fazer. Por vezes, complicar é a melhor decisão. E o que é espantoso, a meu ver, é que se diga que esta foi uma má decisão quando, semanas antes, em Camp Nou, numa jogada muito parecida, o toque de calcanhar do francês permitiu a Ronaldo fazer o golo com que, na altura, o Real empatava. Mais uma vez, é o desfecho da jogada, não a decisão do jogador, que conta para esta gente. Benzema lembrou-se de fazer uma coisa que poucos estavam à espera e fê-la bem. Como é normal, ele não pode prever o comportamento de todos os adversários, assim como não pode prever o comportamento do colega a quem vai entregar a bola. Tem que confiar que as coisas vão correr bem. Em Camp Nou, bastava que alguém do Barcelona tivesse antecipado aquilo para que a jogada não tivesse efeito. Neste caso, como no outro, só posso gabar a iniciativa de Benzema. Arriscou fazer uma coisa diferente que, tendo a desvantagem de ser mais difícil de pôr em prática, acarretava a vantagem de ser menos previsível para os adversários. Não foi bem sucedido, mas tomou uma boa decisão. Não perceber isto é também não perceber bem a diferença entre quem é simples e quem sabe simplificar.

6. A última nota é sobre a melhor liga do mundo. Há anos a fio que se diz que a Liga Inglesa é o melhor campeonato do mundo, o mais competitivo, aquele em que se joga melhor, etc.. Parece-me mais ou menos incontestável que é aquele que movimenta mais dinheiro e aquele que maior capacidade tem para atrair os melhores jogadores. Não se segue daqui que seja o melhor. Para dizer a verdade, é até discutível que esteja entre os cinco melhores campeonatos da Europa. O futebol em terras de Sua Majestade continua a ser primitivo e nem a chegada de treinadores continentais, contra os quais se levantam já algumas vozes, argumentando que estão a descaracterizar o futebol inglês, tem sido suficiente para que esse futebol se consiga manter ao nível dos melhores da Europa. Nos quartos de final da Liga dos Campeões, há três equipas espanholas, duas francesas, uma italiana, uma alemã e uma portuguesa. Nos quartos de final da Liga Europa, há duas equipas italianas, duas ucranianas, uma russa, uma espanhola, uma alemã e uma belga. Nos quartos de final das duas provas europeias, não resta uma única equipa inglesa. Não explicando tudo, explica alguma coisa. As melhores equipas inglesas estão num nível inferior às melhores equipas do resto da Europa, e as restantes equipas com aspirações europeias estão num nível inferior às restantes equipas do resto da Europa. Como é que a alegada melhor liga do mundo é incapaz de pôr um único clube entre os dezasseis que ainda se encontram em prova? Enquanto se continuar a achar que jogar futebol é correr muito, lutar muito e transpirar muito, nada mudará. Os treinadores continentais podem ser capazes de introduzir novas ideias, mas precisarão de décadas para mudar mentalidades. E é essencialemente a mentalidade que distingue o futebol inglês que faz com que seja bem inferior ao futebol que se pratica noutros sítios.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ficar com a bola enquanto for preciso

A jogada é a do quinto golo do Barcelona, no passado fim-de-semana, em San Mamés, e tem sido amplamente elogiada sobretudo por aquilo que Messi fez. É possível, porém, dizer tantas coisas acerca dela que não resisto a trazê-la à discussão. Sim, deve elogiar-se o trabalho do argentino, que pôs meia equipa do Athletic de Bilbao a andar atrás de si antes de provocar a ruptura decisiva com o passe para Busquets. Mas não é tudo o que deve dizer-se acerca do lance. A primeira coisa em que a jogada me fez pensar foi nas pessoas que não compreendem o facto de certos jogadores, sejam eles quem forem e estejam eles em que circunstâncias estiverem, demorarem algum tempo a soltar a bola. Para muitos, há uma regra privada que diz que a bola deve circular rapidamente entre jogadores, sobretudo quando não há progressão no terreno. Uma vez que acreditam em tal regra, enervam-se sempre que alguém fica algum tempo com ela em seu poder, mesmo que essa decisão se deva à necessidade de procurar uma linha de passe segura ou à espera por uma desmarcação. Quando isso acontece perto da grande área adversária, então, segurar muito tempo a bola é invariavelmente entendido como perda de tempo e lentidão de processos. Na zona frontal, só com a linha defensiva pela frente, acreditam que se deve procurar espaço para o remate, um passe de ruptura ou, quando muito, uma combinação rápida com  um colega.

Para quase toda a gente, o que Messi fez, indo para a esquerda com a bola, não a soltando em nenhum colega e preferindo rodar por trás para voltar para a direita, em zona frontal à baliza, é uma bizarria. A todos os que pensam assim, mesmo àqueles que não o tenham pensado pela simples razão de se tratar Messi, deve ser dito que não pensam bem. Um jogador não deve soltar a bola porque sim, porque alguém estipulou que é errado ficar com ela durante muito tempo, da mesma maneira que não deve agarrar-se a ela porque sim, porque tem qualidade individual suficiente para tirar um ou outro adversário do caminho. São as circunstâncias que determinam quais as melhores decisões a tomar, e um jogador deve agarrar-se à bola ou soltá-la consoante as circunstâncias. É isso que distingue um bom jogador de um jogador desenrascado. Há jogadores que aproveitam o espaço que têm para fazer o que sabem fazer, sejam as circunstâncias quais forem. Vivem daquilo que o jogo lhes permite e tentam pensar o mais rapidamente possível, para que o pouco espaço de que dispõem, a cada instante, não seja desperdiçado. Não esperam pelo melhor momento, nem procuram alterar as circunstâncias com um compasso de espera, protegendo a bola até aparecer a melhor solução, etc.. Lembro-me de dois médios ofensivos relativamente recentes de que nunca gostei particularmente e cuja reputação sempre me pareceu excessiva, que ilustram este defeito: Neca e Rúben Micael. Há evidentemente virtudes em ser um jogador de um ou dois toques. Mas um jogador que não é mais do que isso, que não prende a bola em situação alguma e que acredita que prendê-la é sempre errado não é um grande jogador. Se há coisa que a jogada de Messi demonstra é que há momentos em que segurar a bola, ir para um sítio com ela para voltar ao ponto de origem depois, atrair adversários e esperar por desmarcações de colegas é a melhor decisão a tomar. Note-se, aliás, que não era sequer preciso ser Messi para fazer o que o argentino fez. Não há nada de especialmente difícil, do ponto de vista técnico, no lance. Há algum atrevimento, que não haveria se não houvesse confiança nos seus atributos técnicos, mas não há, em momento nenhum, nada que outro jogador minimamente razoável em termos técnicos não pudesse fazer.



A última coisa de que quero falar é da desmarcação de Busquets. Enaltecer as decisões de Messi sem lembrar a decisão de Busquets de solicitar aquele passe é tremendamente injusto. Sem ela, o lance não teria dado golo e ninguém elogiaria agora Messi. Pelo contrário, dir-se-ia que Messi se agarrara em demasia à bola, que desperdiçara linhas de passe e que permitira à defesa adversária controlar o lance sem grandes problemas. Para fazer um passe, como para dançar o tango, são precisas duas pessoas. Nenhum jogador, por melhor que seja, joga sozinho, e nenhuma boa decisão depende apenas de um jogador. Busquets é médio defensivo e, normalmente, é responsável por dar apoios recuados. Quando muito, oferece uma solução lateral ao portador da bola. E, naquele lance, poderia ter-se limitado a dá-la. Busquets percebeu, no entanto, que no momento em que Messi decide passar entre os dois jogadores adversários, havia uma melhor decisão do que ficar à espera do passe lateralizado do argentino; percebeu que, se iniciasse a marcha naquele momento e passasse nas costas do lateral, Messi iria ter uma linha de passe perfeita, instantes de segundo depois, entre o central e o lateral. Ao perceber as circunstâncias do lance, e aquilo que elas lhe pediam, Busquets percebeu que a melhor decisão que tinha a tomar, para facilitar a decisão do seu colega, era solicitar a bola naquele espaço. A isto chamo capacidade de leitura. O movimento de Busquets é profundamente atípico no jogador catalão e ninguém lhe levaria a mal que fizesse aquilo que está mais habituado a fazer, que seria oferecer uma linha de passe segura. Mas Busquets não é um jogador qualquer. A sua capacidade de leitura dos lances é muito acima da média, e aquilo que fez demonstra-o bem.

Quando se voltar a criticar um jogador que, não provocando duelos individuais, demora muito a soltar a bola, pense-se primeiro no que esse jogador está verdadeiramente a fazer. Leiam-se as circunstâncias e veja-se se, por acaso, ele não estará a pensar bem, se não estará à espera de uma solução mais fiável, de um linha de passe melhor, de um desequilíbrio da equipa adversária. E olhe-se bem para o jogo, quando isso acontecer. Que se tenha a capacidade de ver se, além de tudo isso, os colegas do portador da bola estão a fazer tudo o que devem para que ele possa tomar a melhor decisão possível. Não é nada incomum que um jogador, sobretudo um jogador inteligente, se agarre à bola sobretudo por ter intuído qualquer coisa que os colegas não intuíram ou que, tendo intuído, acharam arriscado pôr em prática. A intuição que esse jogador teve pode ser muito boa, mas, se os colegas não a facilitarem, será ineficaz. E quem é criticado é, geralmente, quem não se desfez da bola a tempo. Um bom jogador - dizem - joga bem em qualquer campo e em qualquer equipa. Não podia estar mais em desacordo. Qualquer jogador, sobretudo aquele que se destaca pelos aspectos intelectuais, é aquilo que a equipa em que joga lhe permitir ser. Numa equipa fraca do ponto de vista intelectual, um jogador inteligente só ocasionalmente se destaca pela sua inteligência. Sempre que faz ou tenta fazer algo que vai para lá das capacidades intelectuais dos que o rodeiam ou das capacidades colectivas da equipa em que está inserido, é incompreendido. Para os que não o compreendem, a imaginação com que joga e que, em equipas a sério, é o atributo mais requisitado, é invariavelmente descrita como egoísmo.

P.S. O blogue tem funcionado a meio-gás nos últimos meses e continuará a funcionar assim durante mais algum tempo. A todos os seguidores, a única coisa que posso prometer é que, a partir de Setembro, passará a ser possível escrever com mais regularidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A Decisão de Talisca

Não é novidade, para quem visita este espaço com regularidade, que a velha máxima do chutar sempre que possível é algo que não me agrada particularmente. Ora, não é por o lance terminar com a bola no fundo da baliza adversária que um remate, quando se pedia outra acção, passa a ser uma boa decisão. O lance a que me reporto é o do segundo golo do Benfica no Dragão. Não obstante já muita coisa ter sido dita sobre o clássico e não obstante o mesmo ter acontecido há já algumas semanas, creio que o lance é especialmente útil para aquilo que proponho. A jogada terminou com Lima a empurrar a bola para a baliza deserta de Fabiano, mas foi tudo menos uma boa jogada. E, sobretudo, foi tudo menos uma boa decisão de Talisca, que continua a gozar de enorme admiração por parte da massa adepta dos encarnados sem que o justifique propriamente. Não querendo falar de Talisca em termos genéricos, até porque isso daria pano para mangas, posso dizer, essencialmente, que o seu perfil de decisão deixa muito a desejar. À excepção dos índices competitivos que tem conseguido apresentar, o que é notável para um jovem acabado de chegar à Europa vindo de um campeonato em que a competitividade é bem diferente, e à excepção de competências técnicas que muito decorrem desses índices competitivos admiráveis, Talisca não tem mostrado grande coisa. Não tem, aliás, mostrado - e isso parece-me claro - nada que justifique a euforia que se tem criado à sua volta. Mais uma vez, não fora os golos decisivos que marcou, e que muito se deveram, essencialmente, à capacidade competitiva que lhe reconheço, e não se falava dele como se fala actualmente. Mais uma vez, um ou dois lances por jogo são suficientes para a generalidade das pessoas formarem uma opinião. Mas, passando à frente, o que fez de errado Talisca no lance do segundo golo encarnado?



O remate em zona frontal é sempre apetecível, e é uma boa solução quando há espaço e, sobretudo, quando não há desequilíbrios causados pela movimentação dos colegas. Ora, é isso mesmo que Talisca não respeita, ou que pelo menos ignora. Ao contrário de muita gente, não creio que um jogador deva respeitar obrigatoriamente movimentações de colegas nas costas. Mas deve, pelo menos aproveitá-las. Depois do passe de Gaitan para Talisca, Enzo Perez apressa o passo para passar nas costas de Talisca de modo a criar superioridade numérica no flanco esquerdo, onde a defesa portista estava descompensada. Talisca não tinha que ter esperado por Enzo para lhe dar a bola, mas tinha que ter esperado por ele para jogar com a superioridade que ele ia criar e à qual os adversários iriam ter de reagir. Quando Talisca recebe o passe de Gaitan em zona central, tem à sua frente um defesa que o impede de progredir. Depois de contemporizar, por força dessa oposição, fica com mais um médio portista à ilharga. É nesta altura, quando já está francamente apertado, quando perdeu algum enquadramento para o remate e já sem sequer o equilíbrio perfeito, que se decide pelo remate, ignorando que o seu compasso de espera tanto permitira a aproximação de adversários como permitira o início da desmarcação de Enzo. Ao receber a bola, Talisca apercebeu-se que tinha apenas um adversário pela frente e que, possivelmente, teria espaço para rematar. Desde que recebeu a bola, não pensou em mais nada. Durante o tempo que perdeu a preparar esse remate, deveria ter mantido em aberto a possibilidade de tomar outra decisão.  Como tinha a ideia formada, não pensou em mais nada. Podia ter inclusivamente jogardo curto, entre linhas, em Gaitan, mas nem o viu. A melhor decisão, porém, era sempre esperar por Enzo, que ia criar o desequilíbrio na esquerda. Bastava a Talisca ter esperado mais um pouco e poderia jogar com essa desmarcação. Podia fazer o passe para que Enzo cruzasse já dentro da área (ou até para que pudesse rematar) ou podia jogar com essa desmarcação de outra maneira, esperando que Danilo se desposicionasse ao tentar adivinhar um eventual passe para Enzo. Como não pensou nisso, e como tinha o remate na cabeça desde que recebeu a bola, decidiu mal. Que o lance tenha resultado em golo não apaga a má decisão. Note-se, de resto, que o remate não saiu muito potente, como era natural que saísse nas condições em que se encontrava (tinha vários adversários à frente, a bola estava demasiado debaixo do seu próprio corpo, e o enquadramento não era perfeito), e que só um frango monumental de Fabiano, que defendeu com a cara, permitiu que aquela má decisão se transformasse numa recarga de Lima. Para muita gente, Talisca fez bem em chutar, uma vez que deu golo. O problema, no entanto, é o do costume: em situações idênticas, não só um remate naquelas condições dificilmente resultará em golo como a decisão de rematar naquelas condições e com um desequilíbrio prestes a ser criado por um colega dificilmente será a melhor decisão. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Filhos e Enteados

Uma das coisas que mais confusão me faz, no comportamento das pessoas, é a adesão irreflectida às convenções. O fenómeno faz-me confusão, apesar de conseguir compreendê-lo. Consigo compreender que a educação que receberam não as preparou para exercerem o espírito crítico. Como aprenderam quase tudo por estipulação (por exemplo, disseram-lhes que a soma do quadrado dos catetos era igual ao quadrado da hipotenusa, decoraram-no e tomaram-no por verdade), aprenderam também que todas as coisas se sabem por estipulação. Assim convictos, passam o resto da vida a receber informações alheias e a transformá-las em certezas. E aquilo que sabem, ou julgam saber, não é senão o que os outros lhes dizem. Quando desconfiam dessas informações, cruzam-nas com outras opiniões e, por um critério democrático, aceitam-nas como verdades quando chegam à conclusão de que é uma opinião maioritária. Pessoalmente, considero que quem sabe tudo por estipulação e sufrágio, que é o caso das pessoas que estou a caricaturar acima e que corresponde, em larga medida, à esmagadora maioria das pessoas, não sabe nada. Assim que se lhes diz uma coisa, e que se lhes mostra que até há muita gente que considera que essa coisa é verdade, essas pessoas decidem aderir à mesma opinião. A tendência gregária recomenda-lhes que é melhor ficar do lado das maiorias e, como não sabem nada, ficam sem razão alguma para desconfiar daquilo que lhes está a ser dito. Este género particular de estupidez em massa é tão característica em futebol como noutra actividade qualquer. E é ainda característico - creio - de sociedades democráticas, nas quais a opinião de um bêbedo num café vale tanto como a opinião de qualquer outra pessoa, seja a respeito de que assunto for. Este tique democrático absurdo de acreditar no que é convencional é flagrante - introduzindo agora o assunto sobre que quero falar - na opinião que começa a fixar-se, entre benfiquistas e não só, acerca das qualidades de Jonas. Ou melhor, a distinção entre a opinião relativamente impoluta que se começa a formar acerca de Jonas e a opinião que se foi formando ao longo dos anos acerca de um jogador que me parece incrivelmente parecido com Jonas é tão significativa que torna flagrante o tique a que me estou a referir. 

Ao contrário de muita gente, já conhecia Jonas há alguns anos. Não acompanhei o seu percurso no Brasil, mas habituei-me a vê-lo no Valência, e tenho uma opinião bastante informada acerca das suas competências. Não me surpreende, por isso, o entusiasmo que essas competências, sobretudo a sua inteligência, a finura com que trata a bola, a capacidade técnica e as boas decisões, têm gerado, ainda que me pareça que, sem os golos que tem marcado, a reacção das pessoas não seria igual. E também não me surpreende, para dizer a verdade, que as pessoas estejam a reagir com entusiasmo a essas competências quando, em relação a outros jogadores em que elas se verificam, ou ficam indiferentes ou reagem com desdém. Para dar um exemplo de um jogador que, não sendo aquele com quem quero comparar Jonas, tem um perfil muito semelhante ao brasileiro do Benfica, não encontro muita gente entusiasmada com o futebol de Freddy Montero, possivelmente o melhor avançado a jogar em Portugal. Montero gerou entusiasmo nos primeiros meses, é verdade, mas só porque andava a marcar golos. Assim que os seus números diminuíram, as pessoas foram deixando de apreciá-lo. Aquilo que oferece ao futebol do Sporting é inestimável, mas aos poucos o argelino Slimani, que no princípio da época transacta era considerado um pinheiro, passou a reunir mais admiração do que o colombiano. Slimani é um finalizador razoável. Tirando a capacidade de finalização, procura não complicar muito as suas acções, mas é um avançado banalíssimo. Montero é tudo menos banal. Quase tudo o que faz é muito bem feito, tecnicamente é extraordinário, sabe servir de apoio frontal como ninguém, percebe exactamente qual a melhor solução a dar aos colegas sem bola, sabe jogar entre linhas, etc.. Que opinião é que as pessoas têm dele? Que tem pouca confiança, que é razoável a tratar a bola, mas que faz poucos golos. O número de golos, esse critério maravilhoso para aferir as qualidades de um avançado, é tudo aquilo de que as pessoas precisam para refutar as opiniões dos bêbedos do café a que costumam ir. Realmente, é um critério irrefutável entre bêbedos. Entre pessoas com o domínio das suas competências racionais, no entanto, não é nada. O número de golos não diz nada acerca da qualidade de um avançado e não diz nada acerca do que esse avançado faz pela equipa em que joga. Nada! O Sporting, de resto, teve na sua História recente uma relação de 8 ou 9 anos com um avançado que prejudicava inacreditavelmente a equipa, mas que, como marcava muitos golos, era muito acarinhado. Nessa altura, defendi muitas coisas polémicas acerca do futuro próximo do Sporting, não necessariamente acerca dos efeitos que esse avançado teria nesse futuro, mas acerca dos efeitos que a opinião acerca desse avançado produziria no futuro. Defendi que, com Liedson, o Sporting jamais seria campeão, mas defendi também que o Sporting, como clube, seria mais pequeno nos anos seguintes; defendi que, com Liedson, havia uma série de jogadores que nunca poderiam atingir patamares superiores, mas defendi também que o Sporting, pela admiração que tinha por aquele jogador, iria ter problemas para competir com os seus principais rivais nos anos vindouros. O Sporting teve, entretanto, outros problemas. Nenhum deles é mais difícil de resolver do que o comprazimento na mediocridade de um jogador como Liedson. E é por isso que a equipa de futebol do Sporting é cada vez mais uma equipa de clube pequeno. E é pena, porque o Sporting é um clube grande.

Voltando ao assunto "Jonas", poderia falar ainda de Óscar Cardozo. Ao contrário de Montero, que ainda só está em Portugal há um ano e, portanto, ainda não deu tempo para que se gerassem opiniões firmes acerca das suas qualidades, Cardozo esteve muito tempo em Portugal. Infelizmente para este argumento, Cardozo foi marcando muitos golos e, como tal, houve muita gente que foi resistindo a dar razão àqueles que achavam que Cardozo era lento, pouco ágil, pouco agressivo, pouco intenso, preguiçoso e coisas do género. Tenho a certeza, contudo, que se Cardozo tivesse o azar de permanecer mais um ou dois anos em Portugal sem marcar muitos golos, como na última época, depressa a opinião pública se tornaria assustadoramente negativa. E, no entanto, Cardozo é um avançado interessantíssimo, mesmo sem marcar o número de golos a que habitou a massa adepta do Benfica. É-o porque, apesar da sua envergadura, apesar da pouca agilidade, apesar das dificuldades motoras, é um jogador inteligente, que toma boas decisões, que sabe oferecer apoios verticais e jogar de costas para a baliza, e que tem um excelente sentido posicional. Isto é o mais importante, do meu ponto de vista, num avançado de uma equipa que passa a maior parte do tempo em organização ofensiva. E é isto, fundamentalmente, que Jonas tem, que faz dele o avançado que é, e que causa o entusiasmo que tem causado. É bastante diferente de Cardozo em muitas coisas, mas é um jogador que, em organização ofensiva, faz bem o que o paraguaio fazia bem. Pode ser mais ágil, mais móvel, tecnicamente mais evoluído, ser mais rápido a decidir, mas o seu perfil de decisão é semelhante. Cardozo compensava aquilo em que era menos bom com outras características (a facilidade de remate e a capacidade para proteger a bola, por exemplo), mas tinha um perfil de decisão parecido. É isto que é importante perceber.

Ora bem, é sobretudo pelo perfil de decisão, mas também por quase tudo o resto, que acho que Jonas é parecido... com Hélder Postiga. Quem segue este blogue, sabe não só o que acho acerca de Postiga como terá decerto adivinhado quem era o avançado a quem queria comparar Jonas. Quem não o segue, como é o caso dos imbecis que resolveram adoptar o tique democrático absurdo de que me queixo acima quando comparei os dois jogadores na caixa de comentários deste texto no Lateral Esquerdo, esta comparação talvez faça rir. Sobre a reacção da risada, disse o que tinha a dizer no primeiro parágrafo deste texto: quem ri assim teve uma educação fraca, não sabe pensar, adere a tudo o que as maiorias pensam e gosta é de conversar com bêbedos. Sobre a comparação propriamente dita, justifico-a como justifiquei as comparações anteriores. Postiga é um avançado inteligentíssimo, bom tecnicamente, que resolve situações complicadas tendo pouco espaço e pouco tempo, que decide invariavelmente bem, que não é egoísta, que sabe jogar entre linhas e sabe oferecer apoios verticais aos médios; é alguém com quem é muito fácil combinar, seja com tabelas, seja com triangulações, seja simplesmente com arrastamentos posicionais; é um avançado que contribui, em todas as fases do ataque, de alguma maneira, que percebe exactamente as necessidades da equipa a cada momento. Em que é que isto é diferente daquilo que Jonas tem mostrado? Rigorosamente nada. A não ser que tudo o que se anda a dizer de Jonas se ande a dizer só porque, além disso, tem marcado golos. Devo dizer que não tenho grandes dúvidas de que assim seja. Criou-se a ideia de que Postiga é perdulário (que é uma ideia absolutamente falsa!), e acha-se, portanto, que Jonas não é. Se é essa a diferença, e se é por isso que, consciente ou inconscientemente, esta comparação melindra tanto as pessoas, aquilo que posso recomendar é paciência. É que os golos de Jonas não vão durar para sempre. Ele não será pior jogador quando deixar de marcar, mas nessa altura a opinião das pessoas modificar-se-á. Nessa altura, garanto àqueles que têm opiniões e que pensam que as suas opiniões, por serem idênticas à opinião maioritária, são boas, que Jonas se parecerá um bocadinho mais com Postiga. É pouco provável que venha a criar uma opinião negativa tão consolidada como a opinião que se tem acerca de Postiga, até porque uma opinião assim requer tempo de consolidação, mas a opinião será diferente da que se tem agora. E quem tiver essa opinião nem sequer perceberá que antes tivera uma opinião diferente, nem sequer perceberá que a sua opinião mudou porque as pessoas que estão à sua volta mudaram de opinião, nem sequer perceberá que, na verdade, a opinião que toma por sua não é propriamente sua, mas da massa informe e estúpida a que inconscientemente pertence. E rir-se-á quando alguém comparar um avançado recém-chegado que julga ser extraordinário a um avançado sobre o qual tem uma opinião que não é senão a opinião imbecil dos vizinhos e dos bêbedos que conhece.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Velhos são os Trapos

Foi noticiado, no defeso, que Xavi Hernandez abandonaria o clube de sempre. O motivo era o mais trivial de todos, o de que a idade avançava e as qualidades de Xavi já não eram as de outros tempos. A sustentar esta tese estavam, como sempre, os números. A época anterior, não obstante a titularidade indiscutível, fora surpreendentemente fraca, quer em golos, quer em assistências. Como sabe quem lê este blogue, creio que os números são o pior dos argumentos, em futebol. E podem mesmo ser falaciosos, como me parece ser o caso. O Barcelona de Tata Martino, sobretudo o da segunda metade da época, era uma equipa pouco dinâmica, pouco capaz de envolver os médios em acções ofensivas. É natural que Xavi, um jogador cujos números sempre dependeram do facto de o colectivo jogar de uma determinada maneira, se ressentisse, nesse aspecto. Pessoalmente, acho que o futebol do médio espanhol ainda não começou a decair, e que Xavi ainda é capaz de tudo aquilo que o distinguiu. As suas capacidades físicas podem já não ser as que foram (o que não é sequer certo), mas Xavi nunca se distinguiu por elas. Sempre foi um jogador de poucos rasgos, de poucas mudanças de velocidade, um jogador de regularidade, que faz das decisões a sua principal arma. E isso - perdoem-me os que acham que depois dos 30 anos um jogador já não é o que era - é coisa que Xavi ainda não perdeu. Aos 34 anos, continua ser o mesmo jogador cerebral que era, o mesmo jogador capaz de gerir os ritmos da equipa, capaz de jogar por fora e por dentro do bloco adversário, capaz de perceber, a cada momento, o que é melhor para a sua equipa. Há jogadores que se destacam por qualidades atléticas que, com 34 anos, dificilmente poderão ser o que eram aos 30. Com Xavi não é assim. Com Xavi - diria mesmo - ter 30 anos ou ter 38 é mais ou menos o mesmo. E desconfio que só deixa de jogar ou por preconceito do seu treinador ou quando decidir que é tempo de parar.


Contra o Eibar, na jornada passada, foi assim. Aquele lance em que tira um adversário do caminho e depois trava, ajeitando de calcanhar, com dois toques, tirando mais um adversário da frente, foi já perto do final do jogo. Alguém que, com 34 anos, faz 90 minutos e ainda tem a frescura, física e mental, para fazer uma coisa daquelas é alguém que não está acabado, como dizem. Há um preconceito muito comum no futebol moderno que consiste em presumir que um jogador que já não tem as pernas que tinha tem de dar lugar a quem as tenha. O preconceito está em considerar o futebol um jogo em que "ter pernas" é o principal requisito de quem o joga. Não só isso é falso como há jogadores que nunca se caracterizaram por "ter pernas". Há uns anos, Allegri achou que Pirlo estava velho. Dispensou-o, e ele foi ser campeão pela Juventus. Com Xavi, é mais ou menos o mesmo. Associou-se a época menos feliz do Barcelona, no ano transacto, à idade de Xavi, e fez-se crer que o maestro do meio-campo catalão tinha de dar lugar a outros. É sempre mais fácil achar que uma equipa precisa de mudar de intérpretes do que achar que precisa de mudar de interpretação. Com Luís Enrique, Xavi parece ter perdido o estatuto de titular indiscutível. Mas, no Barcelona de Luis Enrique, cuja principal virtude, em relação ao Barça de Tata Martino, é ser capaz de pressionar mais alto, e com o bloco bem mais junto, Xavi volta a ter o protagonismo que tinha antigamente. Volta a ter muita bola, em zonas avançadas do terreno, com companheiros perto de si, e volta a poder fazer o que melhor sabe. Quem vê Xavi a jogar hoje, não consegue ver grandes diferenças para o que era Xavi há 5 ou 6 anos. A idade está lá, e sempre que o Barcelona não for a equipa de posse que foi com Guardiola, uma equipa paciente, sem pressas, que joga a maior parte do tempo no meio-campo do adversário, que pressiona alto, começando as suas jogadas em terrenos muito avançados, Xavi terá as dificuldades que sempre teve. Mas se o colectivo lhe permitir potenciar as suas melhores qualidades e o proteger das debilidades que sempre teve, será o mesmo Xavi que era. Quem joga, numa equipa desse tipo, é o cérebro. E um cérebro de 34 anos está tudo menos acabado. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Triangulação Perfeita

A jogada é a do segundo golo do Chelsea na primeira jornada da Liga Inglesa, ante o Burnley, e exemplifica, a meu ver, tudo aquilo que um simples gesto técnico é capaz de conseguir. Tudo começa com uma arrancada de Hazard, mas é o que se segue que me parece notável. A bola entra no flanco direito, os jogadores do Burnley posicionam-se à espera do cruzamento (8 ficam atrás da linha da bola), e o que o Chelsea faz é o que deve fazer qualquer equipa que leva a bola para aquela zona do terreno e pretende invadir a área adversária. No momento em que Ivanovic prepara o cruzamento, Fabregas posiciona-se à entrada da área e pede a bola, enquanto Schurrle inicia a marcha, para passar por entre o bloco adversário sem bola. Ivanovic opta então por trazer o lance para o meio, precisamente para onde Fabregas se encontra, e o espanhol parece ter espaço para armar o remate. Mas o movimento de Schurrle, iniciado anteriormente, dá a Fabregas outra solução, a de, fingindo o remate, amortecer para onde o alemão se dirigia. Com dois passes e uma triangulação relativamente simples, o Chelsea ultrapassou um bloco de oito adversários e criou uma situação clara de golo, deixando um jogador sozinho em frente ao guarda-redes.

Evidentemente, a execução técnica perfeita e a capacidade de Fabregas para ler todo o lance em tão pouco tempo e para tomar aquela decisão foram decisivos. Mas colectivamente é isto que uma equipa deve procurar criar. Sem bola, o movimento de Schurrle foi inteligentíssimo. Percebeu que, na posição em que estava, não oferecia nada à equipa e que, enquanto a bola fosse de Ivanovic a Fabregas, a atenção não recairia sobre ele. Aproveitando-se disso, iniciou um movimento pelo qual pudesse oferecer mais tarde, ao futuro portador da bola e não ao actual, uma opção de passe. A desmarcação também é isto, também é antecipar a opção de passe que dará a quem ainda não tem a bola. O que o Chelsea conseguiu, em termos colectivos, foi por isso notável. E o golo foi um dos melhores dos últimos tempos. Soubesse Mourinho replicar coisas destas e o Chelsea seria uma equipa bem mais interessante.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Futebol e Condições Climatéricas

Ainda sobre a ideia, sustentada em alguns dos últimos textos, de que o clima em que este mundial se jogou prejudicou não só o espectáculo em geral mas também, em particular, as equipas que fazem da organização táctica e da tomada de decisão os seus principais trunfos, expressa o Filipe Vieira de Sá, no seu último texto, uma opinião que, além de me parecer conforme à opinião de muita gente, e por isso interessante de contradizer aqui, implica a crença de que o futebol é uma coisa que, a meu ver, não é ou não devia ser. Embora o Filipe aceite  a ideia de que as condições climatéricas ajudam a explicar o que se passou no mundial, discorda do "pressuposto de que não estavam reunidas as condições para se jogar futebol", pois o futebol, na sua opinião, "é um jogo global, não pertence apenas à meia-estação europeia, e por esse mundo fora há várias equipas que jogam nas condições encontradas em certos estádios deste mundial". A implicação deste argumento não pode ser outra que não a de que os factores externos, na opinião do Filipe, fazem parte do jogo. Fica por saber, porém, se todos os factores externos ou se apenas alguns. Por exemplo, se o futebol é um jogo global e não se deve procurar organizar as principais competições internacionais apenas em sítios onde as condições climatéricas forem parecidas com as que se verificam a maior parte do ano no continente europeu, é aceitável jogar futebol, por exemplo, no Polo Norte?  Poderia ridicularizar esta posição ainda mais, mas parece-me que não valerá a pena. Em vez disso, era importante que as pessoas tentassem responder a algumas questões. Por que será que os campeonatos, na Europa, são organizados para começar quando o Verão já está a terminar e para acabar antes de ele começar? Por que será que param alguns na altura em que o Inverno é mais rigoroso? Não será porque condições extremas de calor e frio prejudicam necessariamente o espectáculo? Por que é que não se joga quando o campo está alagado? Ou por que é que não se joga em pelados? Alguns clubes agradeceriam, certamente. E o nível de competitividade seria, garantidamente, superior.

Parece-me, claro, pelo menos para mim, que há condições mais propícias à prática do futebol do que outras e que a tendência tem sido, ao longo dos anos, a de tentar uniformizar essas condições. O tamanho dos campos, o tamanho do corte da relva, a qualidade dos relvados, as bolas com que se joga, o calendário anual das competições - tudo isto é hoje em dia mais uniforme do que foi no passado. Em benefício do espectáculo e da justiça desportiva, entendeu-se há muito tempo que era importante mitigar a relevância dos factores externos tanto quanto possível. Em nome da diversidade, o Filipe discorda desta ideia. A ele e às muitas pessoas que, como ele, acham que as características do futebol de cada país devem ser preservadas a todo o custo, não interessa nem a qualidade do espectáculo nem essa coisa estranha a que estou a chamar "justiça". Tenho muitas dificuldades em perceber o que é que considera entusiasmante no futebol quem pensa assim. Pessoalmente, tenho pouquíssimo interesse em ver jogos da segunda liga. Da mesma maneira, não encontro quaisquer razões estéticas para apreciar um desenho de uma criança. Se quero ver futebol, tento ver as melhores equipas e os melhores jogadores; se quero ver pintura, vou ao  Prado ou ao Louvre. Achar que é mais importante preservar a diversidade de estilos e de características do que atenuar a injustiça que consiste em jogar futebol quando os factores externos são mais decisivos do que a competência das equipas é não gostar de futebol; é gostar de cultura. Eu acho bonito que se goste de cultura, e também acho bonito que se queira preservá-la. Mas preservem-na em museus, em livros de História, ou na memória colectiva.

Num jogo que consiste essencialmente em pôr frente a frente duas forças, parece-me lógico, além de justo, que os melhores a jogá-lo sejam aqueles que forem capazes de derrotar as forças adversárias unicamente por serem mais fortes do que elas. Parece-me ser o pressuposto, aliás, do próprio conceito de jogo. Num jogo de tabuleiro como o xadrez, por exemplo, os factores externos não têm praticamente peso nenhum. Em xadrez, ganha quem é melhor. Em futebol, não só não é assim como é ingénuo pensar que algum dia possa vir a sê-lo. É um jogo diferente, em que os factores externos (a sorte, o clima, os árbitros, etc.) terão sempre alguma importância. Mas isso não invalida que eles não devam ser reduzidos ao máximo. Claro que devem. Não faz sequer sentido entender o futebol como jogo se não se aceitar isto. Em desportos de pavilhão, por exemplo, o factor externo do clima não tem qualquer importância. Enquanto jogos, o basquetebol, o andebol, o voleibol e outros que tais são sem dúvida desportos mais justos. No ténis, pelo menos em alguns torneios, a simples presença dos primeiros pingos de chuva é suficiente para interromper um desafio. É verdade que essas interrupções têm por principal motivação o espectáculo e a preservação da integridade física dos atletas, mas é fácil de perceber que, por exemplo, jogar à chuva em terra batida não é jogar em terra batida. Da mesma maneira que, estando a chover em Roland Garros, um especialista em terra batida perde a vantagem que tem para um adversário que não o seja, também as equipas de futebol mais competentes perdem a vantagem que têm para as outras, se não estiverem reunidas as condições suficientes para que possam pôr em prática essa competência.

Temperaturas extremas, velocidades do vento muito elevadas, níveis de humidade altos, nevoeiros cerrados, chuvas intensas e níveis de oxigénio reduzido, em altitude, são algumas das condições atmosféricas que condicionam a qualidade dos jogos e diminuem as diferenças entre as boas e as más equipas. Tal como o ciclismo é um desporto de Verão, pelas razões que facilmente se entendem, o futebol é um desporto de Inverno porque o espectáculo é necessariamente melhor no Inverno. Ninguém, estando de perfeita saúde, contesta isto. Condições externas invulgares na Europa não tornam apenas o jogo diverso; tornam-no pior. Tornam-no pior porque, nessas condições, as melhores equipas deixam de ser capazes de fazer uso dos argumentos pelos quais são as melhores equipas. Níveis de humidade muito altos e temperaturas demasiado altas, as principais características que, a meu ver, prejudicaram a qualidade do campeonato do mundo e algumas das melhores equipas que lá estiveram, tendem a provocar um desgaste, a curto, médio e longo prazo, que é incompatível com a melhor prática do jogo. O que é que interessa que essas sejam as condições em que se joga normalmente em muitas partes do globo? Que os factores externos tenham um peso mais relevante em alguns lugares da América do Sul do que têm na maior parte dos países europeus e que, por isso, o futebol que se joga nesses lugares tenha menos qualidade e seja menos justo do que o futebol que se joga na Europa é razão suficiente para afirmar que o futebol em alguns lugares da América do Sul é menos interessante (entendendo que o interesse do jogo depende intrinsecamente da sua qualidade e da justiça a que se presta) do que o futebol que se joga na Europa. É por este motivo, essencialmente, que me parece que as grandes competições deviam evitar ao máximo a sujeição a essas condições. No Brasil, talvez bastasse abdicar de duas ou três das regiões em que se jogou e escolher melhor as horas do dia. Além disso, talvez também não fosse má ideia estender a competição por mais duas semanas, espaçando assim mais os jogos que cada equipa disputa e permitindo-lhes uma melhor recuperação de jogo para jogo.  Se assim tivesse sido, não haveria com certeza tantas surpresas e tantas anormalidades, o que, para muita gente, é um defeito. Mas as poucas que houvesse seriam muito mais motivadas pelo mérito ou pelo demérito das equipas. Quem quer que goste de futebol, e que goste pelas razões certas, tem de preferir um campeonato assim.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Mannschaft

O mundial terminou e acabou por consagrar uma das poucas equipas que fez alguma coisa que se parecesse com jogar futebol. Confesso que, sendo a Alemanha, para mim, a favorita à vitória depois da fase de grupos, achava que havia muitas possibilidades de isso não acontecer, dada a importância que os factores externos estavam a ter neste torneio. Ajudou, parece-me, o facto de as meias-finais e a final terem sido jogadas a horas decentes, assim como o facto de o desgaste acumulado se ter começado a notar a partir dos quartos-de-final, como previra. Até aos oitavos de final, o clima prejudicou as equipas jogo a jogo, provocando erros de concentração, desorganização e, em suma, favorecendo as equipas que não fazem da organização táctica e das boas decisões colectivas a sua força. A partir dos quartos de final, porém, o clima afectou as equipas de outro modo: a sua acção deixou de ser no próprio jogo (à excepção do Argentina - Bélgica), mas no desgaste acumulado pelas individualidades. Se, até aos oitavos de final, as equipas que, não obstante serem desorganizadas, tinham individualidades capazes de resolver individualmente tinham sido favorecidas pelo clima, a partir dos quartos de final voltaram a ser as equipas com competências colectivas as principais favoritas. Não admira, por isso, que a única dessas equipas que sobrevivera à primeira fase tivesse acabado por ser a lógica vencedora.

Embora não tivesse previsto que a primeira fase do mundial fosse tão mal jogada, tinha previsto que, a partir dos quartos de final, os jogos fossem fracos. Não foram; foram paupérrimos. O melhor de todos acabou por ser mesmo a final, o que é surpreendente, tendo em conta que as finais não costumam ser muito bem jogadas, por variadas razões. Nos quartos de final, o Argentina - Bélgica foi fraquíssimo, o Alemanha - França foi morno, o Holanda - Costa Rica teve momentos de emoção, mas foi muito mal jogado, de parte a parte, e o Brasil - Colômbia foi um jogo de futebol de rua. No Alemanha - Brasil, houve 20 minutos engraçados, mas a exibição patética dos brasileiros tratou de desnivelar de tal modo o jogo que o espectáculo terminou ali. O Argentina - Holanda foi um dos piores jogos da competição, com duas equipas cheias de argumentos, mas sem capacidades colectivas e com todas as individualidades a acusarem o cansaço prolongado. A final, por seu turno, foi um jogo interessante, com uma equipa a assumir a condução da partida e a outra a tentar jogar no erro da primeira, a fazer lembrar alguns dos melhores embates entre escolas de futebol opostas dos últimos anos. Para muita gente, este foi o melhor mundial a que assistiram. Quem pensa assim, na minha opinião, é mais influenciada pelas emoções que os jogos suscitaram do que pela qualidade dos mesmos. De facto, houve muita incerteza, muitas surpresas, muitas ocasiões junto às balizas e muitos golos. Nada disto implica que tenha havido bom futebol. Na minha opinião, não houve. O mundial foi fraco naquilo que mais importaria que não fosse, nas decisões. Tem de ser esse o critério para se avaliar a qualidade de um jogo, não as emoções, as oportunidades de golo ou a incerteza no marcador. Por norma, houve más decisões, muitos erros individuais e colectivos, muitas equipas desorganizadas. No capítulo das decisões, este mundial representou um retrocesso de mais de 20 anos. Felizmente para a modalidade, ganhou uma das poucas equipas que jogaram modernamente. Não fosse a vitória alemã, e 2013/2014 teria sido a época futebolística mais negra de que me lembro.

A vitória alemã representa ainda a vitória de um estilo sobre o estilo contrário. Para muitos, o tiki-taka morreu e as recentes derrotas do Barcelona, bem como a incapacidade do Bayern de Guardiola para vencer o Real Madrid mostraram isso mesmo. Para outros, nos quais me incluo, o tiki-taka não é uma coisa em que só o Barcelona de Guardiola era competente. Pessoalmente, considero que há uma forma melhor de jogar futebol, e essa forma consiste em ter a bola, em preservá-la e em circulá-la com critério, em usá-la passivamente, para descansar e cansar o adversário, mas também em usá-la activamente, para desposicionar os adversários, para conduzir o jogo para onde interessa que seja conduzido, e para manter a própria equipa organizada e preparada para a perda da bola. Esta Alemanha faz isso tudo quase tão bem como o faz a Espanha, e melhor do que qualquer outra selecção alemã do passado. Foi melhorando de ano para ano, com Joachim Löw, nesse capítulo, e apareceu neste mundial a jogar à Guardiola mais do que nunca. Parece-me um exagero pensar que Guardiola foi o cérebro por trás da vitória alemã, mas não é decerto exagerado pensar que foi uma influência decisiva, como aliás já tinha sido uma influência decisiva para os anteriores campeões do mundo. Joachim Löw começou a copiar o modelo espanhol (e o modelo de Guardiola) depois de ter sido eliminado nas meias-finais em 2010. Até aí, jogara quase sempre em 442 clássico. Depois disso, nunca mais o fez. Em 2012, porém, ainda os alemães não eram suficientemente maduros a jogar dessa forma, e a equipa acabou por cair aos pés de uma Itália que fazia esse tipo de jogo simplesmente porque tinha jogadores mais aptos para o fazerem. Aos poucos, no entanto, Joachim Löw convenceu-se de que tinha de ir mais longe para ter sucesso. Ir mais longe implicava imitar tudo, desde o sistema táctico às inovações introduzidas pelo próprio Guardiola. Foi por isso que começou este mundial a jogar no 433 de Guardiola, com Lahm a médio-defensivo, como Guardiola concebera, e com Muller na posição de avançado, como Guardiola concebera. É verdade que não manteve esse ideal até ao fim, mas a sua equipa jogou sempre mais à espanhola do que à alemã, e isso foi decisivo. Löw foi campeão do mundo pelas mesmas razões que Del Bosque o fora há 4 anos, porque foi humilde o suficiente para perceber que Guardiola não é apenas o treinador mais titulado dos últimos anos mas o homem que melhor percebeu o que uma equipa de futebol deve fazer para ter sucesso. Tal como Del Bosque, Löw aproveitou as ideias de Guardiola para melhorar as suas, e isso foi decisivo para esta conquista. A vitória alemã mostra assim várias coisas, mas a mais importante talvez seja a de que é a imitar o estilo de outras equipas, ao contrário do que muitas vezes se pensa, que uma equipa evolui. Imitar os grandes mestres, como em qualquer forma de arte, é a melhor maneira de evoluir.

Melhor Onze:

Guarda-Redes: Neuer
Defesa Direito: Lahm
Defesa Esquerdo: Blind
Defesas Centrais: Thiago Silva e Hummels
Médio Defensivo: Pirlo
Médios Ofensivos: Wijnaldum e Óscar
Extremos: Özil e James Rodriguez
Avançado: Muller

Treinador: Joachim Löw

Suplentes:

Guarda-Redes: Cillessen
Defesa Direito: Zabaleta
Defesa Esquerdo: Verthongen
Defesas Centrais: Varane e Garay
Médio Defensivo: Schweinsteiger
Médios Ofensivos: Kroos e Iniesta
Extremos: Robben e Messi
Avançado: Van Persie

Treinador: Jorge Luís Pinto

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Mundial dos Detalhes e das Individualidades

Há um tipo de estupidez particular, quando se fala de futebol, que consiste em ignorar que este não é um jogo como a maioria dos outros jogos. Ao passo que é difícil dizer, por exemplo em xadrez, que determinado jogador teve sorte em vencer, no futebol nem sempre quem joga melhor é quem vence. Não há, aliás, outro jogo que se compare ao futebol, nesse aspecto, e essa é também uma das razões pelas quais este é um desporto tão popular. O motivo é mais ou menos claro: ao contrário da grande maioria dos outros jogos, é um jogo cujo resultados não são geralmente volumosos. O golo é algo que acontece poucas vezes e, sendo a diferença de golos que determina quem ganha e quem perde, é natural que haja muitos jogos cujo resultado não espelhe o que as equipas fizeram. Uma vez que as equipas ganham ou perdem por causa de um ou dois lances em cada 90 minutos, é possível afirmar que é o jogo em que os detalhes são mais decisivos. Isso fez com que, ao longo dos anos, muitas pessoas acreditassem que eram melhores equipas aquelas que se especializassem melhor nos detalhes. Não acreditando nisso, é verdade que os detalhes têm um peso importante na definição de um jogo e é muitas vezes por eles que se deve explicá-lo. Pessoalmente, considero que é melhor equipa aquela que trabalhar de maneira a depender menos dos detalhes, mas não posso deixar de reconhecer que são eles, muitas vezes, que distinguem os campeões. Em competições a eliminar, então, o peso dos detalhes é ainda mais significativo. E se, a juntar a isto, a qualidade colectiva das equipas de um torneio, por exemplo um campeonato do mundo, for nivelada por baixo, mais decisivos eles são.

O preâmbulo anterior serve para preparar as duas coisas que quero dizer de seguida. A primeira é que é profundamente estúpido todo o comentador de futebol que, qual Freitas Lobo, chega ao fim de uma partida de futebol e tenta justificar o que nela se passou apenas pela qualidade táctica das equipas. Essas pessoas acham que resultados espelham fielmente exibições, e que se ganha porque se fez necessariamente por isso. São estúpidos porque não percebem que o futebol é um jogo de detalhes e que, muitas vezes, são os detalhes que determinam os vencedores. Arranjam explicações para tudo, riscam da memória tudo o que sabiam, e fazem diagnósticos com base num ou noutro lance em 90 minutos. O melhor exemplo foi o que se passou no texto anterior. Ninguém percebeu nada do que aconteceu à Espanha neste mundial, mas todos acharam que foi eliminada porque já não joga como antes e que o futebol que joga actualmente é inferior ao futebol da Holanda e do Chile. Não percebem que o futebol é um jogo de detalhes e não acreditam, como deve acreditar quem tem ideias, que a Espanha actual, sendo ou não tão forte como foi em 2012, por exemplo, ganharia 9 em 10 jogos que fizessem com qualquer um deles. A segunda coisa que pretendo afirmar vai também contra quase tudo o que tenho ouvido dizer sobre este mundial: para mim, está a ser dos piores mundiais dos últimos anos. E a razão tem precisamente a ver com esta questão dos detalhes. Uma série de factores tem contribuído para que as diferenças entre as boas e as más equipas se tenha esbatido, e os vencedores têm-se distinguido dos vencidos, por norma, apenas através de um detalhe ou outro. A maior parte das pessoas não pensará assim, mas um dos melhores critérios para distinguir um bom jogo (e um bom campeonato) de um mau jogo é ele não ter por factor decisivo um detalhe. Nesse sentido, este mundial estará ao nível do de 2002, por exemplo, e será, a par desse, o pior das últimas duas décadas.

Há um ano, antecipei que a qualidade deste mundial estava em risco precisamente pelas condições climatéricas. Achava, porém, que a prova decresceria de qualidade apenas a partir da fase a eliminar, e achava que as condições climatéricas seriam decisivas apenas no desgaste acumulado nos jogadores. Estava redondamente enganado. As condições climatéricas foram decisivas desde o primeiro jogo. A selecção que mais pagou por elas foi a Itália, uma das que melhor futebol apresentou na primeira fase e que, não obstante, foi eliminada. O primeiro jogo mostrou uma Itália competentíssima, mas incapaz de aguentar mais do que 60 minutos, em termos físicos. A última meia-hora do jogo contra a Inglaterra foi sofrível, quer para um, quer para outro conjunto, e no jogo com a Costa Rica a Itália foi incapaz de ter ideias precisamente pelo desgaste dessa primeira partida. Mesmo não voltando a jogar como na primeira partida, a Itália voltou a ser bem superior ao seu adversário no último jogo, sendo eliminada, lá está, por um detalhe. O detalhe do clima, o detalhe do árbitro e o detalhe das bolas paradas atiraram uma das melhores equipas em prova para fora da mesma logo na fase de grupos. Para muitos, a Itália foi-se embora porque não foi tão forte como as equipas que passaram. Para mim, essas pessoas não sabem o que é futebol. Em termos estritamente futebolísticos, a Itália foi a equipa mais forte do grupo. Acontece que, em futebol, às vezes isso não é suficiente. E neste campeonato do mundo jogar bom futebol tem sido das coisas menos importantes para se atingir o sucesso.

Posso juntar ao exemplo da Itália e da Espanha muitos outros. 1) A Alemanha a fraquejar diante do Gana. Um jogo que estava completamente controlado, com a Alemanha a ganhar por 1-0 e com várias oportunidades para dilatar o marcador, transformou-se em poucos minutos numa coisa completamente diferente, com dois golos de seguida dos ganeses, e só não terminou com goleada para os africanos porque não aproveitaram 3 ou 4 lances de forma inexplicável. 2) O apuramento do Uruguai, sem nada fazerem por isso. Depois de uma exibição paupérrima contra a Costa Rica, os pupilos de Tabarez não foram superiores aos ingleses, mas aproveitaram a falha de Gerrard. Também não foram superiores aos italianos, mas beneficiaram da expulsão de Marchisio e do facto de Suarez não ter sido expulso, como beneficiaram de mais um golo decisivo, na sequência de uma bola parada, de Godín. 3) O apuramento da Grécia. Depois de uma copiosa derrota frente à Colômbia, os gregos mantiveram-se à tona da água por empatarem contra o Japão num jogo em que podiam ter perdido por vários golos. Depois, frente à Costa do Marfim, um golo de penalty no último minuto dos descontos (aliás, como o golo que marcaram à Costa Rica e que lhes permitiu adiar a decisão dos oitavos de final para o prolongamento)  ditou a passagem de uma equipa que, futebolisticamente, não é nada. 4) O Irão a bater o pé à Argentina e Messi a resolver. Os argentinos queixaram-se precisamente das condições climatéricas, e o que se viu foi uma equipa cansada, sem capacidade colectiva e individual para penetrar na defesa iraniana. Os iranianos acabaram por ter as melhores oportunidades da segunda parte, mas foi um momento de inspiração individual de Messi que ditou a vitória argentina. 5) A surpresa da Costa Rica. Não querendo tirar mérito a uma equipa que tem mostrado algumas qualidades, os costa-riquenhos só estão onde estão pelos detalhes. Os uruguaios subestimaram-nos, a Itália não se conseguiu mexer, a Inglaterra já estava eliminada, e a lotaria dos penalties contra os gregos puseram-nos nos quartos de final. É evidente que têm três ou quatro bons jogadores, e uma equipa solidária, mas não foi por questões futebolísticas que chegaram até aqui. 6) O apuramento da Suíça. A Suíça apurou-se à frente do Equador porque no jogo inaugural, precisamente contra os sul-americanos, venceu a partida no período de descontos, num lance que começa com uma perdida dos equatorianos na área suíça, que lhes podia ter dado a vitória, e que termina com um contra-ataque suíço que é transformado em golo (e em fora-de-jogo, salvo erro). 7) A bola à barra de Pinilla. No último minuto dos descontos, o Chile podia ter eliminado a equipa anfitriã. Assim, foram para penalties e a sorte sorriu aos brasileiros. 8) A eliminação do México. A Holanda não fez um grande jogo, mas pressionou os mexicanos na última parte do desafio, conseguiu empatar e chegou à vantagem num lance de penalty nos últimos minutos. 9) A eliminação da Nigéria. Os franceses não foram superiores aos nigerianos na maior parte do tempo, e podiam ter sofrido um golo em várias ocasiões. A partir de um lance em que Matuidi devia ter sido expulso e a Nigéria teve de alterar o seu meio-campo, os franceses cresceram, acabando por chegar ao golo, uma vez mais, num lance de bola parada. 10) A eliminação da Argélia. Embora a Alemanha tenha sido muito superior, os argelinos foram corajosos e souberam pôr a nu as debilidades sobretudo do sector defensivo germânico. É verdade que passou a melhor equipa, mas a Argélia, se tivesse tido outra sorte, tinha mandado a Alemanha para casa. É minha convicção de que tal cenário só foi possível porque as equipas mais fortes, nestas condições, ficam mais expostas e vulneráveis aos detalhes, como seja o da vontade com que os argelinos jogaram. 11) A eliminação dos Estados Unidos. A Bélgica foi superior durante 105 minutos. Nesse período, podia ter marcado mais de uma dezena de golos. Mas os Estados Unidos podiam ter vencido o jogo no último minuto do tempo regulamentar e, depois de estarem a perder por 2-0, construíram ocasiões de golo suficientes, em apenas 15 minutos, para virar o resultado. 12) O desfecho dos oitavos de final. Dos oito jogos dos oitavos de final, 5 foram a prolongamento (2 dos quais foram a penalties) e outro ficou resolvido nos últimos minutos. Tal equilíbrio não é acidental. A Argélia, a Suíça e os Estados Unidos, principalmente, só arrastaram o jogo para o prolongamento porque houve condições externas a equilibrar as contendas. Em condições normais, estes jogos seriam decididos nos 90 minutos. 13) A derrocada das equipas europeias. É verdade que, em quantidade, passaram aos oitavos de final tantas equipas europeias como em 2010, mas ficarem pelo caminho as duas equipas que ainda há dois anos se sagraram campeã e vice-campeã da Europa parece-me substancialmente diferente de ficarem pelo caminho a Itália e a França de 2010. Ao mesmo tempo, não é normal que, das 10 equipas do continente americano em prova,  8 tenham passado aos oitavos de final, sendo que também o Equador esteve muito próximo de o conseguir. O mundial, nas condições em que tem sido jogado, é benéfico para as típicas equipas sul-americanas, que se caracterizam por serem aguerridas e muito disponíveis em termos físicos, e ainda por terem várias individualidades com qualidades técnicas que podem decidir individualmente os jogos.

Muitos se têm espantado ainda com as várias exibições espectaculares dos guarda-redes. Na minha opinião, é mais uma evidência de que o mundial não tem sido muito bem jogado. Quando os avançados e os guarda-redes são os principais destaques das equipas, é sinal de que o futebol apresentado, em termos gerais, não tem sido grande coisa. Desde o mundial de 86 no México que as principais estrelas de cada selecção não tinham tanto protagonismo e não eram tão decisivas. Isso deve-se ao facto de, tacticamente, o futebol ter evoluído bastante. Nos últimos trinta anos, assistiu-se a uma evolução táctica que, de algum modo, fez com que os principais jogadores não fossem capazes de brilhar individualmente como até então. Evidentemente, houve quem o conseguisse. Mas neste mundial têm brilhado individualmente quase todos aqueles que se esperava que brilhassem, excepção feita, talvez, a Ronaldo. Tacticamente, o mundial tem sido muito fraco, e isso faz com que os jogadores com mais facilidade para se desenvencilharem sozinhos sobressaiam. Faz também com que os jogos sejam mais emotivos, uma vez que os adeptos de futebol tendem a emocionar-se mais com lances individuais espectaculares (dribles, iniciativas individuais estonteantes, remates de longe, jogadas junto às áreas, contra-ataques, etc..) do que com jogadas bem pensadas. Daí que haja quem considere que este mundial esteja a ser bom. Como tal, faz também com que equipas que estão a dominar uma partida possam, em poucos minutos, ser encostadas à sua área, como aconteceu com a Nigéria frente à França, com o México frente à Holanda, com a Costa Rica frente à Grécia, ou com a Bélgica frente aos Estados Unidos. Quando, tacticamente, as equipas não demonstram grande coisa, sobressaem as individualidades e sobressai a crença dos jogadores, o que torna tudo muito mais imprevisível, volátil e, para quem acha que bom futebol é futebol junto às áreas, emotivo. Que tantas individualidades estejam a deslumbrar individualmente e que se esteja a registar tanta imprevisibilidade denota justamente o decréscimo de qualidade do futebol que tem sido jogado; denota que os detalhes estão a ter mais importância do que deviam. Os guarda-redes têm brilhado porque, precisamente, não se tem jogado bem. Luís Freitas Lobo disse outro dia que nunca tinha visto ninguém defender tanto como Tim Howard frente à Bélgica. Realmente, defendeu muito, se estivermos a pensar em quantidade. Mas não o vi fazer nenhuma defesa extraordinária. Fez quase duas dezenas de defesas, e nenhuma delas foi uma defesa impossível. O que Freitas Lobo não percebeu foi que Tim Howard não fez mais do que qualquer guarda-redes faria. Defendeu o que tinha de defender. Do facto de que os guarda-redes estejam a ser chamados mais vezes a intervir do que é costume não se segue que estejam a fazer grandes exibições. À excepção de um ou outro caso, é absurdo ficarmos espantados, por exemplo, com o guarda-redes da Argélia ou com o guarda-redes da Nigéria. São guarda-redes banalíssimos que estiveram mais em jogo porque as defesas têm defendido mal e porque os ataques não têm encontrado as condições de finalização ideais.

Quando o futebol é colectivamente mal jogado, sobressaem os apontamentos individuais, aumenta quantidade de lances junto às áreas e, por conseguinte, dispara o protagonismo dos guarda-redes. Quando assim é, tudo fica mais dependente dos detalhes, e é quem for mais eficaz nos detalhes ou quem tiver mais sorte neles, não quem for melhor em termos gerais, que terá sucesso. O futebol deste campeonato do mundo, até porque está a ser disputado onde está, não é muito diferente do futebol que se vê semanalmente em qualquer campeonato sul-americano. As melhores equipas, porque as condições assim o proporcionaram, não são as melhores equipas em condições normais, não são as equipas organizadas e com uma ideia de jogo colectiva, mas aquelas que conseguem aliar a solidariedade e o sacríficio defensivo à inspiração de dois ou três atacantes individualmente muito competentes. Sobram apenas 2 equipas cuja competência táctica merece louvor, a Alemanha e a Bélgica, e mesmo essas têm sobrevivido mais à custa da competência das individualidades do que da competência colectiva. Este mundial representa uma regressão, em termos tácticos, sem precedentes, e é de facto a melhor forma de culminar um ano profundamente negro na História do Jogo. Confesso que não esperava que fosse possível uma equipa voltar a ser campeã do mundo sem que fosse, em termos colectivos, minimamente competente, mas este mundial prepara-se para me mostrar que estava enganado. Estava enganado, porém, sem o estar. É que, no meu raciocínio, não equacionei a preponderância decisiva dos factores externos. E foram os factores externos, sobretudo as condições climatéricas anormais para a prática do futebol, que propiciaram este cenário. Nos últimos anos, o futebol evoluiu de modo a que os detalhes e as individualidades não fossem suficientes para sagrar campeões. Infelizmente para quem gosta de futebol, este mundial voltou a tornar o futebol um jogo só de detalhes e individualidades. Por absurdo que pareça, em 2014 pode voltar a haver um campeão do mundo que não sabe jogar futebol.