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quarta-feira, 3 de maio de 2017

O mesmo que se faz aqui, mas em mau...

Sabem por que é que aquilo que o António Tadeia faz é o mesmo que se faz aqui, mas em mau? Em poucas palavras: porque não consegue distinguir entre o que é intencional do que não é. Para perceber o que se passa num campo de futebol é preciso, antes de mais, saber identificar as intenções dos jogadores. A actividade de um comentador desportivo não é, desse ponto de vista, muito diferente de outras actividades. Aquilo que distingue o bom crítico literário, o bom analista político e o bom polícia de investigação é a capacidade, no fundo, de compreender as intenções dos escritores, dos políticos e dos criminosos. Confundir uma recepção orientada com uma má recepção não é, por isso, aceitável. Sê-lo-ia, talvez, em quem vê o jogo descontraído no café, ou em quem o vê sem a responsabilidade profissional de interpretar tão bem quanto possível aquilo que acontece dentro das quatro linhas. Há incidências cuja interpretação, de facto, não é fácil, mesmo para quem faz isto há muito tempo, está diante de um ecrã e tem ao seu dispor um número infindável de repetições de todos os ângulos. Nem sempre é possível ter a certeza acerca das intenções dos jogadores, e isso pode desculpar certas interpretações. Mas há incidências que, de tão óbvias para quem já jogou ou tem o mínimo de experiência a ver jogos de futebol, um comentador profissional não pode não saber interpretar. Não saber distinguir entre um toque involuntário e um toque propositado na bola é como não saber distinguir entre um cadáver putrefacto e a bela adormecida. Não, António, o primeiro toque de Lucas Vázquez não foi mau; foi óptimo. Má foi a análise do António, que não percebeu que o atleta do Real Madrid, calculando que podia tirar o defesa do Atlético da frente alargando o drible até à linha de fundo, orientou de pronto a recepção para esse efeito.




Hoje em dia, quase toda a gente fala em decisões. Mas a maioria das pessoas não percebe bem o que é uma decisão, em futebol. Para as pessoas como o António Tadeia, os jogadores só tomam decisões quando decidem chutar em vez de passar, ou quando escolhem uma opção de passe em detrimento de outra. Nas suas cabeças, só faz sentido falar em decisões quando é evidente que há tempo para decidir antes de executar. Na verdade, tudo o que um jogador faz em campo é decidir. Uma simples recepção, por exemplo, acarreta uma decisão. E, mais importante do que isso, tais decisões são geralmente tomadas em fracções de segundo. Assim é porque as circunstâncias de uma jogada mudam em fracções de segundo. Este lance é um bom exemplo disso. No momento em que a bola sai do pé de Ronaldo, a jogada está ainda longe de estar definida, e é absurdo assumir que o jogador que a vai receber já tenha tomado uma decisão acerca do destino a dar à bola (cruzar de primeira ou dominar a bola, por exemplo). Mais do que isso, precisa de perceber como se vão comportar os colegas e os adversários nos instantes seguintes, e só então, avaliando as circunstâncias tais como se apresentarem nessa altura, poderá tomar uma decisão. A verdade é que Godin, o central do Atlético que sai ao caminho de Lucas Vázquez, não protege devidamente a baliza e ainda se aproxima em demasia do portador da bola, tentando dificultar-lhe a recepção. No último instante, o jogador do Real Madrid percebe que, orientando a recepção, tem espaço suficiente para driblar o uruguaio, e é isso que faz. A decisão foi tomada no último instante antes de chegar à bola, e em função das circunstâncias que só nessa altura tornaram claro que o drible era exequível. Não, António, não era preciso acreditar no Pai Natal para acreditar que havia espaço suficiente para tirar o adversário do caminho e cruzar para um dos colegas que se movimentavam na área. Os jogadores de futebol não fazem as coisas ao calhas; são agentes racionais. Lêem circunstâncias específicas, estimam o sucesso de determinadas decisões e agem em conformidade. Ainda que as suas acções não sejam precedidas de uma ponderação demorada, são determinadas por processos racionais. Recebem estímulos, interpretam-nos e decidem o melhor que conseguem. Avaliando os sinais corporais do adversário, a distância até à linha de fundo e a movimentação dos colegas na área, foi possível a Lucas Vázquez perceber (no último instante) que podia ultrapassar Godin, que teria espaço para chegar à bola antes de esta sair e que, entretanto, teria opções de passe diferentes das que havia nesse instante. Não fez nada ao calhas, e o toque que deu na bola foi tudo menos involuntário e mau. António Tadeia não percebeu isto e fez figura de urso. Anda a fazê-la há anos, aliás, desde que lhe disseram que falar de futebol na televisão não era muito diferente de brincar com ursinhos de peluche. E agora não larga o ursinho.

P.S. A figura de urso, na verdade, foi feita ao longo de toda a partida de ontem, sempre que António Tadeia se lembrava de que Isco, cujo virtuosismo técnico não deixou de gabar com toda a condescendência do mundo, não é capaz de acções colectivas relevantes.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Futebol do Tottenham de Pochettino

O treinador mais interessante da Premier League chama-se Mauricio Pochettino. O adepto normal, assim como o comentador enfebrecido, têm porém os escrúpulos domesticados pelas opiniões vulgares dos que acreditam que a diferença entre o futebol e o halterofilismo é haver uma bola. O tom depreciativo com que os comentadores da Benfica TV falam do Tottenham de Pochettino, por exemplo, é absurdo. No ano passado, quando as coisas não corriam bem, passavam os jogos a sugerir que o treinador argentino viera descaracterizar o futebol inglês. Convencidos de que o futebol inglês é genuíno e de que em terras de Sua Majestade é que se joga a sério, tais comentadores viam o estilo da equipa londrina como uma aberração. Não é preciso muito para mostrar o quão errados estão. O futebol inglês, no seu todo, leva uns 30 anos de atraso; as competências colectivas da maior parte das equipas são pouco mais do que rudimentares; o futebol praticado é horrível, do ponto de vista da criatividade e da inteligência, e só provoca emoções naqueles que não sabem que emoções devem ter; as equipas inglesas, como se demonstra pelos fraquíssimos resultados que continuam a averbar na Europa, não têm capacidade para ombrear com as equipas europeias. Ao contrário do que pensam tais comentadores, o futebol inglês precisa de ser descaracterizado. Precisa, portanto, de mais Pochettinos. Quando as coisas começaram a correr bem ao Tottenham, quando aquele mesmo futebol, que era motivo de escárnio apenas por não obter os resultados que depois veio a obter, passou a ser eficaz, os mesmos comentadores tiveram certamente de engolir alguns sapos.

A segunda época de Pochettino à frente dos londrinos começou, de novo, menos bem, e logo os mesmos comentadores voltaram a fazer-se ouvir. Durante a primeira parte do jogo deste fim-de-semana com o Sunderland, todos os elogios eram dirigidos para os contra-ataques adversários, para a velocidade imprimida por Lens e Defoe. O Tottenham jogava organizado, de pé para pé, com qualidade, procurando atrair para desmarcar, insistindo em desfazer as linhas adversárias com paciência, invadindo o espaço entre linhas e sem pressa de chegar a zonas de finalização. À medida que o tempo ia passado e o nulo inicial não se alterava, os comentadores iam sentindo cada vez mais necessidade de exprimir a sua repugnância por um futebol que não compreendem e julgam errado. Entre outras coisas, afirmavam com desdém que Pochettino tinha "alergia aos extremos" ou que a história e a tradição de uma equipa como o Tottenham impunha outro estilo de jogo. Ora, é muito difícil explicar a tartarugas que "alergia a extremos" é possivelmente o melhor sintoma que podiam verificar actualmente num treinador de futebol. Hoje em dia, convencionou-se que qualquer equipa tem de abrir o seu jogo atacante, que deve usar extremos velozes, fortes no um para um e úteis em momentos de transição. Para a maior parte das pessoas, ter dois extremos deste género em campo é a única forma de provocar desequilíbrios, no futebol moderno. Ora, a maioria das pessoas não percebe nada de futebol. Não sendo contra a utilização de extremos, sou contra a ideia de que os extremos servem para este género de tarefas. É por isso que considero que um treinador que tem orçamento para contratar alguns extremos capazes de desequilibrar e não o faz, um treinador que dispensa os seus extremos (Lennon) ou não os utiliza com regularidade (Towsend), é um treinador que percebe que, ofensivamente, a equipa deve privilegiar soluções colectivas em detrimento de soluções individuais. Ser alérgico a extremos é sintoma de quem percebe que uma equipa é muito mais do que as individualidades que a compõem, e é por isso que Pochettino, ao contrário do que pensam aqueles que não percebem nada de futebol, é muito melhor treinador do que a maioria dos treinadores ingleses.



Não vi a segunda parte do jogo, mas dava muita coisa para ter presenciado a reacção dos energúmenos que comentavam o jogo quando o Tottenham chegou ao golo, já perto do fim do jogo. É que o golo dos londrinos é fruto justamente da insistência no tipo de futebol que esses comentadores não compreendem, no tipo de futebol que dispensa a utilização de extremos velozes a quem entregar a bola assim que é recuperada para que estes forcem os desequilíbrios na defesa adversária. O Tottenham joga preferencialmente pelo centro do terreno, colocando muita gente no meio, e insistindo em passes verticais que servem para desmontar as linhas adversárias e para aproveitar o espaço entre elas. E este golo é o melhor exemplo da utilidade desse futebol. Um toque de Lamela para Mason, o passe vertical deste para Kane, que dá de primeira em Lamela, que entretanto tinha arranjado espaço, fruto do desinteresse em si que a bola motivou, e o passe de Lamela a solicitar Mason no espaço libertado pelo central que foi atrás de Kane foi tudo o que bastou. Três jogadores e quatro passes chegaram para desmontar as linhas defensivas do adversário. Com passes curtos, tabelas e triangulações, o futebol é muito mais eficaz do que com os tão elogiados extremos que correm a direito e provocam desequilíbrios individuais. Os comentadores desportivos, sem grandes excepções, continuam a não perceber isto e continuam, semana após semana, a dizer disparates. O jogo continua a evoluir, mas aqueles que ganham a vida à custa do futebol insistem em falar do jogo que os seus avós lhes ensinaram a ver. A inteligência é uma coisa bonita, mas é quando permite aos homens aprender que aquilo que aprenderam não é válido para sempre.

sábado, 18 de abril de 2015

Notas Soltas sobre a Jornada Europeia

1. A primeira nota é sobre a surpresa do Dragão. O resultado é surpreendente, mesmo para um optimista e mesmo reconhecendo que faltaram ao Bayern vários jogadores importantes. Mais surpreendente será, talvez, a apatia dos alemães, sobretudo na segunda parte, e a incapacidade de condicionar o adversário, como habitualmente, pelo jogo de posse. A maior parte das pessoas teceu rasgados elogios à estratégia de Lopetegui e não se coibiu de traçar um nexo causal entre essa estratégia e o resultado do jogo. Não querendo de modo algum sugerir que a pressão portista não teve alguns efeitos desejados, parece-me um exagero, porém, atribuir a essa estratégia qualquer um dos golos com que o Porto construi a interessante vantagem que leva para a segunda mão. Sim, essa estratégia foi importante na forma como, na segunda parte, o Porto conseguiu evitar que o Bayern fizesse o seu jogo habitual de posse e fosse conseguindo as habituais penetrações frontais, mas não foi responsável por mais nada. Já não é de agora, mas sempre que um jogo corre mal a Guardiola, para a opinião pública, é porque o treinador contrário descobriu a pólvora. Enfim... Sobre o terceiro golo, não sei se é preciso dizer mais do que foi um pontapé para a frente, um erro de Boateng, que não percebeu onde é que a bola ia cair, e uma recepção fenomenal de Jackson. Quanto aos outros, são erros individuais não potenciados pela pressão portista, como se alegou. Pressão não é aquilo que Jackson e Quaresma fizeram nos dois primeiros golos, respectivamente. Aquilo é uma iniciativa individual que, quando muito, serve para atrasar a saída de bola do adversário. Pressão é um comportamento colectivo. Não foi a pressão do Porto que forçou aqueles erros e não foi a estratégia de Lopetegui que deu resultado. Foram erros individuais. E os erros individuais não são da responsabilidade dos treinadores. Não perceber isto é achar que, desde que o Porto consiga repetir a estratégia, tem a eliminatória garantida. Não tem.

2. Ainda sobre um aspecto do que disse acima, há a tendência absurda, hoje em dia, para elogiar treinadores cuja estratégia consiste em estabelecer zonas de pressão e em atacar rapidamente assim que se recupera a bola para aproveitar o espaço nas costas do adversário. O absurdo disto está no facto de não se ser capaz de ver estratégia em mais lado nenhum. Só há stratégia, para esta gente, quando uma equipa abdica propositadamente da bola para poder atacar com mais espaço depois. Não há paciência para estes miseráveis... Para esta gente, se uma equipa assume deliberadamente o jogo, é porque tem melhores jogadores; se não o assume deliberadamente, é porque o treinador é um estratega. E quando a estratégia defensiva, calculista, de esperar pelo erro do adversário, não tem sucesso, é porque os jogadores não a souberam cumprir. Para esta gente, a estratégia de defender atrás, pressionar nas zonas certas e sair rapidamente para o contra-ataque é infalível, desde que os jogadores se comportem como devem. Foi mais ou menos isto que Luís Freitas Lobo foi insinuando no jogo que opôs o PSG ao Barcelona. Se, por acaso, o PSG tivesse feito golo naquele contra-ataque conduzido por Lavezzi que terminou com Cavani a perder espaço e a permitir o corte de Mascherano, o que na altura daria o empate, assistiríamos decerto ao elogio da estratégia de Laurent Blanc. Como não resultou, e como o Barça continuou a mandar no jogo e ainda dilatou a vantagem, o insucesso explica-se ou pela apatia dos jogadores ou por o treinador não ter posto outro tipo de jogadores.

3. Foi só isto que se ouviu dizer pelos comentadores de serviço da Sporttv responsáveis pela cobertura da jornada da Liga Europa (Helena Costa e outro pateta). O Wolfsburgo perdeu por 4 a 1 em casa com o Nápoles porque Benitez é um estratega e porque os alemães não apresentaram agressividade, empenho e mobilidade suficiente. Para esta gente, só é possível contrariar aquela super-estratégia de ficar fechadinho atrás da linha da bola sendo mais agressivo, empenhado e mexido. 99% das pessoas que comentam futebol na televisão repetem ladainhas e ideias disseminadas que ou estão erradas ou não são bem aplicadas. Vêem um ou outro jogo e aplicam rótulos que ficam para sempre. Como ouviram dizer que Benitez é assim e como, se calhar, viram um jogo do Sevilha contra um adversário mais forte, decidiram que Unai Emery é como Benitez. E passaram o tempo todo a falar de como os dois são iguais, de como as equipas de ambos jogam defensivamente, esperando o momento certo para atacar, e de como, por essa razão, são mal amados num país em que a maior parte dos treinadores defende uma cultura de posse. Eu até aceito que em Espanha haja mais treinadores a defender uma cultura de posse do que noutros países. Daí a serem todos vai um salto enorme. E incluir Unai Emery entre os treinadores calculistas cujas equipas abdicam da bola é um disparate que não é possível qualificar.

4. Regressando ao jogo de Paris, Luís Freitas Lobo também repetiu alarvidades. As principais tiveram a ver com Matuidi e com Pastore. Para Freitas Lobo, Matuidi é o melhor médio a jogar pela meia esquerda do mundo, signifique isso o que significar. A única coisa que Matuidi fez, no jogo de quarta-feira, foi aparecer no flanco esquerdo, a ir buscar bolas perto da bandeirola de canto. Não fez mais nada senão piques para ir apanhar a bola onde ela dificilmente seria útil. Piques! Um jogador é o melhor do mundo a jogar ali pela meia esquerda porque faz piques! Ao que chegou o comentário futebolístico em Portugal! Só esta opinião seria suficiente para que Freitas Lobo merecesse o internamento, mas é preciso confrontá-la com a opinião sobre Pastore para se perceber exactamente o tipo de coisas de que gosta. Ao contrário do que disse de Matuidi, que elogiou ad nausea, e sempre que mexia uma das pernas, Freitas Lobo passou o jogo a dizer que Pastore gostava de fazer as coisas com classe, que tecnicamente era evoluído, mas que era lento para jogar a este nível. O que fazia falta, a meu ver, era um comentador que, quando Freitas Lobo dissesse estas coisas, lhe perguntasse rapidamente o que achava de Pirlo, de Kroos, de Busquets, de Iniesta, de Thiago Alcântara ou de Fabregas. Gostava de saber, embora já saiba, de que maneira para Freitas Lobo estes jogadores são diferentes de Pastore. A resposta é óbvia, apesar de Freitas Lobo não a saber dar: são jogadores conceituados e, como tal, o que fazem é bem feito. A lentidão é apenas um defeito, para Freitas Lobo e outros atrasados mentais, de jogadores que não sejam conceituados. Nesses, lentidão é contemporização, planeamento, cérebro. Sim, pode-se jogar a este nível sem pressas, senhor Freitas Lobo! E não só se pode como é aconselhável que se faça. Na opinião de Freitas Lobo, o que falta a Pastore é ser Matuidi. Na opinião de quem percebe alguma coisa do jogo, pelo contrário, não falta nada a Pastore e falta tudo a Matuidi.

5. Sobre o duelo madrileno, tenho pouco a dizer. Foi mal jogado, de parte a parte, e só os adeptos de outros desportos e os amantes do futebol inglês é que podem gostar de um jogo cujo único motivo de interesse é a disputa da bola. Sim, foi um jogo intenso, muito disputado, com os jogadores muito empenhados. Dito isto, foi um jogo paupérrimo. Quando as equipas se preocupam em demasia em disputar cada bola como se fosse a última, transferem a concentração para essa necessidade e o futebol perde qualidade. Aproveitando a dicotomia proposta por Freitas Lobo, foi um jogo de Matuidis quando podia ter sido um jogo de Pastores. Há, no entanto, um lance que merece o meu reparo. Passou-se na área do Atlético de Madrid, com Benzema a receber uma bola com algum espaço. Ao invés de se tentar virar para a baliza, enquadrando-se com ela, o francês tentou uma habilidade de calcanhar, deixando a bola, contra todas as previsões, à entrada da área, para Ronaldo finalizar. Como Ronaldo estava apertado, o remate acabou por ser obstruído, e a jogada não teve efeito. Para Pedro Martins, que comentava o jogo, o avançado do Real tomou uma má decisão, pois estava em boa posição quando recebeu a bola e devia ter tomado a decisão mais simples de tentar finalizar ele. Não só não é certo, contudo, que Benzema ficasse com espaço para finalizar depois de rodopiar sobre si próprio, como não me parece que ser o mais simples possível seja sempre o melhor que há a fazer. Por vezes, complicar é a melhor decisão. E o que é espantoso, a meu ver, é que se diga que esta foi uma má decisão quando, semanas antes, em Camp Nou, numa jogada muito parecida, o toque de calcanhar do francês permitiu a Ronaldo fazer o golo com que, na altura, o Real empatava. Mais uma vez, é o desfecho da jogada, não a decisão do jogador, que conta para esta gente. Benzema lembrou-se de fazer uma coisa que poucos estavam à espera e fê-la bem. Como é normal, ele não pode prever o comportamento de todos os adversários, assim como não pode prever o comportamento do colega a quem vai entregar a bola. Tem que confiar que as coisas vão correr bem. Em Camp Nou, bastava que alguém do Barcelona tivesse antecipado aquilo para que a jogada não tivesse efeito. Neste caso, como no outro, só posso gabar a iniciativa de Benzema. Arriscou fazer uma coisa diferente que, tendo a desvantagem de ser mais difícil de pôr em prática, acarretava a vantagem de ser menos previsível para os adversários. Não foi bem sucedido, mas tomou uma boa decisão. Não perceber isto é também não perceber bem a diferença entre quem é simples e quem sabe simplificar.

6. A última nota é sobre a melhor liga do mundo. Há anos a fio que se diz que a Liga Inglesa é o melhor campeonato do mundo, o mais competitivo, aquele em que se joga melhor, etc.. Parece-me mais ou menos incontestável que é aquele que movimenta mais dinheiro e aquele que maior capacidade tem para atrair os melhores jogadores. Não se segue daqui que seja o melhor. Para dizer a verdade, é até discutível que esteja entre os cinco melhores campeonatos da Europa. O futebol em terras de Sua Majestade continua a ser primitivo e nem a chegada de treinadores continentais, contra os quais se levantam já algumas vozes, argumentando que estão a descaracterizar o futebol inglês, tem sido suficiente para que esse futebol se consiga manter ao nível dos melhores da Europa. Nos quartos de final da Liga dos Campeões, há três equipas espanholas, duas francesas, uma italiana, uma alemã e uma portuguesa. Nos quartos de final da Liga Europa, há duas equipas italianas, duas ucranianas, uma russa, uma espanhola, uma alemã e uma belga. Nos quartos de final das duas provas europeias, não resta uma única equipa inglesa. Não explicando tudo, explica alguma coisa. As melhores equipas inglesas estão num nível inferior às melhores equipas do resto da Europa, e as restantes equipas com aspirações europeias estão num nível inferior às restantes equipas do resto da Europa. Como é que a alegada melhor liga do mundo é incapaz de pôr um único clube entre os dezasseis que ainda se encontram em prova? Enquanto se continuar a achar que jogar futebol é correr muito, lutar muito e transpirar muito, nada mudará. Os treinadores continentais podem ser capazes de introduzir novas ideias, mas precisarão de décadas para mudar mentalidades. E é essencialemente a mentalidade que distingue o futebol inglês que faz com que seja bem inferior ao futebol que se pratica noutros sítios.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O professor Manuel Sérgio

O professor Manuel Sérgio, que de há uns tempos para cá ganhou a fama de saber alguma coisa de futebol, escreve com assiduidade num jornal desportivo. Além da tendência para gostar um pouco de tudo, como se nada fosse suficientemente mau para merecer a sua censura, tendência da qual Luís Freitas Lobo é o principal cultor, o professor Manuel Sérgio gosta de defender que a teoria e a prática andam de mãos dadas. Apesar do truísmo, o professor repete a ideia em todos os seus artigos, como se estivesse a dizer alguma coisa que a maioria das pessoas não percebesse. A ideia, em si, não só não é extraordinária, como é absolutamente vaga. O professor Manuel Sérgio acha que não, acha que ela contém os mistérios do universo, e não é capaz de aceitar a possibilidade de haver um mau treinador que alie a teoria à prática. Do seu ponto de vista, maus treinadores são aqueles que só têm prática, ou aqueles que só têm teoria. Os que aliam a teoria à prática são necessariamente bons. José Mota, cuja teoria podia ser resumida através da fórmula "Futebol = Luta de Galos", costuma saber passar dessa teoria à prática, pondo os seus atletas a jogar qualquer coisa desse género. De acordo com o argumento do professor Manuel Sérgio, isto é um bom treinador. De acordo com o argumento que reforçarei de seguida, o professor Manuel Sérgio é um tontinho.

A Academia, em termos gerais, tem o hábito de criar este tipo de tontos. São pessoas que, por se terem destacado dentro da Academia, acham que ela tem valor por si. E tudo aquilo que dizem é influenciado pela crença de que a formação que têm lhes dá uma determinada autoridade. Para dar um exemplo, o professor Manuel Sérgio costuma inundar os seus textos com citações de pensadores famosos, acreditando que coisas ditas por pessoas que toda a gente conhece, mesmo que fora de contexto, ajudam a enobrecer o que diz e dão força às teorias que sustenta. Este tipo de vício, o de achar que uma frase de Platão ou Nietzsche é lei, é aquilo que estou a tentar dizer que abunda em muitos académicos. Habituaram-se a ouvir pessoas a defender teorias com base no que os antepassados mais célebres diziam, um hábito, aliás, de outro regime, e acham agora que defender ideias é uma espécie de concurso para ver quem consegue citar mais antepassados. A Academia é muito isto. E o professor Manuel Sérgio, que desde que começou a escrever sempre lembrou que era académico, e que isso o distinguia de alguma maneira, costuma defender as suas ideias assim. Argumentar, para ele, é atirar com tralha antiga aos outros. Influenciado por aquilo que antigamente se achava ser um argumento, e que de facto é um argumento em regimes totalitários, o professor Manuel Sérgio chegou aos jornais desportivos e à opinião pública de pança cheia, como se a sua sabedoria acerca do jogo se justificasse por ser um velho jarreta, por ser académico e por conhecer algumas frases de gente que acha que é importante. 

No seu artigo mais recente, insurge-se contra Jorge Valdano, ainda que conte uma história patusca acerca do dia em que o conheceu, e da elegância do argentino, que muito respeita, e tal e tal. A razão pela qual se insurge contra Valdano é uma frase proferida por este num livro: "Nunca ouvi Mourinho dizer uma frase sobre futebol, digna de ser recordada". Mourinho é o campeão pelo qual a donzela Manuel Sérgio torce porque, evidentemente, o fenómeno Mourinho, como a muitas outras pessoas medíocres (o conselheiro Acácio, por exemplo, que agora comenta assiduamente na SportTV), tornou-o famoso. O sucesso de Mourinho foi tal que, para o explicar, deu-se voz a algumas pessoas que, até aí, ninguém conhecia. Desde treinadores a professores, todos ficaram a ganhar com isso. E o professor Manuel Sérgio foi um deles. Foi, digamos assim, o responsável por explicar o lado filosófico do sucesso de Mourinho. Como Mourinho o trouxe para a ribalta, o professor Manuel Sérgio decidiu que devia intervir a favor do seu protegido. E desatou a dizer disparates, uns na forma de argumentos à pedrada, outros na forma de citações sem nexo, a maioria deles revelando a senilidade que o define. Eis um exemplo:

"Há muitos anos já, o José Mourinho me escutou: "Quem só teoriza não sabe, quem só pratica repete"

Não obstante a brasileirismo do português, o professor Manuel Sérgio é suficientemente vaidoso para achar que ensinou o que de mais importante Mourinho aprendeu. Decidiu proteger Mourinho, portanto, porque acha que Mourinho pôs em prática os seus ensinamentos. Decidiu proteger Mourinho porque acha que o futebol das equipas de Mourinho foi, de alguma maneira, influenciado por ele. Eis outro exemplo dos disparates do professor Manuel Sérgio:

"No conhecimento científico, não há teoria sem prática, nem prática sem teoria, se bem que (e volto a palavras minhas) a prática seja mais importante do que a teoria e a teoria só tenha valor, se for a teoria de uma determinada prática."

Ao professor Manuel Sérgio, que gosta tanto de citar autores, bastava que se lhe citasse Aristóteles para que percebesse que estas três linhas não têm pés nem cabeça. Isto para não falar da implicação maior destas afirmações, a de que toda a gente devia ir para cursos profissionais. Para o distinto professor, tudo é prática. E a única teoria que tem valor é a teoria que se debruça sobre uma prática. Na insigne indústria do sapato, por exemplo, só há espaço para sapateiros e para teorizadores do sapato. E o modelo de sociedade que daqui decorre é um em que cada indivíduo ou vai para sapateiro (ou para outra profissão prática qualquer) ou para teorizador de sapatos (ou de outra arte qualquer). É mais ou menos o modelo proposto por Platão, com a importante diferença de só conceber a classe dos artesãos. Isto faria do professor Manuel Sérgio um pedagogo de tontos, não fosse o azar de fazê-lo um pedagogo tonto, como se vê no exemplo seguinte:

"se associarmos, no treinador de futebol Jorge Valdano, a teoria à prática, podemos aplaudir a teoria, até o seu humanismo, mas a prática (como treinador de futebol, repito-me) rasa o sofrível"

Jorge Valdano não teve grande sucesso como treinador, logo tudo o que diz é inconsequente. Para o professor Manuel Sérgio, o que autoriza uma pessoa a falar e a ter razão não são as ideias e os argumentos; são os resultados práticos. Seja o que for que Valdano diga, é necessariamente falso porque ainda não teve sucesso com essas ideias. Não sei o que o professor Manuel Sérgio acha que sabe, mas toda a História da Ciência consiste em pessoas que formularam teorias, que foram ridicularizadas enquanto essas teorias não foram aceites e que passaram à posteridade quando se percebeu que tinham razão. Toda a História da Ciência é sobre teorias que, depois de corroboradas, transformaram a prática para sempre. Valdano pode nem nunca ter sucesso como treinador, mas isso só implica que não diga coisas acertadas na cabeça tacanha de quem não sabe nada do que pensa que sabe. Veja-se mais um exemplo:

"Vejamos agora, sem irmos até ao pormenor, o que de mais significativo fez José Mourinho: completou 100 jogos, na Liga dos Campeões; foi campeão em Itália, em Inglaterra, em Portugal e em Espanha; venceu duas vezes a Liga dos Campeões e uma vez a Taça UEFA (hoje, Liga Europa)"

Para o professor Manuel Sérgio, o currículo de Mourinho fala por si. Com um currículo destes, tem necessariamente de ser bom treinador e de ter boas ideias sobre o jogo. Não interessa muito como e com que meios conseguiu o que conseguiu. O que interessa é que teve sucesso. Há cerca de três quartos de século, também houve quem tivesse dominado a Europa quase toda. Por isso, para o professor Manuel Sérgio, a máquina nazi também deve ser elogiada. Não interessa o poderio bélico desigual; só interessa o sucesso das manobras militares. O que Mourinho fez no Porto, e também na sua primeira passagem no Chelsea, é evidentemente invejável. O que fez depois disso é banal. E é-o não porque passou a ter piores resultados (o que aconteceu), mas porque passou a conceber o jogo de maneira diferente, ou seja, porque passou a teorizar de maneira diferente. Passemos para o último exemplo:

"E se consultarmos o livro Mourinho - a descoberta guiada, do prof. Luís Lourenço, aí encontraremos, na força expressiva das palavras, uma admiração incontida dos seus jogadores, pelo treinador e o homem que José Mourinho é".

Não sei se isto é desonestidade intelectual, se infantilidade. Gostava de conhecer um livro sobre uma pessoa que contivesse testemunhos de outras pessoas que dissessem mal dessa pessoa, mas não conheço. O professor Manuel Sérgio, pelos vistos, deve conhecer, ou não acharia que palavras elogiosas de jogadores num livro sobre um treinador pudessem servir de argumento para comprovar a qualidade desse treinador. Enfim... O professor Manuel Sérgio é um tontinho que tem hoje espaço na opinião pública porque teve a sorte de alguém que conhecia ter tido sucesso. Admira Mourinho não porque Mourinho seja um grande treinador, mas porque acha que Mourinho ilustra a única teoria que tem, e que repete ad nausea, uma teoria que, além de vaga, é falaciosa. Além de tonto, é por isso um bocado parasitário. A sua existência, pelo menos a sua existência pública, depende de outros. Não obstante, acha-se um intelectual de primeira água. Muito da sociedade contemporânea se explica pelo tipo de fénomeno que o professor Manuel Sérgio afinal incorpora: uma pessoa que dá ares de saber alguma coisa, mas que não sabe nada, e que de repente chega a milhares de outras. O melhor que podia fazer o professor Manuel Sérgio era, por isso, pedir que o empalhassem.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Gente Irritante e Coisas Ilógicas

Ser mais irritante do que João Querido Manha, e dizer tantos disparates quantos o do comentador residente da TVI, não é obra ao alcance de qualquer um. Basta, a título de exemplo, lembrar o que disse hoje tal senhor, a respeito do futebol apresentado pelo Sporting. Segundo João Querido Manha, Adrien Silva e os extremos leoninos estavam muito apagados. Tendo em conta que passou o jogo a elogiar Ricardo Esgaio, ou não percebeu que Esgaio era um dos extremos, ou referia-se apenas a Jéffren. E é aqui, precisamente, que está o problema. É que, se o Sporting fez alguma coisa de interessante, sobretudo na primeira parte, fê-lo exactamente por força das acções de Adrien e Jéffren, de longe os únicos jogadores em campo que mostraram algumas ideias. João Querido Manha não viu isso, como não vê, geralmente, grande coisa, e distorceu de tal modo o que se passou que não compreendeu que os jogadores que, na sua opinião, estavam menos inspirados, eram afinal os que estavam mais inspirados. Podia alguém perceber menos de futebol?

Comecei, porém, por falar em irritação, e por dizer que bater João Querido Manha nesse particular não é fácil. Não é fácil, mas é possível, como o deixou bem claro, também hoje, mas umas horas antes, João Gonçalves, comentador da Sporttv, durante o desafio que opôs o Norwich City ao Manchester City. Durante a partida, fui percebendo nos comentários ao jogo uma certa embirração, aparentemente gratuita, com um jogador que não conhecia, o lateral direito do Norwich, Russell Martin, hoje em campo porque o habitual titular se encontrava lesionado. Tantos foram os reparos às acções de Martin em campo, na maioria dos casos quando nada se justificava, que comecei a prestar atenção ao desempenho do jogador. Não me pareceu extraordinário, mas também não me pareceu abaixo do exigível para uma equipa como o Norwich. Aliás, comparado com os dois centrais, era um prodígio. João Gonçalves, porém, insistia. A dada altura, sempre que tocava na bola (acho que às vezes bastava aparecer no ecrã), João Gonçalves dizia que era "fraquinho", que tinha medo de subir, que fazia asneira atrás de asneira. E o jogador, para quem o via sem os óculos especiais ou os estupefacientes de João Gonçalves, não fazia nem mais nem menos do que a maioria dos seus colegas. Percebi, por fim, que era qualquer embirração estúpida, que João Gonçalves tinha acordado de manhã, tinha ido ver a convocatória do Norwich, e tinha decidido, talvez por lotaria, que ia dizer mal daquele jogador em particular. Depois de perceber isto, pensei: "Bonito, bonito, era o rapaz marcar um golo". Só para ver como reagia quem tanto mal dele dizia. E, às vezes, desejar coisas apenas para ver gente estúpida envergonhada com a própria estupidez não é um desporto inútil. Hoje, pelo menos, não foi. É que, passados 5 minutos, Russell Martin marcava mesmo o segundo golo do Norwich na partida. Quando João Gonçalves se apercebeu da coisa, calou-se durante alguns segundos, e depois lembrou-se de se safar dizendo que, às vezes, o futebol tem destas coisas e o improvável acontece. Talvez por ainda me não me ver satisfeito, quem quer que exerça vontades sobre o que se passa no mundo decidiu que João Gonçalves ainda não tinha o que merecia. E eis que, alguns minutos mais tarde, o improvável voltou a acontecer: Russell Martin fazia o terceiro do Norwich e o segundo da conta pessoal. João Gonçalves riu-se, resignado com o que lhe acontecia. E o que lhe aconteceu foi simples: escolheu um jogador que não costuma jogar, ainda por cima um lateral direito, num jogo contra uma equipa bem superior, em que a probabilidade de cometer erros era algo elevada, escolheu um jogador a dedo com quem pudesse embirrar durante todo o jogo, na esperança de que, no final da partida, pudesse dizer que tinha percebido desde o início que o rapaz não era suficientemente bom para o nível que lhe era exigido, passando assim por alguém que percebe muito do que está a dizer. Infelizmente, o tiro saiu pela culatra, e a esperteza de João Gonçalves deixou antes a nu a sua falta de carácter.

Não tanto falta de carácter, mas falta de inteligência é coisa que abunda na arbitragem pelo mundo fora. E não me refiro apenas a árbitros; as próprias leis são, muitas deles, profundamente ilógicas. Por que raio parece indiscutível que agredir seja mais grave do que uma entrada por trás? Não faz sentido. Quando, então, alguém agride um adversário porque este acabou de ter uma entrada violenta e o primeiro é expulso por agressão e o segundo vê apenas um mísero amarelo, não há uma profunda injustiça em causa? Falo disto porque é algo que defendo há já muito tempo e porque, hoje, também no jogo entre o Norwich e Manchester City, voltou a acontecer. Nasri foi atropelado, quando se preparava para receber a bola, por uma entrada de Bassong que o virou ao contrário, mas que o podia ter deixado inutilizado durante muito tempo. Percebendo o que acontecera, e o perigo que acabara de correr, levantou-se irreflectidamente e foi tirar satisfações do adversário. Encostou-lhe a cabeça, e parecia com vontade de ir mais longe. Não chegou propriamente a agredir, mas terá tido vontade, e ainda fez uma meia-tentativa, meio fruste, de dar uma cabeçada. Tal tentativa, ou o que quer que tenha sido, valer-lhe-ia a expulsão. Quanto a Bassong, ficou em campo, como não podia deixar de ser, com apenas um amarelo. Para a esmagadora maioria das pessoas, tal desfecho foi normal e condizente com as acções de cada um dos jogadores: um cometeu uma falta dura; o outro agrediu, ou tentou agredir, sem bola, um adversário. O problema de quem pensa assim é que não pensa assim. Deixem-me explicar: quem pensa assim por eles é o mundo que os rodeia. Acham que tal desfecho é normal porque estão habituados a que seja isso que acontece em situações idênticas. Mas que alguma coisa seja habitual não implica que seja correcta.

Imaginemos que Nasri agrediu mesmo, para facilitar a explicação. Que acção é mais danosa à integridade física do jogador: uma entrada violenta numa jogada, ou uma cabeçada no nariz? Que acção merece maior punição: uma entrada violenta que pode inutilizar um adversário, ou uma agressão que não põe em risco a integridade física de ninguém e não é senão uma reacção perfeitamente compreensível de alguém que acabou de ser vítima de uma entrada que o podia inutilizar? Que pessoa merece maior castigo: quem comete uma entrada dessas, ou quem, por sentir ameaçada a sua integridade, reage intempestivamente a essa entrada? E, já agora, que acção é mais cobarde: aproveitar o pretexto da disputa da bola para aleijar a sério um adversário pelas costas, ou agredi-lo frente a frente, em condições iguais? Como quer que se coloque a pergunta, parece-me óbvio que nada justifica que o segundo agressor mereça maior punição do que o primeiro. Na minha perspectiva, nem sequer merecem punição igual. Nunca compreendi muito bem aqueles jogadores que ficam muito ofendidos quando alguém os agride frontalmente (não falo de pisões, de cuspidelas, nem do que quer que seja feito sorrateiramente). Enquanto jogador, sempre fiquei muito mais ofendido com adversários que tinham entradas violentas, fossem elas deliberadamente maldosas ou simplesmente irresponsáveis, do que com adversários que me tentavam agredir. A menos que fosse alguma coisa muito grave (e a maioria das agressões, em futebol, não são graves), agressões não põem em causa a possibilidade de se continuar a jogar. E esse é que deveria ser o critério. Nasri - deixem-me dizê-lo - tinha toda a legitimidade para agredir o seu adversário. Mais do que isso: tinha legitimidade para agredi-lo e, fosse qual fosse a punição que sofresse, teria de ser menor que a do seu adversário. Lembrando-me de uma situação parecida famosa, num encontro entre o Barcelona e o Athletic de Bilbau, Maradona foi vítima de uma autêntica caça ao homem durante todo o jogo. A caça durou até à altura em que o argentino perdeu a cabeça e respondeu a uma entrada por trás que o poderia ter aleijado gravemente (e ele tinha vindo de uma lesão recentemente) com uma agressão que desencadeou uma batalha campal. De quem foi a culpa daquilo? Dos jogadores do Athletic e do árbitro da partida (ou das próprias leis do jogo, que não protegem quem deviam). A agressão de Maradona, como a de Nasri, é perfeitamente aceitável. E é por isso que não acho que agressões deste tipo (isto é, agressões que sejam consequência ou de outras agressões ou de coisas deste tipo) devam ser punidas do mesmo modo que faltas em jogo. O que estou a dizer pode parecer profundamente radical e ilógico, mas, pensem bem: que razão lógica há para que um jogador mereça a punição de não poder continuar a jogar só porque agrediu alguém que fez algo que poderia ter a consequência de impedir que ele continuasse a jogar? Coisas deste tipo deveriam merecer punições de outro tipo; nunca cartões vermelhos como os que merecem aqueles que motivaram a agressão.

domingo, 29 de abril de 2012

Jornal O Idiota!

É o que me surge, ao vislumbrar a primeira página do jornal deste Sábado: " Desgaste provocado pelo português decisivo para o adeus do catalão" ou " Aposta do Real Madrid no projecto Mourinho provocou rombo no porta-aviões culé" foram as frases que me arrebataram a atenção. Já é sobejamente conhecida a fidedignidade de grande parte dos artigos deste jornal, mas ainda assim, perante tamanha estultícia, nem o parco respeito que destilo pelo jornal A Bola me prevenira para a sua parangona. Piorou, no entanto, a minha incredulidade, ao ler as linhas que se encerravam sobre a despedida de Pep. Miguel Correia assinou a crónica ataviada das seguintes pérolas: "uma certeza: um dos aspectos que mais terá contribuído para o desgaste do ainda responsável pelo Barcelona terá sido a guerra de palavras protagonizada por José Mourinho, treinador do Real Madrid, mind games tanto do agrado do técnico português e aos quais Josep Guardiola esquivou-se permanentemente, direcionando o seu discurso,educado, sempre noutras direções. Mas há quem defenda que, afinal, o técnico, que ainda não digeriu o último desaire contra o Real, atirou a toalha para o chão, temendo que, na próxima época, Mou ganhe os títulos mais importantes, uma atitude bem diferente da que mostrou na sua carreira de jogador, isto é, nunca se rendia as adversidades".

Tanta patetice deixou-me perdido, confesso. Não percebia se isto se tratava de uma peça humorística, ou se era apenas idiotice do Sr. Miguel Correia. Idiotice, afinal. Acho piada uma pessoa aludir a uma suposta cobardia de Guardiola, sendo que ele próprio,o Sr. Miguel Correia, abafado que está nesse lamaçal, inventa personagens para assim poder, da forma mais cobarde possível, apelidar Pep de cobarde. Depois, a convicção que coloca numa crença absolutamente idiota, quase religiosa, de que Guardiola está desgastado pela sua relação com Mourinho. Ele, Pep, que nunca adaptou a sua equipa a terceiros, que se centrou única e exclusivamente no aperfeiçoamento do seu modelo, encontrava-se desgastado pela acção de terceiros? Que estupidez!

Um aparte, em que prometo ser breve, sobre Mourinho e Ronaldo. Que são, cada um no seu espaço, elementos de enorme valia, ninguém dúvida, mas esta coisa absurda de os colocar acima de todos só porque são portugueses não encerra em si mesma a mais caluniosa das ofensas? Não será este tipo de xenofobismo a forma mais primitiva de, na sua miserável existência, se sentirem minimamente importantes? Se Mozart teve piolhos, estas pessoas dariam tudo para trocar a sua vida pela desses parasitas.

Depois, na sua habitual crónica, surge Luís Freitas Lobo. Freitas Lobo faz-se acompanhar sempre de uma elegância tremenda, evitando ao máximo melindrar quem quer que seja; porém, encontrei na crónica deste Sábado elemento que justificam reparos. Na sua coluna de opinião, intitulada "As verdades do Futebol", Freitas Lobo dá a entender que a abordagem efectuada pelo Chelsea foi meritória. Isto porque, no seu entender, os 73% de posse de bola do Barcelona estiveram sempre controlados, apesar de 2 bolas no ferro, duas enormes defesas de Petr Cech, (e já nem vale a pena abordarmos o que se passou na primeira mão). Mais, a diferença que Freitas Lobo apregoa deste Barcelona para o que venceu na época passada assenta, segundo ele, na estrutura. Critica o 343 de Guardiola, defendendo que "nenhuma equipa no futebol moderno resiste a este desequílbrio posicional", ignorando o que na realidade contribuiu para o falhanço deste ano, para além de circunstâncias relacionadas com o lado caótico do jogo, como o acaso, ou seja: as opções infelizes que o próprio Guardiola reconheceu ter tomado, assim como aquelas de que ele não falou, como seja o caso de Piqué.

O cronista português podia ter abordado a "aparente má época de Guardiola" através das suas opções, mas quis encontrar uma justificação mais elaborada, o que resultou num redundante engano. Mais, ao afirmar que nenhuma equipa no futebol moderno está preparada para o desequilibrio estrutural de que fala, Freitas Lobo ignora o essencial sobre esta equipa: as regras que se aplicam ao restante universo futebolístico não se podem notar na equipa catalã; as regras são diferentes, por que um diferente paradigma assim o obriga. No futebol moderno, como ele defende, a tendência empurra as equipas para atribuirem uma maior importância aos factores físicos. Esse nunca foi um ponto importante na equipa de Guardiola, e, apesar disso, esta "inferior" equipa, no que aos aspectos físicos diz respeito, dominou o futebol mundial nos últimos 4 anos ao mesmo tempo que lançou mais de 20 miúdos na ribalta. Não sei a partir de que data devemos começar a definir o "futebol moderno", mas esta supremacia contraria, de forma clara, a sua sugestão de que o sucesso na Europa responde a uma superioridade física de umas equipas sobre outras. Termino com uma frase de bancada, com que ele nos brinda, na sequência da que já salientei sobre a mudança de estrutura no conjunto catalão: "Realidade tática agravada com o facto de, contra o Real, forte no jogo aéreo, o central eleito(Puyol) ter apenas 1.78metros". Não sei o que dizer, nem consigo encontrar no jogo contra o Real indícios de que o que é defendido nesta frase encerra o mais ínfimo sentido. À excepção dos últimos 10 minutos, em que existiu algum desnorte do Barcelona, o Real não conseguiu beliscar sequer a superioridade do seu adversário. As melhores oportunidades de golo, de todo o jogo, foram as duas do Barcelona. Os golos do Real resultam de erros a que nada corresponde a baixa estatura de Puyol (o primeiro golo surge de um ressalto, e no segundo Valdés não está isento de culpas), e, sendo assim, não consigo descortinar a relevância dos centimetros a menos de Puyol.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os Erros de Mascherano

Mascherano diz-se feliz por fazer parte da História, e tem razões para isso. Afinal, se não fosse por ele, talvez o Milan nunca reentrasse no jogo. É inegável que o golo de Nocerino nasce depois de um bom trabalho de Robinho, e de uma excelente assistência de Ibrahimovic. Mas será que a bola chegaria a Nocerino em boas condições de finalização se todos se tivessem comportado adequadamente? Não. E quem falhou foi precisamente Mascherano. Para muitos, o que digo pode ser trivial, pois são capazes de perceber que é o argentino quem coloca em jogo o italiano, no momento do passe de Ibrahimovic. Mas os erros de Mascherano no lance não se limitaram à forma desajustada como respondeu ao mesmo na altura do passe decisivo.


szólj hozzá: BAR

A meu ver, o erro de Mascherano começa bem antes, ao abordar a recepção de Robinho, a meio do meio-campo defensivo, de forma imprudente. O brasileiro estava de costas, rodeado por adversários, sem apoios por perto, e o comportamento correcto consistiria em obrigá-lo a jogar para trás. Mascherano, porém, não é um jogador inteligente neste tipo de abordagem. Para muita gente, tem características defensivas óptimas, pois é muito agressivo, "morde" constantemente os calcanhares aos adversários, etc. Mas também para se ser competente defensivamente é preciso decidir bem. E, muitas vezes, ao contrário do que se pensa, a melhor decisão do jogador que sai ao portador da bola passa por não lhe querer roubar a bola. Este é um bom exemplo. O que Mascherano deveria ter feito, já que foi ele que saiu para ocupar o espaço central, era ficar em contenção, esperar que Dani Alves e Messi bloqueassem a possibilidade de passe lateral a Robinho, e "forçar" a que o brasileiro voltasse para trás. Mascherano não ficou em contenção, procurou ir para cima de Robinho para desarmá-lo, e foi "comido" com toda a facilidade do mundo. Ingenuamente, o argentino ficou batido e Robinho com o espaço central para progredir. Estava criada a superioridade. O lance acabou como acabou, mas poderia ter acabado com uma simples tabela com Ibrahimovic. Não satisfeito ainda com isso, Mascherano ainda viria a colocar Nocerino em jogo, não respeitando (quase que pornograficamente, tantos foram os metros) a linha defensiva que os seus colegas tinham delineado. Dois erros graves que foram decisivos para que o Milan empatasse a partida e para que, mais tarde, se argumentasse que houve um momento em que a eliminatória parecia pender para o lado italiano. Após quase dois anos, Mascherano continua a não perceber o que é jogar nesta equipa, e continua a ser o elo mais fraco de um conjunto muito acima da média. Mesmo não jogando na sua posição de origem, onde este tipo de comportamentos errados, aliados à sua incapacidade, em posse, para perceber os espaços certos onde a bola deve entrar, seriam ainda mais prejudiciais à equipa, Mascherano continua a ser um corpo estranho neste modelo de jogo. E ontem, de facto, ia entrando na História, mas pelas razões erradas.

Entretanto, a final de Munique começou a ser jogada logo após a partida, e já houve responsáveis madrilenos a aproveitar-se das queixas italianas (absurdas, diga-se) para preparar o eventual embate frente ao Real. As jogadas de bastidores deram resultado no passado, e são a arma mais forte até hoje apresentada pela equipa de Mourinho para parar a equipa catalã, pelo que seria natural que tal acontecesse. Quanto aos casos de arbitragem, e àqueles que se insurgiram de imediato contra o alegado favorecimento aos catalães, repete-se a história do monstro a que já muitas vezes aludi. Não me lembro de outra equipa, na História do jogo, que tenha criado tanto medo nas pessoas. Qualquer coisinha, por mais irracional que seja, serve para tentar destruir o monstro medonho em que a equipa de Guardiola se transformou. As pessoas não compreendem esta equipa, não compreendem por que é tão forte, por que não há ninguém capaz de derrubá-la, e querem à força que ela caia. Por causa dessa vontade, repetem imbecilidades. E aproveitam-se de um jogo em que foram assinaladas duas grandes penalidades, coisa pouco comum, para se atirarem ao ar; e aproveitam qualquer lance, por mais claro que seja, para pôr em causa a competência do monstro.

A qualquer uma destas pessoas poderia facilmente fazer recordar as razões de queixa que os catalães tinham na primeira mão. Mas nem vale a pena. É que qualquer dos lances que protestam, no jogo de ontem, foi claramente bem assinalado: qualquer um dos penáltis é claríssimo, sendo que o primeiro só por misericórdia é que não valeu igualmente a expulsão de Antonini; o alegado penálti sobre Ibrahimovic só é penálti na cabeça dos que querem à força que o seja; e o lance em que Robinho fica isolado, de longe o meu preferido, só não vê que a bola foi amortecida nos braços do brasileiro, coisa que o beneficiou, quem não quiser ou por má fé decida não ver. O jogo de ontem teve casos não porque, de facto, os tenha tido, mas porque as pessoas querem à força que os jogos do Barcelona tenham casos. Querem justificar aquilo que não compreendem, e precisam de algo (arbitragens) que lhe confira racionalidade. Se isto já é estúpido no comum adepto, é muito grave num jornalista. A falta de ética profissional de alguns dos jornalistas da Sporttv, no que diz respeito às analises dos jogos do Barcelona, tem-se vindo a acentuar nos últimos tempos, e ontem, após o jogo, atingiu proporções obscenas. Não obstante Luís Freitas Lobo se recusar a comentar a arbitragem, chegando aliás a dizer que ela nunca poderia justificar um jogo tão desnivelado, o jornalista de serviço insistiu, outra e outra vez, procurando forçar a interpretação de que o jogo tinha sido resolvido pelos homens do apito. Apesar de estúpido, a insistência condiciona a opinião do espectador, sobretudo daquele espectador que não tem opinião própria. A ética jornalística não existe apenas porque é giro que exista; existe porque a opinião jornalística influencia a opinião pública e porque o jornalista é um profissional com mais responsabilidades do que o comum cidadão. Num país a sério, depois do exercício de irresponsabilidade profissional de ontem, a carreira deste senhor estaria, no mínimo, em risco. Como não é esse o caso, a demonstração de valores patrióticos no acto de protestar subtilmente contra os rivais dos portugueses em Madrid até fica bem vista. De resto, o jogo esteve sempre controlado pelos catalães, e é quase criminoso dizer, num jogo com aquelas características, que a arbitragem desempenhou um papel importante. Francamente, é preciso ser idiota para ter uma interpretação da partida tão profundamente errada.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Atentados intelectuais

Como é hábito, nesta e noutras áreas, há entre quem fala de futebol gente incompetente, gente simplesmente ingénua e gente que age deliberadamente de má fé. Estas três categorias de pessoas constituem, a meu ver, um conjunto que faz do jogo falado uma coisa empobrecida e que influencia negativamente a opinião pública. São, por isso, atentados ao intelecto do comum adepto, intelecto esse que, como o de uma criança, recebe não-criticamente aquilo com que o educam. Queria, nesta base, falar de três casos evidentes e recentes em que aquilo que se escreve ou diz tem responsabilidades na condução das opiniões de quem lê.

1. Tem vindo a lume, nas últimas semanas, a notícia da possível saída de Pereirinha do Sporting. Não sei se há algum fundamento nestas notícias, mas desconfio que não, até porque é prematuro falar do que quer que seja em relação ao plantel antes de se saber quem é o treinador que o vai comandar. Ora, sendo assim, parece-me claro que a notícia é escrita de um modo absolutamente especulativo e tendo como fundamento o facto de o jogador estar há 3 anos para se afirmar e ainda não o ter conseguido. Trata-se de uma opinião de uma ou mais pessoas que, na urgência de produzir novidades jornalísticas, foi transformada em notícia. O que é cobarde e constitui um atentado intelectual é que este tipo de notícia condiciona opiniões e cola rótulos que, maior parte dos leitores, por não ter convicções fortes, aceita facilmente. Não é certamente o caso mais grave, mas é um exemplo perfeito de como, às vezes, uma opinião aparentemente inocente tem um lado criminoso.

2. O segundo caso tem a ver com David Luiz. Não conheço outro sítio que alerte, com tanta frequência, para a forma precipitada com que a opinião acerca de David Luiz tem crescido. Não está em causa o valor do jogador, que o tem. Está em causa a dimensão desse valor e a magnitude dos elogios que lhe são feitos. Analisemos, primeiramente, o golo com que a Naval se adiantou no marcador, esta segunda-feira. Alguém no seu perfeito juízo consegue desculpar um defesa central que defende daquela maneira primitiva um lance como aquele? O Benfica está equilibrado defensivamente, a bola entra num avançado que está descaído para um flanco, e mesmo assim David Luiz quer à força ganhar o lance em antecipação. Perde-o, como tantas vezes tem acontecido. Mas o pior do lance nem é isso, até porque perder a antecipação, naquela zona, deixava o jogador da Naval apenas com espaço no flanco. O que é grave é que, David Luiz, ao falhar o seu primeiro intuito, fica do lado de fora e continua a força a recuperação da bola. Ao fazê-lo, David Luiz está precisamente a ignorar o mais básico princípio defensivo: o defensor deve dar o lado de fora ao atacante, defendendo sempre por dentro, porque a baliza está por dentro. David Luiz acompanha o avançado da Naval por fora, como se estivesse a defender a bandeirola de canto. São poucos os defesas centrais profissionais que cometem este tipo de erros absurdos. O resultado foi o óbvio. O atacante da Naval protegeu a bola com o corpo e veio para dentro sem oposição. Depois fez o golo, mais um sofrido pelo Benfica às custas de David Luiz. Pode ser o defesa mais espectacular a jogar em Portugal, o mais espalhafatoso, o que faz mais cortes no limite, mas é responsável por praticamente 50% dos golos sofridos pelo Benfica esta temporada, só no campeonato. E não atender a este facto é minimamente grave. Quando se fala de David Luiz, ignora-se este pormenor. E fala-se dele esquecendo que isto lhe diminui drasticamente o valor. Toda a pessoa de bom senso deve ser alertada para este tipo de coisas. Porque a diferença entre uma opinião sensacionalista e uma opinião informada é, muitas vezes, uma coisa ténue.

3. O terceiro caso é, porém, aquele que me parece mais grave, aquele em que há, além de incompetência, verdadeira má fé. Deparei recentemente com uma notícia que dava conta de que Hulk era o rei das assistências do campeonato português. O anúncio deixou-me imediatamente desconfortável, pois a minha intuição dizia-me que algo de muito errado havia no mesmo. A notícia foi veiculada por um reputado diário desportivo e baseava-se numa estatística alegadamente séria. Segundo a teoria, Hulk, com duas assistências no Restelo e uma diante do Marítimo, tinha passado para o topo da lista dos jogadores com mais assistências no campeonato, com 5 assistências. A minha primeira reacção foi pensar que não se consideravam assistências provenientes da marcação de bolas paradas, mas duas destas assistências recentes de Hulk tinham sido obtidas desse modo, o que invalidava esta suposição. Fiz questão de rever todos os golos do Benfica, porque estava em crer que Aimar, só na primeira volta, tinha mais do que 5 assistências. Não me enganei. Pablo Aimar tem 8 assistências: duas ao Setúbal (para Javi e para Luisão, na transformação de livres), uma ao Belenenses (para Javi, na transformação de um canto), uma ao Leixões (para David Luiz, na transformação de um livre) uma ao Leiria (para Saviola, na transformação de um livre), uma ao Guimarães (num passe atrasado para Carlos Martins), uma ao Setúbal (para David Luiz, na transformação de um canto), e uma agora à Naval (para Weldon, na transformação de um canto). Desconfio ainda que as contas não batem certo em relação a Hugo Viana, Coentrão e Di Maria, pelo menos. Já se sabe que, para mim, uma tabela de assistências pouco ou nada significa, em relação aos méritos de um jogador. Mas não é assim que pensa maior parte das pessoas. E publicar uma notícia com este grau de irregularidade, ainda por cima eivada de preconceitos e claramente tendenciosa (referindo-se por exemplo com amargura em relação ao lance do golo anulado a Falcao no Restelo, que garantiria a Hulk mais uma assistência), é algo que condiciona fortemente quem lê e não tem espírito crítico para contestar o que lê. Este tipo de acção constitui, na verdade, um atentado intelectual e é uma das mais perigosas consequências da liberdade de imprensa. Assim se constroem mitos e se manipulam verdades. Assim se inflacionam ideias e se conquistam simpatias. É por causa de coisas como estas que as opiniões erradas abundam na praça pública. Se em parte a falta de espírito crítico dos leitores explica a situação, não deixa de haver culpas de quem escreve atrocidades como estas. Lamentavelmente, claro.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

As Teorias de João Rosado e mais um Disparate de David Luiz

É, para mim, sempre reconfortante assistir a jogos na televisão quando comentados por João Rosado. E é-o porque a estupidez continua a ter aquele lado cómico que me encanta. Haverá certamente comentadores desportivos mais irritantes que ele, mas confesso que há qualquer coisa de esquisito nas teorias de João Rosado que me fascina. É, muito provavelmente, o comentador desportivo no activo mais palerma, não sendo porém dos mais mediáticos. João Rosado já aqui foi alvo de alguma chacota e ontem, durante o jogo que opôs o Rio Ave ao Benfica, conseguiu não só superar-se a si mesmo como também repetir uma teoria atoleimada que já antes nos arrancara ruidosas gargalhadas.

A primeira das duas teorias que fazem de João Rosado um autêntico comediante é, portanto, uma repetição, o que, possivelmente, ainda é mais grave. Quando, dentro da área, Cardozo tentou jogar em Aimar e a bola embateu no braço de Gaspar, João Rosado teve a infelicidade de se mostrar convicto de que o paraguaio levantara a bola de propósito para que esta tocasse no braço do adversário. Claro que o fez. Entre dois adversários, estando preocupado em proteger a bola e em encontrar os companheiros a quem iria passar, Cardozo ainda arranjou tempo para pensar na possibilidade que tinha diante de si: ganhar um penalty fazendo a bola tocar num braço adversário. Está certo... João Rosado nunca jogou à bola. Ou então é mentecapto. É que qualquer palerma que já tenha jogado à bola sabe perfeitamente que enviar uma bola contra um braço não é propriamente algo fácil de fazer. Além disso, tendo tanto em que pensar e tendo que o fazer rapidamente, é estúpido imaginar que alguma vez isso passe pela cabeça de um jogador. O mais extraordinário, como disse, é que João Rosado já tinha expressado esta teoria noutra ocasião. Quanto a mim, João Rosado está convencido de que, entre outras coisas, há jogadores que, quando entram na área adversária, em vez de estarem a pensar em marcar golo, em fintar ou em assistir um colega, estão preocupados em tentar mostrar que são peritos a chutar bolas contra braços. Pessoas que estão convencidas deste tipo de coisas são parvas. João Rosado é parvo. Curiosamente, as qualidades "ser parvo" e "ser jornalista desportivo" parecem andar muitas vezes juntas.

Mas João Rosado não se ficou por aqui. Como se não bastasse, passou o jogo a insinuar qualquer coisa que não entendi muito bem. Quando o outro comentador do desafio sugeriu que Aimar estava a passar um pouco ao lado do jogo, João Rosado expressou, bem contente, um "Como é hábito!". Mais tarde, desenvolveu um pouco melhor a teoria e deixou no ar a ideia de que era costume Aimar estar ausente da partida. Para João Rosado, Aimar tem jogado constantemente mal, tem sido incapaz de se impor, perde muitas bolas. Para mim, João Rosado tem-se esquecido constantemente dos medicamentos, tem sido incapaz de se manter mentalmente saudável e perde muitas oportunidades para estar calado. Ou isso ou esteve fora do país durante os últimos seis meses. Ao longo de toda a partida, João Rosado procurou justificar a sua opinião sobre Aimar com o jogo menos brilhante do argentino. O problema, aqui, é que a opinião de João Rosado não faz sentido. Dizer o que quer que seja de negativo em relação a Aimar, depois do que o argentino tem feito, é estúpido. Procurar sustentar a teoria de que Aimar é habitualmente um jogador a menos na equipa não merece, sequer, que se lhe conceda espaço para argumentos. Pessoas com opiniões ridículas são tontinhos. E aos tontinhos deve-se apenas dar-lhes um bocado de plasticina e mudar-lhe a fralda de vez em quando. Mais nada. João Rosado, como tantos outros por aí, tem um canudo que diz que pode exercer jornalismo, tem amigos que o deixam dizer quantidades assustadoras de porcaria na televisão, e até tem a sorte de nunca lhe ter caído um relâmpago em casa, coisa que deveria acontecer a todos os seres humanos com um Q.I. inferior ao de um rinoceronte africano médio. O que não tem é competência para fazer o que faz.


Tempo agora para o disparate do desafio. Como é que é possível alguém continuar a aplaudir um jogador que, jogo após jogo, continua a insistir em fazer disparates em campo? Depois de se colocar mal no lance, permitindo que a bola entre em Tarantini, David Luiz vai atrás do médio do Rio Ave e, em plena grande área, arrisca um carrinho por trás do adversário? Nem está em causa se toca na bola ou não. Atropelando-o, só por azar é que não tocaria naquela bola. Agora, aquilo é sempre penalty, em qualquer parte do planeta. E a entrada é a roçar o vermelho. David Luiz nunca pode entrar a uma bola daquela maneira estando por trás do adversário, porque vai sempre derrubá-lo. Já contra o Nacional havia protagonizado um lance semelhante, embora esse, escandalosamente, não tivesse sido assinalado. Para atacar uma bola daquelas de carrinho, tem de fazê-lo estando minimamente de lado, de modo a que o seu movimento para chegar à bola não perturbe a acção do adversário. Por trás, é natural que, antes de chegar à bola, toque de alguma maneira no adversário. A única coisa que David Luiz poderia ter feito, naquele lance, depois de deixar fugir Tarantini, era correr ao lado dele e enviar-se de carrinho para a frente do jogador do Rio Ave, com o pé em posição de interceptar o remate. A opção pelo desarme, nas condições em que se encontrava, ou seja, atrás de Tarantini, foi por isso a pior possível. Dentro da área, então, uma burrice do tamanho do mundo. Mais um disparate e mais uma evidência do pouco crescimento intelectual de David Luiz, nos últimos meses.

sábado, 7 de novembro de 2009

Napoleão joga em Alvalade?

Há fármacos - disseram-me há tempos - que atenuam certas doenças mentais. Dedicar-se, por isso, à droga, era capaz de ser uma boa ideia para muito bom jornalista. É o caso de Nuno Madureira, autor deste brilhante artigo de opinião, no MaisFutebol. O jornal já nos habituou à demência dos seus opinadores, mas nunca é demais referir certos casos. Este vale francamente a pena, até porque assenta numa opinião amplamente difundida por mais de metade dos malucos que têm opiniões sobre futebol.

O que Nuno Madureira tenta fazer é explicar de forma simples o problema que se abateu sobre o Sporting. Acontece que só procura explicar coisas complexas de forma simples quem não tem muito juízo. Assim, a manifestação das perturbações mentais de Nuno Madureira começa logo com a sua primeira frase:

"Há muitas maneiras de enumerar os problemas do Sporting. Uma das mais básicas e directas resume-se a uma frase: afinal, Liedson é humano."

A falta de siso começa logo com um problema no discurso. Nuno Madureira diz que há várias formas de enumerar problemas e propõe-se a enumerá-los numa frase, mas depois não enumera nada e resume uma enumeração de várias coisas a apenas uma coisa. O resto deve ter-se, certamente, perdido pelo caminho. Mas antes de ler o resto do artigo, adivinhamos logo que o problema mental do senhor tem por origem uma desilusão relacionada com a natureza de Liedson. Ao que parece, a precipitação do estado de demência ter-se-á ficado a dever à descoberta de que o enormíssimo jogador brasileiro era, afinal, apenas um humano. Convém dizer que nem toda a gente está mentalmente preparada para descobertas deste tipo. Mas eis que prossegue a demonstração de loucura:

"Quantas vezes, nas últimas épocas, a uma exibição mediana - ou medíocre, ou mesmo má - do Sporting, se seguiu a entrada em cena do 31, aparecendo do nada, para resolver o jogo e atenuar as diferenças para a concorrência?"

Posso estar enganado, mas não me lembro de uma única ocasião em que Liedson tenha aparecido "do nada", a fintar os onze adversários e a fazer golos. Mas como não tinha por hábito assistir aos treinos dos leões, posso estar a fazer juízos precipitados. Continuemos:

"De tanto habituar os seus adeptos - e os dos adversários - a um rendimento superlativo, semana após semana, o «levezinho» construiu nos últimos anos, por mérito próprio, uma imagem de super-herói."

Superlativa é a pancada deste senhor; super-heróis foram os pais dele, que tiveram que lhe aturar a estupidez. Adiante:

"Agora, que a sua inacreditável regularidade conhece uma quebra consistente e prolongada - dois golos em nove jornadas, o último há mais de mês e meio - tudo o que andava disfarçado, ou atenuado, parece mais evidente."

Agora?? Mas é a primeira vez que o rapaz fica muito tempo sem marcar?? E quantos jogos resolveu o Sporting nesse mês e meio, sem Liedson? Comecemos pelo fim: foi Saleiro quem marcou frente ao Venstpils, dando o empate; foi Matías Fernandez quem marcou frente ao Guimarães e frente ao Marítimo, o que valeu, das duas vezes, um empate; foram João Moutinho e Miguel Veloso quem marcaram na vitória ante o Ventspils; foram João Moutinho, Daniel Carriço e Vukcevic quem marcaram na vitória frente ao Olhanense; foi Adrien Silva quem marcou na vitória ante o Hertha de Berlim. O problema é mental, mas também é de memória. E de matemática, já agora. O que "andava disfarçado, ou atenuado" e que agora é evidente é que doentes mentais não têm competência para serem jornalistas. Continua Nuno Madureira, dizendo:

"A equipa tem poucas soluções tácticas alternativas? Sim, como sempre teve."

O senhor Nuno Madureira tem poucas ideias que não sejam idiotas? Sim, como sempre teve.

"Falta qualidade individual em quase todos os sectores? Sim, de há muito tempo para cá."

Falta qualidade individual a cada uma das sinapses deste senhor? Sim, é provável que falte.

"Paulo Bento repete receitas e discursos, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez também nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas."

Nuno Madureira repete sentenças populares e discursos de massas idiotas, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas e conseguiu completar um curso superior. Mas eis o que diz no último parágrafo:

"A maior diferença - não a única, claro - é que noutras épocas o Sporting tinha um fenómeno a ponta-de-lança."

Um fenómeno? Mas um fenómeno natural? Era o El Niño? Ia jurar que esse jogava no Liverpool. E será permitido por lei fazer alinhar, no onze inicial, furacões, anti-ciclones, tsunamis e fenómenos dessa natureza?

"Nesta altura, tem apenas um excelente avançado, a lutar para recuperar os superpoderes."

Agora sim, percebo o que o senhor quer dizer. Na cabeça de Nuno Madureira, Liedson é o Super-Homem e o problema do Sporting é que ninguém consegue descobrir onde é que o Lex Luthor pôs a Kriptonyte. Será isso? E Nuno Madureira conclui a sua análise ao problema do Sporting do seguinte modo:

"Afinal, Liedson é humano. E o Sporting não estava preparado para lidar com isso."

Como se depreende, para Nuno Madureira, a humanidade de Liedson estragou os planos ao Sporting. A equipa estava preparada para jogar com dez seres humanos e uma entidade divina, mas a partir de agora vai ter de passar a jogar só com onze seres humanos. E isso, de facto, é um problema, visto que mais nenhuma equipa no campeonato português joga só com onze seres humanos. Aliás, vai ser muito difícil ao Sporting continuar a ser competitivo num desporto como o futebol, em que poucas são as equipas que não têm três ou quatro alienígenas, dois ou três veículos de guerra e um alguidar.

Resumindo, todo o maluco que se preze pensa que é Napoleão. Nuno Madureira é um maluco mais sofisticado. Está convencido de que Liedson é Napoleão. Isto se não estiver convencido de que é Napoleão quem é Liedson. Repito as primeiras palavras do texto: "há fármacos que atenuam certas doenças mentais." É capaz de ser altura, até porque vem aí o Natal, de oferecer ao senhor Nuno Madureira um colete de forças e umas férias pagas no Miguel Bombarda. Ou isso ou autógrafo de Deus... perdão, de Liedson.

P.S. Um bom fármaco contra este tipo de maluquice em particular e que ajuda a compreender os verdadeiros problemas do Sporting é o texto que escrevi a 31 de Julho de 2009 e que pode ser encontrado aqui. Aconselha-se a sua ingestão, duas vezes ao dia, durante três meses e vinte e sete dias...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Defeso, Pré-Época, Novidades, Trafulhices e Mau Jornalismo

1. Lisandro e Lucho foram embora e com eles a capacidade de o Porto ser imprevisível. Agora sim, que ruíu o que restava do legado que Jesualdo encontrou quando chegou ao Porto, o treinador portista terá um teste a valer. Perder Lucho e Lisandro num ano não é o mesmo que perder Pepe, Paulo Assunção ou Quaresma. Lucho e Lisandro eram o motor da equipa, os jogadores mais importantes no desenvolvimente ofensivo do modelo e os principais responsáveis por o Porto não ser apenas a equipa rectilínea de transições velozes que Jesualdo pretende. Lucho e Lisandro conferiam ao modelo imprevisibilidade, espontaneidade, inteligência, variedade. Sem eles, o Porto não será só menos forte na soma das individualidades; será sobretudo menos forte colectivamente, pois eram os elementos que tornavam o colectivo de Jesualdo, reduzido a movimentações rápidas e previsíveis, numa equipa menos vertical, menos refém das transições. Arrisco mesmo a dizer que, tirando um ano em que Quaresma foi determinante individualmente, muito do que Jesualdo conquistou se deveu à possibilidade de contar com estes dois jogadores. Sem eles, a história será outra.

2. Para já, pelo início de temporada, mantém-se a impressão de que Jesualdo não sabe contratar. Falcão e Valeri serão jogadores a rever, mas parecem-me pouco capazes de fazer esquecer os dois argentinos que viajaram para França, sobretudo naquilo que de colectivo estes podiam oferecer. Quanto a Belluschi, aprecio algumas das suas qualidades, embora fique muito a dever, por exemplo, aos criativos dos rivais. O problema é que me parece que o argentino não tem nada a ver com o modelo de Jesualdo. E, ao contrário do que dizem, Jesualdo não adapta o modelo às características dos jogadores que tem. O modelo é rígido e só na frente conhece algumas variações. Tirando os três atacantes, que pelas suas características podem movimentar-se de forma diferente, do meio-campo para trás Jesualdo é inflexível. É por isso que jogadores menos tácticos e de toque mais curto, capazes de desequilibrar em espaços mais curtos, mas menos frios a jogar, têm poucas possibilidades de vingar. Veja-se os casos de Leandro Lima ou de Luis Aguiar. No modelo de Jesualdo, não há espaço para verdadeiros criativos. Os seus médios têm de ser competentes em transição, agressivos, capazes de definir com velocidade. Belluschi, por isso, terá dificuldades para se impor, uma vez que não é um jogador para um futebol tão veloz e objectivo como pretende Jesualdo. Quanto às restantes contratações, Álvaro Pereira é suficientemente bom para ser titular e dar alguma qualidade ao lado esquerdo da defesa. Mas Varela e Miguel Lopes são anedotas. Se pensarmos em Guarín, em Tomás Costa, em Kazmierczak, em Nélson Benitez e em tantos outros, vemos que Jesualdo, ao longo destas épocas, contratou essencialmente mal. Analisando concretamente, temos Rolando e Cissokho, que são jogadores razoáveis e que jogavam porque não tinham concorrência à altura, Fernando, que só encaixou na equipa porque não havia ninguém para o lugar e se conseguiu impor a Pelé e a Guarín, Rodriguez, que já tinha mostrado todo o seu valor no Benfica, e Hulk, que é um jogador que vale pelas suas qualidades individuais e que, por isso, não requer muita atenção. Jesualdo é competente na forma de trabalhar, mas é francamente fraco a avaliar jogadores e tem tido alguma sorte em poder contar com o poderio financeiro do clube.

3. Por falar nisso, para onde foi desta vez o Pelé? E, já agora, uma vez que era, a par do grande médio-centro formado no Guimarães, a grande estrela da selecção de sub-21 da altura, para onde vai também Manuel da Costa? Estes dois colossos continuam a sua descida vertiginosa em direcção ao esquecimento. O Entre Dez bem avisou...

4. Ainda no Porto, cheira-me que este ano o lema vai ser: "Passem ao Hulk que ele resolve..." O problema é mesmo que a única coisa que ele resolve fazer é não passar a ninguém e continuar a estragar jogadas de ataque. Se é verdade que as suas qualidades individuais poderão solucionar alguns problemas ofensivos, não é menos verdade que o Porto será menos equipa, será muito mais previsível e estará dependente da inspiração de um jogador. Será muito pouco... E será sobretudo a confirmação de que o modelo de Jesualdo se baseia nas individualidades e não no colectivo...

5. Por fim, o caso Cissokho. Vender Lucho e Lisandro pelas quantias conseguidas é normal. Vender Cissokho por 15 milhões é estupidamente absurdo. O senegalês é um jogador mediano, que soube ocupar um lugar para o qual não havia concorrência, mas que tem ainda muito a melhorar. Soube cumprir os princípios defensivos exemplarmente, apesar de um início um tanto ou quanto displicente, e valeu-se da sua melhor característica, a força. É um jogador capaz de ser regular, mas sobre o qual não antevejo um futuro brilhante que justifique um investimento tão arriscado quanto o do Lyon. Dito isto, não é possível esquecer todo o processo negocial. O Lyon foi a primeira equipa a mostrar interesse no jogador, mas não ia além dos 7 ou 8 milhões de euros, quantia muito mais consentânea com o valor e com o potencial de Cissokho. O Porto, procurando esticar a corda, ia adiando o negócio. E, de repente, aparece o Milan a oferecer o dobro pelo mesmo jogador. Ninguém com um mínimo de imaginação terá ficado indiferente a este brusco e peremptório interesse do Milan. A primeira coisa que pensei foi que isto era um esquema para que o Lyon decidisse oferecer a mesma quantia. Mas a verdade é que o negócio se consumou. Não querendo acreditar, imaginei ingenuamente que o jogador chumbaria nos testes médicos e voltaria ao Porto, valorizado por uma oferta que afinal não passara de um embuste para fazer crer a terceiros que o jogador tinha mercado e valia o dobro daquilo por que estava a ser pretendido. Quando saiu a primeira notícia sobre os testes médicos falhados, percebi que aquilo que pensara na forma de um gracejo, na forma de uma tentativa de justificar algo que me parecia absurdo, estava afinal bem próximo da realidade. Por coincidência, imaginara exactamente aquilo que veio a acontecer. As razões que me levaram a imaginar o sucedido não poderiam diferir, por certo, das razões que fizeram com que isso acontecesse de facto. Não tenho dúvidas que o interesse manifestado pelo Milan nos dias seguintes não foi mais do que uma forma de reforçar a ideia de que o clube italiano estivera mesmo interessado no lateral do Porto. E o Lyon acreditou. E aceitou pagar o dobro daquilo a que estava disposto. Qualquer pessoa dotada de bom senso perceberá que o Milan nunca esteve interessado em Cissokho. Além da desculpa esfarrapada dos dentes e da oferta repentina e descabida pelo jogador, razões suficientes para fazer desconfiar qualquer pessoa, a equipa italiana, depois de gorado o negócio, não procurou contratar outro lateral-esquerdo. Ora, estavam dispostos a dar 15 milhões de euros por um lateral e afinal nem sequer precisavam de laterais? Não faz sentido. É por demais evidente que o Milan e o Porto negociaram uma transferência fictícia de maneira a valorizar Cissokho para que o único e verdadeiro interessado no jogador, o Lyon, ficasse com a impressão de que havia emblemas dispostos a pagar 15 milhões e que o jogador talvez valesse assim tanto. Expus esta ideia ainda o Lyon não tinha avançado para a contratação de Cissokho, logo após o senegalês ser rejeitado pelo Milan, e houve quem achasse ridículo que um jogador que tinha chumbado nos testes médicos pudesse ficar valorizado. A mim, contudo, parece-me ridículo o contrário, tendo em conta que o jogador sempre esteve apto para jogar futebol. O interesse do Milan - repito - foi uma ficção, uma impostura, e teve a finalidade de impressionar e de acirrar o interesse do Lyon. Tendo em conta a actual conjuntura legal que envolve as negociações de atletas, este embuste, mais do que o reflexo da capacidade negocial dos dirigentes portistas, consiste numa actividade fraudulenta que merecia uma investigação cuidada.

6. O Sporting, ao contrário dos seus rivais, não contratou muito. Matías Fernandez, Saleiro e Caicedo renderam Romagnoli, Derlei e Tiuí. Não tenho nada contra a política financeira e desportiva do clube de Alvalade e acho até absurdo argumentar que tem menos meios que os rivais. Não tendo um poderio financeiro tão elevado, tem uma formação mais competente, o que compensa. E o valor do plantel, por causa disso, não se ressente. Aliás, o plantel leonino não é inferior ao do Porto, por exemplo. Desculpabilizar campeonatos mal conseguidos por incapacidade de competir com o Porto é ridículo. Revela um comportamento hipócrita e tacanho. Se o Sporting não tem conseguido competir com o Porto, é porque não tem sido tão competente. Afirmar que Paulo Bento tem feito o possível e repetir chavões como "sem ovos não se fazem omeletas" é uma atitude bem portuguesa que revela conformismo e servilismo. O Sporting tem argumentos tão ou mais válidos que os rivais, tem "ovos" de categoria com os quais pode fazer "omeletas" formidáveis. Quem pensa o contrário, engana-se.

7. Pela pré-época leonina, auguro uma época sombria. Paulo Bento tem perdido, gradualmente, as suas melhores características. O jogo do Sporting, agora, resume-se a um marasmo sem explicação. Não há motivação, não há alegria. E assim é difícil que haja vontade. O problema do Sporting - repito - é de liderança. Não tem a ver com liderança, porém, no sentido psicológico. Tem a ver com o saber extrair dos atletas o seu melhor, de ser capaz de puxar pela sua vaidade, pelo seu brio. E isso não se faz apenas com um discurso de líder. Faz-se sobretudo usando um modelo de jogo no qual os atletas ao seu dispor se sintam valorizados. No actual modelo, uma coisa feia, rectilínea, que tem por fim chegar à frente o mais depressa possível, que valoriza essencialmente a velocidade e a força física, que pretende jogar apenas pelas alas e não pelo meio, os virtuosos, os inteligentes, os criativos estão amordaçados. O Sporting é, dos três grandes, a equipa com mais jogadores cuja principal característica é a inteligência. Deveria aproveitar esse facto para praticar um futebol inteligente, de posse e circulação de bola, e não o contrário. Pratica um futebol de distrital, um futebol de equipa pequena. Por essa razão, os jogadores entram em campo com os colossos europeus a pensar que lhes são muito inferiores. Daí os desastres com o Bayern; daí o facto de jogadores como Pereirinha e Djaló permanecerem acanhados; daí a estagnação de Moutinho e Veloso; daí a pouca preponderância de Romagnoli e Matías Fernandez; daí a aparência de que Liedson é Deus.

8. As exibições com o Twente foram das piores que vi desde que Paulo Bento assumiu as rédeas da equipa. E não acredito que o Sporting melhore muito ao longo da época. Não acho Paulo Bento péssimo, mas neste momento é prejudicial ao Sporting. Enquanto não sair, a equipa não ganhará nada de importante, permanecerá amarrada a ideias que não podem vingar e os jogadores não evoluirão. Uma vez que a política do Sporting necessita da valorização dos seus activos, Paulo Bento já nem sequer é o homem certo à frente do leme. Os primeiros jogos do campeonato e a eliminatória com a Fiorentina deveriam servir para se reflectir sobre o futuro do Sporting, até porque, muito provavelmente, esses jogos comprometerão toda a temporada.

9. Liedson leva mais de 500 minutos sem marcar, não é? Isso dá o quê, 6 jogos? E Postiga foi o melhor marcador da equipa na pré-época, não foi? E quem é que Paulo Bento tirou para fazer entrar Caicedo, o rapaz que ainda não marcou um golo esta temporada e que não ganhou um lance durante o jogo, ou o melhor marcador da equipa na pré-temporada? É por haver estes tipo de indiscutíveis que há "azias" permanentes no balneário. É de todo irresponsável e errado censurar Miguel Veloso, Djaló ou Vukcevic por ficarem chateados por não jogar. A responsabilidade não é deles; é de Paulo Bento e das suas ideias preconcebidas.

10. No Benfica, nem tudo são rosas, apesar de o início de época ser auspicioso. A indefinição quanto ao guarda-redes titular, a incapacidade de se perceber que Sidnei é evidentemente o melhor central encarnado e que David Luiz, neste momento, não só não pode ser lateral como não tem lugar a central, as desconfianças em relação a Shaffer, o melhor defesa-esquerdo a actuar em Portugal, a discrepância entre o aplauso constante a Javi Garcia e o apupo permanente a Yebda, quando são jogadores de um nível idêntico, um melhor posicionalmente, outro mais ágil e agressivo e tecnicamente superior, a dificuldade que se adivinha em gerir expectativas quando há jogadores de estatuto idêntico que vão ficar necessariamente de fora (entre Carlos Martins, Ruben Amorim e Ramires só vai jogar um), o excesso de avançados, etc., são alguns dos problemas individuais que poderão comprometer a temporada. Há que ter em conta essas coisas no momento de elevar as expectativas.

11. Outro problema, para mim o principal em termos colectivos, está relacionado com o sistema táctico e com a abertura que se nota no meio-campo. O Benfica de Jesus, ao contrário do que tem sido apontado, não joga em 442 losango, mas sim em 4132, com Aimar a jogar na mesma linha dos interiores. Não sendo alas, estes dois homens jogam então necessariamente mais abertos do que num 442 losango, em que seriam responsáveis mais pelo trabalho interior do que pelo exterior. No Benfica de Jesus, esta amplitude permite à equipa maior largura, mais velocidade, mas compromete o centro do terreno e os apoios pelo miolo. Além de a ligação entre meio-campo e ataque não ser garantida com tanta facilidade, pois o 10 joga mais afastado da dianteira, o que afasta os sectores e prejudica necessariamente a pressão, a equipa perde ainda um apoio frontal, um homem a aparecer frequentemente no espaço entre linhas, tão útil no futebol moderno. Sem isso, o Benfica terá de ser constantemente dinâmico, terá de cair na vertigem de jogar sempre com uma intensidade elevadíssima e será incapaz de controlar o ritmo de jogo quando lhe convier que este seja mais pausado. O Benfica será, por isso, uma equipa muito dependente dos dois momentos de transição e aí terá de se defender com a sua capacidade posicional. Se o posicionamento de um médio-defensivo garante o equilíbrio em relação à defesa, é à frente dele e sobretudo ao lado que me parece que há espaços indevidos. Os interiores, sendo responsáveis pelo trabalho exterior, não estão constantemente a fechar no meio e isso, sobretudo em transição, pode ser fatal. Nesta pré-época, o principal problema defensivo do Benfica foi precisamente o espaço entre o médio-defensivo e os outros três médios, coisa que, não sendo corrigida, pode trazer amargos de boca nada agradáveis.

12. Escalpelizados os principais defeitos do Benfica de Jesus, resta uma palavra de apreço pelo futebol praticado, provavelmente o melhor nesta década para os lados da Luz. Considero o Benfica o principal candidato ao título esta época. Individualmente, tem um plantel fortíssimo. Colectivamente, tem o homem certo à frente do leme. E a concorrência parece bastante debilitada, seja o Porto pelo muito músculo e pouca cabeça, seja o Sporting pela incapacidade de compreender a força do seu plantel.

13. Para os detractores de Aimar, esta será uma época de poucas palavras. O argentino é o jogador mais talentoso do campeonato português e, inserido num modelo de jogo que potencia o verdadeiro talento, vai certamente encantar. A inteligência de Jesus começou a ser revelada no preciso momento em que reconheceu que Aimar era o jogador mais importante da equipa, entregando-lhe a batuta e construindo o resto em função da sua existência.

14. Aimar e Saviola formarão a dupla mais temível da Liga Portuguesa. A importância da relação entre dois ou mais jogadores costuma ser pouco valorizada. Já referi que essa era a principal arma do Porto nas últimas épocas e que Lisandro e Lucho se entendiam como ninguém. Agora que saíram de Portugal e que, no Sporting, Paulo Bento insiste em não aproveitar a capacidade intelectual dos seus jogadores para criar duplas ou triplas que se entendam muito bem, é no Benfica e nesta dupla de argentinos que reside o grupo de jogadores que melhor se entende no futebol português. É de assinalar a facilidade com que jogam um com o outro, caindo às vezes no exagero saudável de trocarem a bola entre si num espaço de três metros, enquanto os adversários andam à rabia.

15. Das restantes equipas da Liga, destaco Braga e Vitória de Guimarães, por me parecerem aquelas que reúnem melhores elementos a nível individual. Com Madrid, Possebon, Hugo Viana, Mossoró, Alan e Linz, Domingos Paciência está obrigado a fazer um grande trabalho. De igual modo, com Custódio, Desmarets, Nuno Assis, Rui Miguel, Jorge Gonçalves e Douglas, Nelo Vingada também não se poderá queixar de falta de qualidade do meio-campo para a frente. O Marítimo de Carlos Carvalhal, pela competência que lhe reconheço, terá também uma palavra a dizer no que diz respeito aos lugares europeus. Estou com alguma curiosidade para ver o que Jorge Costa fará neste regresso à primeira Liga, pelo que não sei até que ponto o Olhanense não será uma surpresa agradável. O Nacional é um clube estável e ocupará, por certo, posições confortáveis. O Vitória de Setúbal, a Naval, o Rio Ave, o Leiria, o Belenenses, o Paços, a Académica e o Leixões parecem-me as equipas mais débeis e prevejo que sairão deste grupo as duas despromovidas.

16. Em Inglaterra, o Manchester perdeu Ronaldo e Tevez de uma assentada. Vieram Owen e Valencia, o que deixa a equipa bastante inferiorizada. Poderá ser a época de explosão de Nani, mas creio que o reinado dos Red Devils estará ameaçado. Liverpool e Chelsea são, para mim, os principais favoritos à conquista do campeonato.

17. O Arsenal de Wenger reúne talento que nunca mais acaba, mas o sistema táctico manter-se-á o principal problema do treinador francês. As saídas de Adebayor e Touré não são graves, se pensarmos que há Fabregas, Rosicky, Nasri, Arshavin, Van Persie, Walcott, Eduardo e Carlos Vela, mas teriam de ser incluídos num modelo que os beneficiasse... Na rigidez de um 442 clássico, não há médios vocacionados para preencher tanto espaço, nem tantos criativos como Wenger tem ao seu dispor usufruem da liberdade que seria desejável.

18. O Manchester City contratou muito, mas mantém um treinador incompetente. Apesar de ter contratado bastante para o ataque, a defesa não está mal apetrechada. Zabaleta, Micah Richards, Kompany, Touré e Wayne Bridges deverão conferir qualidade ao sector. No meio-campo, há também alguns jogadores de qualidade, como Gareth Barry ou Martin Petrov. Mas Robinho, Santa Cruz, Adebayor e Tevez mereciam um treinador a sério.

19. Em Itália, continua a revolução de mentalidades. Ainda há muita gente que acredita que o futebol italiano é fechado, mas a verdade é cada vez menos condizente com esse preconceito. Há muito que o futebol italiano deixou de ser defensivo e este ano parece-me que se dá mais um passo rumo à desacreditação de tais ideias. Mourinho jogará de forma completamente diferente, pressionando provavelmente muito mais alto, e, contratando convenientemente para o meio-campo, terá equipa para lutar novamente pela Liga dos Campeões.

20. A Juventus será talvez o mais sério rival do Inter. Diego, Tiago, Camoranesi e Filipe Melo seriam as minhas escolhas para o meio-campo. Del Piero e Amauri constituíriam a dupla ofensiva. Não esquecer Giovinco, que este ano deverá aparecer em força.

21. O Milan de Leonardo parece-me estar um pouco abaixo da concorrência. A chegada de Huntelaar trará qualidade ao ataque, mas, pelo que pude ver na pré-época, os processos ofensivos passam muito por esperar que Ronaldinho esteja inspirado. Se Beckham regressar a Milão, como se diz, um 442 losango com Pirlo, Beckham, Seedorf, Ronaldinho, Huntelaar e Pato, bem trabalhado, seria demolidor.

22. Em Espanha, as contratações milionárias do Real Madrid fizeram furor. O Barcelona será novamente campeão e o resto é conversa.

23. Dispensar Huntelaar e Van der Vaart é uma palermice. Se acrescentarmos a esta lista a pouca vontade de Pellegrini em contar com Sneijder, Robben, Guti ou até mesmo Gago, parece-me evidente que o Real vai ser uma equipa de gente com músculos, mas sem muitas ideias. E duvido que Kaká consiga compensar tanta desorientação. Depois, contratar Granero, um jovem da cantera que regressou este ano do Getafe que pouco ou nada vai jogar e ceder o jovem Daniel Parejo, um jogador muito mais talentoso e com uma margem de progressão assombrosa, revela muito do que é este clube. Em resumo, o Real contratou em demasia e terá muitos problemas em formar uma equipa.

24. O Barcelona manteve a estrutura e contratou pouco e bem, como se recomenda. Não será por acaso que as duas contratações dos catalães, Maxwell e Ibrahimovic, passaram pelo Ajax. Também não é por acaso que Bruno Alves não foi para Barcelona e que Guardiola tenha optado por fazer regressar o central brasileiro Henrique. E também não é por acaso que o Barcelona se manterá como o mais forte candidato à vitória na Liga dos Campeões.

25. Para finalizar, um pequeno aparte sobre um momento da pré-época. Gosto de defender quem merece ser defendido e atacar quem merece ser atacado. Del Piero falhou um penalty na final da Peace Cup e a Juventus acabou por não ganhar a competição. Aos risos, que são naturais, juntou-se a estupidez de quem gosta de ser estúpido e falou-se em um dos piores penalties de sempre. A estupefacção tomou conta de mim. É verdade que Del Piero falhou, mas o penalty não foi mal marcado. Antes pelo contrário, Del Piero fez tudo o que o que deveria ter feito. Repare-se que ele modifica a corrida no momento anterior ao remate, tentando enganar o guarda-redes. Tecnicamente, não foi displicente. Ele sabia exactamente o que ia fazer e a sua ideia era fazer o guarda-redes cair para um lado e chutar para o meio. Aliemos a isto o facto de o guarda-redes, nas quatro penalidades anteriores, ter sempre tentado adivinhar o lado para onde o avançado ia chutar. Del Piero esteve certamente com atenção a isso. Sabia que o guarda-redes preferia adivinhar o lado e não haveria melhor forma de convertê-lo do que chutando para o meio da baliza. Tendo em conta que Del Piero raramente bate para o meio, o penalty foi até imprevisível. Por paradoxal que pareça, o guarda-redes defendeu a bola porque foi burro. E com a burrice dos outros é difícil de contar. Se o guarda-redes fosse inteligente, jamais decidiria ficar quieto. O que ele imaginou foi que Del Piero, por ser um craque, iria tentar bater à Panenka. Mas isso não é ser esperto. É ser burro. Porque Del Piero nunca bate à Panenka. Teve sorte e a bola bateu-lhe nos pés. Às vezes os burros têm sorte. E os comentadores, sem se darem ao trabalho de raciocinar, nem perceberam que o penalty foi bem batido, quer em termos de decisão, quer em termos técnicos, e que não houve displicência alguma. Houve sim sorte do guarda-redes. Catagolar um penalty bem batido que não deu golo porque o guarda-redes teve sorte como um dos piores penalties é uma doença grave. Ou então é aquele impulso de homem das cavernas de relatar factos surpreendentes aos outros, de contar histórias mirabolantes, como se conhecer tais histórias fizessem essas pessoas mais sábias, e que conduzem ao exagero de falar de coisas normais como se fossem coisas extraordinárias. Veja-se o que a redacção do Mais Futebol escreveu a seguir: "Curiosamente aquele não era mesmo o momento de Del Piero: para além de falhar o penalty, o internacional italiano falhou também a «recarga» - que de qualquer forma não ia valer, mas que fez em desespero de causa." Pois, o que o Del Piero queria era mesmo fazer a recarga. Claro. Nem estava irritado por não ter marcado nem nada. Ele queria mesmo era fazer a recarga... E chamam a isto jornalismo? Isto não é jornalismo; isto são bandalhos a dizer asneiras...