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terça-feira, 9 de março de 2010

Nuno Assis e Master Kodro

Depois de duas semanas, nos jogos frente a União de Leiria e Nacional da Madeira, em que não só foi decisivo como rubricou excelentes exibições, Nuno Assis é novamente tema deste espaço. A qualidade, mais do que suficiente para que Quique Flores tivesse ficado com ele no Benfica a época passada e para que Carlos Queiroz já se tivesse lembrado dele para a selecção, é inegável. Trata-se de um dos melhores jogadores da Liga a actuar fora dos três grandes e será, juntamente com Hugo Viana, o jogador mais injustiçado quando o seleccionador nacional divulgar a convocatória para o mundial. Há, apesar disso, uma determinada fatia da populaça para quem Nuno Assis é um jogador banal e para quem as suas qualidades são pouco interessantes. A essa fatia de gente escandalosamente impudica decidi chamar Master Kodro. A referência não é, por isso, directa ao conhecido palrador, embora se baseie nele e nas suas ideias tacanhas acerca de Nuno Assis, mas uma sinédoque que, partindo da opinião de uma pessoa, a expande a um universo alargado de carneiros que comungam da opinião e não deviam falar de futebol. O texto é por isso sobre Nuno Assis e sobre pessoas que não percebem, em particular, o valor de Nuno Assis e, em geral, de futebol.

De Nuno Assis tem dito Master Kodro atrocidades como, por exemplo, que é um jogador de contra-ataque. O seu problema com o passado de Nuno Assis é relevante, mas não creio que seja essa a principal causa de tais ideias. A sua opinião radica, isso sim, num erro apreciativo que está enraízado na forma como olha para uma partida de futebol. Como acha que Nuno Assis deve ser responsável por pautar o jogo ofensivo da sua equipa, acha que ele deve fazer passes de ruptura, deve furar por entre a defesa, deve provocar desequilíbrios, etc. Está na base deste erro assumir que os jogadores têm funções. Assim, quando uma equipa cria oportunidades de golo, mas não marca, os culpados são os avançados; quando a equipa não consegue cruzar para os avançados, o problema são os extremos; quando a equipa não consegue penetrar na defensiva adversária, o problema são os médios de ataque. Isto é tão redutor quanto imbecil. E Nuno Assis é precisamente o tipo de jogador que sabe que um médio de ataque não serve para as coisas que Master Kodro pensa que serve.

A teoria assenta ainda na verificação de que é em contra-ataque que Nuno Assis dá mais nas vistas. O que tenho a dizer a isto é que é em contra-ataque que qualquer jogador dá mais nas vistas. Isso não é exclusivo de Nuno Assis. Em contra-ataque, há sempre mais espaços, as jogadas são mais objectivas, a quantidade de soluções a considerar é menor. E bons executantes, como Nuno Assis e tantos outros, têm tendência a fazer-se notar e a serem decisivos neste tipo de lances. É natural, pois, que em contra-ataque Nuno Assis dê nas vistas. Mas em contra-ataque Nuno Assis não é muito diferente de Tiago Targino, por exemplo. E é quase herético tentar assemelhar dois jogadores tão distintos. Aquilo em que Nuno Assis é francamente diferente dessa outra rapaziada que só é boa em contra-ataque é que é um jogador notável do ponto de vista intelectual, que descobre soluções muito rapidamente, que sabe a utilidade de jogar curto. Um jogador de toque curto, que procura prioritariamente uma tabela, extraordinariamente criativo a encontrar soluções inusitadas nunca pode ser um jogador de contra-ataque. É alguém que tem uma facilidade rara para jogar em espaços curtos e entre linhas adversárias. Nuno Assis é, por isso, o oposto daquilo que Master Kodro pensa que é.

A opinião de Master Kodro cai ainda no exagero de dizer que se comprova a si mesma pelo facto de ele só fazer grandes jogos contra as grandes equipas, em desafios em que o Vitória passa a maior parte do tempo em contra-ataque. Além de isto ser mentira, como facilmente se verifica pelos dois últimos jogos, por exemplo, denuncia um problema perceptivo grave e que é comum à grande maioria dos adeptos de futebol. É que, para estas pessoas, fazer um grande jogo é estar associado aos momentos decisivos do mesmo. Ora, sempre que Nuno Assis não protagoniza jogadas de relevo, a opinião de Master Kodro é de que fez um mau jogo. Isto é francamente estúpido. Em muitos jogos, sobretudo em jogos em que os adversários se encolhem lá atrás e reduzem os espaços, é natural que jogadores mais imaginativos, mais criativos e inteligentes procurem soluções mais simples, soluções que permitam à equipa manter a posse de bola e gerir pacientemente o seu ataque. O que Master Kodro pretende é que Nuno Assis se arme em super-herói e invente jogadas de génio. Não é assim que funciona. É precisamente por Nuno Assis ser extraordinariamente inteligente que não cai nessa tentação, que não procura desequilíbrios individuais, que não arrisca passes de ruptura condenados à priori ao fracasso. O seu jogo é o que tem de ser quando há pouco espaço: procura soluções curtas, joga atrás, ao lado, fazendo girar a bola até que o colectivo (e não o indivíduo) consiga desequilibrar o adversário. Nuno Assis põe o colectivo à frente do individual e, como tal, nesse tipo de jogos, dá menos nas vistas. Para pessoas que não sabem olhar para um jogo de futebol, isto significa que não faz um bom jogo. Ora, pelo contrário, é precisamente por isso que ele faz um bom jogo.

A carneirada a que chamo Master Kodro é, por isso, um conjunto alargado de pessoas que não sabe ver futebol, que olha para o jogo como uma soma de bonecos. Há dias, num transporte público, estava sentado ao lado de dois velhos que comentavam o jogo da selecção realizado no dia anterior. Falavam, como qualquer adepto de futebol, pretensiosamente, julgando infalíveis as suas opiniões. Aquela que registei com maior interesse foi a de que Paulo Ferreira jamais poderia ir ao mundial, pois não era nem nunca fora um bom jogador. Admitindo que, sendo velhos, fossem pessoas com um grau de senilidade relevante, não deixa de ser engraçado que sustentassem opiniões que muita gente sustenta. Esquecendo agora a falta de memória das pessoas em causa e a qualidade óbvia que Paulo Ferreira teve há uns anos, é importante tentar perceber por que é que se ousa dizer (e não há pouca gente a pensar assim) que Paulo Ferreira não tem qualidade. Para mim, é óbvio. A opinião de Master Kodro, ou seja, a opinião do comum adepto de futebol, tem tendência a privilegiar jogadores espalhafatosos, jogadores que manifestam atributos visíveis. Paulo Ferreira não é rápido, não é agressivo, logo não presta. Preferem-se Bosingwa, Miguel e João Pereira porque dão mais nas vistas. Paulo Ferreira é melhor jogador que qualquer um destes e só admitiria que fosse suplente de Bosingwa pois aquilo que este pode oferecer, em termos de velocidade, é mesmo extraordinário. Mas Paulo Ferreira é mais inteligente, defende melhor, é posicionalmente muito mais forte e tem na lucidez e na experiência pontos a favor. Não querendo insistir na análise do jogador do Chelsea, serve esta história para ilustrar o modo de pensar de Master Kodro. Master Kodro gosta de jogadores que dêem nas vistas. E gosta desse tipo de jogadores porque o seu cérebro não tem capacidade para processar mais do que é visível. Como não se é capaz de conceptualizar o jogo a um nível mais profundo, tudo o que não sejam correrias loucas, agressividades de gorilas e macacadas com bola não é relevante. A capacidade intelectual de um jogador de futebol é, para Master Kodro, um mito e pouco lhe interessa percebê-la. É por isso que vê em Nuno Assis tanta banalidade. O que, porém, é irónico nisto tudo é que é precisamente ao ver banalidade num jogador que é tudo menos banal que denuncia a própria banalidade do seu olhar. Aquele que, tendo à frente dos olhos um objecto invulgar, é incapaz de perceber onde reside o carácter invulgar da coisa, não tem especial apetência para ver coisas. Master Kodro é aquele que não surpreende no mundo mais do que aquilo que é facilmente perceptível a quem tem olhos, e o seu Nuno Assis, isto é, o objecto que o comum observador julga que vê, é por isso muito mais Master Kodro que Nuno Assis, é muito mais o próprio reflexo da mediocridade de Master Kodro do que o verdadeiro Nuno Assis. É do emaranhado deste novelo de porcaria em que se constitui o conjunto de gente pequena que fala de futebol que este espaço procura escapar, alertando para aquilo que este tipo de gente, Master Kodro, não é capaz de ver. O trabalho é hercúleo e, possivelmente, ineficaz. Mas vale a pena, nem que seja pela consciência de estar certo.

sábado, 6 de março de 2010

Os Gajos Mais Odiados da Blogosfera - Episódio 1: Os Visionários

Os recentes comentários, polidos com cortesia e boas maneiras na caixa de comentários do último texto sobre Liedson, trouxeram a lume a simpatia que as nossas palavras e as nossas ideias provocam em quem nos lê. A quantidade (foram 23!, pelo menos para já) de pessoas que manifestou o seu desprezo por nós é assinalável e vem reforçar a ideia de que há pouca gente que não nos odeie. É com a intenção de retribuir o carinho e a atenção que nos dedicam esses escorreitos leitores que iniciamos esta nova temática. O objectivo é recordar o percurso deste espaço, desde a sua criação até à actualidade, as ideias defendidas desde essa altura, os episódios caricatos, as disputas intelectuais, em suma, esboçar, em vários episódios, uma Autobiografia do Entre Dez e das façanhas dos seus autores e dos seus leitores. Cada episódio será subordinado a um tema, contará uma pequena história, invocará uma citação famosa e trará à baila, pelo menos, uma das coisas que fomos defendendo ao longo deste tempo e que o tempo - soberano juiz - se encarregou de tornar irrefutável.

Episódio 1:
Os visionários

Há muitas coisas que nos definem e às quais somos associados. Os nomes de Farnerud, Pereirinha, Liedson, Pepe, David Luiz e Hulk são apenas alguns dos que maiores controvérsias têm causado. Mas questões mais profundas, como a existência ou não de talento inato, o haver ou não funções numa equipa de futebol, a concepção do golo como consequência e não como objectivo do jogo, a esterilidade do 442 clássico, etc., foram também motivo de acesa polémica. Por causa destas coisas e de muitas mais, fomos vezes sem conta apelidados de "visionários" ou de "iluminados". Eis alguns exemplos:

1) Bruno Pinto, a 6 de Novembro de 2007: "Claro que para eles, os outros é que são incapazes de acompanhar a sua inteligência suprema... Autênticos visionários..."

2) Jonnybalboa, a 7 de Janeiro de 2009: "És um romântico da bola, tu e o "pipi"...

3) João, a 26 de Fevereiro de 2009: "E sim, é muitas vezes assim que se elevam a grandes personalidades, os tais visionarios. Mas para cada visionário existem milhões de gajos como tu."

4) Bruno Pinto, a 29 de Abril de 2009: "Acho que muita gente concorda com isso e as explicações são triviais. Ai Nuno, Nuno, essa tua mania de quereres ser visionário..."

5) Miguel, a 4 de Setembro de 2009: "Fica lá com a tua opinião de pseudo-iluminado. Depois quando a bola começar a ser redonda verás que até nem dizes coisa com coisa."

Não haverá, porém, tema deste espaço mais controverso do que Liedson. São pouquíssimas as pessoas, se as há mesmo, que defendem o mesmo que nós defendemos, desde sempre, sobre o avançado do Sporting. Se há algo que nos faz, de facto, visionários, no sentido de acreditarmos em coisas em que mais ninguém acredita, são as considerações acerca do Levezinho. Enquanto que, em relação a outras temas, as nossas posições, ainda que censuradas por maior parte das outras pessoas, são motivo de discussão, quando se trata de Liedson, a outra parte da contenda raramente se interessa por argumentos, tamanha é a heresia. Não raro, o espaço saudável do debate torna-se um espaço de crenças, como se houvesse verdades que não pudessem ser colocadas em causa por via da racionalidade. Assim, tal como os crentes em Deus não podiam aceitar a discussão racional sobre o que quer que fosse que pusesse em causa os atributos da omnipotência, omnipresença e omnisciência do seu Deus, pois aceitá-la seria aceitar a possibilidade de Ele não possuir esses atributos, também aqueles que acham coisas fantásticas de Liedson não podiam aceitar um debate racional sobre a sua pretensa qualidade, pois estariam a aceitar a possibilidade de ele não ser assim tão bom. Praticamente em todas as discussões sobre Liedson, os defensores da sua qualidade agiram como eclesiásticos radicais, incapazes por vocação de aceitar a possibilidade do erro da sua doutrina. Essa semelhança faz lembrar um episódio histórico que o seguinte diálogo procura retratar com desfaçatez.

A Verdadeira História de Galileu Galilei

Galileu: Senhores, estou firmemente convencido de que o grão Nicolau Copérnico, que embora tenha alcançado uma fama imortal perante alguns, foi ridicularizado e assobiado por uma multidão infinita, pois tão grande é o número dos idiotas, tinha, de facto, razão ao afirmar que os astros giram em torno do Sol e não da Terra.
Teóricos da Época: O quê? Estais louco, Galileu Galilei?
Galileu: Não. De ora em diante, o geocentrismo deveria dar lugar ao heliocentrismo.
Teóricos da Época: O héliocen-quê?
Galileu: Heliocentrismo.
Teóricos da Época: Que é isso? Não conhecemos. Isso não existe. Estais a alucinar, Galileu Galilei.
Galileu: Ao contrário do que se pensa hoje, a Terra não é o centro do Universo; é apenas mais um corpo celeste que gira em torno do Sol.
Teórico da Época: Galileu Galilei, andais metido na droga?
Galileu: É a mais pura das verdades. Apesar de isto poder entrar em choque com as doutrinas eclesiásticas vigentes e de me ter sido aconselhado a ponderar essa hipótese apenas como isso mesmo - uma hipótese - e só porque facilita os cálculos astronómicos, tenho argumentos que sustentam que é bem mais que isso. Aliás, possuo cálculos aprofundados que o comprovam.
Teóricos da Época: Pois, Galileu Galilei, mas a nós os cálculos aprofundados não nos dizem nada.
Galileu: Mas se comprovam...
Teóricos da Época: Tende-los convosco? Podeis mostrar-los?
Galileu: Sim. Aqui estão...
Teóricos da Época: Hmmm... Isto tem um bocado de matemática a mais, não tem? E não deveríeis confiar tão cegamente nestes Pitágoras! É só teoremas, só teoremas. Achamos isto um bocado confuso, ó Galileu Galilei... Do nosso ponto de vista, estes cálculos são só especulações.
Galileu: Matemática especulativa?!?!?!
Teóricos da Época: Pois, quer-nos parecer que sim. Isto são só números e continhas de algibeira... Deveríeis passar a dedicar-vos à pecuária.
Galileu Galilei: À pecuária?
Teóricos da Época: Sim, sim. E de ora em diante, aconselho-vos a ficar caladinho. Isto se não desejardes o Santo Ofício a bater-vos à porta. Já agora, Galileu Galilei, que achais do Liedson?
Galileu Galilei: Acho-o fraquinho...
Teóricos da Época: O quê??? Tendes noção da gravidade das vossas afirmações?
Galileu Galilei: Tenho boas razões para acreditar que assim seja...
Teóricos da Época: Pá, este só vai lá queimado em praça pública. Tragam os archotes...

A nossa posição em relação a Liedson não é só uma posição essencialmente controversa; é algo que vai para além disso, pois é quase unânime que o contrário daquilo que defendemos é que está certo. São poucos os adeptos que não o acham um jogador extraordinário e poucos os treinadores que não se ajoelhariam aos seus pés. Esta vassalagem esquisita e, de acordo com aquilo em que acreditamos, absurda, faz com que todos os que nos rodeiam sejam profundos admiradores de algo que não vale assim tanta admiração. Esse comportamento geracional, similar ao comportamento hodierno de grande parte do povo perante as mais diversas formas de arte, denota um conjunto de atributos dessa mesma geração que, de certa maneira, a caracteriza fielmente e provoca em nós, entre outras coisas, um vontade irreprimível de a invectivar. É nesse âmbito que a citação deste episódio se explica.

Citação

"Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a Geração!"

(Almada Negreiros, in Manifesto Anti-Dantas)


Depois de já ter chamado a Liedson Papa-Açorda, Saltitão, Saguim, Tontinho, Burro, Banal, Estúpido e Napoleão, eis que lhe chamo agora Dantas. É provavelmente o avançado luso-brasileiro com mais alcunhas na História do Futebol... Vamos, por fim, ao espaço em que se relembram algumas das disputas mais interessantes.

Coisinhas em que, por acaso, até tínhamos razão

Como disse acima, de entre as várias coisas que cada episódio desta rubrica trará encontra-se algo que defendemos afincadamente e que, na altura, nos motivou acesas críticas. Para iniciar esse espaço, escolhi Pelé, o fantástico médio defensivo oriundo do Vitória de Guimarães e que, à custa de olheiros que dão especial interesse a características anatomicamente relevantes em gorilas e lutadores de boxe, foi contratado pelo Inter de Milão após um mundial de sub-20 em que as suas exibições foram patéticas, embora os seus músculos e os seus truques com a bola tenham sido bastante elogiados.

De Pelé dissémos desde o início que fora sobrevalorizado. Tratava-se de um jogador fisicamente muito poderoso e com alguma habilidade. Como, nos dias que correm, ainda se vê futebol de um modo essencialmente descontextualizado, olham-se para os jogadores como soma de atributos. Pelé tinha força e tinha técnica. Que mais se poderia desejar? Desde o início que fomos peremptórios em dizer que a Pelé faltava a única coisa que interessa num jogador de futebol: inteligência. Pelé foi então para Itália. Com Mancini, ainda fez uns minutos e marcou uns golos. Apressaram-se a dizer que era a comprovação de que tinha valor. Mantivemos a opinião. Pelé não crescera, continuava extraordinariamente burro a jogar. No ano seguinte, veio o fim da linha para o jovem. Mourinho dispensou-o, Jesualdo não contou com ele, e acabou por passar por três clubes sem nunca se afirmar. No futebol adulto, os atributos que Pelé revelava eram meros acessórios. Faltava-lhe o principal. E comprovou-se que o Entre Dez, que tantas críticas ouviu, é que tinha razão: Pelé jamais iria ser um jogador de futebol a sério.

Este é apenas um exemplo, talvez um dos mais esclarecedores, de que não dizemos as coisas à toa. A nossa opinião é sempre sustentada por ideias e as nossas convicções não são somente caprichos. Quando dizemos o que dizemos sobre certos jogadores, não o fazemos apenas por embirração, mas porque esses jogadores denotam problemas para os quais o comum adepto não costuma olhar. Gaba-se em excesso a transpiração, a garra, a agressividade, a capacidade técnica, a velocidade, porque são coisas fáceis de ver. Observar e averiguar talento é muito mais difícil e só pode ser feito no contexto do jogo e com muitos dados. Maior parte das pessoas que vê futebol repara nos atributos visíveis dos jogadores. O Entre Dez vai mais longe e tenta olhar para coisas não visíveis a olho nu. É por isso que acertamos mais vezes que os outros e é por isso que, ao contrário das outras pessoas, possuímos alguma segurança para dar, acerca de certos jogadores, tantas certezas em relação ao seu futuro. De Pelé, como de muitos outros, não nos enganámos. O tempo deu-nos razão e aqueles que, na altura, tanto o defenderam e tanto nos criticaram, devem agora penitenciar-se perante a confirmação do nosso palpite.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

As Teorias de João Rosado e mais um Disparate de David Luiz

É, para mim, sempre reconfortante assistir a jogos na televisão quando comentados por João Rosado. E é-o porque a estupidez continua a ter aquele lado cómico que me encanta. Haverá certamente comentadores desportivos mais irritantes que ele, mas confesso que há qualquer coisa de esquisito nas teorias de João Rosado que me fascina. É, muito provavelmente, o comentador desportivo no activo mais palerma, não sendo porém dos mais mediáticos. João Rosado já aqui foi alvo de alguma chacota e ontem, durante o jogo que opôs o Rio Ave ao Benfica, conseguiu não só superar-se a si mesmo como também repetir uma teoria atoleimada que já antes nos arrancara ruidosas gargalhadas.

A primeira das duas teorias que fazem de João Rosado um autêntico comediante é, portanto, uma repetição, o que, possivelmente, ainda é mais grave. Quando, dentro da área, Cardozo tentou jogar em Aimar e a bola embateu no braço de Gaspar, João Rosado teve a infelicidade de se mostrar convicto de que o paraguaio levantara a bola de propósito para que esta tocasse no braço do adversário. Claro que o fez. Entre dois adversários, estando preocupado em proteger a bola e em encontrar os companheiros a quem iria passar, Cardozo ainda arranjou tempo para pensar na possibilidade que tinha diante de si: ganhar um penalty fazendo a bola tocar num braço adversário. Está certo... João Rosado nunca jogou à bola. Ou então é mentecapto. É que qualquer palerma que já tenha jogado à bola sabe perfeitamente que enviar uma bola contra um braço não é propriamente algo fácil de fazer. Além disso, tendo tanto em que pensar e tendo que o fazer rapidamente, é estúpido imaginar que alguma vez isso passe pela cabeça de um jogador. O mais extraordinário, como disse, é que João Rosado já tinha expressado esta teoria noutra ocasião. Quanto a mim, João Rosado está convencido de que, entre outras coisas, há jogadores que, quando entram na área adversária, em vez de estarem a pensar em marcar golo, em fintar ou em assistir um colega, estão preocupados em tentar mostrar que são peritos a chutar bolas contra braços. Pessoas que estão convencidas deste tipo de coisas são parvas. João Rosado é parvo. Curiosamente, as qualidades "ser parvo" e "ser jornalista desportivo" parecem andar muitas vezes juntas.

Mas João Rosado não se ficou por aqui. Como se não bastasse, passou o jogo a insinuar qualquer coisa que não entendi muito bem. Quando o outro comentador do desafio sugeriu que Aimar estava a passar um pouco ao lado do jogo, João Rosado expressou, bem contente, um "Como é hábito!". Mais tarde, desenvolveu um pouco melhor a teoria e deixou no ar a ideia de que era costume Aimar estar ausente da partida. Para João Rosado, Aimar tem jogado constantemente mal, tem sido incapaz de se impor, perde muitas bolas. Para mim, João Rosado tem-se esquecido constantemente dos medicamentos, tem sido incapaz de se manter mentalmente saudável e perde muitas oportunidades para estar calado. Ou isso ou esteve fora do país durante os últimos seis meses. Ao longo de toda a partida, João Rosado procurou justificar a sua opinião sobre Aimar com o jogo menos brilhante do argentino. O problema, aqui, é que a opinião de João Rosado não faz sentido. Dizer o que quer que seja de negativo em relação a Aimar, depois do que o argentino tem feito, é estúpido. Procurar sustentar a teoria de que Aimar é habitualmente um jogador a menos na equipa não merece, sequer, que se lhe conceda espaço para argumentos. Pessoas com opiniões ridículas são tontinhos. E aos tontinhos deve-se apenas dar-lhes um bocado de plasticina e mudar-lhe a fralda de vez em quando. Mais nada. João Rosado, como tantos outros por aí, tem um canudo que diz que pode exercer jornalismo, tem amigos que o deixam dizer quantidades assustadoras de porcaria na televisão, e até tem a sorte de nunca lhe ter caído um relâmpago em casa, coisa que deveria acontecer a todos os seres humanos com um Q.I. inferior ao de um rinoceronte africano médio. O que não tem é competência para fazer o que faz.


Tempo agora para o disparate do desafio. Como é que é possível alguém continuar a aplaudir um jogador que, jogo após jogo, continua a insistir em fazer disparates em campo? Depois de se colocar mal no lance, permitindo que a bola entre em Tarantini, David Luiz vai atrás do médio do Rio Ave e, em plena grande área, arrisca um carrinho por trás do adversário? Nem está em causa se toca na bola ou não. Atropelando-o, só por azar é que não tocaria naquela bola. Agora, aquilo é sempre penalty, em qualquer parte do planeta. E a entrada é a roçar o vermelho. David Luiz nunca pode entrar a uma bola daquela maneira estando por trás do adversário, porque vai sempre derrubá-lo. Já contra o Nacional havia protagonizado um lance semelhante, embora esse, escandalosamente, não tivesse sido assinalado. Para atacar uma bola daquelas de carrinho, tem de fazê-lo estando minimamente de lado, de modo a que o seu movimento para chegar à bola não perturbe a acção do adversário. Por trás, é natural que, antes de chegar à bola, toque de alguma maneira no adversário. A única coisa que David Luiz poderia ter feito, naquele lance, depois de deixar fugir Tarantini, era correr ao lado dele e enviar-se de carrinho para a frente do jogador do Rio Ave, com o pé em posição de interceptar o remate. A opção pelo desarme, nas condições em que se encontrava, ou seja, atrás de Tarantini, foi por isso a pior possível. Dentro da área, então, uma burrice do tamanho do mundo. Mais um disparate e mais uma evidência do pouco crescimento intelectual de David Luiz, nos últimos meses.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Rosto de Liedson agride com Cabeçada o Punho de Sá Pinto!

Agora a sério, o Entre Dez agradece a atenção do ex-jogador, mas rejeita quaisquer responsabilidades...

sábado, 7 de novembro de 2009

Napoleão joga em Alvalade?

Há fármacos - disseram-me há tempos - que atenuam certas doenças mentais. Dedicar-se, por isso, à droga, era capaz de ser uma boa ideia para muito bom jornalista. É o caso de Nuno Madureira, autor deste brilhante artigo de opinião, no MaisFutebol. O jornal já nos habituou à demência dos seus opinadores, mas nunca é demais referir certos casos. Este vale francamente a pena, até porque assenta numa opinião amplamente difundida por mais de metade dos malucos que têm opiniões sobre futebol.

O que Nuno Madureira tenta fazer é explicar de forma simples o problema que se abateu sobre o Sporting. Acontece que só procura explicar coisas complexas de forma simples quem não tem muito juízo. Assim, a manifestação das perturbações mentais de Nuno Madureira começa logo com a sua primeira frase:

"Há muitas maneiras de enumerar os problemas do Sporting. Uma das mais básicas e directas resume-se a uma frase: afinal, Liedson é humano."

A falta de siso começa logo com um problema no discurso. Nuno Madureira diz que há várias formas de enumerar problemas e propõe-se a enumerá-los numa frase, mas depois não enumera nada e resume uma enumeração de várias coisas a apenas uma coisa. O resto deve ter-se, certamente, perdido pelo caminho. Mas antes de ler o resto do artigo, adivinhamos logo que o problema mental do senhor tem por origem uma desilusão relacionada com a natureza de Liedson. Ao que parece, a precipitação do estado de demência ter-se-á ficado a dever à descoberta de que o enormíssimo jogador brasileiro era, afinal, apenas um humano. Convém dizer que nem toda a gente está mentalmente preparada para descobertas deste tipo. Mas eis que prossegue a demonstração de loucura:

"Quantas vezes, nas últimas épocas, a uma exibição mediana - ou medíocre, ou mesmo má - do Sporting, se seguiu a entrada em cena do 31, aparecendo do nada, para resolver o jogo e atenuar as diferenças para a concorrência?"

Posso estar enganado, mas não me lembro de uma única ocasião em que Liedson tenha aparecido "do nada", a fintar os onze adversários e a fazer golos. Mas como não tinha por hábito assistir aos treinos dos leões, posso estar a fazer juízos precipitados. Continuemos:

"De tanto habituar os seus adeptos - e os dos adversários - a um rendimento superlativo, semana após semana, o «levezinho» construiu nos últimos anos, por mérito próprio, uma imagem de super-herói."

Superlativa é a pancada deste senhor; super-heróis foram os pais dele, que tiveram que lhe aturar a estupidez. Adiante:

"Agora, que a sua inacreditável regularidade conhece uma quebra consistente e prolongada - dois golos em nove jornadas, o último há mais de mês e meio - tudo o que andava disfarçado, ou atenuado, parece mais evidente."

Agora?? Mas é a primeira vez que o rapaz fica muito tempo sem marcar?? E quantos jogos resolveu o Sporting nesse mês e meio, sem Liedson? Comecemos pelo fim: foi Saleiro quem marcou frente ao Venstpils, dando o empate; foi Matías Fernandez quem marcou frente ao Guimarães e frente ao Marítimo, o que valeu, das duas vezes, um empate; foram João Moutinho e Miguel Veloso quem marcaram na vitória ante o Ventspils; foram João Moutinho, Daniel Carriço e Vukcevic quem marcaram na vitória frente ao Olhanense; foi Adrien Silva quem marcou na vitória ante o Hertha de Berlim. O problema é mental, mas também é de memória. E de matemática, já agora. O que "andava disfarçado, ou atenuado" e que agora é evidente é que doentes mentais não têm competência para serem jornalistas. Continua Nuno Madureira, dizendo:

"A equipa tem poucas soluções tácticas alternativas? Sim, como sempre teve."

O senhor Nuno Madureira tem poucas ideias que não sejam idiotas? Sim, como sempre teve.

"Falta qualidade individual em quase todos os sectores? Sim, de há muito tempo para cá."

Falta qualidade individual a cada uma das sinapses deste senhor? Sim, é provável que falte.

"Paulo Bento repete receitas e discursos, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez também nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas."

Nuno Madureira repete sentenças populares e discursos de massas idiotas, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas e conseguiu completar um curso superior. Mas eis o que diz no último parágrafo:

"A maior diferença - não a única, claro - é que noutras épocas o Sporting tinha um fenómeno a ponta-de-lança."

Um fenómeno? Mas um fenómeno natural? Era o El Niño? Ia jurar que esse jogava no Liverpool. E será permitido por lei fazer alinhar, no onze inicial, furacões, anti-ciclones, tsunamis e fenómenos dessa natureza?

"Nesta altura, tem apenas um excelente avançado, a lutar para recuperar os superpoderes."

Agora sim, percebo o que o senhor quer dizer. Na cabeça de Nuno Madureira, Liedson é o Super-Homem e o problema do Sporting é que ninguém consegue descobrir onde é que o Lex Luthor pôs a Kriptonyte. Será isso? E Nuno Madureira conclui a sua análise ao problema do Sporting do seguinte modo:

"Afinal, Liedson é humano. E o Sporting não estava preparado para lidar com isso."

Como se depreende, para Nuno Madureira, a humanidade de Liedson estragou os planos ao Sporting. A equipa estava preparada para jogar com dez seres humanos e uma entidade divina, mas a partir de agora vai ter de passar a jogar só com onze seres humanos. E isso, de facto, é um problema, visto que mais nenhuma equipa no campeonato português joga só com onze seres humanos. Aliás, vai ser muito difícil ao Sporting continuar a ser competitivo num desporto como o futebol, em que poucas são as equipas que não têm três ou quatro alienígenas, dois ou três veículos de guerra e um alguidar.

Resumindo, todo o maluco que se preze pensa que é Napoleão. Nuno Madureira é um maluco mais sofisticado. Está convencido de que Liedson é Napoleão. Isto se não estiver convencido de que é Napoleão quem é Liedson. Repito as primeiras palavras do texto: "há fármacos que atenuam certas doenças mentais." É capaz de ser altura, até porque vem aí o Natal, de oferecer ao senhor Nuno Madureira um colete de forças e umas férias pagas no Miguel Bombarda. Ou isso ou autógrafo de Deus... perdão, de Liedson.

P.S. Um bom fármaco contra este tipo de maluquice em particular e que ajuda a compreender os verdadeiros problemas do Sporting é o texto que escrevi a 31 de Julho de 2009 e que pode ser encontrado aqui. Aconselha-se a sua ingestão, duas vezes ao dia, durante três meses e vinte e sete dias...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Campeonato do Mundo dos Comentários Hilariantes (Grupo B)

Já foi há mais de um ano que o campeonato do mundo dos comentários hilariantes começou. O Grupo A, então em disputa, gerou controvérsia. Agora, entra em acção o Grupo B. São mais 25 comentários fascinantes sobre o mundo da bola, recolhidos do baú de comentários do Entre Dez e expostos agora para apreciação dos nossos caríssimos leitores. Alguns deles reavivam lembranças saudosas e ilustres comentadores que, entretanto, deixaram de dar o seu riquíssimo contributo às nossas caixas de comentários, facto que lamentamos profundamente. A ideia, para quem não se lembra, é votar nos que considerar mais espectaculares. A prova continuará, com mais grupos a disputarem o acesso à grande finalíssima, e os melhores de todos terão depois o devido destaque. Aqui estão, sem mais demoras, os segundos 25 comentários hilariantes a concurso. Toca a votar...

1) Anónimo (29 de Novembro de 2007) (post Sub-Aproveitamento):

"tu percebes de futebol é? quem to disse? tens curriculo para apresentar? é que se n tens es igual aos restantes, podes mandar umas "papaias" para o ar mas é igual aqueles que rejeitas... cumprimentos"

(Nota: Anónimo, anónimo, tu percebes de disparates? Tens currículo para apresentar? É que se não tens és igual aos restantes a dizer disparates, podes mandar umas "papaias", mas dizes disparates tão disparatados como os daqueles que rejeitas...)

2) Bruno Pinto (4 de Dezembro de 2007) (post Falsas aparências... Parte dois):

"Se um gajo não sabe cruzar, não pode ser lateral, se não sabe atirar a bola lá para dentro, não pode ser avançado, se não sabe marcar em cima, não pode ser central. Etc, etc, etc."

3) Pedro (10 de Dezembro de 2007) (post As asneiras de Luís Freitas Lobo):

"Sim caro Nuno o talento nasce com as pessoas....por muito q tu aprendas a cantar se não tiveres voz não chegarás ao nível máximo. Pq o talento é o q define aquilo q separa uns de outros, talento é aquele factor x que não se explica, tem-se ou não se tem. Simplesmente isso. Chama-lhe instinto, inspiração, whatever, talento nasce connosco..."

e (a 11 de Dezembro de 2007)

"Não se trata da inteligência ser inata ou não. Trata-se sim de tu estudares uma vida inteira e não conseguires resolver os mais dificeis problemas matemáticos e outros aos 15 anos resolverem-nos desde os 7."

(Nota: Achou o comentário confuso?? Faça uma pausa às 15 horas desde as 7.)

4) Anónimo (10 de Dezembro de 2007) (post As asneiras de Luís Freitas Lobo):

"a homossexualidade é, obviamente, genética. Ninguém é gay/lésbico por opção (ao contrário do que alguns tontos homossexuais parecem acreditar, provavelmente por receio que lhes chamem doentes hereditários...)."

5) Bruno Pinto (10 de Dezembro de 2007) (post As asneiras de Luís Freitas Lobo):

"O Maradona foi o que foi porquê? Primeiro, porque Deus deu-lhe um talento absolutamente incrível para jogar futebol. Segundo, porque treinou e aprendeu a usar esse talento no futebol de alta competição."

(Nota: O Deus é um maluco, a distribuir presentes assim pela malta.)

6) pedro silva (11 de Janeiro de 2008) (post O Boavista de Pacheco):

[falando de Mateus, Fary e Zé Kalanga]
"os 3 abundam em talento...mas é preciso um treinador!"

e

"O diakite é um jogador fundamental no boavista. ele não está lá pra jogar à bola... está lá pra não deixar jogar e aí está o teu erro de interpretação."

e

"O futebol defensivo é o mais ganhador de sempre na história do futebol. "

e (a 12 de Janeiro de 2008)

"Mourinho é claramente um defensor do estilo de jogo defensivo. Qualquer um sabe disso."

(Nota: Diz Mourinho, sobre a sua filosofia de jogo, em contraste com a de Bobby Robson, no livro de Luís Lourenço, Liderança: as lições de Mourinho, o seguinte: "(...) mantendo a primazia por um futebol de ataque, procurei no fundo, organizá-lo melhor e essa organização parte, muito justamente, da defesa." Afinal parece que não é assim tão defensivo.)

7) pedro silva (11 de Janeiro de 2008) (post Tragédia Grega... e não só):

[sobre Katsouranis]
"Sei que muita gente gosta dele mas eu, reconhecendo-lhe as qualidades que tem, acho que tem defeitos a mais para jogar no benfica."

8) Bruno Pinto (13 de Janeiro de 2008) (post Tragédia Grega... e não só):

"Bem, eu começo a pensar que o Nuno e o Gonçalo são o mesmo cromo, de tão parecidas que são as estupideses que dizem e a forma como não percebem o que se diz. Vontade de rir... Ainda não percederam (percebeu?) patavina do que eu disse do Veloso e do Moutinho. Não percebem... O Veloso e o Moutinho são os dois inteligentes. E não percebem porque eu prefiro um ao outro. É que não percebem. E depois ainda acham que percebem de futebol... Epá..."

(Nota: Não percebi como é que se não se percebe que um gajo não perceba que usou quase uma centena de vezes o verbo "perceber" numa frase, sem perceber que a estava usar de forma a tentar perceber algo que não tem capacidade para perceber.)

e

"Eu não acho que chamar burro é insultar (...) Um burro é um gajo sem inteligência. Não é insulto."

(Nota: Eu não acho que chamar prostituta à mãe deste artista seja insultar. Prostituta é uma gaja que usa o corpo para trabalhar. Não é insulto.)

9) Bruno Pinto (16 de Janeiro de 2008) (post 22 curtinhas):

"Nuno, escreve-se 'covarde'. Muda lá isso que não estou habituado a erros ortográficos neste blog."

(Nota: O ensino do português, a norte do Tejo, parece-me pouco competente. Assim como o ensino da bazófia.)

10) Pedro (18 de Fevereiro de 2008) (post Curtas mesmo mesmo curtas):

"Sinto da tua parte uma embirração com o Binya...e algo me diz q em breve vais ter q te retractar..."

e (a 19 de Fevereiro de 2008)

"Por acaso acho um pouco estranho q tu, logo tu, tenhas uma opnião assim tão fechada de Binya mas não vou aprofundar muito a questão. Acho q se nota q há ali muito potencial mas adiante...agora não reconhecer q com ele em campo o Benfica ganha agilidade e dinâmica na pressão defensiva é puxado."

11) Anónimo (6 de Abril de 2008) (post Breves da Semana):

"E se alguem desencantar um extremo que marque golos de cabeça com a facilidade do Ronaldo, digam, está bem?
Ao artolas que comentou anteriormente - já não tens paciência para o CR7? Olha, ainda vais ter que o aturar por muito tempo... e no Europeu, quando precisares dele para ganhar jogos, como é?"

(Nota: O que vale é que tínhamos o Ronaldo no Europeu, se não teríamos ficado aí pelos quartos-de-final.)

12) Messi (23 de Abril de 2008) (post O que é um passe?):

[sobre Pelé]
"Ainda bem que há gente como vocês para ensinar um jogador que joga no campeão Italiano o que é um passe.

Serviço público no seu melhor."

(Nota: Um jogador que "jogava" no campeonato italiano. Assim é que está certo. Um jogador que passou a primeira metade da época passada a brilhar na Liga Intercalar e que depois foi brilhar para um colosso inglês. E que agora brilha em Espanha. Fica a correcção. E o serviço público.)

13) Trigo (30 de Abril de 2008) (post Compreender Futebol, em vez de o jogar...):

"Só se diz merda neste blog? Execução vs interpretação... Conversa estúpida!! Só cromos nesta rua."

14) Julio Cruz (11 de Maio de 2008) (post Clássicos: Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique):

"Não concordo, aquela equipa do Artur Jorge era brilhante tacticamente, não me venham dizer o contrário."

15) ChuckE (12 de Maio de 2008) (post Clássicos: Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique):

"Que biltre horrivel que és... podes admitir que não gostavas do estilo do porto daquela altura, e naquela final em especial, de "combate". Mas daí a chamar-lhe mau jogo..."

e

"Eu já vi a repetição do jogo na rtp memória, também. Apreciei bastante o jogo do Porto, num estilo de jogo semelhante ao praticado pelo Porto do Carlos Alberto, muito combativo, sólido a defender, sempre na recuperação de bolas, futebol apoiado, meio campo de pitbulls baixotes, como foi o estilo do Porto durante anos. "

(Nota: O raciocínio que importa reter é: todo aquele que não gosta de "pitbulls baixotes" é um "biltre horrível".)

16) Pedrovsky (25 de Maio de 2008) (post Os melhores):

"OFF-TOPIC: viste o (outro) grande golo do Pelé na final da taça de Itália? Leste o que é que os jornais italianos, gazzeta e corriere dello sport disseram dele? Qual é mesmo o teu problema com ele? Palpita-me que este será um sapo grande que vais ter de engolir mais cedo ou mais tarde, ai vais vais..."

(Nota: A mim palpita-me é que não fui eu quem engoliu sapos...)

e (a 26 de Maio de 2008):

"Nuno, eu sempre achei o Pelé um possível grande jogador de FUTURO. O grande golo que ele marcou (mais um)é mais uma prova e não apenas um motivo para dizer que ele é bom.
Qto às possibilidades com Mourinho, lembro-te apenas que o Bosingwa com Mourinho quase nunca jogou e hoje é o lateral mais caro do mundo, enquanto o dani alves não sai do sevilha. Por isso, o tempo está a favor do Pelé, mesmo que ele fique mais tempo no banco."

(Nota: Exacto, o tempo continua a favor do Pelé.)

17) slb4ever (26 de Maio de 2008) (post Os melhores):

[sobre Pelé]
"se com Mourinho não explodir, o problema é do Zé..."

(Nota: Se com Mourinho não explodir, o problema é do Zé; se com o Jesualdo não explodir, o problema é do Jesualdo; se com o Tony Adams não explodir, o problema é do Tony; basicamente, o problema é de todos menos dele...)

18) Anónimo (28 de Maio de 2008) (post Os melhores):

"És o maior tono do caralho!!"

(Nota: O que é um "tono"?)

19) Pedrovsky (29 de Maio de 2008) (post Pelé: um estudo):

"tens problemas com o M. da Costa? Já alguma vez viste um central com a habilidade dele na frente?"

20) Pedro Silva (29 de Maio de 2008) (post Pelé: um estudo):

"Nuno, exageras e ainda vais passar mal com o pelé."

21) Anónimo (5 de Junho de 2008) (post Sondagem (6)):

[sobre uma votação para eleger a equipa com melhores condições para vencer o Euro 2008]
"Votos na Espanha: nuno, gonçalo, o cão do nuno e o gato do gonçalo."

(Nota: os patetas do costume, uma vez mais com opções de voto que não lembram nem ao Diabo.)

22) Anónimo (14 de Junho de 2008) (post Incidências da Primeira Ronda do Euro 2008):

"Este blog é de escachar o coco a rir."

(Nota: Nunca percebi por que é que partir um côco é motivo de riso. Já "escachá-lo" é-o, seguramente.)

23) José Henriques (18 de Junho de 2008) (post Segunda Ronda):

"Mister fred (k de mister nao deve ter nada), já devo ver fut há mt mais tmp k tu!! por isso não me substimes...e n des exemplos parvos...o diakité e o binya são 2 pretos xulos.o petit é 1 gajo ja com visao d jogo e um remate mt forte..e a grécia eu nao digo k seja espectacular! mas k é boa tacticamente é! e vai xamar nabo à tua avó torta, k eu ja vejo futebol a 20 anos! este blog é so energumenos e gente sem humildade. isto é uma vergonha. a juntar a censura. parece q k voltamos ao estado novo."

(Nota: O nível dos insultos é brilhante, o português usado melhor ainda. Melhor, só mesmo a justificação para a falta de qualidade de Diakité e Bynia seguida da indignição por um comportamento, supostamente, em conformidade com a censura do Estado Novo. O que vale é que há coerência!)

24) Zé das Hóstias (20 de Junho de 2008) (post Ronda Final):

[sobre a França no Euro 2008]
"ESTE GAJO NAO SABE O Q DIZ!!!! A FRANÇA JOGOU MT BEM SÓ TEVE AZAR!!!"

25) Costa (decora o nome, cromo) (30 de Junho de 2008) (post Final e mais coisinhas):

"Ó palhaço, quem disse que o Pelé é dispensável? Se o fosse, o Quaresma há muito que já tinha ido para o Inter, não achas? Além disso, o que se fala é de um empréstimo, não de uma cedência definitiva."

(Nota: Professor Karamba e as suas adivinhações prodigiosas.)

E é isto: humor de qualidade, poderes de adivinhação prodigiosos e análise futebolística extremamente requintada. Falar de futebol a rir - eis o lema deste espaço e de todos os seus intervenientes.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Os energúmenos

Há pouca coisa em mim - confesso - que me cause mais repulsa que a estupidez do ser humano. Tolero, com facilidade, coisas que maior parte das outras pessoas não tolera, mas sou incapaz de conviver ou de aceitar sequer gente estúpida. Quando essa estupidez, então, me afecta directamente, quer pondo em causa aquilo que sei, quer arrogando-se de franca sabedoria, germinam em mim incontroláveis vontades de desdenhar. O escrúpulo é a ferramenta que usamos para aceitar a opinião alheia, mesmo quando ela não nos satisfaz. Contra estúpidos, porém, é frequente que perca a capacidade de manter os escrúpulos. É a esses doutores que este texto se dirige, na forma de uma lista de propriedades das suas doutas competências intelectuais. São, por isso, verdadeiros energúmenos:

1. Os que acham que a agressividade é uma coisa meramente mental e que para se tornar agressivo basta haver força de vontade.

2. Os que acham que o espírito de sacrifício é a maior virtude de um jogador.

3. Os que acham que o respeito se ganha exigindo-o arbitrariamente e não por demonstração de competência.

4. Os que querem bolas na linha só porque ouviram dizer que se deve jogar pelos flancos.

5. Os que protegem a humildade em vez do talento e os que dispensam os mais talentosos jogadores apenas porque não souberam lidar com o seu feitio.

6. Os que acham que podem justificar as suas ideias dizendo que aquilo que defendem está escrito em "livros" e que, como tal, não pode ser questionado, quando facilmente são desarmados se pensarmos que o livro mais influente na cultura ocidental se baseia na existência de uma entidade que, obviamente, não existe.

7. Os que não percebem que os jogadores mais competentes e através dos quais melhores resultados se podem extrair não são aqueles que dão tudo de si em termos físicos, mas sim aqueles que dão tudo de si em termos intelectuais, procurando perceber e melhorar as suas competências, não se limitando apenas a esticar ao máximo as suas competências actuais.

8. Aqueles que criticam um jogador por inventar e que aplaudem outro quando este faz algo simples, mas previsível.

9. Os que, com uma equipa cujas maiores virtudes são as competências técnicas e intelectuais, acham que os ingredientes necessários para vencer um adversário cujas principais características são a agressividade e a força são precisamente a agressividade e a força.

10. Os que não percebem que a impetuosidade não se contraria com impetuosidade, mas com inteligência, calma e qualidade de passe.

11. Os que não percebem que os melhores jogadores são os que tentam fazer as coisas mais difíceis e que, no meio de cinco adversários, dominar no peito, proteger a bola, metê-la no chão e dar num companheiro de modo a que a equipa possa começar a construir é muito mais difícil do que ir às alturas ganhar uma bola de cabeça cujo destino passa a ser absolutamente imprevisível.

12. Os que preferem jogadores que não compliquem àqueles que, sabendo das dificuldades, procuram ainda assim fazer coisas difíceis por perceberem que o êxito nas mesmas implica ganhos relevantes para a equipa.

13. Os que preferem jogadores velozes mas ineptos a jogadores lentos mas talentosos.

14. Os que têm Diogo Rosado e Fábio Paim no plantel e não os aproveitam, deixando-os no banco e utilizando outros como Wilson Eduardo.

15. Os que pensam que a qualidade de um avançado se determina pela quantidade de golos que marca e depois não têm capacidade para explicar por que é que o melhor avançado da Liga tem um quarto dos golos do melhor marcador da Liga.

16. Os que acham que o momento de atirar à baliza é mais importante que qualquer outro momento de jogo, usando o extraordinário argumento de que, no futebol, a conclusão é mais importante que a introdução e que o desenvolvimento apenas porque sim.

17. Aqueles que pensam que é possível criar jogadas de finalização de forma constante utilizando, em todo o processo ofensivo, apenas três ou quatro toques.

18. Os que ainda não perceberam por que razão é que o Braga, não sendo uma equipa especialmente bem organizada, nem especialmente agressiva, nem especialmente bem preparada fisicamente, está em primeiro no campeonato.

19. Os que acham que pedir atitude aos jogadores é uma fórmula mágica para os motivar e ignoram que a motivação só pode ser fruto do reconhecimento de competência.

20. Todos aqueles que, enfim, não privilegiam as características certas, aqueles que não percebem que tipo de carácter os seus jogadores devem possuir, aqueles que valorizam excessivamente as trivialidades, aqueles que acham que uma equipa deve ser composta por onze monges franciscanos, aqueles que acham que a simplicidade per si é louvável e que o futebol é um jogo simples, aqueles que não conhecem o episódio bíblico de David e Golias e acham que, para se vencerem Golias, se deve ser parecido com Golias, aqueles que não percebem que o próprio conceito de jogo implica que haja formas mais eficazes do que outras de se vencer e que, de maneira nenhuma, todas as estratégias são aceitáveis, etc...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

10 Pérolas

Um dos desportos preferidos deste espaço é confessadamente comentar opiniões alheias. A opinião, porque diz mais da pessoa que a tem do que propriamente daquilo a que se destina, é usualmente uma fonte de curiosidade para mim. No que diz respeito ao futebol, sobretudo porque quase todo o mundo parece que pensa que pode ter opiniões, todos os dias se dizem quantidades de lixo absurdas. Não leio jornais desportivos porque os jornalistas desportivos não percebem de desporto e tento, ao máximo, seleccionar aquilo que melhor qualidade apresenta. No entanto, e porque é impossível fugir a todas as atrocidades que são ditas, sobretudo quando ditas em espaços com alguma responsabilidade, não consigo conter um certo repúdio pelo que é dito e germina em mim uma vontade irrepremível de troçar de certas coisas. Já aqui foram alvo de chacota opiniões de alguns notáveis da nossa praça, jornalistas, comentadores e treinadores, principalmente. Desta vez, o alvo é uma coisa que não sei definir, sobretudo por não saber quem é e que profissão exerce, mas que escreve com habitual regularidade e ignominiosa facúndia no já reputado jornal online Academia de Talentos.

Antes de me dedicar ao que concretamente me proponho, gostaria de deixar algumas palavras, em jeito de preâmbulo, do maior génio português de todos os tempos e que se adequam com profícua clareza ao texto que se segue e que respondem, com subtileza e mordacidade, às previsíveis críticas que se seguirem.

"(...) A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. No fundo, isto é tudo bondade. (...) A justificação última da crítica assim bem entendida é o satisfazer a função natural de desdenhar, função tão natural como a de comer e que é de boa higiene do espírito satisfazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar não deve atar-se à cobardia de julgar isso feio, nem vender-se à infâmia de ir desdenhar o que os outros desdenham, abdicando assim da sua individualidade, gregário. (...) Buscar o conforto no desprezo é não só o nosso dever para com o desprezo, mas também o nosso dever para com nós próprios. Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo - eis um passatempo deliciosamente de crítico, ao qual juramos fidelidade."

(Fernando Pessoa, «Balança de Minerva - Aferição», 1913)

A selecção que faço dos ditos de Pedro Fajardo - é assim que se chama a criatura que dará alma aos parágrafos que se seguem - peca, certamente, por escassa. A partir do momento em que comecei a acompanhar, com relativa frequência, o que era escrito no Academia de Talentos, deparei-me com várias pérolas e não pude deter fortes risadas e irónicos assentimentos de cabeça. Nem todas tiveram origem na mesma pessoa, é certo, até porque o nível de conhecimentos e de capacidade analítica das pessoas que por ali escrevem, apesar do interesse dos conteúdos e da temática, é bastante curto. Mas as opiniões de Pedro Fajardo sempre me pareceram, existindo um concurso de opiniões absurdas, as mais promissoras. De futebol, esta pessoa perceberá pouquíssimo. Terá o mérito de gostar do jogo. Ou de pensar que gosta, pois não sabe o que é o jogo e, caso o soubesse, talvez não gostasse dele.

Antes ainda de passarmos às suas pérolas, ficam algumas opiniões curiosas de outras pessoas que por lá escrevem.

1. Gil Nunes, tendo que constituir uma equipa ideal de juniores 2008/2009, exibiu a seguinte formação: Ruca na baliza, Cedric, Nuno Reis, Roderick e Mário Rui na defesa, Leandro Pimenta, André Martins e Diogo Rosado no meio-campo, Diogo Viana, Nélson Oliveira e Wilson Eduardo na frente. Para o banco relegou Victor Golas, Josué Pesqueira, Ishmael Yartey, Sagna, Pedro Mendes, Henrique Dinis e Danilo Pereira. Não acompanhei todo o campeonato, mas posso falar da fase final e do talento, em termos absolutos dos jogadores. Começo pelos centrais. Nuno Reis é um bom jogador, mas não incluir Pedro Mendes nos titulares é parvoíce. Roderick não tem classe nem para o banco. Mário Rui é um trauliteiro. Quanto ao meio-campo, é absurdo pensar-se em Leandro Pimenta. Sobretudo quando se esquece David Simão,(Benfica), Diogo Amado (Sporting), Ricardo Dias (Porto) ou André Almeida (Belenenses), sendo que todos eles nem como suplentes foram considerados e qualquer um deles, na selecção de sub-19, tem presença mais assídua. Outro que foi esquecido foi Rabiu Ibrahim (Sporting). Mas lembrou-se de Danilo Pereira, claro. Não se ter lembrado de Lassana Camará já é uma conquista. No ataque, referenciar Diogo Viana e Wilson Eduardo é de loucos. Juntando os neurónios dos dois dava para aí inteligência para um infantil. É até ultrajante estes jogadores serem incluídos numa formação e Josué Pesqueira e Yartey não o serem. Para culminar, Gil Nunes aventa dois nomes para melhor jogador da época: Nuno Reis e Roderick Miranda. Pois, está bem! Nem Josué Pesqueira, nem Diogo Rosado, nem André Martins, nem Rabiu Ibrahim, nem Nélson Oliveira... Talento que é bonito não... O que é bom são centrais duros... Não sei, mas apostaria que Gil Nunes, quando jogava à bola, era o que punha mais adversários a sangrar.

2. Paulo Matias escreve sobre o preconceito que há contra jogadores africanos e a suspeita que muitos deles não tenham a idade correspondente ao escalão em que jogam. Faz então uma defesa dos jogadores africanos, ignorando, por certo, a certeza do teste do pulso e o facto de ser conhecido publicamente que muitos deles têm idades "ilegais", e pergunta:

"Será justo colocarmos em causa o talento de jogadores como Valdomiro Lameira "Estrela", Pape Bakary, Sancidino Silva, Armindo Bangna "Bruma", Carlos Mané, ou os irmãos Edilino Ié, e Edgar Ié
, entre muitos outros que existem nos mais variados clubes Portugueses, apenas porque neste momento exibem uma superioridade física ou intensidade de jogo totalmente diferente dos seus colegas do mesmo escalão? E se quando chegarem ao futebol sénior a superioridade continuar?"

Eu respondo. Sim, será justo. Sobretudo se se souber que o talento deles não é bem talento porque têm mais três ou quatro anos. Não conheço maior parte dos nomes citados por Paulo Matias, embora os ache divertidos, sobretudo aqueles irmãos, mas conheço o primeiro. A alcunha dele é "Zé Estrela" e jogou há uns anos num certo torneio da Pontinha, despontando porque tinha mais meio-metro que os outros miúdos. Na altura achei suspeito. Mais tarde, confirmei que a sua idade não era condizente com o escalão em que jogava. E a diferença não era só de um ano ou dois. Continua Paulo Matias, dizendo, perguntando:

"Nem de propósito, existem actualmente três jogadores que se têm evidenciado nos juniores do Benfica e que certamente já sentiram este tipo de reacções em Portugal, são eles Danilo Pereira, Lassana Camará e Ishmael Yartey. Será alguém capaz de ignorar o talento que estes jovens têm demonstrado na equipa de juniores do Benfica?"

Eu sou capaz. E sou capaz sobretudo porque, tirando Yartey, que tem qualidade, os outros dois são miseráveis. Nem quero saber das idades deles. É mesmo de falta de talento que falo. Basicamente, o que Paulo Matias defende é que factos afinal são preconceitos. Nem vou voltar a falar no avançado ganês de 22 anos que o Benfica o ano passado tinha nos juniores, porque não vale a pena. Além disso, parece defender também que os africanos, quaisquer que sejam, têm talento. Eu não tenho a certeza, mas nos diccionários costuma dizer que "preconceito" significa conceitos formados previamente. Ora, achar que todo o africano é ostracizado porque tem mais talento é que é capaz de ser uma forma de preconceito. E de estupidez, já agora.

3. Nuno Valente faz uma análise ao Benfica/Porto, a contar para a penúltima jornada da fase final do campeonato de juniores deste ano e destaca Nélson Oliveira e Ruca como os melhores em campo. Ruca é o guarda-redes do Porto e parece-me um bom guarda-redes. Mas os guarda-redes normalmente só são destacados ou quando os restantes jogadores são mesmo muito maus ou quando fazem grandes exibições. O argumento de Nuno Valente é que Ruca teve excelentes intervenções. É verdade que o Benfica passou muito mais tempo no meio-campo do Porto, mas criou pouquíssimas situações de perigo e Ruca não fez nenhuma defesa difícil, limitando-se a demonstrar alguma segurança (nem sempre) na resposta a cruzamentos. Só percebo esta análise do ponto de vista de um benfiquista ferrenho, que tentou justificar a má exibição da equipa encarnada e o mau resultado com uma exibição imaculada do guardião adversário. Ora, isto não faz justiça ao que se passou. Sobretudo quando em campo esteve Josué Pesqueira, de longe o jogador mais adulto e mais talentoso do Porto, autor do golo da sua equipa e responsável por tudo o que de bom em termos ofensivos a equipa produziu. Na análise individual a Josué, Nuno Valente diz o seguinte:

"Sempre muito influente, quase todas as jogadas de ataque passaram pelos seus pés. Muito esclarecido, sabe bem como tratar a bola, e foi dele o golo, na conversão da grande penalidade."

Parece elogioso, não parece? Mas não é. É só uma forma simpática de dizer que jogou mais ou menos. Isto porque depois diz isto de Diogo Viana:

"O melhor jogador portista, a par de Ruca, foi dos seus pés que saíram os lances mais perigosos de todo o encontro para a sua equipa. Ganhou a grande penalidade, em mais um lance onde foi notória a sua velocidade e foi sempre o mais esclarecido do ataque portista."

Ora, Diogo Viana fez um jogo horripilante. Dos seus pés não saiu um único lance de perigo, como parece querer convencer-nos Nuno Valente, decidiu sempre mal, tentou virar-se sempre para o seu adversário, quando recebia a bola, mesmo que estivesse apertado, e foi sempre anulado por um rapaz de seu nome Mário Rui, que bate em tudo o que mexe. Não ganhou a grande penalidade, porque quem a cometeu é que foi burro que nem uma porta. E dizer que foi o mais esclarecido, quando não sabe o que é um companheiro de equipa e o único argumento que tem é correr é das coisas mais patéticas que se pode dizer.

4. Chegamos finalmente às pérolas de Pedro Fajardo. Sobre Pedro Mendes, um central tecnicamente muito dotado, com uma capacidade para sair a jogar absolutamente notável e igualmente muito forte em termos defensivos, estando sempre concentrado e tendo uma leitura perfeita dos lances, diz o seguinte:

"Pedro Mendes é um central diferente, cuja evolução a nível técnico tem (aparentemente) encantado os responsáveis leoninos."

É um central diferente? Diferente de quê, amigo? Diferente dos outros ou diferente daquilo que tu achas que é um central? Não é diferente, não. É melhor.

"Acredito muito no seu potencial, mas acho que ainda tem de crescer fisicamente, assim como em alguns aspectos competitivos, para revelar todo o seu potencial."

Pois, estava-se mesmo a ver. O problema é o físico. Para Pedro Fajardo, um bom jogador é só um jogador com potencial. Enquanto não tiver físico, não tem qualidade, tem só potencial. Pedro Mendes não precisa de físico nem precisa de ser mais competitivo do que é. Isto porque competitividade não é agressividade; é concentração, inteligência, precisão, capacidade de melhorar. E ele tem isso tudo.

"Quando souber aplicar o seu físico, no que lhe será muito importante habituar-se ao duro jogo das divisões inferiores, Pedro Mendes poderá aliar os pezinhos de lã com que sempre pretende jogar, para se tornar num central completo."

Ficamos a saber que um central completo é aquele que sabe aplicar o físico. O Baresi, o Maldini, o Laurent Blanc e o Beckenbauer não eram completos. Mas o que eu gosto mesmo é da ideia de ser importante, para um jogador como este, o "duro jogo das divisões inferiores", como se passar pelos escalões inferiores fosse um ritual de passagem, em que um miúdo aprende a ser homem, sendo que homem é, entenda-se, alguém que sabe usar a força, que é viril, que bate nas mulheres. Está certo... Fico com a sensação que Pedro Fajardo é um homem das cavernas...

"Quanto a mim, Nuno Reis mereceria passar imediatamente para o escalão sénior (inclusivamente, parece-me, um defesa mais maduro que Pedro Mendes)."

Nuno Reis é o companheiro de defesa de Pedro Mendes, no Sporting e na selecção. Sabem por que é que parece a Pedro Fajardo que Nuno Reis é mais maduro? Não adivinham? Eu digo: porque é mais agressivo. Faz todo o sentido. Maturidade é agressividade, aliás. Não está em causa o valor dos dois jogadores. São ambos bons. Mas Pedro Mendes tem mais maturidade, até porque é um ano mais velho, e tem características que Nuno Reis não tem e que podem ser uma enorme mais-valia. Mais uma vez, Pedro Fajardo faria bem se estivesse calado...

5. Pedro Fajardo também tem opiniões sobre Wilson Eduardo, o que é sempre bom. Diz ele:

"Pouco mais posso acrescentar ao que já disse sobre Wilson. Posso apenas esperar que esteja em (mais uma) tarde inspirada e que os seus colegas saibam canalizar muitas bolas para aquele flanco esquerdo, onde cairá inevitavelmente."

Deve ser azar meu. É que ainda não presenciei nenhuma tarde inspirada do Wilson Eduardo. Apenas momentos exasperantes de burrice e toneladas de bolas perdidas. Enfim, Wilson Eduardo é aquele jogador que não tem nada de bom, além da velocidade. Corre com os braços junto ao corpo, não vê os companheiros, não tem talento e nem sequer faz muitos golos. É um caso gritante de parvoíce generalizada, continuar a achar que este rapaz tem algum futuro. Mas Pedro Fajardo não se fica por aqui e compara-o a Ricardo Nogueira:

"E para quem estava habituado a ver Ricardo Nogueira falhar golos em barda nos juniores (suportado por uma geração excepcional, entre os quais estavam o Daniel Carriço, Adrien Silva, João Gonçalves, etc.), ver o Wilson jogar era um pouco pouco como rever o tipo de avançados que se iam criando nas camadas jovens do Sporting: fortes tecnicamente (sempre superiores aos seus adversários) e extremamente perdulários. Por isso, com Wilson muitas vezes meti as mãos à cabeça e pensei "avançado que é avançado não pode falhar golos assim". Até aquele (belo) jogo em Guimarães em Junho de 2007, em que Wilson não foi somente mortífero, mas revelou também as características que poderão projectá-lo bem alto no futebol: velocidade, técnica, remate e diagonais de fazer os adversários perder a cabeça."

Mais uma vez, Pedro Fajardo demonstra que não sabe o que é futebol. Um avançado não tem que marcar golos para ser excelente. Comparar Ricardo Nogueira, que nem sequer era perdulário, a Wilson Eduardo é doentio. Dizer então que Wilson Eduardo é forte tecnicamente quando fica a milhas de Ricardo Nogueira neste aspecto é deficiência mental. Mas Wilson Eduardo convenceu Pedro Fajardo quando foi mortífero num determinado jogo. Pois... É uma qualidade do caraças, ser mortífero. Para Pedro Fajardo, o ideal de avançado é um escorpião. Afinal de contas, é mortífero...

"Prestes a cumprir os seus dois últimos jogos no escalão júnior, não sabemos ainda o que o futuro imediato reservará a Wilson Eduardo. A julgar pelas elogiosas comparações que lhe vão fazendo (entre ser parecido com o Liedson e ter características semelhantes ao Thierry Henry) seria de esperar que o mais velho dos irmãos Eduardo saltasse directamente para o plantel principal."

A comparação com Liedson pode ser válida, tirando o facto de não marcar muitos golos (o que afinal é a única razão pela qual o Liedson tem a reputação que tem), pois o estilo é semelhante. Agora, não sei é se é uma comparação elogiosa. A mim parece-me exactamente a razão pela qual Wilson Eduardo é horrível. É mau em tudo o que o Liedson é mau e é mau também naquilo em que o Liedson é bom. Corolário: não presta para nada.

6. Mais recentemente, fala Pedro Fajardo de Marco Matias, um extremo que pertence aos quadros do Sporting, saído da fornada de juniores do ano passado. Não é muito talentoso, embora seja forte no um para um, graças ao seu poder de arranque e à técnica que possui. Mas não é daqueles jogadores que consiga resolver jogos sozinho e não é, seguramente, um jogador de grande futuro a nível nacional. Ainda assim, Pedro Fajardo pensa que ele seria bom para integrar o plantel leonino esta época, mesmo não jogando o Sporting com extremos. Diz o seguinte:

"Sejamos objectivos, a principal razão para que tenha pensado em Marco Matias durante esse jogo contra o 13.º classificado da Championship da época transacta, não se prende com as qualidades deste jogador - que acompanhei durante duas épocas nos escalões de formação do Sporting. Deveu-se antes à falta de largura e jogadores que tenham capacidade para assumir o risco do 1x1 no futebol do Sporting. Marco Matias, tal como Yannick Djaló, são dois representantes de uma escola de extremos que não encontra espaço para jogar no 11 principal do clube. Mas essas são outras questões."

Pois, eu sei que questões são essas. Pedro Fajardo quer extremos à força toda, mesmo que não os haja. Pertence àquele grupo de gente que continua a achar que o Sporting produz os melhores extremos do mundo e que, por isso, devia jogar com extremos, mesmo quando não há um de jeito desde o Nani. E como quer extremos e não os há a não ser banais, acredita que a banalidade de Marco Matias pode ser útil.

"As suas características não se fazem: há poucos jogadores com a sua capacidade individual, há ainda menos com capacidade para fintar em progressão, há falta de largura no futebol do Sporting. Marco Matias não seria titular perante consagrados como Marat Izmailov, Yannick Djaló, Simon Vukcevic ou Bruno Pereirinha, caso o Sporting alinhasse num 4-3-3, mas seria uma belíssima solução para ir oferecendo minutos, porque poderia, com um golpe de asa, decidir uma partida."

Pedro Fajardo nem sequer sabe o que é capacidade individual. Marco Matias é do nível de Bruno Gama, Vieirinha, Candeias, David Caiado e outros que nunca hão-de jogar a um bom nível porque simplesmente só têm de bom o um para um, não sendo porém excepcionais nesse aspecto. E decidir um jogo num golpe de asa é para jogadores fora-de-série, não para jogadores medianos.

"Num plantel que se quer de soluções, Marco Matias seria uma óptima oportunidade para que o Sporting voltasse a colocar o seu nome na esfera dos extremos decisivos. As orientações actuais, contudo, são outras."

Cá está. Pedro Fajardo quer é que o Sporting volte a colocar o seu nome na "esfera dos extremos decisivos", mesmo quando eles não existem. E nem percebe que o problema não são as "orientações actuais". O problema é mesmo a falta de qualidade dos extremos que têm aparecido nos últimos anos.

7. Pedro Fajardo tem ainda opinião sobre Celestino, mas desta vez deixa no ar um indelével sabor a esquizofrenia. Diz o seguinte:

"E, por isso, começo com a conclusão: não vejo no Pedro Celestino as qualidades necessárias para se tornar um jogador de top nacional."

Eu também não. Até aqui tudo bem.

"parecendo paradoxal (prometo que não é), é por isso que Pedro Celestino poderia ser uma solução para o Sporting."

Então?? Que é que se passou? Parecendo paradoxal?? Não... É mesmo paradoxal, pá! Então não tem valor e poderia ser uma solução para o Sporting? Nunca se virá a tornar um jogador de topo nacional e o Sporting deve prolongar o vínculo com ele e até integrá-lo no seu plantel? Que é que se passa? Queres explicar? E ele explica:

"face aos lamentos de Paulo Bento relativamente à indisponibilidade de Marat Izmailov, diria que Celestino era mesmo a solução óbvia."

Primeiro não tinha valor; depois já podia ser solução; agora já é a "solução óbvia". É óbvio que isto não faz sentido nenhum.

"E porquê? Em primeiro lugar, haveria que partir do princípio que o treinador do Sporting admitia mudar o modelo de jogo consoante as características dos seus jogadores. Se assim fosse, Celestino poderia revelar-se uma boa solução no plantel para preencher as posições 6 e 8 num 4-3-3, quer nos jogos em que se desejasse oferecer músculo (saído do banco) à equipa, quer nos jogos em que, a perder, se pretendesse libertar mais os alas para tarefas ofensivas e aproveitar a boa qualidade de passe que possui."

Ah!! Era solução se Paulo Bento decidisse mudar o modelo de jogo. Faz todo o sentido, agora. Acho que o Sporting também devia modificar a cor dos equipamentos, só mesmo para satisfazer a vontade a Pedro Fajardo, que parece um rapaz dado a caprichos. Mas ele continua. E fala da altura em que conheceu Celestino e do que escreveu sobre ele:

"E como a internet tem destas coisas, é curioso constatar qual foi a primeira impressão que me deixou. Aqui a está: "Celestino é um médio forte, difícil de se lhe roubar a bola, mas como 10 não pode jogar pois não transporta a bola e não a vai buscar". Conforme também mencionei, "talvez possa ser interessante colocá-lo numa ala." É curioso constatar que, com apenas 90' de observação (ou sou muito teimoso ou...) mudei muito pouco de opinião sobre o ‘Celeste'."

Isto é formidável. Primeiro, Pedro Fajardo relaciona a força com a facilidade que tem para preservar a bola, como se uma coisa fosse a consequência da outra. Celestino nunca foi especialmente forte a preservar a bola, apesar de ser forte. Mas como Pedro Fajardo acha que a força faz com que se segure melhor a bola, tem estas ideias. Erradas, obviamente. De seguida, diz que como 10 não pode jogar porque não transporta a bola e não a vai buscar. Ficamos a saber que, para Pedro Fajardo, só pode jogar a 10 alguém que transporte a bola. Aimar, Lucho, Diego, Xavi, Iniesta, Fabregas, Deco, Lampard e Gerrard jamais poderão jogar a 10. Conforme também mencionou, achava que poder-se-ia colocá-lo numa ala. E, apesar de Celestino nunca ter jogado na ala e de ele próprio ponderar que ele jogue como 6 ou 8, acha que mudou pouco a sua opinião sobre Celestino. A mim parece-me que ele não sabe o que é uma opinião. Além de raramente ter opiniões acertadas. Como prémio final, ainda se refere de forma carinhosa e ligeiramente homoerótica a Celestino, usando um nome de mulher ao tratá-lo por "Celeste".

8. No mesmo texto em que se refere a Celestino, Pedro Fajardo fala da equipa de juniores do Sporting em que Celestino jogou do seguinte modo:

"Já por aqui referi quando o bichinho dos jogos da formação germinou para mim: falava-se de uma imbatível geração (1989) de juvenis e de uma de juniores (1987) que passeava pelos relvados portugueses. Nessa formação de juniores jogavam alguns que já tinham sido, inclusivamente, chamados ao plantel principal: Rui Patrício era o guarda-redes, André Marques o defesa esquerdo, Zezinando o trinco, Bruno Pereirinha 8 ou extremo, David Caiado era extremo e Tomané avançado. Todos eles, durante essa temporada, haviam sido chamados - uma vez ou outra - a sentar-se no banco de suplentes do Sporting e mesmo a actuar alguns minutos. Nessa equipa falava-se muito de dois outros jogadores: João Martins (o mano mais novo de Carlos, que por essa altura ainda jogava de leão ao peito) e de Fábio Paim. Foi assim que, cheio de curiosidade, comecei a acompanhar os jogos do Pedro Celestino."

Acho engraçado que tenha começado a acompanhar os juniores do Sporting nessa altura, que refira vários jogadores dessa geração e que não mencione o melhor deles todos, Diogo Tavares, que por acaso até foi o melhor marcador do campeonato de juniores desse ano e que foi frequentemente o melhor marcador do escalão em que jogava e que era titularíssimo da selecção. É sobretudo engraçado que mencione Tó Mané, quando este jogador não jogava para jogar Diogo Tavares. E se calhar vale a pena dizer ainda que Daniel Carriço já despontava ao lado de Paulo Renato e que André Nogueira era um lateral-direito notável, como nunca mais se viu nenhum nos juniores do Sporting. Mas Pedro Fajardo não viu essas coisas. Viu outras.

9. Pedro Fajardo revela ainda uma paixão especial por mais um jogador banal, elevando-o ao Olimpo das estrelas da formação do Sporting como se se tratasse do Hércules de Alcochete. Falo de Bruno Matias. Diz ele o seguinte:

"Sobre Bruno Matias: "A dispensa de Bruno Matias (um jogador muito superior, por exemplo, a Carlos Saleiro) também nos diz algo sobre o método e sobre a estratégia."

Pedro Fajardo acha que Bruno Matias é superior a Carlos Saleiro. A razão, imagino, prende-se com a capacidade concretizadora que ele diz que Bruno Matias tinha nos juvenis. Esquece-se é que Saleiro é mais jogador em tudo o que importa: é mais inteligente, é melhor de costas para a baliza, compreende melhor o jogo e tem atributos colectivos que Bruno Matias nunca terá. Continua ele:

"E, para qualquer sportinguista, a dispensa de Bruno Matias deve ser vista com preocupação. Porque, além de William Owuso e de Wilson Eduardo, só se vislumbram atacantes com potencial para serem de primeira linha nos Juvenis B (Altair Jr. e Betinho). Passará algum tempo até que o Sporting tenha outra geração excepcional."

Em tão poucas linhas, Pedro Fajardo consegue dizer asneiras que dão para um ano. Diz que é preocupante a dispensa de Bruno Matias, quando é um jogador claramente abaixo da média, e depois refere que sobram William Owuso e Wilson Eduardo, que também não são grande espingarda. Parece-me é que os padrões de Pedro Fajardo ficam um pouco abaixo do desejado. Finalmente, remata com a esplêndida advertência de que vai demorar para haver outra geração excepcional. E a verdade é que a geração de Bruno Matias, Marco Matias e William Owuso foi a menos excepcional dos últimos cinco anos. Não é engraçado, o Pedro Fajardo?

10. Mas Pedro Fajardo também tem opiniões sobre o Benfica. Diz ele:

"O Sport Lisboa e Benfica dispõe de um lote de jogadores de excelente qualidade, onde pontifica a qualidade técnica de Nélson Oliveira, a velocidade de Ishmael Yartey, a solidez ofensiva de David Simão, Leandro Pimenta e Lassana Camará, devidamente reforçada pela irreverência e singularidade do ex-leão Mário Rui."

Pedro Fajardo adjectiva elogiosamente alguns jogadores do Benfica. Mas colocar no mesmo prato os primeiros três com os seguintes é estúpido. Além disso, se há coisa que o David Simão tem não é solidez ofensiva. É tecnicamente bom e tem boa visão de jogo, mas falta-lhe clarividência e sobretudo muito velocidade de execução. Leandro Pimenta e Lassana Camará, então, são ofensivamente patéticos, um por falta de talento, o outro por falta de talento e por falta de tudo o que seja atributo para jogar futebol. Resta Mário Rui, que é péssimo a todos os níveis, mas que Pedro Fajardo considera possuir irreverência e singularidade. Mário Rui cerra os dentes em todas as jogadas e distribui fruta até na bola. Há quem lhe chame parvoíce. Pedro Fajardo prefere chamar-lhe singularidade. É capaz de ter razão...

E com estas dez pérolas me fico. Pedro Fajardo, esse, por certo continuará a presentear o mundo do jornalismo retrógrado com opiniões e disparates fabulosos, capazes de encher páginas e de motivar risadas e boa disposição a quem, por ter massa encefálica própria de um ser humano normal, consegue perceber coisas para além do óbvio e distinguir a qualidade da mediocridade.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Momentos

A semana e meia que passou foi pródiga em episódios caricatos. É sobre eles que irei falar.

1. Luis Sobral voltou a dizer porcaria. O artigo completo pode ser lido aqui, mas vou deter-me na frase central: "Só há duas verdadeiras razões para seguir uma partida do futebol italiano: ver jogar Ibrahimovic, ver protestar José Mourinho." Ou seja, para Luis Sobral, o futebol italiano é uma trampa e só se aproveita Ibrahimovic e Mourinho (este porque protesta). Fica implícito que o resto do futebol italiano não vale nada e que nem sequer merece o sueco. Resta saber que futebol é que Luis Sobral aprecia, então. Se a liga mais competitiva do mundo não o satisfaz, talvez prefira a segunda liga do Azerbeijão. São gostos. Ainda bem que há liberdade de expressão.

2. Por cá, tivemos um senhor a armar um circo e a acabar feito palhaço. Falo de Queiroz. Pegou num pormenor insignificante e que deveria ser incentivado, fez dele um cavalo de batalha e reprovou-o. Pereirinha e Rui Pedro ousaram fazer uma coisa diferente e tiveram de prestar contas à Inquisição. Não satisfeito com a reprimenda apalermada de Rui Caçador, o seleccionador principal decidiu suspender os jogadores. Não sei se Queiroz terá aprendido com Paulo Bento a castigar todo aquele que revela uma personalidade ambiciosa, mas parece-me claro que o 25 de Abril em sua casa é dia de trabalhos forçados.

3. Entretanto, o Portimonense saiu em defesa de Rui Pedro, sendo que o jogador nem sequer pertence aos quadros do clube. Do Sporting, nem uma palavra de apoio ao capitão da selecção de sub-21. Miguel Veloso bem avisou que os jogadores não têm apoio de ninguém.

4. Ainda sobre o mesmo assunto, a reacção de Caçador e de Queirós foi a de enfatizar até ao absurdo o incidente. Outros, como eles, acharam que aquilo que os jovens fizeram foi repugnante, irresponsável e uma forma de menosprezar o adversário que ilustra a falta de valores e de humildade no nosso país. Ao contrário disto, lembram os valores morais e a dignidade de outros povos, numa atitude provinciana levada ao extremo. O que eu gostava mesmo de saber era o que é que essas pessoas diriam se vissem Henry e Wenger, no flash interview a seguir ao jogo em que o mesmo Henry e Robert Pires falharam um penalty idêntico, a rirem que nem perdidos da situação. Se calhar também são portugueses e também não têm humildade. Destaco as sábias palavras de Wenger, ditas por entre um sorriso, enquanto os jogadores do Manchester City se sentiam desrespeitados: "também faz parte do jogo cometer este tipo de erros". Pois faz. Também concordo que há uma diferença de mentalidades: Wenger não tem a tacanhez de Queiroz.

4. Provavelmente satisfeito com o pulso forte que demonstrou, Queiroz não fez a barba para o jogo com a Suécia. Se tivesse que adivinhar, diria que o seleccionador se cortou da última vez que fez a barba e decidiu castigar as lâminas de barbear por falta de responsabilidade.

5. Entretanto, antes do jogo com os nórdicos, Cristiano Ronaldo, confrontado com o porquê de não render tanto na selecção quanto no Manchester United, disse o seguinte: "Se todos fizessem o que fiz, éramos campeões mundiais". A única coisa que podemos depreender daqui é que Pereirinha e Rui Pedro, infelizmente, têm de se aguentar à bomboca, pois não são Cristiano Ronaldo. Ou seja, tentar marcar um golo de uma maneira diferente, mostrando criatividade e ao mesmo tempo coragem, é motivo para ser castigado; dizer abertamente que nem todos se esforçam como ele é um comportamento louvável. Viva a liberdade de interpretação.

6. Vieram finalmente os suecos e Portugal não jogou nada. Há quem diga que Portugal se fartou de jogar à bola, mas estes se calhar têm medo que Queiroz os castigue se disserem o contrário. Portugal atacou muito, correu muito, impôs um ritmo alto. Nada disto é jogar bem. Houve intensidade, houve vontade de ganhar, houve atitude, houve garra, houve compromisso. Só não houve ideias. Infelizmente, não houve a única coisa que era preciso ter havido. E o futebol praticado foi uma coisa irracional, sempre a uma velocidade estonteante, como se cada jogador tivesse de ir tirar o pai da forca. Futebol não é halterofilismo; joga-se com a cabecinha. Resultado: meia-dúzia de lances interessantes em 90 minutos e tantas oportunidades de golo para um lado como para o outro. A Suécia, uma selecção absolutamente banal sem Ibrahimovic, sem ter feito nada por isso, por pouco não ganhava o jogo.

7. Receita para o sucesso: jogar com um central a trinco porque os outros são grandes, jogar com o Bruno Alves de início, jogar a segunda-parte toda com 4 centrais de raiz em campo, tirar Tiago quando era o único com ideias, manter no meio-campo Meireles e Pepe, não colocar a jogar Nani nem Moutinho, trocar Danny por Hugo Almeida. Poderia acrescentar outras: apostar em Eduardo, não convocar Nuno Gomes, Postiga, Quim, Zé Castro, Fernando Meira, Pedro Mendes, Carlos Martins nem Quaresma. Estou de certeza a esquecer-me de mais qualquer coisa.

8. Imagem de marca do desafio: Queiroz com as mãos na cabeça, provavelmente a cogitar quem é que iria castigar por Cristiano Ronaldo falhar aquele golo.

9. Três jogos em casa, duas equipas medianas e uma fraca, dois empates e uma derrota; 5 jogos, 1 vitória, 6 pontos, três jogos sem marcar, 7 pontos de distância para o primeiro. São os números de Queiroz. Não seriam números maus, se Queiroz fosse seleccionador da Albânia. Assim, é a matématica a lixar a vida ao professor. O próximo a ser castigado é o Pitágoras, por ter ajudado a que houvesse forma de fazer contas.

10. Jogo amigável com a África do Sul. Ganhámos 2-0. Dois golos de bola parada, em dois falhanços incríveis da defesa sul-africana. Viva! A pergunta que se impõe é: para que é que Queiroz convocou três guarda-redes se dois deles nem no amigável entraram? Ou foram castigados a meio do estágio por terem sido encontrados a jogar ao berlinde?

11. A selecção B também jogou e Queiroz esteve na bancada. Acho que depois disso já castigou o operador de câmara que o filmou a roer uma unha. Do jogo em si, é sempre bom destacar o golo de Djaló, bem como o facto de nenhum dos jogadores portugueses ter sido castigado. Pelé fez 30 passes de ruptura inconsequentes e continua um senhor jogador.

12. Na zona sul do nacional de juniores, o Sporting foi vencer ao Seixal o Benfica, dando um passo seguro rumo à fase final. O Belenenses, que vai a Alcochete esta semana, ficou a 1 ponto do Benfica, que não contará com Nélson Oliveira nos próximos jogos, por ter sido expulso. Acho que Queiroz pensou em castigar toda a equipa do Sporting por ser muito melhor que a do Benfica.

13. Se os filhos do Queiroz aparecerem com um olho à belenenses, aposto que foi por o pai ter encontrado os miúdos a dizer que o Ibrahimovic jogava para caramba.

14. Na Liga, Lisandro foi castigado por ter simulado um penalty frente ao Benfica. Isto cheira-me a coisa do Queiroz.


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Subir a marcar

Soube deste conceito e ainda hoje ando a pensar nele: subir a marcar! A ideia é fazer com que a equipa suba no terreno de jogo, ou seja, em posse de bola, sempre com as referências de marcação por perto. Pressupõe então que, enquanto os avançados se divertem à procura da bola que foi pontapeada de qualquer maneira para a frente, os defesas e os médios encurtem o espaço e subam no terreno acompanhando os adversários directos, que devem marcar em todo o campo. O energúmeno que disse isto é treinador. Gritou-o para dentro de campo, exigindo aos seus jogadores que cumprissem esse desígnio. "Subam a marcar!" - disse, com toda a convicção. Subir a marcar é, sem dúvida alguma, um conceito espectacular. Numa equipa que jogue com este conceito em mente, um jogador que se desmarque está obrigatoriamente a infringi-lo. Numa equipa assim, não há desmarcações. O que é imperativo é que nunca se largue o adversário, mesmo quando a equipa tem a posse de bola, mesmo quando está a subir no terreno. Isto é fabuloso. Uma equipa assim não é formada por jogadores, mas por sombras; os jogadores são parasitas e o seu único jogo advém do erro do adversário. Numa equipa assim, os jogadores têm meio toque para chutar para onde estiverem virados. As suas acções, defensivas e ofensivas, resumem-se a maltratar a bola e a fazerem de autocolante. Subir a marcar é mesmo um conceito fascinante. Haver treinadores assim é dos maiores atentados que me lembro ao progresso da humanidade. Jaime Pacheco continua a fazer escola...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Dez tentativas

Pelé foi cedido, a título definitivo, ao Porto, tornando-se assim claro que José Mourinho não só não contava com ele para esta época, como também não considera que o internacional sub-21 venha a ter algum futuro. Eis dez tentativas para perceber por que razão isso aconteceu:

1. Porque ainda não sabia o que era um passe?

2. Porque José Mourinho andou a ler o nosso blogue?

3. Porque os seus dois neurónios não se adaptaram ao estilo de vida em Itália?

4. Porque, uma vez que Mourinho anda a adaptar jogadores para jogar na sua posição, mais depressa o Toldo jogava a médio-defensivo do que ele?

5. Porque os centrais começaram a regressar das lesões e já nem para fazer número servia?

6. Porque lhe prometeram que, com Mourinho, ele ia aprender a jogar à bola, mas num mês de trabalho ainda não sabia o que era um colega de equipa?

7. Porque continuava convencido que defender à zona era uma maneira de confeccionar bacalhau?

8. Porque suava demasiado e o seu cheiro ficava de tal modo entranhado na roupa que o Inter estava a ter prejuízo com roupa de treino?

9. Porque, com a chegada de Muntari, passou a haver demasiados pretos no plantel com os quais gozar?

10. Porque, tendo em conta as reais capacidades futebolísticas do Vítor, queriam que, em vez de Pelé, se passasse a chamar Vitinha?

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Um jogador leal

Jesualdo já tinha dito que nunca viu Bruno Alves a agredir ninguém. Se no caso do professor a idade pode justificar a existência de cataratas, no pai de Bruno Alves parece-me que o caso deve ser clínico. Segundo este artigo, Washington Alves, pai de Bruno Alves, veio defender o filho, dizendo, entre outras coisas, o seguinte:

"Bruno é um jogador leal e limpo a jogar".

Leal tipo como quem tem lealdade? E as cotoveladas, os pontapés nas costas, os pisões, o que são? Demonstrações de carinho? E limpo tipo como quem arranca a cabeça a outro de forma limpinha?

"O Bruno está preparado para tudo, mas é natural que acabe por se retrair se as punições se repetirem..."

De facto, também me parecem exagerados os dois cartões amarelos da época passada. Afinal, não há nenhuma lei que diga que costelas partidas, ombros deslocados e olhos arrancados seja passível de punição. Agora, ia era jurar que a intenção das punições é retrair ímpetos violentos. Mas se calhar estou errado...

"é natural que acabe por se retrair se as punições se repetirem e procure jogar de acordo com os critérios dos árbitros."

Pois, isso agora era lixado, se ele tivesse que começar a jogar de acordo com as regras. Eu quando jogo xadrez também me sinto um bocado prejudicado por os meus peões não poderem andar mais do que uma casa ou por a minha rainha não poder jogar três vezes seguidas.

"O que não é bom para o jogador, nem para o FC Porto."

Obviamente que não é bom para o jogador. Tem toda a razão. Sem o taco de baseball, o Bruno Alves fica claramente mais fraco. E o Porto, impossibilitado de alinhar com 11 tanques de guerra, também fica mais débil. Onde é que já se viu ter de jogar com onze seres humanos?

"Um defesa-central tem de ser viril."

Eu diria que um defesa-central tem de ser defesa-central, mas eu também tenho a mania que sei tudo.

"ninguém contrata uma bailarina para jogar na área, onde é preciso agir e decidir em fracção de segundos."

Bailarinas para jogar na área, segundo o senhor Washington, é mau. Já gorilas, como o filho, faz todo o sentido. Mas o argumento do senhor Washington é claro: Bruno Alves tem de ser viril porque é preciso agir e decidir em fracção de segundos. Para este senhor, a velocidade de raciocínio depende exclusivamente da virilidade. O homem mais rápido é aquele que bate mais nos outros. Parece-me um raciocínio um bocado arriscado, mas talvez faça sentido. E na escola, quando tinha que fazer contas de cabeça, o Bruno Alves espancava os colegas para pensar mais rápido? Ouvi dizer que se pensa com o cérebro e não com os cotovelos ou com a sola da bota. Mas deve ser mentira. Por isso, faz sentido que ele seja viril. Se espernear de maneira a acertar em tudo o que mexe, é provável que consiga chegar primeiro à bola que os adversários, logo, pensa e executa mais rápido.

Nota final: Estas declarações explicam muita coisa. A educação de Bruno Alves e de Geraldo, seu irmão e também um defesa central amigo das pernas adversárias, deve ter sido complicada. Quais terão sido as suas primeiras palavras? "Estropiar"? "Sarrafada"? "Uga Uga"? No Natal, enquanto os amigos deles recebiam bonecos, bolas de futebol e consolas de vídeo, Bruno Alves e Geraldo recebiam o quê? Ringues de boxe? Paredes de tijolos para praticarem a joelhada rotativa? E qual seria a actividade que fariam em conjunto com o pai? Caça do javali à cabeçada? Quando chegavam da escola com uma negativa, será que o castigo eram duzentas placagens à mãe? E nas férias, será que iam para a praia como as outras famílias, ou iriam antes partir pedra com os cotovelos? Não deve ter sido fácil, não...