domingo, 29 de abril de 2012

Jornal O Idiota!

É o que me surge, ao vislumbrar a primeira página do jornal deste Sábado: " Desgaste provocado pelo português decisivo para o adeus do catalão" ou " Aposta do Real Madrid no projecto Mourinho provocou rombo no porta-aviões culé" foram as frases que me arrebataram a atenção. Já é sobejamente conhecida a fidedignidade de grande parte dos artigos deste jornal, mas ainda assim, perante tamanha estultícia, nem o parco respeito que destilo pelo jornal A Bola me prevenira para a sua parangona. Piorou, no entanto, a minha incredulidade, ao ler as linhas que se encerravam sobre a despedida de Pep. Miguel Correia assinou a crónica ataviada das seguintes pérolas: "uma certeza: um dos aspectos que mais terá contribuído para o desgaste do ainda responsável pelo Barcelona terá sido a guerra de palavras protagonizada por José Mourinho, treinador do Real Madrid, mind games tanto do agrado do técnico português e aos quais Josep Guardiola esquivou-se permanentemente, direcionando o seu discurso,educado, sempre noutras direções. Mas há quem defenda que, afinal, o técnico, que ainda não digeriu o último desaire contra o Real, atirou a toalha para o chão, temendo que, na próxima época, Mou ganhe os títulos mais importantes, uma atitude bem diferente da que mostrou na sua carreira de jogador, isto é, nunca se rendia as adversidades".

Tanta patetice deixou-me perdido, confesso. Não percebia se isto se tratava de uma peça humorística, ou se era apenas idiotice do Sr. Miguel Correia. Idiotice, afinal. Acho piada uma pessoa aludir a uma suposta cobardia de Guardiola, sendo que ele próprio,o Sr. Miguel Correia, abafado que está nesse lamaçal, inventa personagens para assim poder, da forma mais cobarde possível, apelidar Pep de cobarde. Depois, a convicção que coloca numa crença absolutamente idiota, quase religiosa, de que Guardiola está desgastado pela sua relação com Mourinho. Ele, Pep, que nunca adaptou a sua equipa a terceiros, que se centrou única e exclusivamente no aperfeiçoamento do seu modelo, encontrava-se desgastado pela acção de terceiros? Que estupidez!

Um aparte, em que prometo ser breve, sobre Mourinho e Ronaldo. Que são, cada um no seu espaço, elementos de enorme valia, ninguém dúvida, mas esta coisa absurda de os colocar acima de todos só porque são portugueses não encerra em si mesma a mais caluniosa das ofensas? Não será este tipo de xenofobismo a forma mais primitiva de, na sua miserável existência, se sentirem minimamente importantes? Se Mozart teve piolhos, estas pessoas dariam tudo para trocar a sua vida pela desses parasitas.

Depois, na sua habitual crónica, surge Luís Freitas Lobo. Freitas Lobo faz-se acompanhar sempre de uma elegância tremenda, evitando ao máximo melindrar quem quer que seja; porém, encontrei na crónica deste Sábado elemento que justificam reparos. Na sua coluna de opinião, intitulada "As verdades do Futebol", Freitas Lobo dá a entender que a abordagem efectuada pelo Chelsea foi meritória. Isto porque, no seu entender, os 73% de posse de bola do Barcelona estiveram sempre controlados, apesar de 2 bolas no ferro, duas enormes defesas de Petr Cech, (e já nem vale a pena abordarmos o que se passou na primeira mão). Mais, a diferença que Freitas Lobo apregoa deste Barcelona para o que venceu na época passada assenta, segundo ele, na estrutura. Critica o 343 de Guardiola, defendendo que "nenhuma equipa no futebol moderno resiste a este desequílbrio posicional", ignorando o que na realidade contribuiu para o falhanço deste ano, para além de circunstâncias relacionadas com o lado caótico do jogo, como o acaso, ou seja: as opções infelizes que o próprio Guardiola reconheceu ter tomado, assim como aquelas de que ele não falou, como seja o caso de Piqué.

O cronista português podia ter abordado a "aparente má época de Guardiola" através das suas opções, mas quis encontrar uma justificação mais elaborada, o que resultou num redundante engano. Mais, ao afirmar que nenhuma equipa no futebol moderno está preparada para o desequilibrio estrutural de que fala, Freitas Lobo ignora o essencial sobre esta equipa: as regras que se aplicam ao restante universo futebolístico não se podem notar na equipa catalã; as regras são diferentes, por que um diferente paradigma assim o obriga. No futebol moderno, como ele defende, a tendência empurra as equipas para atribuirem uma maior importância aos factores físicos. Esse nunca foi um ponto importante na equipa de Guardiola, e, apesar disso, esta "inferior" equipa, no que aos aspectos físicos diz respeito, dominou o futebol mundial nos últimos 4 anos ao mesmo tempo que lançou mais de 20 miúdos na ribalta. Não sei a partir de que data devemos começar a definir o "futebol moderno", mas esta supremacia contraria, de forma clara, a sua sugestão de que o sucesso na Europa responde a uma superioridade física de umas equipas sobre outras. Termino com uma frase de bancada, com que ele nos brinda, na sequência da que já salientei sobre a mudança de estrutura no conjunto catalão: "Realidade tática agravada com o facto de, contra o Real, forte no jogo aéreo, o central eleito(Puyol) ter apenas 1.78metros". Não sei o que dizer, nem consigo encontrar no jogo contra o Real indícios de que o que é defendido nesta frase encerra o mais ínfimo sentido. À excepção dos últimos 10 minutos, em que existiu algum desnorte do Barcelona, o Real não conseguiu beliscar sequer a superioridade do seu adversário. As melhores oportunidades de golo, de todo o jogo, foram as duas do Barcelona. Os golos do Real resultam de erros a que nada corresponde a baixa estatura de Puyol (o primeiro golo surge de um ressalto, e no segundo Valdés não está isento de culpas), e, sendo assim, não consigo descortinar a relevância dos centimetros a menos de Puyol.

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Melhor Equipa do Mundo

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho eliminou o Barcelona, publicou o Entre Dez um texto em que defendia a equipa blaugrana. Não o fez por despeito, mas porque, apesar da eliminação, a equipa manteve a sua identidade, a sua honra, e jogou o melhor que pôde, não vencendo apenas por manifesta falta de sorte. Hoje, após a eliminição ante o Chelsea, repete-se o exercício. No final do jogo, as estatísticas deram 27% de posse de bola ao Chelsea. As estatísticas estão erradas. Desconheço quais os critérios para medir a posse de bola, mas o Chelsea não teve nem 20% de posse. Como é óbvio, a posse de bola não justifica nada, e muitos poderão dizer que o Barça não soube materializá-la em oportunidades. Mas isso também é falso. O Barcelona teve, nada mais, nada menos, do que oito oportunidades claras de golo, ao longo do jogo. Os postes, Petr Cech, e a sorte, protegeram o Chelsea.

Ao longo da partida, Luis Freitas Lobo foi gabando a estratégia do Chelsea. Há cinco anos, Luís Freitas Lobo percebia qualquer coisa de futebol. Hoje em dia é acéfalo. Não sei o que terá acontecido entretanto, mas a verdade é que não sabe o que diz. Há-de haver uma explicação clínica. Aliás, quando o Barcelona fez o primeiro golo, disse Luís Freitas Lobo que estava reposta a lógica na eliminatória. Como é que ele pode dizer isso, quando defendeu que o Chelsea tinha merecido o resultado da primeira mão? Luís Freitas Lobo diz aquilo que os resultados exigem que diga. Se o Barcelona tivesse marcado mais do que o Chelsea, diria que o Barcelona jogou bem, e que vencera a eliminatória quem mais merecera. Como não foi o que aconteceu, foi o Chelsea que mais mereceu. Repito: isto é conversa de gente com problemas na cabeça. Os resultados são o que são, mas nem sempre espelham o que se passa em campo. E o que se passou em campo, nesta eliminatória, foi que o Barcelona esmagou o Chelsea. "Estratégia" é saber defender para atrair o adversário, e depois lançar os ataques. Defender com nove jogadores dentro da área não é "estratégia". É fé. E, às vezes, porque o jogo dá-se a isto, a fé pode vencer a competência. Foi o que aconteceu. Em condições normais, o Barcelona venceria a eliminatória com a facilidade com que venceu o Bayer Leverkusen. Acontece que, juntando-se várias anormalidades (13 oportunidades claras de golo, e apenas 2 golos; 4 bolas nos postes; 3 oportunidades de golo do adversário e 3 golos sofridos; erros de Mascherano), uma eliminatória em que uma equipa esmagou a outra acabou por permitir que a equipa esmagada passasse à final. Pode acontecer. Não é muito normal, mas pode acontecer.

Há que notar que, assim que Fernando Torres marcou o golo do empate, que punha um ponto final na eliminatória, os adeptos entoaram, em coro, o hino do Barcelona. Não sei se não será algo inédito num campo de futebol. Desconfio que sim. É costume dizer que, em Inglaterra, os adeptos aplaudem a equipa mesmo quando esta perde. Isso acontece principalmente porque os adeptos são, na sua grande maioria, estúpidos. Aplaudem porque notam que a equipa se esforçou. Não reparam que, apesar do esforço, jogaram miseravelmente. Hoje, em Camp Nou, os adeptos aplaudiram por outra razão. Aplaudiram porque o orgulho na sua equipa é tanto que supera a frustração de não marcar presença na final de Munique. Isso é inédito. E só podia ser alcançado num clube com um projecto deste tipo, e com um modelo de jogo que, mesmo nos jogos em que o resultado não é favorável, deixa a certeza de que se jogou o melhor que era possível. Hoje, o Barcelona foi derrotado, principalmente porque o futebol permite que o melhor seja derrotado. Mas venceu de outra maneira, novamente. E é por ter vencido dessa maneira que é seguro que seja novamente o principal favorito a conquistar o troféu na época seguinte. Sim, o Barcelona não vai revalidar o título de campeão europeu. Mas continua a ser a melhor equipa do mundo. De longe.

Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho derrotou o Barça, apontaram-se defeitos à equipa, apontaram-se erros a Guardiola, etc.. O Entre Dez optou por outro discurso, o mesmo por que opta agora. O Barcelona perdera porque, mesmo sendo o melhor, às vezes perde-se. A terceira época de Guardiola mostrou que tínhamos razão. Apesar de ter sido derrotado, continuava a ser a melhor equipa do mundo, e continuava a ser a equipa que melhor jogava, e que melhores condições reunia para ganhar as competições que disputava. Hoje, que se repetiu o azar de o Barcelona não passar à final da Liga dos Campeões, repetem-se as razões, e repetem-se as nossas previsões. Trata-se da melhor equipa do mundo, da única equipa de que tenho conhecimento que conseguiu aterrorizar o mundo do futebol. Para mim, por exemplo, este é o melhor ano, em termos de qualidade de jogo, da era Guardiola. Aceito que, defensivamente, a equipa não tem estado tão bem como já esteve, embora muito por culpa pelas ausências sistemáticas de Piqué e Abidal. Mas, ofensivamente, foi o ano em que a equipa melhor jogou. Duvido que a maioria das pessoas que me lêem consigam perceber o que digo, sobretudo porque a equipa não vai ganhar o que ganhou noutros anos, mas é assim que penso. Em termos de jogo, a equipa aprendeu a desenvencilhar-se de situações mais difíceis, e tornou-se ainda mais confortável a jogar da maneira que joga. Se, noutros anos, havia equipas que conseguiam dificultar o trabalho aos jogadores catalães, este ano não houve uma única que o conseguisse.

E o Real Madrid, no passado fim-de-semana? Tenho lido várias coisas acerca do jogo de Camp Nou que o Real ganhou, e continuo sem perceber a análise das pessoas. O Real ganhou como o Chelsea ganhou: porque teve sorte. E a sorte, por vezes, protege quem menos faz por ela. Era difícil de prever que o Barça tivesse azar três vezes seguidas, mas aconteceu. Teve azar, e teve o Mascherano em campo. A primeira oportunidade do Real Madrid, no sábado, foi a do segundo golo, aos 70 e tal minutos. Depois, tem outra mesmo a acabar, numa altura em que, aí sim, já havia algum desnorte dos catalães. O Barcelona, mesmo não tendo jogado bem, teve 4 oportunidades flagrantes de golo (uma de Dani Alves, uma de Xavi, e duas de Tello). Somando isso ao facto de os dois golos do Real terem sido precedidos de falta (para não falar no fora-de-jogo no primeiro golo), como é que se pode ser hipócrita ao ponto de dizer que o Real venceu de forma justa e foi a melhor equipa em campo? Ou estão mal habituados, tanto é o domínio dos catalães, ou são, pura e simplesmente, desonestos. Guardiola e Iniesta têm razão no que dizem: o Barcelona não jogou tão bem como é costume, é verdade, mas ainda assim foi superior ao Real Madrid e foi a equipa que mais fez por vencer. A haver um vencedor justo, esse tinha de ser, obviamente, o Barcelona. Mas, como o futebol não se faz de justiça, o Real ganhou. Como hoje o Chelsea ganhou. Acontece.

Por fim, gostaria ainda de falar de Mascherano. Tenho batido na mesma tecla, mas acho que tenho de fazê-lo novamente. Mascherano já tinha sido o responsável no golo sofrido frente ao Milan. Frente ao Chelsea, foi o responsável directo pelos dois golos (não conto o de Fernando Torres, que ocorre numa altura em que o Barça tentava tudo por tudo para apertar o cerco ao Chelsea). Em Stamford Bridge, reage mal ao lance e invade o espaço de Puyol, em vez de oferecer uma cobertura, e quando se apercebe não se reposiciona bem, não cortando a linha de passe possível para Didier Drogba. Em Camp Nou, é ele quem sai da sua posição para ir perseguir Lampard até à linha de lateral, abrindo um buraco desnecessário no centro da defesa que Busquets não conseguiu cobrir a tempo. Frente ao Real, é ele quem falha a cobertura no lance de Ronaldo. É verdade que Adriano vai fechar ao meio quando tinha Busquets ao seu lado, melhor posicionado para o fazer, e isso permite que a bola entre em Ozil. Mas, indo a bola para a linha, Mascherano só tinha que bascular. Além de não perceber o que Ozil ia fazer, que era óbvio, estava praticamente a meio do meio-campo, a mais de 20 metros de Busquets, que é quem sai ao alemão. Se, no meio-campo, é o que é, a defender, por ter menos bola, sempre pareceu o argentino um estorvo menor. O que é certo é que, a jogar com três defesas, a equipa fica mais exposta, e as carências intelectuais de Mascherano mais visíveis. O Barcelona também pagou por isso, e é bom que Guardiola o perceba. Aliás, com Piqué em campo, desconfio que o Barcelona estaria neste momento na final de Munique, e o Real em pânico por estar com um ponto apenas de avanço no campeonato. Às vezes, também é tão simples quanto isto.

Quando se fala, por isso, em passagens de testemunho, e em mudanças de ciclo, apetece dizer às pessoas para terem juízo. Quando virem uma equipa a ser capaz de vergar outra como o Barcelona faz sistematicamente com os seus adversários, ou quando virem uma equipa a ser, por pouco que seja, superior aos catalães no terreno de jogo, aí, sim, atirem foguetes. É que, até à data, o Barcelona ainda só perdeu competições por questões acidentais, e ainda não jogou um único jogo, com quem quer que seja, em que se pudesse dizer honestamente que o adversário foi superior. Há coisas que têm de ser revistas, nomeadamente o reforço do sector defensivo, mas não tenho dúvidas de que a equipa de Guardiola continuará a ter a hegemonia que teve até aqui. E é sobretudo disso que se trata, quando se defende esta maneira de jogar. É que, mesmo perante dois ou três desaires sucessivos, fica sempre a sensação de que é impossível acontecer muitas mais vezes o que aconteceu esta semana.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Bilbao de Bielsa

Para o Entre Dez, o trabalho de Marcelo Bielsa em Bilbao não é necessariamente motivo de surpresa. Quem se habituou a seguir este blogue, sabe que não é de agora a admiração pelo treinador argentino. Com ou sem resultados, as equipas de Marcelo Bielsa sempre impressionaram. E essa impressão, não os resultados obtidos, é que deve ser o critério decisivo para se aferir a qualidade de um treinador. No início da época, estive para escrever sobre o campeonato espanhol em geral, sobre a crescente qualidade de algumas equipas de segunda linha, e sobre os treinadores responsáveis por essa qualidade. Acabei por não o fazer, e houve coisas que ficaram por dizer sobre treinadores como Unai Emery, ou Mauricio Pochettino. Não são os únicos, mas são os que talvez mais me agradam, de todas aquelas equipas que lutam por um lugar europeu. À excepção de Marcelo Bielsa, claro, que é de outro campeonato.

Na antevisão do jogo de hoje, Ricardo Sá Pinto colocou-o ao nível de Guardiola e de Mourinho. É difícil fazê-lo unicamente porque não tem o palmarés, a nível de títulos, dos outros. Mas as suas equipas raramente desiludem. E, tendo em conta que oferecem sempre um futebol de qualidade, eu diria que o trabalho dele merecia outra atenção. Disse dele, recentemente, Guardiola que se tratava do melhor treinador do mundo. Exagerava, talvez, mas homenageava um dos seus principais mentores. Para mim, que tenho uma ideia de futebol muito específica, e acho que os grandes treinadores da História do jogo são, não aqueles que conquistaram mais coisas, mas sim aqueles que fizeram evoluir a concepção do jogo e deixaram maior legado em termos teóricos, Marcelo Bielsa tem necessariamente de ser colocado ao lado dos principais treinadores, de César Luis Menotti, de Rinus Michels, de Johan Cruyff, de Arrigo Sacchi, e, sim, de José Mourinho e Pep Guardiola. É esta a estima que tenho por Bielsa, estima essa que o futebol do Athletic de Bilbao, esta época, não tem de maneira nenhuma decepcionado.

Como todas as ideias revolucionárias, as ideias de Bielsa requerem tempo para serem implementadas. Os jogadores bascos terão demorado a interiorizar tudo o que deles passou a ser exigido, com Bielsa, mas, agora que a época se aproxima do fim, este Bilbao - e este é o melhor elogio que se lhe pode fazer - é a equipa que vi jogar que mais se aproxima do Barcelona de Guardiola. Em Old Trafford, frente a um todo-poderoso Manchester United, sem estratégias de gente pequena, assumiu o jogo, pegou na bola, e fez com que os ingleses andassem a correr atrás dela. O golo de Óscar de Marcos é um excelente exemplo daquilo que, ofensivamente, esta equipa sabe fazer, mas houve, durante o jogo, vários momentos ainda mais brilhantes. Ferguson ficou deslumbrado e reconheceu, no final da eliminatória, que era um regalo poder ver o Athletic de Bilbao a jogar futebol. De uma equipa que se encolhia, como todas as equipas de nível médio-baixo, perante adversários todos poderosos, o Bilbao de Bielsa transformou-se numa equipa que controla qualquer adversário. Isso só é possível de uma maneira: querendo sempre a bola. É esse o principal traço fisionómico desta equipa: ter bola. Falta-lhe, é certo, muito para fazer com a bola o que os jogadores catalães fazem, mas tem, pelo menos, a consciência de que, para o jogo que pretende, um jogo em que é o adversário que tem de se adaptar a si e não o contrário, ter a bola é o mais importante princípio de jogo.



Montado em 433, o Bilbao de Bielsa joga sempre em função da bola, e obriga os adversários a jogar sempre em função deles. Ofensivamente, é uma equipa poderosíssima precisamente porque é das melhores do mundo a trocar a bola, a arranjar espaços de penetração centrais. O trabalho de desmarcação, a preocupação com os apoios interiores, a dinâmica sem bola do ataque, tudo isso oferece ao portador da bola mais soluções do que normalmente se tem. Aos seus pupilos ensinou Marcelo Bielsa a importância do papel da decisão. Aprenderam a tabelar, a devolver o passe, a jogar curto, a sair de zonas de pressão em posse, deixando presos ao relvado três ou quatro adversários. Por vezes, quando se intranquilizam, esquecem tudo isto. Mas, se, porventura, estiverem concentrados, conscientes do que têm de fazer, é muito difícil superar-lhes o jogo.

Entre várias revoluções, fez Marcelo Bielsa de Javi Martinez um central. Quando tantos adaptam defesas a médios-defensivos, adaptar um médio-defensivo (ainda por cima um dos principais esteios da equipa e um dos maiores valores do futebol espanhol na sua posição de origem) a central diz mais de um treinador do que qualquer linha de currículo. Como fez Guardiola com Mascherano, ao perceber que não tinha qualidade para jogar no meio-campo catalão, Bielsa transformou um médio-defensivo de combate num defesa central competente. E, para a posição de médio-defensivo, escolheu um jogador muito diferente de Javi Martinez, Ander Iturraspe, um jogador inteligente, bom de bola, capaz de se posicionar, mas franzino e pouco dado ao choque. Para além de Javi Martinez e de Iturraspe, destaco, no que diz respeito ao sector recuado, o lateral-direito Iraola. Depois, do meio para a frente, não há um único jogador que não me pareça francamente dotado. Ander Herrera chegou esta época a Bilbao, mas a sua competência a meio-campo é inegável. É o cérebro desta equipa, e espera-se muito da sua evolução. Ao seu lado joga normalmente Óscar de Marcos. Embora os seus movimentos sejam muito diferentes dos de Ander Herrera, a sua posição de base é no meio-campo. Partindo daí, invade normalmente espaços verticais, aproveitando os abaixamentos e os movimentos interiores quer do ponta-de-lança, quer dos extremos. Raramente é ele quem aparece entre linhas, e é a ele que, normalmente, é mais difícil atribuir um lugar no esquema de Bielsa. Depois, o trio da frente, com Susaeta e Muniain nas alas. Não podiam ser jogadores mais diferentes, mas igualmente competentes. Susaeta é, para mim, a principal revelação desta equipa. Não sendo um prodígio em termos de técnica, é porém inteligentíssimo. É um exemplo extraordinariamente feliz de como um extremo não precisa de ter argumentos individuais notáveis para ser um grande extremo.



Quanto a Iker Muniain, é simplesmente a maior esperança do futebol basco. Com apenas 19 anos, é ele quem assume, muitas vezes, as rédeas do jogo basco. Quando apareceu, com 17 anos, era um jogador vertical, um jogador de drible, sempre preparado para enfrentar o seu opositor directo na linha. Hoje em dia, sobretudo pelo que Bielsa fez dele, é um jogador muito diferente. Partindo da linha, raramente aposta no um para um. Vem para dentro, procura espaços interiores, e só força o drible como recurso. Muito por causa dessa evolução intelectual, Marcelo Bielsa costuma também apostar nele no meio, nas costas do avançado, no lugar de De Marcos, quando as coisas exigem alteração. Quando assim é, costuma entrar para a ala esquerda outro jogador que me parece bastante habilidoso: Ibai Gomez. Finalmente, na frente, Fernando Llorente. De Llorente, o melhor que posso dizer é que gosto dele ainda ele não era conhecido. Numa selecção espanhola de sub-20 que, em 2005, não chegou mais longe porque Lionel Messi, sozinho, não permitiu, em onde pontificava Cesc Fabregas, havia dois jogadores muito subvalorizados que me impressionaram desde logo: um deles, que nem sequer era titular nessa selecção, era David Silva; o outro, o avançado Fernando Llorente. Desde então, Llorente tem confirmado tudo o que esperava dele. É o protótipo daquilo que deve ser um avançado grande, alguém que sabe jogar de costas para a baliza, que se sabe movimentar, que percebe as movimentações dos colegas, etc.. Quando se fala em Llorente, fala-se normalmente na sua temível capacidade no jogo aéreo, ou nos seus dotes de finalizador. Para ser sincero, esses são os seus atributos menos importantes.

É difícil falar da qualidade desta equipa sem uma maior contextualização de imagens, pois as suas principais virtudes estão na dinâmica, sobretudo com bola, que consegue imprimir. Ainda assim, penso, é importante perceber que é uma equipa capaz de arranjar espaços onde eles não existem, uma equipa que assume sempre o jogo, e uma equipa não entrega o destino à inspiração individual nem ao acaso. O seu principal ponto fraco é a nível defensivo. Desde que conheço Bielsa que sei que não gosta de treinar defensivamente. É um partidário da criatividade, e preferiu sempre perder tempo com a parte criativa do jogo, entregando o trabalho defensivo ao esforço individual dos seus jogadores. Há quem ache que o Bilbao de Bielsa defende ao homem, com referências individuais claras. Baseiam-se estes iluminados em vídeos que encontraram que o confirmam. Acontece que esses vídeos dizem respeito a um jogo específico, um jogo de características únicas e que não se voltou a repetir. Foi o jogo em San Mamés, com o Barça. Nesse jogo, sim, a estratégia defensiva basca pareceu passar por perseguir individualmente os jogadores catalães. Não sendo perfeita a forma como o Athletic de Bilbao defende, não é, contudo, assim tão primitiva. O que se passa é que Bielsa, ao contrário do que parece ser agora consensual, opta por não colocar em fora-de-jogo os adversários. Assim, o Bilbao não defende numa linha de quatro, com os jogadores alinhados uns pelos outros, e vai-se afundando no campo à medida que a bola se aproxima da baliza. Acontece também que o Bilbao, ao contrário de muitas outras equipas, não utiliza uma zona defensiva expectante. Esteja a bola onde estiver, quando está no meio-campo defensivo, o comportamento do Bilbao é sempre feito numa zona pressionante. O que isto significa é que não há nunca momentos de expectativa, momentos de organização zonal; há sempre reacção. Assim, é natural que vejam os iluminados jogadores sistematicamente atrás de jogadores adversários, emparelhados. O Bilbao defende sempre em reacção, sempre em zona pressionante, e isso parece-lhes, a eles, sempre desorganização. Os únicos problemas, a meu ver, nisto tudo, são o facto de abdicarem de uma linha defensiva que lhes permitisse jogar com o fora-de-jogo, e a forma como a equipa activa essa zona pressionante, muito mais preocupada em estar em cima de cada adversário do que em cortar linhas de passe. Ainda assim, diria que podia ser bem pior. O facto de defender sempre em zona pressionante acaba por compensar os defeitos posicionais, e os espaços que inevitavelmente concedem.

De resto, a campanha basca fala por si. As meias-finais da Liga Europa, sobretudo se tivermos em conta que eliminaram equipas como o Manchester United, o Shalke 04, ou mesmo o PSG, são qualquer coisa de inédito, mas é preciso não esquecer que vão disputar a final da Taça do Rey com o Barcelona, e que, no campeonato, estão na luta por um lugar de acesso à Liga dos Campeões do ano que vem. Trata-se de um ano brilhante para o clube, algo que dificilmente aconteceria se Bielsa não estivesse ao comando desta equipa. Há quem ache que a força da equipa está, acima de tudo, na mentalidade competitiva. Essas pessoas estão, obviamente, enganadas. A mentalidade sempre foi a grande arma do clube basco, mas, sem mais nada, nunca passou de um clube de terceira dimensão, que umas vezes lutava pela Europa e outras para não descer. A mentalidade sempre lhes permitiu ser uma equipa difícil de ultrapassar. Mas foi a competência de Bielsa que lhes deu o empurrão decisivo. Com Bielsa, deixaram de ser essa equipa que tudo o que podia fazer era cerrar os dentes, disputar cada lance como se fosse o mais importante da vida, e esperar que o suor chegasse para vencer, e passaram a ser a equipa que troca a bola, que controla o jogo, que obriga o adversário a correr. Com Bielsa, adquiriram faculdades que nunca tinham tido, faculdades que, associando-se à mentalidade que sempre tiveram, permitem sonhar com títulos e deslumbram meio mundo.



Pelo comportamento recente das duas equipas, espera-se no jogo de hoje uma equipa a atacar e a outra, com um bloco baixo e numa atitude expectante, a defender muito perto da sua baliza. Ontem, num jogo de características semelhantes às que espero hoje, a equipa que mais fez por ganhar acabou por perder. O futebol tem destas coisas, e muitas vezes a História escreve-se por quem menos faz para a escrever. Acontece. O que não pode ficar por dizer é que, tal como ontem, a única razão para que a equipa que defendeu (e que não defendeu sequer muito bem) ter superado a equipa que atacou (e que atacou bem) foi o factor "sorte". Hoje até pode acontecer o mesmo, porque todos, mesmo aqueles que esperam que as vitórias caiam do céu, se arriscam a vencer desde que estejam em campo. Mas os que merecem o Olimpo não são os que ganham; são os que fazem o que é certo para ganhar. Como o Barcelona de Guardiola ontem fez, acredito que o Bilbao de Bielsa hoje o fará.

sábado, 14 de abril de 2012

A Tabela

Para muitos, uma tabela é uma coisa relativamente banal, um truque com o qual se pode desequilibrar de vez em quando. Para alguns académicos, é uma forma muito útil de ultrapassar um adversário. Poucos há, no entanto, que vêem numa simples tabela mais do que isto. E, não raro, diverte-se muita gente a criticar aqueles que as procuram em demasia. Nos últimos quatro anos, uma equipa há que tem mostrado a todos que há ganhos extraordinários em cultivar a tabela. Falo, obviamente, do Barcelona de Guardiola, que parece cada vez mais proficiente a usar a tabela como forma de progredir no terreno e de penetrar nas defesas contrárias. Ainda assim, e apesar de muitos já reconhecerem as virtudes catalãs, a tabela continua a ser algo que as equipas procuram pouco, seja em que zona do terreno for. Apesar de tudo o que este Barcelona tem evidenciado, continua a pensar-se que a tabela só tem utilidade em situações de dois para um, ou em situações de clara vantagem numérica, ou em zonas com espaço suficiente para a executar. Discordo disto. E, para ilustrar a minha discordância, trago quatro lances em que uma simples tabela entre dois jogadores foi o suficiente para fazer ruir uma defesa inteira.

video

1. Para dizer a verdade, no primeiro destes lances há um terceiro interveniente, precisamente o que recebe o último passe para finalizar (neste caso, Messi). Mas é irrelevante que assim seja, para o que pretendo mostrar. O lance é o do quarto golo da já longínqua goleada imposta ao Villareal em Camp Nou, no início desta época. Apesar da finalização de Messi, e do passe extraordinário de Iniesta a isolar o companheiro, num lance que parece uma criança a brincar com um ioiô, aquilo para que quero chamar a atenção é para a tabela entre Iniesta e Thiago Alcântara, tabela essa que precede o passe. Thiago invade o espaço entre a linha defensiva e a linha de meio-campo, e até tem um adversário à ilharga, protegendo esse mesmo espaço. Praticamente nenhum jogador faria o que Iniesta fez, pondo nesse mesmo espaço a bola, porque Thiago não beneficiria em nada de receber ali a bola, já que ficaria rodeado de adversários. Acontece que este Barcelona usa a bola como engodo como nenhuma outra equipa, e o simples colocar da bola num espaço preenchido por adversários oferece ao adversário a tentação de recuperá-la, desposicionando-se. Repare-se que, no momento em que a bola se dirige para Thiago, há três jogadores do Villareal (os que estavam mais perto de Thiago) que saem ligeiramente das suas posições para se aproximarem do jogador que vai receber a bola naquele espaço. Parecendo que não, um pequeno passe aparentemente inútil e inofensivo, provoca desequilíbrios estruturais decisivos. Thiago dobra imediatamente o passe, entregando a bola novamente em Iniesta, mas tudo é agora diferente. Uma simples tabela vertical, sem progressão de qualquer espécie, serviu para desestabilizar a organização defensiva do adversário: um dos centrais avançou no terreno, criando um espaço nas suas costas, entre o outro central e o lateral; o médio que estava a acautelar o espaço entre linhas deslocou-se para a esquerda, abrindo uma linha de passe pelo centro; e o médio que estava mais perto de Iniesta afastou-se dele o suficiente para lhe permitir um passe em condições. Resta dizer que Messi interpretou isto de forma impressionante, e desmarcou-se precisamente para onde se devia desmarcar, recebendo o passe de Iniesta. O que me parece importante perceber neste lance não é tanto a extraordinária capacidade que os jogadores do Barça têm para inventar estes lances, mas mais a importância de algo aparentemente inútil, como seja um passe para um jogador que não pode senão devolver a bola ao colega que a passou. Sem o passe para Thiago, e a respectiva devolução, o Barcelona não teria sido capaz de criar as condições ideais para construir uma situação de perigo. É por isso que Guardiola dá tanta importância ao espaço. Em ataque organizado, tudo o que uma equipa tem de fazer é criar espaços. Para criá-los, tem de forçar o adversário a concedê-los. E a única forma de forçar um adversário que se posiciona bem em termos defensivos a concedê-los é fazendo coisas como esta, fazendo a bola entrar e sair em zonas que os adversários têm obrigatoriamente de fechar. É por isto que o futebol de toque curto, de passe e recepção, que caracteriza esta equipa não serve apenas, como muitos julgam, para adormecer o adversário, para esperar pelo momento certo para desferir o ataque, para não perder a bola à toa. Quem pensa assim não percebe nada deste Barcelona. É claro que fazer um uso cuidado da bola, como esta equipa o faz, é também uma forma de cínica de defender. Mas é muito mais do que isso, como este lance mostra. É a forma mais eficiente de atacar.

2. O segundo lance ocorreu na primeira mão da recente eliminatória frente ao Milan, a contar para os quartos de final da Liga dos Campeões. O lance acabou por não dar golo, mas foi notável o que Xavi e Messi fizeram. Quando Xavi recebe a bola, o Milan tem 9 jogadores atrás da linha da bola (os quatro defesas, os quatro médios, e Robinho), todos eles concentrados no meio. Com a invasão do espaço defensivo e uma simples tabela com Messi, Xavi termina o lance na cara do guarda-redes. Ou seja, dois jogadores e uma tabela chegaram para suplantar 9 adversários e criar uma situação clara de golo. No momento em que a tabela tem lugar, há 8 jogadores do Milan num raio de 5 metros. Se isto não é algo extraordinário, não sei o que dizer. É importante dizer que o Milan defende este lance o melhor que é possível defendê-lo, numa estrutura de quatro médios em linha. Ou seja, não há espaço suficiente entre a linha defensiva e a linha de meio-campo para que o adversário consiga fazer entrar um passe vertical, deixando um jogador receber a bola nesse espaço. O problema é que, se por alguma razão o portador da bola consegue entrar entre dois médios, como foi o caso, é um dos defesas que tem de sair para lhe obstruir a passagem. Se, nessa altura, o portador da bola tiver sido acompanhado por um colega que, a seu lado, lhe sugere uma tabela, então esse defesa acaba por ser facilmente ultrapassado. A meu ver, este lance resulta por duas razões essenciais: o facto de o Milan estar a defender em duas linhas apenas, e o facto de os jogadores catalães (neste caso, Messi) perceberem a utilidade de fornecer apoios próximos ao portador da bola. Repare-se que, assim que Xavi invade o espaço central, Messi inicia um movimento idêntico, aproximando-se dele, e adivinhando que o colega ia precisar da sua tabela. Qualquer outra equipa do mundo, perante a concentração de adversários naquele espaço central, procuraria atacar pelos flancos. Só este Barcelona é que tem a capacidade de identificar estas possibilidades de penetração centrais e só este Barcelona é que sabe o que é preciso para que essas penetrações possam ser bem sucedidas.

3. O terceiro lance é da última jornada da Liga Espanhola, e foi, na verdade, o lance que me motivou a escrever este texto. Por tudo o que disse acerca dos dois lances anteriores, é evidente que penso que este tipo de lances é aquilo que mais elogios merece, em futebol. Também por isso, e numa jornada em que voltou a haver um desses lances formidáveis em Camp Nou, merece ampla reprovação a generalização dos elogios aos golos que Cristiano Ronaldo marcou frente ao Atlético de Madrid. É claro que as pessoas, quando vêem um golo, tendem a prestar atenção apenas ao remate, ao sítio onde a bola entra, ao efeito da bola, à potência do remate, etc.. Nesse sentido, é muito mais fácil reparar nos golos de Ronaldo do que num golo deste tipo. Como acho que a avaliação da qualidade de um golo deve ter em conta muito mais que o remate final, os golos de Ronaldo, ainda que de belo efeito, não são para mim motivo de espanto. São resultado de alguém que tem, de facto, uma técnica de remate estupenda, e são bons golos. Mas não são golos extraordinários. E falar de qualquer um desses golos quando na mesma jornada Messi fez um golo dez vezes melhor parece-me estúpido. É mais ou menos como elogiar um general que venceu uma batalha por ter melhor artilharia do que o inimigo e ignorar outro general que venceu a sua batalha apenas com infantaria, mas fazendo uso de estratégias criativas para evitar a artilharia do inimigo. Ronaldo marcou um golo num remate à entrada da área, sem oposição, com um pontapé que fez a bola entrar a meio da baliza. A execução do seu remate foi extraordinária, mas o grau de dificuldade do lance era relativamente baixo. Tal não foi o caso do golo de Messi, em que, mais uma vez, dois jogadores apenas e uma tabela chegaram para vencer a oposição de 7 adversários. No início da jogada, Iniesta dá a bola a Messi, e entra no bloco defensivo do Getafe. Messi espera que Iniesta apareça entre os quatro defesas e os três médios, e faz um passe vertical, iniciando de imediato um movimento na direcção do passe. De calcanhar, Iniesta amortece a bola para que Messi, que vinha na sua direcção, a apanhe em posição privilegiada. Uma simples tabela e Messi ultrapassa três médios e ainda fica com a linha de quatro defesas decisivamente desposicionada. Depois, foi só dominar e rematar; o trabalho mais difícil estava feito. A reacção de Guardiola ao golo diz tudo: dois dos seus pupilos, com uma simples tabela, como se fosse a coisa mais simples do mundo, tinham acabado de vencer a oposição de 7 adversários. Isto, sim, é um golo memorável!

4. Para o fim deixei o meu preferido, um golo de Iniesta frente ao Viktoria Plzen, na fase de grupos da edição deste ano da Liga dos Campeões. Ao contrário do que aconteceu nos três primeiros lances, neste lance são duas as tabelas, o que torna a coisa ainda mais complexa e difícil de realizar. Iniesta dá em Messi, que devolve a Iniesta. Com esta primeira tabela, o adversário que saíra a Iniesta inicialmente é ultrapassado. Quando Iniesta recebe a devolução, tem à sua frente um novo adversário, e aproxima-se rapidamente um terceiro pela sua esquerda. De primeira, Iniesta volta a devolver a Messi, afastando de si as atenções o suficiente para se voltar a desmarcar. Messi, que em toda a jogada funcionou como mero apoio, e praticamente não teve que se mexer, volta a jogar de primeira, desta vez para as costas do segundo opositor, entre ele e outro defesa, deixando Iniesta só com um adversário pela frente. O resto foi a habilidade individual de Iniesta a fazer. Com duas tabelas, sempre ao primeiro toque, dois jogadores ultrapassaram quatro adversários, e entraram numa estrutura defensiva bastante compacta e com coberturas suficientes para inutilizar a grande maioria dos ataques de qualquer adversário. O que este lance evidencia, talvez mais do que qualquer outro dos anteriores, é precisamente o porquê de uma tabela, de uma combinação entre dois jogadores, ser algo tão difícil de parar. Quando Iniesta endossa a bola a Messi, as atenções dos adversários, fossem eles quem fossem, centram-se em Messi e não em Iniesta, pois é Messi quem vai receber a bola. Isto dá tempo suficiente para Iniesta se movimentar para o espaço que pretende, sem que nenhum adversário o impeça. Preocupados momentaneamente com o receptor, perdem de vista aquele que fez o passe. Por mais que não quisesse, é assim que reage instintivamente qualquer defesa. Se, depois disto, Messi jogar de primeira em Iniesta, as atenções viram-se para o catalão, e é Messi quem fica livre para voltar a receber. Quando chegam a Iniesta, já este voltou a dar a bola a Messi, e as atenções voltam a virar-se para o argentino, permitindo a Iniesta uma segunda desmarcação.

Ao tabelarem, os jogadores que o fazem estão sempre à frente dos defesas que reagem à tabela. Sabendo disso, os jogadores catalães usam e abusam da tabela para iludir os adversários. Tais quais os mais competentes jogadores de xadrez, estão várias jogadas à frente dos adversários. Enquanto que, no momento seguinte ao primeiro jogador soltar a bola, os defesas estão preocupados com aquele que vai receber o passe, a jogada, para quem ataca, já está a desenrolar-se no momento posterior, no momento em que o primeiro jogador vai receber a devolução. É este o poder incomparável de uma tabela. Nenhuma outra equipa no mundo o sabe usar tão bem, e é também por isso que nenhuma outra equipa no mundo tem a capacidade deste Barcelona para entrar em blocos defensivos compactos. Cultivar, portanto, a tabela, é aquilo em que muitos treinadores deveriam procurar trabalhar, se querem realmente aproveitar alguma coisa dos ensinamentos desta equipa. Isso e perceber que, mais do que ensinar cada jogador a posicionar-se em relação aos restantes, trabalhar tacticamente é acima de tudo fazer compreender a cada jogador a mente dos colegas. Por outras palavras, criar onze almas gémeas. Tentarei voltar a este assunto brevemente.

P.S. Entretanto, pensar que há treinadores que, para criar dificuldades em certos exercícios de treino, determinam, por regra, que não se devolva a bola a quem fez o passe, parece adquirir toda uma nova dimensão. Para ser sincero, 99% dos exercícios de treino da grande maioria dos treinadores são absolutamente inúteis. Para quem treina convencionalmente, um exercício com o constrangimento de não se poder passar a bola a quem fez o passe anterior é sempre apetecível: é diferente, causa estranheza, implica obrigar os jogadores a pensar bem antes de passar. Esquecem-se é que o que deviam estar a fazer era a criar condições para que os jogadores precisassem cada vez de menos tempo para pensar antes de agir. Até nesse sentido, devolver a bola a quem fez o passe inicialmente é uma solução confortável. Mas negligenciar tudo o que uma tabela pode oferecer a uma equipa, apenas para incrementar a dificuldade do exercício, só mesmo na cabeça de alguém que não sabe o que é o jogo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os Erros de Mascherano

Mascherano diz-se feliz por fazer parte da História, e tem razões para isso. Afinal, se não fosse por ele, talvez o Milan nunca reentrasse no jogo. É inegável que o golo de Nocerino nasce depois de um bom trabalho de Robinho, e de uma excelente assistência de Ibrahimovic. Mas será que a bola chegaria a Nocerino em boas condições de finalização se todos se tivessem comportado adequadamente? Não. E quem falhou foi precisamente Mascherano. Para muitos, o que digo pode ser trivial, pois são capazes de perceber que é o argentino quem coloca em jogo o italiano, no momento do passe de Ibrahimovic. Mas os erros de Mascherano no lance não se limitaram à forma desajustada como respondeu ao mesmo na altura do passe decisivo.


szólj hozzá: BAR

A meu ver, o erro de Mascherano começa bem antes, ao abordar a recepção de Robinho, a meio do meio-campo defensivo, de forma imprudente. O brasileiro estava de costas, rodeado por adversários, sem apoios por perto, e o comportamento correcto consistiria em obrigá-lo a jogar para trás. Mascherano, porém, não é um jogador inteligente neste tipo de abordagem. Para muita gente, tem características defensivas óptimas, pois é muito agressivo, "morde" constantemente os calcanhares aos adversários, etc. Mas também para se ser competente defensivamente é preciso decidir bem. E, muitas vezes, ao contrário do que se pensa, a melhor decisão do jogador que sai ao portador da bola passa por não lhe querer roubar a bola. Este é um bom exemplo. O que Mascherano deveria ter feito, já que foi ele que saiu para ocupar o espaço central, era ficar em contenção, esperar que Dani Alves e Messi bloqueassem a possibilidade de passe lateral a Robinho, e "forçar" a que o brasileiro voltasse para trás. Mascherano não ficou em contenção, procurou ir para cima de Robinho para desarmá-lo, e foi "comido" com toda a facilidade do mundo. Ingenuamente, o argentino ficou batido e Robinho com o espaço central para progredir. Estava criada a superioridade. O lance acabou como acabou, mas poderia ter acabado com uma simples tabela com Ibrahimovic. Não satisfeito ainda com isso, Mascherano ainda viria a colocar Nocerino em jogo, não respeitando (quase que pornograficamente, tantos foram os metros) a linha defensiva que os seus colegas tinham delineado. Dois erros graves que foram decisivos para que o Milan empatasse a partida e para que, mais tarde, se argumentasse que houve um momento em que a eliminatória parecia pender para o lado italiano. Após quase dois anos, Mascherano continua a não perceber o que é jogar nesta equipa, e continua a ser o elo mais fraco de um conjunto muito acima da média. Mesmo não jogando na sua posição de origem, onde este tipo de comportamentos errados, aliados à sua incapacidade, em posse, para perceber os espaços certos onde a bola deve entrar, seriam ainda mais prejudiciais à equipa, Mascherano continua a ser um corpo estranho neste modelo de jogo. E ontem, de facto, ia entrando na História, mas pelas razões erradas.

Entretanto, a final de Munique começou a ser jogada logo após a partida, e já houve responsáveis madrilenos a aproveitar-se das queixas italianas (absurdas, diga-se) para preparar o eventual embate frente ao Real. As jogadas de bastidores deram resultado no passado, e são a arma mais forte até hoje apresentada pela equipa de Mourinho para parar a equipa catalã, pelo que seria natural que tal acontecesse. Quanto aos casos de arbitragem, e àqueles que se insurgiram de imediato contra o alegado favorecimento aos catalães, repete-se a história do monstro a que já muitas vezes aludi. Não me lembro de outra equipa, na História do jogo, que tenha criado tanto medo nas pessoas. Qualquer coisinha, por mais irracional que seja, serve para tentar destruir o monstro medonho em que a equipa de Guardiola se transformou. As pessoas não compreendem esta equipa, não compreendem por que é tão forte, por que não há ninguém capaz de derrubá-la, e querem à força que ela caia. Por causa dessa vontade, repetem imbecilidades. E aproveitam-se de um jogo em que foram assinaladas duas grandes penalidades, coisa pouco comum, para se atirarem ao ar; e aproveitam qualquer lance, por mais claro que seja, para pôr em causa a competência do monstro.

A qualquer uma destas pessoas poderia facilmente fazer recordar as razões de queixa que os catalães tinham na primeira mão. Mas nem vale a pena. É que qualquer dos lances que protestam, no jogo de ontem, foi claramente bem assinalado: qualquer um dos penáltis é claríssimo, sendo que o primeiro só por misericórdia é que não valeu igualmente a expulsão de Antonini; o alegado penálti sobre Ibrahimovic só é penálti na cabeça dos que querem à força que o seja; e o lance em que Robinho fica isolado, de longe o meu preferido, só não vê que a bola foi amortecida nos braços do brasileiro, coisa que o beneficiou, quem não quiser ou por má fé decida não ver. O jogo de ontem teve casos não porque, de facto, os tenha tido, mas porque as pessoas querem à força que os jogos do Barcelona tenham casos. Querem justificar aquilo que não compreendem, e precisam de algo (arbitragens) que lhe confira racionalidade. Se isto já é estúpido no comum adepto, é muito grave num jornalista. A falta de ética profissional de alguns dos jornalistas da Sporttv, no que diz respeito às analises dos jogos do Barcelona, tem-se vindo a acentuar nos últimos tempos, e ontem, após o jogo, atingiu proporções obscenas. Não obstante Luís Freitas Lobo se recusar a comentar a arbitragem, chegando aliás a dizer que ela nunca poderia justificar um jogo tão desnivelado, o jornalista de serviço insistiu, outra e outra vez, procurando forçar a interpretação de que o jogo tinha sido resolvido pelos homens do apito. Apesar de estúpido, a insistência condiciona a opinião do espectador, sobretudo daquele espectador que não tem opinião própria. A ética jornalística não existe apenas porque é giro que exista; existe porque a opinião jornalística influencia a opinião pública e porque o jornalista é um profissional com mais responsabilidades do que o comum cidadão. Num país a sério, depois do exercício de irresponsabilidade profissional de ontem, a carreira deste senhor estaria, no mínimo, em risco. Como não é esse o caso, a demonstração de valores patrióticos no acto de protestar subtilmente contra os rivais dos portugueses em Madrid até fica bem vista. De resto, o jogo esteve sempre controlado pelos catalães, e é quase criminoso dizer, num jogo com aquelas características, que a arbitragem desempenhou um papel importante. Francamente, é preciso ser idiota para ter uma interpretação da partida tão profundamente errada.