terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lições de Mestre (5)

A primeira coisa a dizer é que o lance não resultou em golo. A segunda é que isso é o que menos importa, no mesmo lance. Como intervenientes, dois jogadores que se separaram esta época, apesar de, a dada altura, parecer possível que ambos rumassem a Londres. Yoann Gourcuff é o herdeiro natural de Zidane, um criativo como não há muitos no futebol mundial que ostenta não só a capacidade imaginativa do astro francês como o mesmo estilo. Marouane Chamakh, por sua vez, é um avançado móvel, versátil, mas forte a jogar como apoio vertical, inteligente e rápido a executar, que gosta da tabela e do toque curto, sentindo-se confortável em espaços reduzidos. Tanto um como outro, estou certo, irão dar muito que falar nos próximos tempos. Fica a jogada, com as reflexões possíveis mais abaixo.



O lance começa na esquerda, com o adversário bem organizado defensivamente e havendo pouco espaço de penetração. O que fazem Gourcuff e Chamakh de seguida é notável. No meio de quatro adversários, com pouquíssimo espaço, completam três tabelas de seguida, acabando por arranjar espaço, em zona frontal, para o remate do marroquino. A capacidade criativa que este lance requer é imensa, assim como a velocidade a que os jogadores têm de pensar e de executar. A execução de calcanhar de Gourcuff não é por si extraordinária. O que é extraordinário é o entendimento que os dois fizeram do lance, a capacidade para perceberem como e quando deveriam executar. O remate não dá golo, mas o lance é uma autêntica invenção de uma ocasião de golo. Demonstra que é possível fabricar espaços, mesmo nas mais adversas circunstâncias. E para que se possam fabricar esses espaços, só há uma coisa fundamental: imaginação. É por isso que a criatividade, prima da inteligência, é o atributo mais importante no futebol moderno. A criatividade é aquilo que permite a um jogador encontrar espaços onde não os há, fabricar soluções de problemas insolúveis. Criatividade não é malabarismos, não é capacidade de drible, não é execução técnica refinada; é um atributo intelectual.

Quanto ao lance em si, releva dele a importância que a bola pode ter na criação de espaços. Trata-se do engodo da bola. Por mais concentrada e por mais bem organizada que uma defesa seja, há alturas em que se desorganiza, ainda que apenas momentaneamente. Normalmente, essa desorganização temporária dá-se no momento em que se efectiva a zona de pressão. Por exemplo, uma equipa que defenda junto à sua área, efectiva uma zona de pressão nas imediações da área. Significa isto que, nas imediações da área, todo o portador da bola deve ser pressionado e constrangido. Ora, é precisamente no momento em que se dá esse movimento de pressão, esse ataque ao portador da bola, que se gera a desorganização. Um defensor pressiona, outro movimenta-se de acordo com o movimento do primeiro e por aí em diante. É, sabendo isto, que a bola pode servir de engodo. Pode entrar num espaço, arrastando um defensor para esse espaço, para imediatamente a seguir sair desse espaço, criando zonas livres de adversários pela movimentação do defensor, que foi pressionar aquele que ia receber a bola. No fundo, isto é a consequência mais comum do famoso tiki-taka catalão. Os pequenos toques para o lado, para trás e para a frente parecem inconsequentes, mas não o são. Servem para isto, para desorganizar a estrutura defensiva adversária. Se uma equipa tiver capacidade para trocar a bola ao primeiro toque, fazendo-a entrar em zonas que suscitem movimentos de defensores para logo de imediato a tirar dali, conseguirá sempre fabricar os espaços de que precisa para penetrar em defesas fechadas. É assim que se joga futebol, fazendo da bola um engodo.

Este lance exemplifica na perfeição essa potencialidade. Chamakh dá em Gourcuff, que devolve de primeira ao marroquino. Este recebe e é imediatamente pressionado por um adversário, indo no engodo da devolução de Gourcuff. Dá novamente no francês, que, com um adversário nas costas, tabela de calcanhar, para o espaço vazio. Com esta tabela, ultrapassa-se o primeiro adversário, que fica incapacitado de reagir por estar preocupado com a bola. É nesta altura que sai a Chamakh um segundo adversário, novamente atraído pelo engodo da bola. Mas antes que este possa fazer mais do que pressionar, já Chamakh jogara de primeira novamente em Gourcuff. No mesmo instante, um quarto defesa, se contarmos com aquele que se mantém nas costas de Gourcuff, sai à bola, procurando limitar as possibilidades de Gourcuff. Gourcuff, porém, novamente de calcanhar, devolve pela terceira vez a bola a Chamakh, que ocupara o espaço vazio. Com esta terceira tabela, vence-se o segundo defesa que saiu a pressionar Chamakh e cria-se o espaço decisivo na zona central que permite o remate do marroquino. Com três simples tabelas, venceram-se quatro opositores. Isto só é possível porque o recurso técnico da tabela tem a potencialidade de chamar adversários e desposicioná-los. Enquanto a bola estiver num só homem, só um adversário sai a pressionar. Mas quando a bola viaja entre dois jogadores, há sempre pelo menos dois adversários a reagir à alteração no portador da bola. Trocando rapidamente a bola entre si, dois jogadores são capazes, por isso, de destruir defesas inteiras. Isto porque o portador da bola está constantemente a mudar e a reacção dos defensores é ditada pela posição da bola. É por isso que a bola, para quem sabe o que fazer dela, é a ferramenta fundamental do jogo. Só com ela se pode atrair os adversários para onde se deseja e fabricar os espaços que se pretende. Chamakh e Gourcuff conseguiram-no, neste lance, com mestria.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Os Golos de Liedson

Liedson é, há muito, um dos assuntos predilectos deste espaço. Uma das coisas que defendemos sempre é que se trata de um jogador que, embora mantenha um faro de golo apreciável, está incrivelmente sobrestimado. Do meu ponto de vista, Liedson tem como único atributo interessante o facto de marcar golos; em tudo o resto é um jogador banal ou até bem abaixo da média. Além de tudo isso, creio mesmo que a sua apetência para o golo advém de algo bem particular e é até parte da razão pela qual Liedson é depois mais fraco nos restantes momentos do jogo. Em poucas palavras, Liedson marca muitos golos (ou pelo menos, marca golos com alguma regularidade) porque não se preocupa senão com isso.

Esteja um colega a precisar de um apoio, seja necessário um movimento nas costas para criar uma situação de desequilíbrio, esteja ele de costas para a baliza e um colega de frente em melhor posição, Liedson prefere sempre procurar o golo. Toda a sua movimentação sem bola é no sentido da baliza, das zonas de finalização, para aproveitar ressaltos, bolas defendidas para a frente pelo guarda-redes, cruzamentos, etc. Se um ponta-de-lança deve ter este tipo de movimentações no seu código genético, não deve porém limitar-se a elas e deve, sobretudo, perceber quando é que as circunstâncias de jogo as requerem.

Ora, uma das coisas que sempre se disse aqui é que Liedson marca muitos golos porque só se preocupa com este tipo de movimentações, com o estar no sítio certo à hora certa, seja isso a melhor coisa a fazer ou não. Se isso lhe vale a reputação que, com o tempo, construiu, vale também uma menor capacidade colectiva à equipa em que actua. Em suma, Liedson marca mais golos, mas a equipa joga pior e ganha menos. O que este texto pretende é demonstrar que os golos de Liedson são, invariavelmente, resultado deste tipo de movimentação e que, ao contrário do que se diz, falta muita coisa ao avançado do Sporting para ser um grande avançado. Como se verá, os golos de Liedson são quase todos obtidos ao primeiro toque, isto é, sem preparação, e em zonas próximas da baliza. O que ele faz é aparecer muitas vezes nas zonas vitais e, como aparece lá muitas vezes, goza de muitas oportunidades para marcar. Não marca golos trabalhados por si, não marca golos de fora da área, nunca dispõe de lances de um para um com o guarda-redes, e marca muitos golos depois de ressaltos, depois de erros de adversários, ou em lances em que é só preciso meter o pé na altura certa e fechar os olhos. Fica o filme, ao ritmo de Mozart, com os lances dos golos marcados por Liedson na temporada transacta. Mais abaixo, algumas reflexões acerca dos mesmos.

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1. Liedson marcou um total de 22 golos, 2 deles ao serviço da selecção e 20 ao serviço do Sporting: 13 golos na Liga, 4 na Taça UEFA, 2 na Taça de Portugal e 1 na Taça da Liga. De acordo com os minutos jogados em cada competição, Liedson marcou então 0,47 golos por cada 90 minutos na Liga Portuguesa, 1 golo a cada 90 minutos na Taça de Portugal, e 0,44 golos por cada 90 minutos na Taça UEFA. As suas médias de golos são assim parecidíssimas com a de anos anteriores, não havendo por isso grande alteração a esse respeito, ficando claramente atrás de jogadores como Mantorras, Farías ou Cardozo nesse aspecto.

2. Dos 22 golos que marcou, 14 foram obtidos de primeira, em respostas a cruzamentos em que tudo o que se impõe a um avançado é que ataque a zona de finalização no momento certo. Assim, 64% dos golos que marcou foram marcados graças a movimentos para zonas de finalização e em desvios oportunos.

3. Dos 22 golos, 4 foram obtidos por erros grosseiros não potenciados de defesas contrários, como sejam o falhanço do defesa do Penafiel, que perde a bola para Moutinho, ou a entrega de Nuno Santos, pensando que o jogo estava parado, ou o passe de Gustavo Lazaretti, que acerta nas pernas do avançado do Sporting e o deixa isolado, ou o falhanço clamoroso do central norte-coreano. A acrescentar a estes, obteve ainda 2 golos por obra do acaso, como sejam o golo contra a China, que lhe bateu nas pernas sem que houvesse da sua parte qualquer intenção de desviar a bola, e o segundo golo frente ao Belenenses, após confusão na área, com a bola a sobrar fortuitamente para ele. Ou seja, 27% dos golos marcados por Liedson foram obtidos por mero acaso, por erros alheios ou por pura sorte, sendo que em nenhum destes lances é possível apelar a qualquer espécie de mérito do avançado leonino. E ainda há quem diga que o rapaz não tem sorte...

4. De entre os 15 adversários na Liga, poderíamos, com algum grau de exactidão, eleger o Benfica, o Porto, o Braga, a Académica de Villas-Boas e o Rio Ave como as cinco equipas que melhor defendiam, aquelas que tinham conceitos de zona mais bem definidos e nas quais a interpretação do momento defensivo era mais bem conseguida. Ora, dos 13 golos que Liedson marcou na Liga da época transacta, só 1 foi a uma destas 5 equipas, precisamente ao Rio Ave, na goleada da segunda volta, e num jogo em que o Rio Ave sofreu cinco golos, defendeu muito pior do que o habitual e vinha de outra derrota por cinco golos, num período de clara descompressão, em que os objectivos do clube já tinham sido atingidos. Assim, podemos concluir que 92% dos golos de Liedson foram apontados contra equipas defensivamente menos bem organizadas e contra as quais a falta de qualidade e a previsibilidade das movimentações ofensivas de Liedson (que procura sempre a zona de finalização) menos se fazem notar.

5. De igual modo, dos 13 golos marcados por Liedson, só 3 foram marcados contra equipas que terminaram na primeira metade da tabela. Assim, 77% dos golos de Liedson foram obtidos contra equipas mais acessíveis, indiciando, de outro modo, o mesmo a que fiz alusão acima, que a capacidade goleadora de Liedson não é, de modo algum, regular, sendo muito influenciada pela qualidade do adversário.

O que estes números evidenciam é que o avançado do Sporting não goza da reputação que tem apenas por mérito próprio. Muito dela se edificou com base em números descontextualizados, assumindo-se a capacidade goleadora como resultado de um talento especial que, em quaisquer circunstâncias, se manifestava. Não é bem assim. Liedson não consegue manter a bitola contra equipas mais fortes e, sobretudo, contra equipas cujo modo de defender se baseie numa ideia colectiva. A razão pela qual isso é assim tem a ver com a outra evidência que estes números tornam clara: mais de dois terços dos golos de Liedson são obtidos do mesmo modo, aparecendo em zonas de finalização sem qualquer tipo de movimentação extraordinária, limitando-se a desviar a trajectória da bola. Acontece que esse tipo de capacidade pode ser-lhe útil contra equipas que não defendem bem, que apostam na capacidade individual dos defesas. Contra equipas que formam boas coberturas, em que se privilegia o ocupamento das zonas de finalização e não as marcações aos atacantes adversários, o espaço onde Liedson costuma aparecer é menor. Assim, a sua produtividade, contra esse tipo de equipas, diminui drasticamente. Sendo um avançado que marca sobretudo nessas situações, é um avançado limitado contra equipas que se defendem bem desse tipo de situações. Assim, Liedson, enquanto finalizador, é previsível contra essas equipas. Não tendo, igualmente, muitos mais recursos (raramente consegue isolar-se, não é bom no um para um com o guarda-redes, não é bom a rematar de meia distância), torna-se, enquanto finalizador, uma nulidade. Se acrescentarmos a isto o facto de a capacidade de finalização ser o seu único recurso interessante, concluímos que Liedson é um jogador banal, um jogador que goza de uma reputação que não condiz com a sua real qualidade essencialmente porque, apesar de marcar alguns golos, marca-os sobretudo contra equipas menos cotadas, eclipsando-se em jogos em que o grau de exigência aumenta (como, aliás, Pedro Pauleta), e não é sequer, enquanto finalizador, que é a sua melhor característica, um jogador excepcional. O problema é que as pessoas tendem a valorizar a regularidade sem um critério claro. É que, neste caso, a regularidade de Liedson é obtida às custas de uma irregularidade gritante, que faz com que marque muitos golos contra equipas fracas e poucos contra equipas melhores, ficando assim, no final, com uma soma agradável aos olhos dos míopes.