terça-feira, 29 de junho de 2010

A Criatividade de Müller

A palavra "criatividade", no que diz respeito a futebol, tem frequentemente usos errados. Presume-se que um criativo é um jogador capaz de inventar maneiras requintadas de fintar os adversários, um jogador capaz de fazer passes de ruptura, um jogador, em suma, capaz de coisas que parecem difíceis. Isso não faz qualquer sentido. A criatividade não tem nada a ver com truques, malabarismos, recursos técnicos e artifícios excêntricos. A criatividade é um atributo mental, um atributo que permite solucionar problemas difíceis de maneiras inesperadas. O jogador criativo é aquele que descobre soluções inovadoras, que interpreta os dados de um lance de uma maneira imprevisível e que consegue ser mais espontâneo, mais rápido a pensar e mais eficiente a contornar os problemas que lhe são impostos.

Esse uso errado da palavra "criatividade" ocorre muitas vezes quando se pretende classificar um extremo. Raramente um extremo é um jogador criativo. Por norma, o extremo que as pessoas acham que é criativo é um jogador muito hábil, do ponto de vista técnico, e muito rápido. Só. Por exemplo, a criatividade de Cristiano Ronaldo é, quando comparada com outros jogadores, uma coisa quase ridícula. O mesmo se passa com Di Maria e Hulk, ou, noutra dimensão, com Robinho. São jogadores que, tecnicamente, possuem recursos muito interessantes, mas não são jogadores que, perante dificuldades imprevistas, saibam solucionar os seus problemas. É por isso que, em espaços curtos, não são jogadores extraordinários ou, pelo menos, não conseguem sê-lo de um modo regular. O paradigma do jogador criativo, na acepção de palavra que estou a defender, é o típico jogador espanhol da actualidade: Iniesta, Fabregas, David Silva, Mata, Bojan, etc. Tratam-se de jogadores que interpretam os lances de um modo mais abrangente, que conseguem, perante problemas difíceis, encontrar invariavelmente a melhor solução e que conseguem descobrir soluções inesperadas. São por isso mais imprevisíveis e, por conseguinte, mais difíceis de entender, por parte dos adversários. O jogador criativo é, por isso, aquele que percebe com mais facilidade para onde é que a bola deve seguir, aquele que percebe mais rapidamente se deve fazer um compasso de espera ou se deve jogar de primeira e aquele que, mesmo sem recursos técnicos assinaláveis, é capaz de se livrar individualmente de adversários directos, enganando-os com um drible, com uma simulação de passe, com uma tabela ou uma desmarcação no momento certo.

Uma das razões pelas quais Mesut Özil tem sido amplamente elogiado e Thomas Müller ignorado prende-se precisamente com o facto de as pessoas terem tendência a reter com mais facilidade os atributos técnicos de um atleta do que os seus atributos intelectuais. Özil é tecnicamente mais vistoso que Müller e terá melhores capacidades a esse nível. Mas não é mais criativo que o jogador do Bayern. Isto porque criatividade não tem nada a ver com capacidade técnica. Aliás, uma das razões pelas quais o momento ofensivo da selecção alemã parece tão fluido tem a ver com a liberdade que Müller tem para vir para o meio, permutando com Özil, onde a sua capacidade de decisão e a sua criatividade têm mais influência no desempenho do colectivo. Se Müller ficasse amarrado ao flanco, como do outro lado acontece com Podolski, cujos movimentos são essencialmente verticais, a Alemanha seria muito mais estéril do ponto de vista ofensivo, pois a criatividade de Müller não estaria tanto em jogo. A jogada que - creio - melhor exemplifica as qualidades que estou a querer reconhecer em Müller é a jogada do segundo golo frente à Inglaterra.


Simão | Vídeo do MySpace

O lance começa na direita, com Kedhira a servir Müller, junto à linha, com Ashley Cole atrás dele. Sem preparação, de primeira, de modo a não permitir a aproximação dos defesas ingleses, Müller reenvia a bola para o meio, para o apoio de Mesut Özil ao centro. É nesta opção, invulgar na maior parte dos jogadores que jogam junto às linhas, que está a primeira e a mais decisiva acção do lance. Depois de soltar em Özil, Mülller desmarca-se de imediato. Özil joga de primeira em Klose, que está junto à linha, e este, também de primeira, faz a bola entrar nas costas da defesa inglesa, num espaço que Müller, ao desmarcar-se, atacara. O desequilíbrio está causado e Müller, com espaço para rematar, opta antes por servir Podolski, que fica sozinho porque Müller arrastou todas atenções para si. A capacidade de decisão de Müller, tanto no passe para Podolski, mas sobretudo no primeiro momento, quando joga no apoio e se desmarca de imediato, é que é aqui preciso notar. É que, embora pareça um movimento simples, isto denota uma capacidade criativa invulgar. Em primeiro lugar, Müller percebe a opção que tem ao meio de um modo notável e percebe também que, para fazer uso dessa opção, deve executar de primeira. Qualquer recepção tornaria inválido o apoio de Özil. Müller pôde usar a opção porque pensou rapidamente e a descobriu antes de receber a bola. Pouquíssimos jogadores têm esta capacidade. Depois disto, percebe rapidamente que, com Özil na posição em que estava e Klose à esquerda, o lateral-esquerdo e os dois centrais haviam sido puxados para ali e a defesa inglesa estava, portanto desorganizada. Como tal, imediatamente a seguir ao passe de primeira, desmarca-se e aproveita essa desorganização. Foi a criatividade de Müller, a sua capacidade de visualizar rapidamente o que rodeava e de perceber rapidamente os dividendos que poderia tirar dessa conjuntura, que permitiram que fosse criado tamanho desequílibrio. Depois, porque o seu pensamento exigia o passe de primeira e a desmarcação célere, tratou de pôr em prática aquilo que a sua mente idealizou com facilidade. É esta capacidade intelectual de antecipar com tanta precisão tudo aquilo que uma simples acção ou um simples movimento implica, assim como a capacidade de extrair dessa capacidade primeira todo o lucro possível, que faz de Müller um jogador extraordinariamente criativo. A criatividade é isto, é o atributo que permite ao jogador antecipar mais correctamente o futuro imediato.

Grande parte dos jogadores, mesmo os muito dotados tecnicamente, agem essencialmente por reacção e não são capazes de antecipar, quais xadrezistas vulgares, senão os milésimos de segundo que se seguem à sua acção. O jogador verdadeiramente criativo é aquele que consegue desenhar na sua cabeça toda a jogada, que consegue perceber, com um grau de precisão muito elevado, tudo o que vai acontecer em seguida. Esse, porque tem essa capacidade, está sempre um passo à frente dos outros, mesmo que não possua argumentos técnicos e físicos tão elevados como os melhores. É por isso que a criatividade, ainda que dependa sempre da acção dos outros para se fazer valer, é um atributo tão importante. Numa equipa que jogue como equipa, que se faça valer mais da relação entre os diferentes elementos da equipa do que das individualidades que a compõem, a criatividade é, portanto, o atributo mais importante num jogador. Müller é mais criativo que Özil porque tem esta capacidade de ler as jogadas muito mais apurada que o jogador do Werder Bremen, ainda que não seja tão evoluído, do ponto de vista técnico, quanto o seu compatriota, nem seja tão competente quando entregue a duelos individuais. Como tal, só quem entende o futebol como um jogo de individualidades é que pode ficar mais entusiasmado com Özil do que com Müller. Estas pessoas acham igualmente que o primeiro é mais criativo porque nem sequer concebem a existência de atributos essencialmente colectivos, que só têm real valor se o jogo for entendido para além desse choque entre onze indivíduos de cada lado. Para esses, Özil é mais influente na equipa porque as qualidades da equipa são apenas a soma das qualidades individuais de cada elemento que forma a equipa. Ignoram, porque incapazes de não ignorar, que as qualidades da equipa são, isso sim, muito mais do que essa soma, a soma das relações que cada individualidade tem com as outras individualidades, e que, portanto, é mais influente aquele cujas capacidades de se relacionar com os outros é melhor. No fundo, Müller é mais influente porque a sua relação com os outros e com o colectivo em geral é mais valiosa, independentemente de, quando entregue a si, não ter tanta facilidade para resolver problemas quanto tem Özil.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Di Maria e o Real Madrid

A especulação acerca da ida de Angel Di Maria para o Real Madrid tem sido insistente e o interesse dos merengues, ao que parece, não refreou com a chegada de José Mourinho. Antes da consumação ou não do negócio, gostaria de falar do jogador, da sua evolução desde que chegou ao Benfica e daquilo que pode fazer no futuro.

Quando chegou, relativamente desconhecido, muitos demoraram a perceber as suas competências. Afirmei peremptoriamente que se tratava de um jogador muito evoluído do ponto de vista técnico e que fora uma boa contratação. Do oito ao oitenta, as opiniões que antes desconfiavam do seu valor, defendem agora que se trata de um jogador extraordinário, que foi dos principais responsáveis pelo excelente campeonato do Benfica e que tem qualidade suficiente para jogar num grande clube europeu. Não concordo com nenhuma das três etiquetas acima. Acho que Di Maria tem qualidades, é um bom jogador, mas está longe de ser extraordinário, de ter sido dos jogadores mais importantes do Benfica e de ter qualidade para dar o salto para outras montras. Aliás, não acho que a sua evolução tenha sido tão pronunciada quanto isso.

Di Maria é um atleta cujas principais virtudes são individuais. Digo "individuais" por oposição a colectivas, mas o que quero, na verdade, dizer com isto não é apenas que se trata de um jogador individualista. Há jogadores cuja utilidade para o colectivo se resume àquilo que inventam individualmente. Não é neste grupo que quero colocar Di Maria, até porque me parece que o principal crescimento que teve nas mãos de Jorge Jesus foi o de pôr ao serviço de uma ideia colectiva as suas principais características. Há um segundo grupo de jogadores que, devidamente enquadrados, servem o colectivo de um modo individual. O que quero dizer com isto é que há jogadores cujas principais características são "individuais" e que podem ser úteis do ponto de vista colectivo apenas se o colectivo se adaptar a essas características e lhas requerer. Maior parte dos treinadores procura sistematizar um modelo de jogo que possa tirar partido das características individuais dos seus atletas e, conseguindo-o, conseguem também que a individualidade desses atletas tenha um sentido colectivo que antes não tinha. Foi o que Jorge Jesus fez com Di Maria. De certo modo, Di Maria não cresceu, não melhorou competências; o que se modificou foi que as suas competências passaram a servir uma intenção colectiva. Daí o seu futebol ter ganho algum sentido.

De acordo com esta sugestão, Di Maria não cresceu como jogador; beneficiou, isso sim, de as suas acções passarem a ter um sentido que antes não tinham. Foi portanto necessário, para que pudesse ser minimamente útil, que o colectivo tomasse a iniciativa de lhe incorporar a individualidade e que o modelo de jogo lhe concedesse certas regalias. O terceiro tipo de jogadores, do qual ainda não falei, é aquele cujas principais características são "colectivas". Estou a falar, claro está, da tomada de decisão, do sentido posicional, da inteligência, da cultura táctica, da criatividade, do talento, etc. Estes são aqueles que não precisam da adequação do modelo, são aqueles que, por perceberem o jogo, são capazes de se adequar à variedade dos modelos, desde que modelos que valorizem o colectivo, são aqueles que mantêm a bitola quando aumenta a exigência competitiva e a exigência dos próprios modelos. Di Maria não se insere nestes, nem tem, em muita quantidade, nenhuma destas características. É evidente que há coisas que um bom treinador, num curto espaço de tempo, consegue fazer perceber a um jogador que carece destas características, como seja o seu papel em campo, as suas responsabilidades tácticas, aquilo que se espera dele nos diferentes momentos do jogo, etc. Mas ninguém, por melhor que seja, modifica de um ano para o outro, a capacidade de decisão ou o talento de um atleta já formado. Jorge Jesus não mudou isto em Di Maria. Aquilo que fez foi conceder à velocidade e à capacidade de desequilibrar de Di Maria um papel importante no seu modelo. E isto, sobretudo porque o modelo tinha qualidade, fez com que o futebol de Di Maria ganhasse utilidade.

Ora, é aqui que entram o Real Madrid e José Mourinho. Ao chegar a Madrid, Mourinho tratou de mitigar a euforia em torno da contratação do argentino do Benfica. Não creio, porém, que tenha referido as principais razões pelas quais se deveria pensar melhor nessa contratação. Para ser honesto, é com algumas reservas que vejo Mourinho novamente interessado em contratar um atleta, tal como acontecera com Quaresma, que precisa de usufruir de várias regalias dentro do modelo de jogo da equipa para que consiga ter algum protagonismo. A dúvida em relação a Di Maria não terá a ver, por certo, apenas com o rendimento do jogador num campeonato mais competitivo e perante um grau de exigência superior. Essa dúvida deve ser posta essencialmente em confronto com aquilo que se espera do jogador. No Benfica, tal como Quaresma no Porto, Di Maria era a principal referência da equipa no momento de transição defesa-ataque e o modelo de jogo estava preparado para fazer uso do argentino nesse momento específico. Foi essa conjuntura que permitiu que as características individuais do atleta chegassem para que se tratasse de um jogador útil ao colectivo. No Real, a menos que seja concedido a Di Maria um papel e um protagonismo idênticos, não acredito que o rendimento do argentino venha a ser suficientemente bom. É com isto, creio, que Mourinho vai ter de lidar e é com base nesta ideia que a contratação do argentino deveria ser pensada.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Primeira Surpresa e a Melhor Equipa

Na estreia daquela que era unanimemente considerada como uma das principais favoritas à vitória final na competição, a primeira surpresa. Os suíços, recorrendo a uma estratégia que, para gáudio dos pragmáticos, parece ser moda neste mundial, conseguiram levar de vencida os campeões europeus. Significa isto que está encontrada a fórmula mágica para vencer os espanhóis e todos aqueles que se impõem pela posse de bola? Há quem ache que sim. O Miguel, um dos nossos leitores, disse o seguinte há uns dias:

"A atitude para ganhar a Espanha é simples: organização na defesa e não deixar-se embalar pelo joguinho deles. E ver muitas vezes o Barcelona-Inter..."

Será que o Miguel tinha razão e que os suíços, ao fazer precisamente isto, encontraram um modo infalível de vencê-los? Só um tolo poderia achar que sim. Ou alguém que não tenha visto o jogo. A Espanha dominou do princípio ao fim, criou 8 ou 9 ocasiões de golo e sofreu um muito esquisito, não num contra-ataque, como parece que querem crer, mas no seguimento de um pontapé de baliza e após vários ressaltos muito felizes. O que se pode dizer é que a razão para a Espanha não ter vencido os suíços, mais do que ter sido a estratégia dos helvéticos e a fórmula mágica do Miguel, foi o simples acaso. Só por manifesta infelicidade é que os espanhóis não ganharam o jogo inaugural e o resto é conversa. A fórmula mágica é apenas mágica para quem acredita em magia. A Espanha fez o seu jogo e encontrou uma boa resistência do outro lado. Dominou, circulou a bola e penetrou várias vezes na defensiva adversária. Se não marcou, foi porque não conseguiu concluir as muitas jogadas que criou. Mais nada. Bastava que qualquer um desses lances tivesse dado golo e os suíços tinham imediatamente de mudar de estratégia. Já a selecção helvética jogou para o empate e acabou por ganhar. É por isso que o futebol é tão fascinante, porque permite a equipas mais fracas encontrarem estratégias que podem conduzir a bons resultados, ainda que para isso dependam muito da sorte. Ao contrário, porém, de muita gente, sobretudo dos comentadores televisivos que, após o primeiro jogo, já fazem da Suíça vencedora do grupo e concedem ao Chile ou à Espanha o segundo lugar, acho que os suíços estão muito longe de terem carimbado o apuramento. Em primeiro lugar, porque terão bastantes dificuldades para vencer as Honduras, até porque os hondurenhos deverão jogar de um modo parecido com aquele em que os suíços jogaram e a Suíça tem carências ofensivas muito relevantes, e depois porque o Chile é, a par da Espanha e da Alemanha, a equipa mais interessante a nível ofensivo, não fosse treinado por Marcelo Bielsa.

É precisamente aqui que quero chegar, ao Chile. Embora os cépticos do futebol ofensivo se centrem no resultado da Espanha para justificar o seu cepticismo, houve no mesmo grupo um jogo que serviu de contraprova dessa justificação. As Honduras jogaram como a Suíça e o Chile venceu. Os chilenos, como os espanhóis, são ofensivamente muito bons. Diria, até, que são a melhor equipa da prova, em termos colectivos, neste particular. São das poucas equipas deste campeonato que opta por um só médio-defensivo e das poucas que tem movimentos verdadeiramente colectivos na base da sua estratégia ofensiva. A facilidade com que a equipa conseguiu fazer passes verticais, introduzindo a bola entre as linhas hondurenhas, tem a ver com a capacidade colectiva da equipa e com a criação constante de linhas de passe nesse sentido. Ao contrário de selecções mais cotadas, como a França ou o Brasil, só para citar dois exemplos de equipas que não conseguiram superar um bloco defensivo baixo e solidário e que revelaram uma tremenda inépcia no momento ofensivo, os chilenos souberam sempre como penetrar no bloco hondurenho. É evidente que existe qualidade individual nisto tudo, com Matías Fernandez à cabeça, bem secundado por Valdivia, Isla e Carmona, sobretudo, mas há essencialmente mão de Marcelo Bielsa na forma como o colectivo se comporta. Não admira, portanto, a extraordinária fase de qualificação dos chilenos. É de Bielsa a responsabilidade por os laterais procurarem o meio como solução de passe; é de Bielsa a responsabilidade pela formação constante de apoios próximos ao portador da bola; é de Bielsa a responsabilidade pela movimentação educada sem bola dos médios, que permite à equipa contornar as zonas de pressão dos adversários; é de Bielsa a responsabilidade pela forma como a equipa cria zonas de pressão alta eficazes. Isto é uma lição. Uma lição aos cépticos e uma lição a treinadores como Dunga, Domenech, Queiroz e Capello. Uma lição que consistiu em demonstrar que não é só o momento defensivo que pode ser fruto de trabalho de um treinador. Deu também uma lição a Carlos Carvalhal, no que toca a demonstrar que só os tolos não aproveitam os mais talentosos.

O Chile pode não ir longe, até porque além de estar incluído no grupo mais difícil da prova, está no grupo que se cruza com o segundo grupo mais difícil da prova, mas este mérito já ninguém lhe tira. Marcelo Bielsa - lembremo-nos - é o mesmo que defende que, ao contrário do que se passa no momento defensivo, o momento ofensivo tem infinitas possibilidades:

"Jamás los técnicos obsesivos se preocuparon por jugar ofensivamente. Yo soy un obsesivo del ataque. Yo miro videos para atacar, no para defender. ¿Saben cuál es mi trabajo defensivo? "Corremos todos." El trabajo de recuperación tiene 5 o 6 pautas y chau, se llega al límite. El fútbol ofensivo es infinito, interminable. Por eso es más fácil defender que crear. Correr es una decisión de la voluntad, crear necesita del indispensable requisito del talento."

Não é por acaso, portanto, que o Chile joga como joga. O seu futebol é fruto do trabalho de um treinador que percebe que o momento ofensivo não pode ficar a cargo da inspiração dos jogadores mais talentosos, mas que deve ser, tal como o momento defensivo, resultado de um trabalho metódico do treinador. O Chile denota uma inteligência táctica, em termos ofensivos, extraordinariamente invulgar. E o que é irónico é que, numa competição em que as principais equipas europeias parecem incrivelmente ineptas do ponto de vista ofensivo, seja uma equipa sul-americana a ensinar como é que se faz. Mais irónico, só se pensarmos que, tirando a Espanha, a única equipa europeia que parece ter ideias é a selecção germânica. Num mundial em que, finalmente, parece haver mais equipas interessadas em defender do que equipas que joguem ao ataque, é de salutar que ainda existam selecções com outra filosofia. A bem do futebol, o Chile, a Espanha e a Alemanha são por isso as equipas em quem mais se deveriam centrar as atenções, sob pena de haver nova regressão na modalidade. Vamos ver que sorte lhes reserva este mundial.

P.S. Um dos comentadores do encontro do Brasil referiu, muito indignado, que um qualquer responsável norte-coreano teria sugerido que Portugal jogava como a Alemanha, e desmentiu-o categoricamente, como se isso fosse um ultraje para os portugueses. A verdade é que, como já tive oportunidade de referir, Portugal tem vindo a tornar-se, aos poucos, numa selecção germânica, uma selecção que dá preferência ao músculo e ao rigor táctico, uma selecção cautelosa, fria, mas na qual não abundam ideias. O mais irónico é que, pelo menos neste mundial, os próprios germânicos são menos germânicos que os portugueses. Por isso, se há algo a condenar na afirmação do norte-coreano, não é o facto de ser ultrajante comparar Portugal à Alemanha, mas o ultraje de comparar a Alemanha a Portugal.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ballack, Schweinsteiger, Müller e Özil

Começou o mundial e estas são as primeiras notas acerca da competição. Devo adiantar, em primeiro lugar, que o blogue não procurará acompanhar exaustiva e regularmente o campeonato do mundo. Considerações pontuais, como esta, deverão surgir de tempos a tempos, durante a prova, mas análises a jogos, perspectivas mais profundas e considerações mais atentas ficarão para os nossos artigos semanais na Academia de Talentos. Assim, para os mais interessados, após cada uma das três rondas desta primeira fase e após cada eliminatória, será possível ler as nossas considerações acerca da prova no respectivo site.

Antes de passar ao assunto alemão, gostaria de referir que, para já, a prova não tem suscitado grandes surpresas. A França é medíocre, mas ninguém, por mais ingénuo que fosse, poderia esperar muito mais. O principal problema da equipa é a incapacidade para formar apoios próximos. A equipa tenta não jogar comprido, mas os jogadores parecem sempre o mais afastados possível uns dos outros. Gourcuff, coitado, parecia ter peçonha, tal era a separação para o duplo pivot e para os extremos, demasiado agarrados às posições. Dizer ainda que, apesar da qualidade, há jogadores na selecção francesa incrivelmente sobrevalorizados: Toulalan, Anelka e, sobretudo, Govou. É quase criminoso não ter levado Nasri. Da Inglaterra, não se esperava muito mais. Mas é uma das principais favoritas. Isto porque as equipas de Capello são geneticamente assim. Pouco criativas, mal arrumadas em termos ofensivos, incapazes de criar apoios com facilidade, com poucas ideias, mas com argumentos individuais óptimos e uma consistência defensiva suficientemente boa. Contra adversários menos cotados, dão sempre a impressão de não serem capazes de exercer um domínio claro. Mas são difíceis de bater, mesmo pelas principais potências, e têm atletas que podem resolver a qualquer instante. Já a Argentina de Maradona vive de Messi. E cairá quando Messi não chegar para compensar todos os problemas tácticos desta selecção.

Agora, a Alemanha. A primeira goleada da prova dirá muito mais dos australianos do que propriamente dos alemães. Foi um teste demasiado fácil e nenhuma consideração optimista poderá ser mais do que uma precipitação. Ainda assim, não percebo o espanto de grande parte das pessoas. Tirando a Espanha, cujo futebol é de uma qualidade inigualável, os alemães tinham de vir no segundo grupo de favoritos. A qualidade da selecção germânica tem vindo a melhorar gradualmente e este ano, com alguns jovens com um futuro muito promissor, está ainda mais forte. Persistem, porém, os problemas colectivos que Joachim Löw parece não compreender. O espaço entre os dois médios e a defesa, se bem explorado, será uma vulnerabilidade demasiado grande e o sistema táctico, ainda que alimentado por alguns talentos indiscutíveis, é excessivamente rígido. Contra a Austrália, os alemães tiveram sempre espaço para trocar a bola e até para se recriarem, mas contra uma equipa que pressione condignamente terão mais dificuldades, pois não são extraordinariamente competentes a criar apoios ao portador da bola. O calcanhar de Aquiles, contudo, parece-me ser claramente a transição defensiva. Sempre que é necessário baixar rapidamente, aparece espaço para jogar. Os dois médios, já sendo poucos, tornam-se ainda mais vulneráveis por ambos parecerem ter liberdade para aparecer em zonas de finalização, e o meio-campo germânico demora bastante a reorganizar-se sempre que perde a bola.

Quanto a nomes, muito se falou de Ballack e da sua ausência. Discordo de que o carismático capitão faça alguma falta a esta equipa. Aliás, Ballack nunca foi um jogador que apreciasse muito. Trata-se de um jogador cerebral, competente na distribuição de jogo, mas com índices de criatividade banalíssimos. Emprestaria experiência à selecção, mas subtrair-lhe-ia certamente alguma da criatividade que, deste modo, possui. Schweinsteiger é quem aparece ao meio, tal como fez ao longo da época no Bayern. Há quem considere que o irreverente alemão terá encontrado finalmente a vocação certa. No meu entender, como médio, Schweinsteiger é um jogador vulgar. Além de relativamente fraco a nível táctico, com graves problemas em termos posicionais, por exemplo, não é também um jogador imaginativo. Será ele quem substituirá Ballack, nesta competição e, porventura, no futuro, mas não lhe auguro muito melhor que o antigo capitão germânico, tendo até ainda muito que trabalhar para se tornar no jogador cerebral que o médio do Chelsea é. Com Thomas Müller e Mesut Özil a história é outra. O criativo do Werder Bremen não me entusiasma tanto como à generalidade dos adeptos, sobretudo porque precisa de ser mais consistente e um jogo contra um adversário tão insignificante não é um teste suficientemente exigente, mas trata-se de um jogador imaginativo, com excelentes pés e capaz de coisas muito boas. Para muitos, foi o melhor em campo, por tudo o que fez. Mas misturou fintas e assistências interessantes com alguns momentos de irreflexão e má decisão. Müller, embora mais discreto, fez um jogo perfeito. Ainda assim, com estes dois jovens, a selecção germânica deixa de ser aquela selecção apenas forte fisicamente, reputada, com experiência e carisma, mas pouco imaginativa.

Ballack e Schweinsteiger são médios que dão continuidade à tradição alemã: experientes, seguros a distribuir, cerebrais, até, mas pouco imaginativos, pouco capazes de modificar, de súbito, as coordenadas de uma partida, não necessariamente com uma arrancada fulminante, mas com um passe menos previsível, com uma qualquer invenção de génio. Müller e Özil são muito mais talentosos. E embora ainda tenham de crescer, para o confirmar, constituem as principais referências para o futuro. A principal diferença entre um e outro, por sua vez, está essencialmente no facto de Özil ser muito mais espalhafatoso, de apostar muito mais vezes nos lances individuais, de arriscar mais no passe, etc. Por essa razão, nem sempre opta pela melhor decisão. Müller é mais inteligente, percebe melhor as necessidades da equipa a cada momento. E isto sem que signifique que não tem a capacidade adequada para fazer um passe deslumbrante, para descobrir uma solução imprevista. É por isso que a opinião foi tão favorável em relação a Özil. As pessoas não valorizam adequadamente a discrição, atributo que pode dizer muito de um atleta. Contra adversários mais competentes, Müller manterá certamente o nível exibicional. A sua inteligência e a sua maturidade assim o permitem. Já Özil, embora se possam sempre esperar dele rasgos formidáveis, estará muito mais vulnerável a oscilações de exibição e desaparecerá do jogo com muito mais facilidade, sempre que não for capaz de deslumbrar como deslumbrou neste primeiro desafio.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Lições de Mestre (4)

O mundial está aí à porta e, enquanto uns suam as estopinhas para ganhar a Moçambique, outros fazem os polacos comer pó e vencem-nos por seis golos sem resposta. A selecção espanhola é aquela que me parece, à partida, melhor apetrechada para vencer a competição e aquela cujo futebol mais espanta. Já o era para mim antes do Euro 2008 (prova que veio a vencer), apesar de o modelo de jogo e o trabalho técnico em torno do colectivo ter sido francamente pobre, e a substituição de Luis Aragonés por Vicente del Bosque no cargo de seleccionador só veio reforçar essa opinião. Depois de uma qualificação brilhante, só com vitórias, os espanhóis partem agora para o mundial no grupo dos maiores favoritos. Nunca antes a expectativa em torno de nuestros hermanos fora tão alta.



A jogada é a do segundo golo da Espanha frente à Polónia e, além de mostrar como o futebol, quando jogado de modo colectivo, pode ser extraordinário, é uma imagem de marca desta selecção, à qual Xavi, Iniesta, Fabregas e Silva, principalmente, forçam o seu estilo. O futebol rendilhado, de toque curto, dos espanhóis, a privilegiar os espaços centrais para penetrar nas linhas adversárias, teve neste lance a perfeição idealizável. O lance começa na esquerda e os polacos não têm propriamente os espaços centrais desprotegidos. Ainda assim, Iniesta conduz a bola para o meio, deixando-a em Xavi, que tabela de imediato com David Silva. Xavi aguenta depois a carga e joga em Iniesta, que se tinha posicionado no espaço entre linhas. Este, embora tenha David Silva a apenas um metro, não hesita em jogar de frente com ele, de primeira, recebendo a devolução de imediato. Iniesta roda, espera que Xavi se desmarque nas costas da defesa e, com um passe açucarado por cima de toda a defensiva, isola o colega de equipa no Barcelona. Isolado e perante a saída do guarda-redes adversário, Xavi não aponta à baliza, optando antes por passar de primeira para David Silva, que fica com a baliza escancarada e só tem de encostar.

Tudo isto, descrito assim, parece simples, mas é preciso notar que ocorre quase tudo num espaço de pouco mais de dez metros quadrados e no meio de sete adversários. Não sei se a dimensão do lance estará a ser bem compreendida. Três jogadores, sem a ajuda de mais ninguém, conseguiram passar pelo meio de sete adversários, num espaço reduzidíssimo, não em força ou em velocidade, mas recorrendo a trocas de bola curtas e rápidas. No total, desde o passe inicial de Iniesta até ao remate de Silva para o fundo da baliza, houve oito trocas de bola. Há quem ache que isto é simples e que o que estes jogadores fazem é simplificar o jogo. Mas isto é precisamente o oposto. O futebol dos espanhóis não podia ser mais complexo e de difícil execução. É por isso que, para jogar assim, é preciso índices de criatividade elevadíssimos em todos os jogadores e uma capacidade de raciocínio muito acima da média. Aqueles toques de primeira parecem fáceis porque a bola percorre poucos metros, mas os requisitos intelectuais para se poder executar um passe daqueles não estão ao alcance de todos. Cada uma daquelas trocas de bola exige mais do que o mais fantástico dos dribles individuais, do que o mais perfeito passe longo. Estes jogadores, antes de receberem a bola, já leram a mente dos colegas e já sabem como estes se vão comportar. Para que o saibam e para que possam tirar partido disso, não precisam apenas de estar à vontade tecnicamente para jogar de primeira; precisam, sobretudo, de ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros, isto é, precisam de uma capacidade imaginativa suficientemente ampla para que percebam não só qual a melhor solução para o lance como também de que modo está o colega a pensar. O que esta jogada está, no fundo, a fazer, de um modo bem menos perceptível, é a troçar dos Raúis Meireles da bola. Este é o futebol do futuro e, mais do que isso, o próprio indício de quais serão os mais competentes jogadores do futuro. Haverá poucas lições mais perfeitas que esta e todos os treinadores do mundo deveriam pegar neste lance e mostrá-los aos seus jogadores, dizendo de seguida: "Estão a ver? É assim que se joga futebol!"

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os erros de Pepe

Antes de iniciar, gostaria de dizer, em jeito de preâmbulo, que este texto está preparado há já bastante tempo e que, reportando-se à temporada 2008/2009, deveria ter sido publicado no final da época anterior ou no início desta que agora terminou. Por força das circunstâncias, a sua publicação foi sendo adiada sucessivamente. Apesar de tudo, o texto acaba por conhecer a luz do dia numa altura apropriada, alguns dias apenas antes do Mundial da África do Sul, e no momento em que Pepe parece finalmente apto a dar o seu contributo à selecção nacional. Tendo em conta que, em mais de metade desta época, Pepe esteve parado, o texto acabou por não perder assim tanta relevância. Embora o seu conteúdo não seja actual, as conclusões que dele se podem tirar são-no. É com isso em vista que ele deve ser lido.

Já aqui, noutras ocasiões, ficou a minha opinião sobre defesas centrais e sobre que tipo de defesas me parecem mais competentes. Retomando, em traços gerais, as minhas denúncias em relação a centrais mais impetuosos, queria reforçar que, por norma, impetuosidade acarreta falta de atenção, desposicionamento desnecessário, precipitações, acumulação de erros, etc. O central luso-brasileiro Pepe foi sempre, para mim, um destes centrais. Nunca lhe reconheci o valor que lhe queriam imputar nem consigo incluí-lo, de maneira nenhuma, nos melhores centrais europeus da actualidade, como o quer muita gente. A sua abordagem aos lances, o seu excesso de agressividade, a forma irracional com que desempenha o seu papel dentro de campo foram sempre, na minha óptica, um problema. Mesmo quando esse comportamento não causava directamente problemas, fui sempre da opinião que era um sinal inequívoco de falta de qualidade. Lembro-me, por exemplo, de ser dos poucos a afirmar que a primeira fase do Euro 2008 de Pepe foi medíocre, quando a opinião pública defendia que estava a ser o melhor central do certame. A razão era óbvia: ainda que não tivesse sido o causador de nenhum golo sofrido ou não tivesse protagonizado qualquer fífia, a sua postura em campo denunciava um risco que, mais tarde ou mais cedo, iria ser pago. Lembro-me, por exemplo, de cometer três erros graves no primeiro jogo de Portugal, erros esses que ou não deram em nada ou que ele próprio conseguiu corrigir, graças à sua velocidade e à sua agressividade. Ora, não sou capaz de gabar um jogador que, mesmo quando não é o responsável directo pelo insucesso da sua equipa, comete erros que podem, em situações idênticas, comprometer esse mesmo sucesso. E Pepe comete-os com uma frequência assustadora. E sempre os cometeu. Não consigo elogiar um jogador deste tipo, mesmo reconhecendo que tem algumas características acima da média e que, em comparação com outros defesas centrais, faz coisas que nem toda a gente é capaz de fazer. Um central que não é seguro, que comete erros com frequência, mesmo que alguns desses erros não tenham consequências relevantes, jamais pode ser um central de eleição.

Muita gente achará, por certo, que estou a exagerar, que a frequência dos erros de Pepe não é assim tanta. Antes de passar ao conteúdo propriamente dito deste texto, gostaria de transcrever um artigo de Jorge Valdano, intitulado "O Erro", publicado no jornal A Bola, no dia 29 de Novembro de 2008, no qual o ilustre dirigente merengue refere precisamente o mesmo que eu, que Pepe dá erros atrás de erros:

"Pepe é um colosso. Um central rápido, poderoso, que faz sentir a sua presença na marcação, sempre pronto a auxiliar e que transmite segurança. Mas desconcerta-me que em cada partida cometa um erro decisivo: expulsão, penalty, uma prenda a um avançado... Uma fífia calamitosa no meio de uma montanha de acertos arruína a nota final de um jogo. Há jogadores que têm esta debilidade. Treinei um central a quem apelidámos de O erro, assim, no singular. Quando o cometia nos primeiros minutos do jogo, respirávamos de alívio: "Já está", dizíamos. Se tardava em cometê-lo, vivíamos angustiados, porque o erro nunca tem hora, e chegaria seguramente. Pepe é um defesa grande demais para gerar essa incerteza."

(Jornal A Bola, Sábado, 29 de Novembro de 2008)

A minha opinião em relação a Pepe não é tão lisonjeira quanto a de Valdano. Acho que não é "grande demais para gerar essa incerteza" precisamente porque ao gerá-la perde grandeza. E como a gera frequentemente, não tem grandeza frequentemente. Pepe é um central mediano, que tem algumas características muito boas, mas outras péssimas. E as que não são boas são precisamente as mais relevantes: a capacidade de se manter concentrado, o controlo emocional, o sentido posicional, a capacidade de leitura dos lances, etc. Pepe está sobrevalorizado porque no futebol dos dias que correm há tendência para se valorizar aquilo em que Pepe é bom, ignorando precisamente que o resto é que não deveria faltar. E por causa disso equivocam-se muitas vezes.

Depois disto, que já era conhecido, resta falar do processo de fabrico deste texto. Tive a ideia, no início da temporada correspondente a 2008/2009, de seguir com atenção os jogos do Real Madrid e de fazer um inventário dos erros de Pepe. A ideia consistia em arranjar argumentos sólidos - leia-se factos - com que demonstrar inequivocamente que Pepe cometia demasiados erros para a reputação que tinha. Não sabia, na altura, qual seria o prazo dessa investigação, nem que tipo de erros iria incorporar. Depressa me apercebi, porém, que muitos dos seus erros originavam golos dos adversários, pelo que limitei a investigação aos erros de Pepe que se relacionavam directamente com golos sofridos pelo Real. Para dar também um ar unificado à coisa, decidi prolongar a investigação até ao fim da temporada, fazendo um apanhado geral do comportamento do central português no decorrer da mesma. Assim, o que em seguida se mostrará é o conjunto de erros cometidos por Pepe que estiveram directamente relacionados com golos adversários (ainda que haja algumas excepções, como penaltys cometidos por Pepe, mas não sancionados pelo árbitro), ao longo da temporada de 2008/2009, bem como a análise das consequências desses erros. Não poderia ilustrar melhor cada um dos erros a que me refiro do que através de uma montagem com os lances em questão. A compilação dos erros de Pepe ao som da Marcha Eslava de Tchaikovsky dá um lado monumental à coisa. Fica a prendinha:

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Depois do filme, importa fazer uma análise numérica dos erros de Pepe. Pepe esteve presente em 26 partidas da Liga Espanhola, tendo o Real Madrid, nesses 26 jogos, averbado 22 golos sofridos. Pepe teve responsabilidade directa nos dois golos frente ao Deportivo, na primeira jornada, nos dois golos frente ao Athletic de Bilbao, na oitava jornada, no golo frente ao Bétis, na vigésima quarta jornada, e nos dois golos frente ao Getafe, na trigésima segunda jornada. São 7 golos, em 22, da sua responsabilidade. Significa isto que 32% dos golos sofridos pelo Real Madrid, na temporada 2008/2009, tiveram o cunho do central luso-brasileiro. Foi ainda responsável pela derrota frente à Juventus, na fase de grupos da Liga dos Campeões, e pela derrota frente ao Liverpool, nos oitavos de final da mesma prova, e que ditou a eliminação do Real Madrid. Registaram-se ainda quatro penálties (só dois foram assinalados), absolutamente desnecessários e estúpidos, que contribuíram ou poderiam ter contribuído para maus resultados da sua equipa.

De acordo com estes números, parece-me pouco defensável a ideia de que Pepe é um dos melhores centrais da Europa. Foi culpado por um número excessivo de golos sofridos pelo Real Madrid na Liga e um dos principais responsáveis pela derrocada de Anfield, que afastou o Real da Liga dos Campeões. É certo que tem características que impressionam. Mas o futebol não é para os que mais impressionam, para os que têm mais músculos, para os que correm mais, para os que lutam mais. É para os que jogam melhor. A um central pede-se, entre outras coisas, sobriedade e segurança. Pepe pode dar agressividade, capacidade de luta, entrega, mas não é sóbrio nem seguro. Sozinho, foi responsável por um terço dos golos sofridos pela equipa. É um exagero. Todos os grandes centrais têm dias maus e falham ocasionalmente. Pepe, contudo, falha muito e com muita frequência. Na temporada de 2008/2009, parte dessas falhas resultaram em golos sofridos pela sua equipa. Faltaria observar as falhas que não tiveram consequências relevantes. Tal análise teria por conclusão, por certo, que o central comete demasiados erros e que a equipa, com ele em campo, permanece constantemente insegura.

O futebol de Pepe é vertiginoso: é um central que vai a todas, que disputa todas as bolas como se não houvesse amanhã, que consegue cortes no limite, que faz recuperações fantásticas. Mas essa vertigem, que tantas vantagens traz, acarreta igualmente desvantagens que este texto elucida categoricamente. Por ser como é, Pepe comete erros atrás de erros. E prejudica regularmente a equipa em que joga. Se as consequências positivas da natureza vertiginosa do seu futebol o tornam um central como poucos, as consequências negativas tratam de colocá-lo bem mais abaixo, na mediania. Ao chegar ao Real Madrid, Pellegrini disse-se impressionado com Pepe. Dizia o técnico chileno que Pepe tinha imponência a sair com a bola e era uma voz de comando. A apreciação do ex-treinador, porém, negligenciava o quão nefastas podem ser tais características. A imponência pode ser uma virtude, com efeito, mas nunca às custas da concentração, da sobriedade, da lucidez, da segurança, da frieza. A um central pede-se essencialmente regularidade e é preferível que não faça um único corte arriscado durante uma temporada do que arrisque constantemente, sendo bem sucedido nuns, mas provocando consequências ruinosas para a equipa noutros.

Há quem diga ainda que Pepe é o melhor central do mundo a jogar alto. O exagero da convicção só não é mais absurdo que o erro de lógica que lhe subjaz. Tal erro consiste em presumir que, para jogar alto, basta possuir velocidade e impetuosidade, coisas em que Pepe, de facto, é dos melhores do mundo no seu posto. Para cobrir com eficácia todo o terreno que fica nas costas de uma defesa que se posiciona muito alto não basta, porém, ser-se rápido e reagir rápida e agressivamente à perda de bola. É preciso, e é até mais importante, estar-se bem posicionado, perceber e ler convenientemente as jogadas e antecipar, mentalmente, as possibilidades das mesmas. Pepe é rapidíssimo em termos musculares. Não o é, de maneira nenhuma, em termos mentais. A interpretação que faz dos lances é, invulgarmente, se não errada, lenta. Além disso, tem problemas posicionais óbvios e, quanto mais veloz o jogo, menos correcto é o seu posicionamento instantâneo. Procura muitas vezes antecipar, porque é rápido a deslocar-se, as investidas dos adversários, mas raramente acautela possibilidades alternativas e, sempre que o adversário opta por uma solução que não a mais previsível, as suas tentativas de antecipação são frustradas e adquirem um carácter pernicioso. A jogar alto, Pepe é útil para contornar a possibilidade de bolas lançadas pelos defesas contrários para as costas da defesa, mas é também nocivo sempre que o jogo do adversário não se reduz à esterilidade de tais lançamentos longos e evolui de modo mais curto e certeiro. Aí, Pepe é uma barata-tonta, querendo tapar buracos a toda a hora e descuidando invariavelmente o seu posicionamento e a estrutura colectiva da sua defesa.

Resumindo, este texto procura demonstrar - e creio que o consegue - que as falhas de Pepe não são ocasionais e, sobretudo, acidentais. Acontecem com excessiva frequência e resultam daquilo que são as suas principais características. Para quem prefere um jogador pelas características individuais e por aquilo que, individualmente, pode oferecer, Pepe tem, de facto, boas qualidades. Quem prefere jogadores por aquilo que podem dar à equipa, pelas suas características colectivas, jamais pode apreciar Pepe. O que este texto demonstra é que, em termos colectivos, Pepe é um jogador vulgar. Resolverá, por certo, uma taxa de problemas individuais superior à da maioria, mas a resolução de problemas individuais é apenas uma parte ínfima das tarefas de um central. Pepe pode ser fortíssimo em lances de um para um, em lances em profundidade, em antecipações, pode ser dos centrais que mais bolas recupera num jogo e que mais activo está durante uma partida de futebol. Mas isso é apenas uma parte quase insignificante do seu papel enquanto central. Se o futebol fosse um jogo de pares e, durante um jogo, um jogador se medisse pelo duelo individual com o adversário que apanhasse, Pepe seria certamente dos melhores centrais do mundo. Mas o futebol não é nada disto. Pepe é fraco em situações de dois para dois, é pouco rigoroso a manter a linha defensiva ou a fazer a cobertura devida a um colega, está frequentemente desconcentrado e mal posicionado, não consegue distinguir situações em que deve arriscar desarmes difíceis de situações em que não deve, não percebe a importância de ficar em contenção, em determinadas situações, não é capaz de interpretar com qualidade as necessidades da equipa a cada instante, etc. Por tudo isto, não pode pertencer a uma elite de jogadores que possuem estes predicados.