segunda-feira, 29 de março de 2010

Os erros de Lúcio

A opinião aqui lançada há dias sobre o real valor do central brasileiro Lúcio mereceu desaprovação por parte da grande maioria dos nossos leitores. O texto em questão reportava-se ao jogo frente ao Catania, o qual o Inter perdera e em cuja derrota Lúcio tivera a sua parte de responsabilidade. Aqueles que o defendem alegam dizendo que se tratou de um caso isolado ou vão até mais longe afirmando que, apesar de não ser óptimo em termos posicionais, é um excelente central. A mim, faz-me confusão a possibilidade de existir um excelente central que não seja excelente em termos posicionais. Lúcio é fraco nesse particular, assim como é fraco em termos de abordagem aos lances, e erros como aqueles frente ao Catania são recorrentes. É um jogador impetuoso, muito agressivo, que vai a todas e não vira a cara à luta. O problema é a falta de frieza, a incapacidade para perceber que nem todos os lances devem ser disputados na sua máxima intensidade, a incompetência posicional, o facto de não perceber que a sua concentração deve estar centrada em perceber o que se está a passar a cada momento e não em perceber unicamente quando é que deve arrancar para a bola. O problema de Lúcio é o mesmo problema de David Luiz, Pepe ou Vidic, defesas centrais já aqui apontados como francamente displicentes. São jogadores que, do ponto de vista intelectual, deixam muito a desejar. E não é raro que contribuam para maus desempenhos defensivos das equipas em que jogam. Aqui fica então um conjunto de erros, assim como a análise a cada um desses erros, protagonizados por Lúcio no desafio frente ao Chelsea, na segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões.

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1. No primeiro lance, o pormenor menos importante é o choque com Malouda. A meu ver, não existe penalty, e não é por aí que o comportamento defensivo de Lúcio neste lance pode ser condenável. O problema é tudo o que antecede esse choque. Em primeiro lugar, o desrespeito táctico pela cobertura ao seu lateral, estando extremamente afastado de Maicon; depois, o facto de se encontrar uns bons metros abaixo do resto dos defesas, desrespeitando a linha defensiva do Inter. Maicon sobe para pressionar, num lance que se desenrola do seu lado, e Lúcio, responsável por manter a linha defensiva, naquele momento, unida, afunda-se no campo, separando-se do colega. Lúcio está demasiado baixo e demasiado longe do seu lateral, o que possibilita que haja tanto espaço no meio, espaço esse que Malouda aproveita para explorar, numa penetração interior que só não teve piores consequências porque não calhou.

2. No segundo lance, o espírito abnegado de Lúcio vem ao de cima. Num lance bem longe do seu raio de acção, sente-se na necessidade de ir ser ele a travá-lo. A bola vai para Ballack, que não encontra oposição, e Lúcio, ainda que apenas momentaneamente (ter-se-á arrependido depois), sai da sua posição para ir impedir o remate. O seu movimento faz com que praticamente ultrapasse Walter Samuel e que abra um buraco entre si e Maicon. Esse buraco acaba por não ser aproveitado pelo Chelsea, até porque Drogba acabou por ficar em posição irregular, mas não deixa de demonstrar, com alguma clareza, o tipo de comportamento defensivo aparvalhado de Lúcio.

3. Repare-se agora onde vai Lúcio pressionar no terceiro lance. Num lance de organização defensiva, numa zona extraordinariamente bem povoada, Lúcio não hesita em sair da sua posição para ir pressionar um jogador (Anelka), que até estava pressionado por um atleta do Inter. Resultado? Dois jogadores batidos e o Inter obrigado a reposicionar-se rapidamente sem necessidade. No caso, é Cambiasso quem dobra, e bem, o companheiro. Mas o Inter desposiciona-se sem necessidade nenhuma, o que permite ao Chelsea gozar de espaço suficiente para conseguir fazer a bola entrar em Malouda. Lúcio, uma vez mais, parecia um tontinho.

4. No quarto lance, Lúcio não respeita, uma vez mais, a linha defensiva. Repare-se que, dos quatro elementos, é aquele que parece que está no campo e não sabe bem o que tem de fazer. Hesita em subir, hesita em recuar, fica ali no meio, um pouco aluado. Os perigos deste tipo de comportamento podem não ser fáceis de perceber. Nem ficariam à vista se Drogba não tivesse cruzado para a área. Mas o que resulta daqui é que o posicionamento alto de Lúcio permite que Malouda entre nas suas costas, entre ele e Walter Samuel. O argentino, para evitar que Malouda ficasse em posição privilegiada para receber a bola atrás de Lúcio, tem de acorrer ao espaço deixado vago pelo colega, abrindo necessariamente um buraco entre si e o lateral esquerdo. É aí que Anelka entra e é aí que recebe à bola, à vontade. O comportamento displicente de Lúcio, uma vez mais, é a causa da desorganização defensiva momentânea do Inter e do espaço que os avançados do Chelsea acabam por auferir.

5. Para finalizar, uma má abordagem a um lance. A bola vem na direcção de Drogba, que tem Walter Samuel nas costas, e Lúcio decide interceptar a bola no ar, à frente de Drogba. Nenhum defesa deve tentar uma intercepção, se não tiver a certeza absoluta de que vai consegui-la. Ao falhar, deixou uma vez mais um buraco na sua zona, por onde entrou Lampard. Drogba conseguiu dominar a bola e conseguiu passá-la a Lampard. O médio do Chelsea só não conseguiu finalizar porque Walter Samuel saiu bem da marcação e acorreu prontamente, impedindo o remate. O que fica, porém, na retina, é a forma absolutamente desconcentrada com que Lúcio leu este lance, arriscando uma intercepção difícil que não era, de modo nenhum necessária, estando a equipa bem arrumada defensivamente.

Antes de terminar, gostaria ainda de fazer referência a uma ideia que parece consensual e com a qual não concordo. Lúcio, é verdade, é um central rápido. Mas rapidez, por si só, não é argumento suficiente para justificar que seja um defesa competente a jogar alto. Ao contrário do que é comum afirmar, não creio que Lúcio seja bom para jogar num bloco alto e acredito até que Mourinho percebeu isso mesmo ao fim de algum tempo a treinar com o atleta. Tê-lo-á contratado com a ilusão de que serviria para pôr a equipa a jogar alto, mas terá percebido que isso lhe traria problemas. E os problemas surgiriam essencialmente de dois defeitos nesta ideia. Lúcio é rápido, mas não é ágil; é rápido depois de embalar, mas não o é no arranque. Para jogar alto, mais do que velocidade, é necessário aceleração, capacidade para mudar de direcção e de velocidade rapidamente, capacidade para reagir a mudanças do centro de jogo, jogo de rins, etc.. Lúcio não tem nada disto. É rápido, mas perde muito tempo a virar-se e a equilibrar-se. Neste particular, é muito diferente, por exemplo, de Pepe ou David Luiz. Além deste pormenor, há outro problema que me parece não poder deixar de afectar uma defesa constantemente subida no campo: o posicionamento. Sendo Lúcio tão errático em termos posicionais e tão desconcentrado, jogar tão subido tornaria ainda mais visíveis tais defeitos. Jogando num bloco baixo, qualquer central com problemas de posicionamento fica mais protegido e terá sido isso, eventualmente, que Mourinho percebeu. Discordo, por isso, de que Lúcio permite à equipa em que joga que esta jogue mais alta. Acho, aliás, que ele pode ser especialmente útil em blocos mais baixos, pela imponência física, pela capacidade para disputar lances aéreos e pela capacidade de luta que demonstra, muito mais relevante quando há pouco espaço para jogar.

domingo, 21 de março de 2010

Filosofia do instinto...

Se perguntássemos a qualquer treinador qual o melhor modelo de jogo existente, muitos ou, porventura, até todos, diriam que não há um sistema melhor, que existem vários modelos de sucesso, sendo impossível determinar um melhor que outros. Aceito que o digam; todavia, não concordo com tal reflexão. E são várias as variáveis que temos de considerar para poder perceber a razão pela qual acho que há um modelo mais susceptível de proporcionar o sucesso do que outros. Neste texto, a nossa presunção prende-se apenas com uma “espécie” de introdução para se compreender a opção por determinado paradigma.

Uma das modas do futebol actual, principalmente do futebol português, é a periodização táctica. Uma metodologia de treino que obteve uma enorme popularização devido ao “fenómeno” Mourinho, mas que não se esgota aí. É sem ponta de dúvida um método de treino de inegáveis virtudes que radica, fundamentalmente, na necessidade eficaz de criar hábitos específicos do jogo de futebol nos futebolistas. Assim, tudo o que é feito num treino é com a expectativa de se criar as rotinas pretendidas para se alcançar um estilo de jogo.
As avaliações e decisões instantâneas são frugais, e essa qualidade, a frugalidade, é indispensável para garantir a qualidade das mesmas. A questão que se coloca é a seguinte: Como respeitar este princípio, enquadrando as nossas decisões num plano maior?

A melhor forma de se “obrigar” o jogador a interpretar a totalidade do jogar que se pretende é treinando o seu inconsciente. O objectivo é padronizar os instintos dos jogadores de modo a que estes convirjam em redor do modelo estabelecido pelo técnico. Os hábitos adquiridos vão facilitar as rotinas necessárias à evolução da equipa, garantindo com isto a base necessária para o desenvolvimento da identidade pretendida. O instinto é algo que se constrói, e é importantíssimo que o treinador consiga incluir neste processo de construção a maior quantidade possível de informação sobre o seu modelo de jogo. E isto tudo para o benefício do jogador. Queremos com isto dizer que se pretende que o jogador insira no seu jogo a maior quantidade possível de pontos coincidentes com o que é pedido pelo seu técnico sem que este se aperceba ou se preocupe directamente em fazê-lo.

Imaginemos um jogador inteligente e responsável. Numa situação de maior pressão, em que tem de decidir rápido, o instinto é algo que o ajuda a deliberar a melhor opção naquele momento. De outra forma, e tendo em conta a quantidade de informação a ser processada, em tão pouco tempo, esse jogador ficaria bloqueado: que tipo de passe deve fazer, deve segurar a bola ou não, a equipa ficará desequilibrada com o movimento que vai fazer, etc. É importante que o jogador não seja bombardeado com a necessidade de incorporar, de forma consciente, demasiada informação na sua decisão. A sua atenção deve centrar-se sobretudo naquele momento e deve ser o instinto do jogador a conduzir, de forma inconsciente, a decisão do individual a respeitar o ideal colectivo. Imaginemos que caminhávamos durante uma noite escura. O nosso instinto seria a iluminação que nos ajudaria na nossa caminhada, ficando apenas entregue à nossa consciência a preocupação em ultrapassar os obstáculos que surgissem nesse caminho. Assim, apesar do jogador respeitar o pretendido e esperado pela equipa, é “livre” de poder escolher a melhor opção naquele instante, focando-se apenas naquele instante.Daí a necessidade de criar hábitos que possam servir os propósitos do colectivo, reciclando aqueles que acompanham os jogadores.

Até aqui, demos sobretudo importância aos factores aplicáveis ao inconsciente, aos motivos que inconscientemente nos parecem empurrar na direcção de um certo tipo de decisões. Isto tudo através do método da repetição, aliado esporadicamente a factores orientadores. No entanto, acredito que esta fórmula sairia reforçada se incluíssemos um outro elemento nesta equação: a compreensão e o entendimento das razões que levam a que se opte por determinado estilo de jogo, determinado sistema, etc.

O objectivo de elucidar os jogadores sobre as razões a que levaram o seu técnico a optar por determinado modelo vai permitir aos mesmos perceberem como terão de reagir em qualquer situação do jogo, compreendo por que é importante que reajam de determinada forma. Esta questão, da compreensão dos motivos fundamentais do modelo de jogo, é determinante para o desempenho dos jogadores. Perceberem por que é que aquele modelo de jogo é o melhor, vai formar um colectivo mais forte através da convergência das individualidades. Só assim os jogadores vão poder, em conjunto, determinar o que está certo ou errado, qual a melhor opção em determinado momento, antecipando os movimentos dos seus colegas, ajustando posicionamentos em função de um erro, forçado ou não, por um elemento do todo, etc. Perceber a filosofia que orienta o todo (e o que está certo, ou errado, à luz da filosofia vigente), permitirá uma melhor, mais coordenada e mais rápida resposta dos jogadores nos mais variados momentos. O objectivo passa por conseguir incorporar o acaso, a dinâmica, e a imprevisibilidade do jogo nas acções individuais, sem que, com isso, o jogador seja afastado quer da linha orientadora que rege o colectivo onde está inserido, quer da liberdade de decisão, por mais paradoxal que isto pareça.

A verdade é que nenhum jogador é verdadeiramente “livre”; todos somos “escravos” dos nossos instintos, das nossas ideologias, da informação que fomos processando e interpretando. No entanto, não temos de recorrer conscientemente às nossas influências e hábitos, na hora de tomarmos uma decisão, concentrando-nos apenas na situação actual que temos de resolver. Porque não utilizar isso de uma forma positiva, na perspectiva do colectivo? O ideal será que o jogador sinta que não tem que tomar aquela decisão, mas que perceba que aquela é a melhor solução. Se conseguirmos alargar este sentimento à restante equipa, então, nesse momento, a nossa equipa funcionará inequivocamente como tal.

Por fim, gostaria de abordar um assunto de grande importância, se bem que nem sempre reconhecido como tal: a felicidade e auto-estima do indivíduo, neste caso, o jogador. Existe em todos os jogadores a necessidade de se evidenciarem, de se sentirem importantes, de perceberem que acrescentam algo à equipa. E nós respeitamos isso. Tão pouco pretendemos jogadores que, por partilharem da mesma ideologia futebolística, não consigam emprestar fantasia ou criatividade ao colectivo. A crença que reside exactamente nos antípodas disto. A percepção de que o todo compreende e conhece as partes vai permitir que os jogadores gozem da liberdade criativa que necessitam para se sentirem importantes, felizes e empenhados.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Improvisação e Aleatoriedade

Quando pensamos em jogadores imprevisíveis, partimos do princípio que o são devido à sua natureza, ou seja, que é algo inato. Nada mais errado. A imprevisibilidade é algo que se adquire, é algo que se forma através da aquisição de determinados padrões de jogo.

Grande parte dos jogadores que temos como imprevisíveis, desenvolveram essa característica em jogos de rua, entre amigos, onde acima de tudo são obrigados a melhorar competências individuais. Concluímos assim que esta noção de imprevisibilidade se adquire através da necessidade de ultrapassar as dificuldades que vamos encontrando. Somos obrigados a procurar soluções que possam surpreender os nossos adversários, as mesmas que, por sua vez, não só são influenciadas pelos nossos heróis, aqueles com os quais nos identificamos mais, mas também pelas limitações físicas que possuímos.

Por outras palavras, até uma certa altura da formação de um atleta, a imprevisibilidade é algo que pode ser desenvolvido só a partir de premissas individuais: as nossas influências, a nossa fisionomia, tudo isto é importante e perfeitamente legítimo na nossa formação. Daqui deduzimos que a espontaneidade não é aleatória, responde à maneira como a diferente informação que recebemos é processada por cada um de nós.

Todavia, assim que começamos a interiorizar os conceitos colectivos do jogo, a necessidade de adaptarmos as nossas características aos requisitos que o jogo impõe obriga a que se altere a nossa forma de jogar. E é aqui que entram em campo as competências dos técnicos que vamos encontrando. Neste caso, vou sobretudo debruçar-me sobre técnicos que trabalhem com jogadores já formados e que, como tal, têm sobretudo a preocupação de formar uma equipa cada vez mais forte. A questão será principalmente esta: como tornar a imprevisibilidade dos seus jogadores um factor positivo para a equipa? Como retirar tudo o que esta característica pode oferecer, sem sofrer o reverso da medalha, os desequilíbrios que estas movimentações aparentemente aleatórias podem provocar?

Uma questão importante na imprevisibilidade das várias partes do todo está relacionada com a concordância entre as mesmas. E muitas vezes atinge-se este ideal de uma forma quase fortuita. Muito por isto se encontram treinadores que, defendendo as mesmas ideias, por vezes nos mesmos clubes, acabam na maioria das vezes por apresentar equipas tão diferentes entre si, ainda que em alguns casos nem um ano de intervalo exista entre elas. Em Portugal, o caso mais paradigmático do que acabei de defender é o Sporting, na época 2006/2007. Bento, na altura, até conseguiu criar a ilusão de que poderia estar ali um enorme treinador. O acaso proporcionou a Bento um lote de jogadores que, na sua maioria, eram criativos e dotados de imprevisibilidade suficiente para tornar complicada a acção defensiva dos seus adversários, sem que com isso o colectivo actuasse de forma desagregada. Nesse ano uma das coisas que mais me agradava era a maneira como a equipa jogava com os sectores muito próximos, com enorme posse de bola, e sempre com bastante equilíbrio, independentemente do adversário que defrontavam. Foi, muito provavelmente, o melhor Sporting da última década. Jogadores como Romagnoli, Nani, Veloso, Custódio, Martins, Deivid, Moutinho, Tello, Farnerud, etc., apesar de criativos e imprevisíveis, relacionavam-se de forma positiva dentro de campo. As suas acções individuais respondiam a uma visão do jogo semelhante entre eles. Se efectuássemos uma abordagem holística ao Sporting, facilmente conseguiríamos encontrar um padrão no seu jogo. Era previsível que eles jogassem de uma certa forma, curto, através da criação de inúmeros apoios ao portador da bola, mas era muito complicado perceber de que forma é que esse estilo de jogo se manifestaria. Seria através de uma combinação directa simples, ou seria através de uma combinação indirecta envolvendo um terceiro elemento? Era portanto, uma equipa que a cada momento sugeria aleatoriedade, mas que, quando observávamos uma porção maior do jogo, existia a sugestão de um comportamento colectivo premeditado. Nada mais errado. O padrão não era consciente, a intuição não era treinada para deliberadamente padronizar a criatividade, enfim, a movimentação colectiva estava despida de um significado consciente. O resultado foi o que se viu: a destruição e descaracterização do colectivo. Este foi um caso claro em que as ideias do treinador foram prejudiciais para o colectivo, pois destruiu o padrão que a co-habitação daquele grupo de jogadores, por si só, garantia. Bento teve a sorte de, sem qualquer tipo de critério, conseguir juntar uma equipa com um elevado padrão de qualidade porque as características dos seus jogadores eram concordantes.

Este ano, os casos mais flagrantes de jogadores imprevisíveis que retiram proveito da concordância da sua interpretação pessoal do jogo jogam de águia ao peito: Aimar e Saviola. No entanto, só uma estrutura muito sólida, com um modelo de muita qualidade, é que pode sustentar um jogador imprevisível como Di Maria. E escolho estes jogadores porque fazem parte da melhor equipa a actuar em Portugal. A diferença é que a imprevisibilidade de Aimar e Saviola permite à equipa ficar mais forte nos processos ofensivos sem que, com isso, a estabilidade da equipa seja colocada em causa, enquanto, no caso de Di Maria, é o argentino que se serve da estabilidade da equipa para seu benefício. Neste caso, a imprevisibilidade deste jogador apenas serve as movimentações individuais do mesmo, funcionando muitas vezes como um bloqueio ao desempenho colectivo da sua equipa.

Nesta época, o melhor Porto foi o que defrontou o Sporting para a Taça de Portugal. E isso está relacionado com os jogadores que Jesualdo resolveu utilizar nesse encontro. Mais uma vez, o facto de utilizar 4/5 jogadores que se enquadram no mesmo paradigma, que “obedecem” a determinado estilo futebolístico. Jogadores como Mariano, Belluschi, Falcao, Fucile, Fernando, ou até mesmo Ruben Micael, apresentam e emprestam à equipa mais qualidade quando jogam juntos, ou com jogadores que respondam às várias circunstâncias de forma semelhante à deles, do que quando jogam com Meireles, Hulk, e companhia limitada. Nesse jogo, a equipa portista aliou imaginação colectiva a um equilíbrio impressionante, permitindo-lhe cilindrar por completo o conjunto de Carvalhal. E isto só é possível quando os jogadores da própria equipa não são surpreendidos pela movimentação dos seus colegas. Evitar os equívocos inerentes aos próprios jogadores da mesma equipa é meio caminho para um equilíbrio fundamental para o desenvolvimento do futebol de cada equipa. Há uma necessidade imperial de que os jogadores conheçam e compreendam o futebol, e as suas razões, de cada colega. Só assim poderão prever e incorporar nos seus movimentos as movimentações do colega que conduz a bola. Se isto pode ser trabalhado de forma a aumentar, à medida do pretendido pelo treinador, a concordância entre jogadores? Pode, mas isso fica para um outro post.

domingo, 14 de março de 2010

Como perder um jogo em 15 minutos...

Faltavam menos de vinte minutos para o fim da partida e o Inter vencia calmamente o Catania. Num jogo de pouca intensidade, com o Inter a reservar energias para o embate a meio da semana com o Chelsea, os pupilos de Mourinho, baseando-se numa estrutura colectiva relativamente forte e concentrada, iam conseguindo manter o adversário à distância. O jogo parecia caminhar calmamente para o seu final, com o Catania a mostrar pouca capacidade para furar as linhas defensivas dos de Milão. Nesta conjuntura, como perder então um desafio? Simples. Possuir jogadores que, do ponto de vista intelectual, deixem algo a desejar.



Três golos, três infantilidades inadmissíveis a este nível. No primeiro lance, é Lúcio, um central excessivamente valorizado ao longo da sua carreira por certos atributos que, além de não possuir, não eram os mais importantes para a sua posição, quem falha clamorosamente. A jogada nem sequer é muito rápida, mas o defesa do Inter ocupa uma posição incrivelmente baixa, mantendo-se afastado da linha defensiva em cerca de dois metros. O que esta desconcentração causou, neste lance, foi evidente, com Maxi López a entrar no espaço à sua frente e posto em jogo pelo seu erro posicional. Do nada, graças a uma desconcentração que é até frequente no defesa brasileiro, o Catania igualava a partida. Estava dado o mote para o que viria a seguir.

Tentando mexer no jogo, Mourinho colocou em campo Muntari. O médio esteve em campo cerca de dois minutos. No primeiro lance que teve, rasteirou um adversário à entrada da área, fazendo uma falta perfeitamente escusada, dado que tinha vários colegas a tapar o caminho da baliza. De seguida, na cobrança do livre, fazendo parte da barreira, salta para tentar impedir que a bola o sobrevoe. Esqueceu-se que estava dentro da área, que já tinha um amarelo e que o futebol não se joga com as mãos. Em dois minutos, viu dois amarelos e ofereceu de bandeja o segundo golo ao adversário. Converter a grande penalidade à Panenka, estando o jogo empatado, é merecedor de destaque. O autor foi Mascara.

Em poucos minutos, o Inter passara da condição de vencedor à de vencido e tinha agora um jogador a menos. Mas não era ainda tudo. Já a acabar, Lúcio volta a falhar uma abordagem a um lance, não conseguindo cabecear a bola, e Martinez fica com ela. A forma como o uruguaio do Catania conseguiu passar por Lúcio tem a ver também com a incapacidade que este sempre demonstrou, ao longo da carreira, para ficar em contenção. Procurando estar em cima do adversário, quando lhe deveria ter dado mais algum espaço, de modo a poder reagir condignamente, ficou demasiado perto deste e não foi capaz de lhe evitar o drible. Mas Lúcio não foi o pior defensor neste lance. Materazzi, que só tinha que fazer cobertura ao colega, veio à parva tentar ser ele a desarmar Martinez. Passara-lhe possivelmente pela cabeça até pontapear o adversário. O que os neurónios de Materazzi não previram, porém, foi que no momento exacto em que tenta ultrapassar Lúcio, pela esquerda, o uruguaio finta o colega pelo outro lado, ultrapassando assim, de uma assentada, dois opositores. Depois, ainda driblou Júlio César e fez o terceiro.

Resultado final: três golos oferecidos. É o que dá confiar em jogadores intelectualmente displicentes. Materazzi, Muntari e Lúcio podem ter certos atributos louváveis, mas são francamente medíocres do ponto de vista intelectual. E, hoje em dia, o intelecto é o requisito máximo de um atleta de alta competição. Jogadores de alto nível não podem cometer erros deste tipo e prejudicar um colectivo desta maneira. As grandes equipas, por definição, não se podem dar ao luxo de possuir nas suas fileiras jogadores que, a qualquer momento, por não estarem concentrados, oferecem brindes deste tipo aos adversários. Mourinho, em tempos, era um treinador que dava especial valor ao intelecto. Parece agora excessivamente acomodado ao que ganhou e à sua própria fama. As suas equipas são cada vez menos imaginativas, os seus jogadores cada vez menos inteligentes e cada vez mais brutos. Não sei se Mourinho terá capacidade para se reinventar e para perceber onde estão as suas principais falhas. Se a tiver, talvez consiga tirar deste desafio as ilações devidas.

terça-feira, 9 de março de 2010

Nuno Assis e Master Kodro

Depois de duas semanas, nos jogos frente a União de Leiria e Nacional da Madeira, em que não só foi decisivo como rubricou excelentes exibições, Nuno Assis é novamente tema deste espaço. A qualidade, mais do que suficiente para que Quique Flores tivesse ficado com ele no Benfica a época passada e para que Carlos Queiroz já se tivesse lembrado dele para a selecção, é inegável. Trata-se de um dos melhores jogadores da Liga a actuar fora dos três grandes e será, juntamente com Hugo Viana, o jogador mais injustiçado quando o seleccionador nacional divulgar a convocatória para o mundial. Há, apesar disso, uma determinada fatia da populaça para quem Nuno Assis é um jogador banal e para quem as suas qualidades são pouco interessantes. A essa fatia de gente escandalosamente impudica decidi chamar Master Kodro. A referência não é, por isso, directa ao conhecido palrador, embora se baseie nele e nas suas ideias tacanhas acerca de Nuno Assis, mas uma sinédoque que, partindo da opinião de uma pessoa, a expande a um universo alargado de carneiros que comungam da opinião e não deviam falar de futebol. O texto é por isso sobre Nuno Assis e sobre pessoas que não percebem, em particular, o valor de Nuno Assis e, em geral, de futebol.

De Nuno Assis tem dito Master Kodro atrocidades como, por exemplo, que é um jogador de contra-ataque. O seu problema com o passado de Nuno Assis é relevante, mas não creio que seja essa a principal causa de tais ideias. A sua opinião radica, isso sim, num erro apreciativo que está enraízado na forma como olha para uma partida de futebol. Como acha que Nuno Assis deve ser responsável por pautar o jogo ofensivo da sua equipa, acha que ele deve fazer passes de ruptura, deve furar por entre a defesa, deve provocar desequilíbrios, etc. Está na base deste erro assumir que os jogadores têm funções. Assim, quando uma equipa cria oportunidades de golo, mas não marca, os culpados são os avançados; quando a equipa não consegue cruzar para os avançados, o problema são os extremos; quando a equipa não consegue penetrar na defensiva adversária, o problema são os médios de ataque. Isto é tão redutor quanto imbecil. E Nuno Assis é precisamente o tipo de jogador que sabe que um médio de ataque não serve para as coisas que Master Kodro pensa que serve.

A teoria assenta ainda na verificação de que é em contra-ataque que Nuno Assis dá mais nas vistas. O que tenho a dizer a isto é que é em contra-ataque que qualquer jogador dá mais nas vistas. Isso não é exclusivo de Nuno Assis. Em contra-ataque, há sempre mais espaços, as jogadas são mais objectivas, a quantidade de soluções a considerar é menor. E bons executantes, como Nuno Assis e tantos outros, têm tendência a fazer-se notar e a serem decisivos neste tipo de lances. É natural, pois, que em contra-ataque Nuno Assis dê nas vistas. Mas em contra-ataque Nuno Assis não é muito diferente de Tiago Targino, por exemplo. E é quase herético tentar assemelhar dois jogadores tão distintos. Aquilo em que Nuno Assis é francamente diferente dessa outra rapaziada que só é boa em contra-ataque é que é um jogador notável do ponto de vista intelectual, que descobre soluções muito rapidamente, que sabe a utilidade de jogar curto. Um jogador de toque curto, que procura prioritariamente uma tabela, extraordinariamente criativo a encontrar soluções inusitadas nunca pode ser um jogador de contra-ataque. É alguém que tem uma facilidade rara para jogar em espaços curtos e entre linhas adversárias. Nuno Assis é, por isso, o oposto daquilo que Master Kodro pensa que é.

A opinião de Master Kodro cai ainda no exagero de dizer que se comprova a si mesma pelo facto de ele só fazer grandes jogos contra as grandes equipas, em desafios em que o Vitória passa a maior parte do tempo em contra-ataque. Além de isto ser mentira, como facilmente se verifica pelos dois últimos jogos, por exemplo, denuncia um problema perceptivo grave e que é comum à grande maioria dos adeptos de futebol. É que, para estas pessoas, fazer um grande jogo é estar associado aos momentos decisivos do mesmo. Ora, sempre que Nuno Assis não protagoniza jogadas de relevo, a opinião de Master Kodro é de que fez um mau jogo. Isto é francamente estúpido. Em muitos jogos, sobretudo em jogos em que os adversários se encolhem lá atrás e reduzem os espaços, é natural que jogadores mais imaginativos, mais criativos e inteligentes procurem soluções mais simples, soluções que permitam à equipa manter a posse de bola e gerir pacientemente o seu ataque. O que Master Kodro pretende é que Nuno Assis se arme em super-herói e invente jogadas de génio. Não é assim que funciona. É precisamente por Nuno Assis ser extraordinariamente inteligente que não cai nessa tentação, que não procura desequilíbrios individuais, que não arrisca passes de ruptura condenados à priori ao fracasso. O seu jogo é o que tem de ser quando há pouco espaço: procura soluções curtas, joga atrás, ao lado, fazendo girar a bola até que o colectivo (e não o indivíduo) consiga desequilibrar o adversário. Nuno Assis põe o colectivo à frente do individual e, como tal, nesse tipo de jogos, dá menos nas vistas. Para pessoas que não sabem olhar para um jogo de futebol, isto significa que não faz um bom jogo. Ora, pelo contrário, é precisamente por isso que ele faz um bom jogo.

A carneirada a que chamo Master Kodro é, por isso, um conjunto alargado de pessoas que não sabe ver futebol, que olha para o jogo como uma soma de bonecos. Há dias, num transporte público, estava sentado ao lado de dois velhos que comentavam o jogo da selecção realizado no dia anterior. Falavam, como qualquer adepto de futebol, pretensiosamente, julgando infalíveis as suas opiniões. Aquela que registei com maior interesse foi a de que Paulo Ferreira jamais poderia ir ao mundial, pois não era nem nunca fora um bom jogador. Admitindo que, sendo velhos, fossem pessoas com um grau de senilidade relevante, não deixa de ser engraçado que sustentassem opiniões que muita gente sustenta. Esquecendo agora a falta de memória das pessoas em causa e a qualidade óbvia que Paulo Ferreira teve há uns anos, é importante tentar perceber por que é que se ousa dizer (e não há pouca gente a pensar assim) que Paulo Ferreira não tem qualidade. Para mim, é óbvio. A opinião de Master Kodro, ou seja, a opinião do comum adepto de futebol, tem tendência a privilegiar jogadores espalhafatosos, jogadores que manifestam atributos visíveis. Paulo Ferreira não é rápido, não é agressivo, logo não presta. Preferem-se Bosingwa, Miguel e João Pereira porque dão mais nas vistas. Paulo Ferreira é melhor jogador que qualquer um destes e só admitiria que fosse suplente de Bosingwa pois aquilo que este pode oferecer, em termos de velocidade, é mesmo extraordinário. Mas Paulo Ferreira é mais inteligente, defende melhor, é posicionalmente muito mais forte e tem na lucidez e na experiência pontos a favor. Não querendo insistir na análise do jogador do Chelsea, serve esta história para ilustrar o modo de pensar de Master Kodro. Master Kodro gosta de jogadores que dêem nas vistas. E gosta desse tipo de jogadores porque o seu cérebro não tem capacidade para processar mais do que é visível. Como não se é capaz de conceptualizar o jogo a um nível mais profundo, tudo o que não sejam correrias loucas, agressividades de gorilas e macacadas com bola não é relevante. A capacidade intelectual de um jogador de futebol é, para Master Kodro, um mito e pouco lhe interessa percebê-la. É por isso que vê em Nuno Assis tanta banalidade. O que, porém, é irónico nisto tudo é que é precisamente ao ver banalidade num jogador que é tudo menos banal que denuncia a própria banalidade do seu olhar. Aquele que, tendo à frente dos olhos um objecto invulgar, é incapaz de perceber onde reside o carácter invulgar da coisa, não tem especial apetência para ver coisas. Master Kodro é aquele que não surpreende no mundo mais do que aquilo que é facilmente perceptível a quem tem olhos, e o seu Nuno Assis, isto é, o objecto que o comum observador julga que vê, é por isso muito mais Master Kodro que Nuno Assis, é muito mais o próprio reflexo da mediocridade de Master Kodro do que o verdadeiro Nuno Assis. É do emaranhado deste novelo de porcaria em que se constitui o conjunto de gente pequena que fala de futebol que este espaço procura escapar, alertando para aquilo que este tipo de gente, Master Kodro, não é capaz de ver. O trabalho é hercúleo e, possivelmente, ineficaz. Mas vale a pena, nem que seja pela consciência de estar certo.

sábado, 6 de março de 2010

Os Gajos Mais Odiados da Blogosfera - Episódio 1: Os Visionários

Os recentes comentários, polidos com cortesia e boas maneiras na caixa de comentários do último texto sobre Liedson, trouxeram a lume a simpatia que as nossas palavras e as nossas ideias provocam em quem nos lê. A quantidade (foram 23!, pelo menos para já) de pessoas que manifestou o seu desprezo por nós é assinalável e vem reforçar a ideia de que há pouca gente que não nos odeie. É com a intenção de retribuir o carinho e a atenção que nos dedicam esses escorreitos leitores que iniciamos esta nova temática. O objectivo é recordar o percurso deste espaço, desde a sua criação até à actualidade, as ideias defendidas desde essa altura, os episódios caricatos, as disputas intelectuais, em suma, esboçar, em vários episódios, uma Autobiografia do Entre Dez e das façanhas dos seus autores e dos seus leitores. Cada episódio será subordinado a um tema, contará uma pequena história, invocará uma citação famosa e trará à baila, pelo menos, uma das coisas que fomos defendendo ao longo deste tempo e que o tempo - soberano juiz - se encarregou de tornar irrefutável.

Episódio 1:
Os visionários

Há muitas coisas que nos definem e às quais somos associados. Os nomes de Farnerud, Pereirinha, Liedson, Pepe, David Luiz e Hulk são apenas alguns dos que maiores controvérsias têm causado. Mas questões mais profundas, como a existência ou não de talento inato, o haver ou não funções numa equipa de futebol, a concepção do golo como consequência e não como objectivo do jogo, a esterilidade do 442 clássico, etc., foram também motivo de acesa polémica. Por causa destas coisas e de muitas mais, fomos vezes sem conta apelidados de "visionários" ou de "iluminados". Eis alguns exemplos:

1) Bruno Pinto, a 6 de Novembro de 2007: "Claro que para eles, os outros é que são incapazes de acompanhar a sua inteligência suprema... Autênticos visionários..."

2) Jonnybalboa, a 7 de Janeiro de 2009: "És um romântico da bola, tu e o "pipi"...

3) João, a 26 de Fevereiro de 2009: "E sim, é muitas vezes assim que se elevam a grandes personalidades, os tais visionarios. Mas para cada visionário existem milhões de gajos como tu."

4) Bruno Pinto, a 29 de Abril de 2009: "Acho que muita gente concorda com isso e as explicações são triviais. Ai Nuno, Nuno, essa tua mania de quereres ser visionário..."

5) Miguel, a 4 de Setembro de 2009: "Fica lá com a tua opinião de pseudo-iluminado. Depois quando a bola começar a ser redonda verás que até nem dizes coisa com coisa."

Não haverá, porém, tema deste espaço mais controverso do que Liedson. São pouquíssimas as pessoas, se as há mesmo, que defendem o mesmo que nós defendemos, desde sempre, sobre o avançado do Sporting. Se há algo que nos faz, de facto, visionários, no sentido de acreditarmos em coisas em que mais ninguém acredita, são as considerações acerca do Levezinho. Enquanto que, em relação a outras temas, as nossas posições, ainda que censuradas por maior parte das outras pessoas, são motivo de discussão, quando se trata de Liedson, a outra parte da contenda raramente se interessa por argumentos, tamanha é a heresia. Não raro, o espaço saudável do debate torna-se um espaço de crenças, como se houvesse verdades que não pudessem ser colocadas em causa por via da racionalidade. Assim, tal como os crentes em Deus não podiam aceitar a discussão racional sobre o que quer que fosse que pusesse em causa os atributos da omnipotência, omnipresença e omnisciência do seu Deus, pois aceitá-la seria aceitar a possibilidade de Ele não possuir esses atributos, também aqueles que acham coisas fantásticas de Liedson não podiam aceitar um debate racional sobre a sua pretensa qualidade, pois estariam a aceitar a possibilidade de ele não ser assim tão bom. Praticamente em todas as discussões sobre Liedson, os defensores da sua qualidade agiram como eclesiásticos radicais, incapazes por vocação de aceitar a possibilidade do erro da sua doutrina. Essa semelhança faz lembrar um episódio histórico que o seguinte diálogo procura retratar com desfaçatez.

A Verdadeira História de Galileu Galilei

Galileu: Senhores, estou firmemente convencido de que o grão Nicolau Copérnico, que embora tenha alcançado uma fama imortal perante alguns, foi ridicularizado e assobiado por uma multidão infinita, pois tão grande é o número dos idiotas, tinha, de facto, razão ao afirmar que os astros giram em torno do Sol e não da Terra.
Teóricos da Época: O quê? Estais louco, Galileu Galilei?
Galileu: Não. De ora em diante, o geocentrismo deveria dar lugar ao heliocentrismo.
Teóricos da Época: O héliocen-quê?
Galileu: Heliocentrismo.
Teóricos da Época: Que é isso? Não conhecemos. Isso não existe. Estais a alucinar, Galileu Galilei.
Galileu: Ao contrário do que se pensa hoje, a Terra não é o centro do Universo; é apenas mais um corpo celeste que gira em torno do Sol.
Teórico da Época: Galileu Galilei, andais metido na droga?
Galileu: É a mais pura das verdades. Apesar de isto poder entrar em choque com as doutrinas eclesiásticas vigentes e de me ter sido aconselhado a ponderar essa hipótese apenas como isso mesmo - uma hipótese - e só porque facilita os cálculos astronómicos, tenho argumentos que sustentam que é bem mais que isso. Aliás, possuo cálculos aprofundados que o comprovam.
Teóricos da Época: Pois, Galileu Galilei, mas a nós os cálculos aprofundados não nos dizem nada.
Galileu: Mas se comprovam...
Teóricos da Época: Tende-los convosco? Podeis mostrar-los?
Galileu: Sim. Aqui estão...
Teóricos da Época: Hmmm... Isto tem um bocado de matemática a mais, não tem? E não deveríeis confiar tão cegamente nestes Pitágoras! É só teoremas, só teoremas. Achamos isto um bocado confuso, ó Galileu Galilei... Do nosso ponto de vista, estes cálculos são só especulações.
Galileu: Matemática especulativa?!?!?!
Teóricos da Época: Pois, quer-nos parecer que sim. Isto são só números e continhas de algibeira... Deveríeis passar a dedicar-vos à pecuária.
Galileu Galilei: À pecuária?
Teóricos da Época: Sim, sim. E de ora em diante, aconselho-vos a ficar caladinho. Isto se não desejardes o Santo Ofício a bater-vos à porta. Já agora, Galileu Galilei, que achais do Liedson?
Galileu Galilei: Acho-o fraquinho...
Teóricos da Época: O quê??? Tendes noção da gravidade das vossas afirmações?
Galileu Galilei: Tenho boas razões para acreditar que assim seja...
Teóricos da Época: Pá, este só vai lá queimado em praça pública. Tragam os archotes...

A nossa posição em relação a Liedson não é só uma posição essencialmente controversa; é algo que vai para além disso, pois é quase unânime que o contrário daquilo que defendemos é que está certo. São poucos os adeptos que não o acham um jogador extraordinário e poucos os treinadores que não se ajoelhariam aos seus pés. Esta vassalagem esquisita e, de acordo com aquilo em que acreditamos, absurda, faz com que todos os que nos rodeiam sejam profundos admiradores de algo que não vale assim tanta admiração. Esse comportamento geracional, similar ao comportamento hodierno de grande parte do povo perante as mais diversas formas de arte, denota um conjunto de atributos dessa mesma geração que, de certa maneira, a caracteriza fielmente e provoca em nós, entre outras coisas, um vontade irreprimível de a invectivar. É nesse âmbito que a citação deste episódio se explica.

Citação

"Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a Geração!"

(Almada Negreiros, in Manifesto Anti-Dantas)


Depois de já ter chamado a Liedson Papa-Açorda, Saltitão, Saguim, Tontinho, Burro, Banal, Estúpido e Napoleão, eis que lhe chamo agora Dantas. É provavelmente o avançado luso-brasileiro com mais alcunhas na História do Futebol... Vamos, por fim, ao espaço em que se relembram algumas das disputas mais interessantes.

Coisinhas em que, por acaso, até tínhamos razão

Como disse acima, de entre as várias coisas que cada episódio desta rubrica trará encontra-se algo que defendemos afincadamente e que, na altura, nos motivou acesas críticas. Para iniciar esse espaço, escolhi Pelé, o fantástico médio defensivo oriundo do Vitória de Guimarães e que, à custa de olheiros que dão especial interesse a características anatomicamente relevantes em gorilas e lutadores de boxe, foi contratado pelo Inter de Milão após um mundial de sub-20 em que as suas exibições foram patéticas, embora os seus músculos e os seus truques com a bola tenham sido bastante elogiados.

De Pelé dissémos desde o início que fora sobrevalorizado. Tratava-se de um jogador fisicamente muito poderoso e com alguma habilidade. Como, nos dias que correm, ainda se vê futebol de um modo essencialmente descontextualizado, olham-se para os jogadores como soma de atributos. Pelé tinha força e tinha técnica. Que mais se poderia desejar? Desde o início que fomos peremptórios em dizer que a Pelé faltava a única coisa que interessa num jogador de futebol: inteligência. Pelé foi então para Itália. Com Mancini, ainda fez uns minutos e marcou uns golos. Apressaram-se a dizer que era a comprovação de que tinha valor. Mantivemos a opinião. Pelé não crescera, continuava extraordinariamente burro a jogar. No ano seguinte, veio o fim da linha para o jovem. Mourinho dispensou-o, Jesualdo não contou com ele, e acabou por passar por três clubes sem nunca se afirmar. No futebol adulto, os atributos que Pelé revelava eram meros acessórios. Faltava-lhe o principal. E comprovou-se que o Entre Dez, que tantas críticas ouviu, é que tinha razão: Pelé jamais iria ser um jogador de futebol a sério.

Este é apenas um exemplo, talvez um dos mais esclarecedores, de que não dizemos as coisas à toa. A nossa opinião é sempre sustentada por ideias e as nossas convicções não são somente caprichos. Quando dizemos o que dizemos sobre certos jogadores, não o fazemos apenas por embirração, mas porque esses jogadores denotam problemas para os quais o comum adepto não costuma olhar. Gaba-se em excesso a transpiração, a garra, a agressividade, a capacidade técnica, a velocidade, porque são coisas fáceis de ver. Observar e averiguar talento é muito mais difícil e só pode ser feito no contexto do jogo e com muitos dados. Maior parte das pessoas que vê futebol repara nos atributos visíveis dos jogadores. O Entre Dez vai mais longe e tenta olhar para coisas não visíveis a olho nu. É por isso que acertamos mais vezes que os outros e é por isso que, ao contrário das outras pessoas, possuímos alguma segurança para dar, acerca de certos jogadores, tantas certezas em relação ao seu futuro. De Pelé, como de muitos outros, não nos enganámos. O tempo deu-nos razão e aqueles que, na altura, tanto o defenderam e tanto nos criticaram, devem agora penitenciar-se perante a confirmação do nosso palpite.

terça-feira, 2 de março de 2010

Lições de Mestre (3)

O Barcelona venceu este fim-de-semana, em casa, o Málaga por duas bolas a uma. O jogo não foi fácil e o Barça só conseguiu marcar no segundo tempo. A jogada que destacamos é a marca deste Barcelona de Guardiola e ilustra toda a potencialidade que há em jogar de pé para pé, ao primeiro toque. Um hino e uma lição ao futebol...




O lance começa na direita, entra no avançado, vai à esquerda, volta ao meio, passa novamente à direita e volta ao meio. Um carrossel perfeito, com os jogadores do Málaga apenas a cheirarem a bola. Messi flecte para dentro e joga no apoio vertical que Ibrahimovic oferece; este toca para Pedro, que joga novamente no sueco que entrara na profundidade; Ibrahimovic solta de primeira na linha, em Maxwell, que dera o apoio conveniente; o brasileiro, em vez de cruzar (estava numa posição perfeita para isso), ilude tudo e todos e, de primeira, dá atrasado em Pedro; Pedro roda e dá atrás em Xavi, que dera um apoio recuado perfeito; a partir daqui, cria-se o espaço e o tempo necessários para um passe de ruptura perfeito; Xavi roda sobre si, faz um passe a rasgar por entre a defesa do Málaga, para Dani Alves, que entrara pela direita; Dani Alves, em posição de finalização, dá de primeira no meio, onde ficara sozinho Messi, que finaliza sem oposição. São 8 toques na bola, quase todos de primeira, a fazerem a equipa do Málaga correr de um lado para o outro até que se crie o espaço necessário para a ruptura e se criem as condições necessárias para uma finalização com um grau de exigência reduzido. O Barcelona é isto e isto é o Barcelona. Muita paciência, muita troca de bola, pouco risco no passe. A ideologia ofensiva do Barcelona manda que os jogadores troquem a bola de modo curto, que não arrisquem passes de ruptura senão quando há boas condições de sucesso, que não cruzem à toa apenas porque estão numa posição privilegiada para tal, que não finalizem apenas porque estão em boas condições para fazer golo. Mais extraordinário isto se torna quando olhamos para o marcador e vemos que o jogo estava empatado a uma bola e faltavam apenas 5 minutos para o fim do jogo. A pressão do relógio e do resultado poderiam ter levado a equipa a optar por rematar, por cruzar para a área, por tentar penetrações individuais, por arriscar uma maior verticalidade. Mas não. Apesar de faltarem apenas 5 minutos e o resultado não ser positivo, o Barcelona jogou com a sua identidade. Messi poderia ter chutado assim que flectiu para dentro, Maxwell poderia ter cruzado assim que Ibrahimovic lhe deu a bola e Dani Alves poderia ter finalizado quando recebeu o passe de Xavi. Ninguém o fez. A tudo isto se sobrepôs uma identidade colectiva que não pode ser ignorada. E a preservação dessa identidade deu frutos. É por estas e por outras que este Barcelona é a melhor equipa do mundo, mas de muito muito longe...

P.S. Houve outro momento, este fim-de-semana, digno de registo, pelas razões inversas. Falo do mais novo caso de selvajaria em terras de Sua Majestade, que desta vez vitimou o muito promissor jovem galês do Arsenal, Aaron Ramsey. Os que persistem em defender a pureza e a genuinidade do futebol em Inglaterra são animais irracionais. Provavelmente tão irracionais como os animais irracionais que jogam naqueles país de costumes nada brandos. Ryan Shawcross atingiu Ramsey violentamente e partiu a perna ao galês. Depois, arrependeu-se, chorou, pediu desculpas. Não duvido do seu arrependimento. Mas não há arrependimento que desculpe a sua entrada. É uma entrada animalesca, de quem não tem cérebro. O futebol inglês é pródigo, como nenhum outro, neste tipo de coisas. Shawcross garantiu que não houve maldade. Eu estou-me pouco borrifando para o que ele garantiu. O que ele queria dizer é que não teve a intenção de fazer aquilo. Estou-me pouco borrifando para intenções. Um leão, quando ataca uma gazela, também não tem intenção de matá-la por matar. Quer comê-la. Que a consequência da sua intenção seja a morte da presa pouco importa. Shawcross é como o leão. Não teve intenção de partir a perna de Ramsey. Mas a sua atitude de animal irracional teve por consequência esse acontecimento. Ou somos todos animais irracionais e um jogo de futebol, enquanto evento civilizado e de gente racional, não tem qualquer sentido, ou somos seres humanos, que nos distinguimos dos animais pela forma como raciocinamos e medimos as consequências das nossas acções. No segundo caso, a entrada de Shawcross não tem desculpa e só não é maldosa de um ponto de vista animal. Do ponto de vista do ser humano, uma entrada como aquela, por não se ter preocupado com as consequências, é uma entrada maldosa. A maldade das coisas não se mede apenas pela intenção maldosa com que são feitas. Shawcross garante que não fez por mal. Eu garanto que o fez, pelo simples facto de o ter feito. O problema é que, em Inglaterra, os jogadores são essencialmente animais irracionais. Dizem que não são maldosos, que são brutos mas que não são maldosos. A estupidez disto está em não perceber que ser bruto é ser maldoso. Pelo menos num ser humano. Em mais nenhum campeonato do mundo acontecem estas coisas com a frequência com que acontecem em Inglaterra. O campeonato inglês é o mais maldoso que há, pelo simples facto de ser o mais irracional. Para rematar esta história infeliz, nada melhor que a forma como a própria Liga Inglesa funciona neste tipo de lances. As imagens são censuradas, às televisões não lhes é permitido filmar as pernas partidas e as repetições dos lances são apagadas e proíbidas o mais rapidamente possível. Decerto que não faz sentido pensar-se que seja para não ferir susceptibilidades. Nos últimos meses, vimos coisas bem piores que estas no Haiti, no Chile e na Madeira, só para dar alguns exemplos. Aquilo que se pretende proteger, isso sim, é uma ideia falsa de pureza. A Liga Inglesa é um produto de mercado e, enquanto tal, tem de proteger o seu negócio. Interessa então preservar a ideia de espectáculo e censurar tudo o que possa ferir essa ideia; interessa vedar às pessoas o acesso a evidências da animalidade com que o jogo é jogado e reduzir o impacto de coisas que não acontecem em mais lado nenhum. Tudo para proteger uma identidade falsa, uma ideia de que esse jogo é jogado de um modo inofensivo e limpo. Não o é. E esta semana ficou mais uma vez provado que não o é.